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As eleições e as regras do jogo

13 de Setembro de 2018, 23:39 , por Altamiro Borges - | No one following this article yet.
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Por Eric Nepomuceno, no site Carta Maior:

Por volta das 14h30 da terça-feira (11/9), após uma tensa (e intensa) reunião do comitê executivo do Partido dos Trabalhadores (PT), foi decidido por unanimidade que o candidato a presidente, a partir de então, seria oficialmente Fernando Haddad, acompanhado de Manuela D’Ávila como vice.

Um longo par de horas depois, durante o ato de anúncio da substituição, foi lida uma carta escrita por Luiz Inácio Lula da Silva, na qual ele entrega o seu apoio pessoal aos dois, dizendo, com todas as letras: “peço a todos os que iriam votar por mim, que votem em Haddad e em Manuela”.

Apesar de ser absolutamente previsível, o anúncio oficial trouxe um detalhe essencial: a menos que ocorra o improvável, este é o fim da história de Lula da Silva – o mais popular presidente deste último meio século da história brasileira – disputando eleições: ele só poderá ser candidato novamente quando tiver 93 anos de idade.

Mas continuará, evidentemente, exercendo um papel destacado, como principal líder político do país.

Às vésperas do anúncio, o PT seguia dividido entre os que defendiam insistir na estratégia dos recursos na Justiça para manter a candidatura de Lula, e os que diziam que agora cada dia é essencial, reivindicando a oficialização de Haddad como candidato desde já.

Por sua vez, o ex-mandatário Lula da Silva, clausurado em uma cela de quinze metros quadrados, oscilava entre momentos de forte indignação e uma preocupante prostração. Tudo isso ficou plasmado na “Carta ao Povo Brasileiro”, divulgada durante o anúncio da substituição da candidatura: a capitulação de um combatente inconformado, mas que desiste de se opor ao inevitável.

O inevitável, neste caso, é o resultado da farsa jurídica, que contou com o pleno e essencial respaldo da imprensa hegemônica e a evidente cumplicidade da Justiça, em todos os níveis, da primeira instância ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Não há uma única prova contra o ex-presidente, não há uma conta clandestina, não há nada de nada. Pura ignomínia. E a confirmação do evidente: a confabulação entre magistrados, meios de comunicação, políticos de partidos corruptos e corrompidos, o mercado financeiro e todos os setores do empresariado alcançou seu objetivo final: impedir que o golpe institucional que destituiu a presidenta Dilma Rousseff em 2016 deixasse de atingir sua vítima principal, que era precisamente Lula da Silva, impedindo sua candidatura para voltar à Presidência.

A partir de agora se intensificarão os aspectos da mais confusa e tumultuada disputa eleitoral desde o retorno da democracia, em 1985.

Pela primeira vez, existe um candidato viável na ultradireita, o capitão reformado e atual deputado Jair Bolsonaro, com forte respaldo popular.

E pela primeira vez, a direita e a centrodireita carecem de candidatos viáveis em termos eleitorais: há quase uma certeza de que a disputa final será entre um energúmeno ultradireitista e um candidato de esquerda ou de centroesquerda, seja entre Bolsonaro e Fernando Haddad, o escolhido de Lula, ou entre o ex-militar e o desenvolvimentista Ciro Gomes.

A facada sofrida por Bolsonaro no dia 6 de setembro seria, segundo os seus esperançados seguidores, suficiente para criar uma comoção e liquidar a eleição já no primeiro turno.

A primeira pesquisa de intenção de votos realizada após a agressão teve como resultado exatamente o contrário: Bolsonaro cresceu somente dois pontos, dentro da chamada “margem de erro”. E sua rejeição de manteve alta, acima dos 42%, confirmando que ele seria derrotado por todos os demais adversários em um eventual segundo turno.

Ciro Gomes cresceu três importantes pontos porcentuais, a ambientalista e evangélica Marina Silva despencou quatro, e Haddad, que ainda não havia sido sacramentado por Lula, mais que duplicou seu índice eleitoral.

Tecnicamente, existe um empate entre os três e o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Contudo, os dois candidatos da direita, Marina e Alckmin, aparecem em problemas: a primeira começou a enfrentar a esperada tendência de queda significativa, e o segundo mostra que não consegue decolar.

A partir de agora, estão definidas as regras do jogo, e com que cartas se dará a disputa.

Sociólogos, analistas políticos e especialistas em projeções eleitorais traçam mil e uma versões, tentando prever o que acontecerá.

Em geral, há uma unanimidade a respeito de alguns fatores óbvios. Entre eles, o fato de que o cenário mais provável é o de Bolsonaro indo para o segundo turno, contra Haddad ou Gomes, e que será derrotado nessa segunda instância – a menos que ocorra alguma reviravolta que, por enquanto parece praticamente impossível. Faltando menos de um mês para a votação no primeiro turno, Haddad dá mostras de ter mais poder de fogo para crescer, mas Gomes também se mostra forte.

O centro dramático, no entanto, é outro: Lula. Apesar de preso e impedido, seguirá presente em todos os debates.

E assim ficará patente a falência geral do sistema judicial brasileiro, o perverso e indecente papel dos meios hegemônicos de comunicação, a podridão exposta do sistema político, enfim, um país em frangalhos.

Esse país em frangalhos é o que Michel Temer e sua quadrilha deixarão como legado ao sucessor.

* Publicado originalmente no jornal argentino Pagina/12. Tradução de Victor Farinelli.

Fonte: https://altamiroborges.blogspot.com/2018/09/as-eleicoes-e-as-regras-do-jogo.html