Editorial do site Vermelho:
O caso Master pode ser a maior fraude bancária da história do país, conforme definição do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O “buraco” soma, apenas em seu rombo principal, mais de R$ 12 bilhões. A gravidade da situação também pode ser medida pela fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura dos trabalhos do Judiciário de 2026, no Supremo Tribunal Federal (STF), na segunda-feira (2), defendendo punição a “magnatas do crime, que vivem no andar de cima”. As investigações em torno do caso Master, disse o presidente, são um momento histórico para o país.
Uma teia de lideranças políticas e personalidades de espectro eclético estão envolvidas, todavia, nitidamente, o escândalo tem a cara e as digitais da direita brasileira. Daniel Vorcaro, o banqueiro do Master, como é comum no meio em que atua, estendeu seus tentáculos, mas encontrou na direita um porto seguro para suas ambições de amealhar bilhões de modo fácil.
Vejamos.
Já no começo de 2024, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ligado ao governo Bolsonaro, ignorou operações com sinais de negociatas no Master. A crise prosseguiu, diante de seus olhos, e levou Vorcaro a buscar aliados no Congresso Nacional. Foi o caso do senador Ciro Nogueira (PP-PI), ativo operador do chamado “Centrão”, que apresentou uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), denominada “emenda Master”, quadruplicando o valor da cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, barrada pela reação dos congressistas que agiram por pressão dos grandes bancos comerciais.
O Master buscou também guarida no Banco de Brasília (BRB), então presidido por Paulo Henrique Costa, preposto do governador Ibaneis Rocha, afastado do cargo por suspeitas de envolvimento com os atos golpistas do bolsonarismo de 8 de janeiro de 2023. O BRB chegou a comprar carteiras de crédito inexistentes do Master, uma operação de R$ 12 bilhões. Figurões da direita atuaram para tentar concretizar a fraude. O Master seria comprado pelo BRB, manobra interrompida pelo Banco Central já na presidência de Gabriel Galípolo.
No curso da negociata, o deputado Cláudio Cajado, vice-presidente do Progressistas (PP), apresentou um requerimento de urgência para acelerar a tramitação de um Projeto de Lei, de 2021, que autorizava o Congresso a destituir presidentes e diretores do Banco Central.
O governo do Rio de Janeiro, que tem à frente Cláudio Castro (PL), também se envolveu com o caso pelos investimentos da Rioprevidência, instituição que administra o pagamento de pensões a aposentados e pensionistas do governo do Estado do Rio de Janeiro, avaliados em R$ 970 milhões, assim como o Fundo de Previdência do Governo do Amapá e mesmo de municípios de vários estados.
Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, foi o maior doador individual da campanha presidencial de Jair Bolsonaro e para governador de São Paulo de Tarcísio de Freitas, em 2022, com o generoso montante de R$ 3 milhões e R$ 2 milhões, respectivamente.
A grande mídia tenta envolver outros segmentos, mas, à medida que as investigações avançam, as marcas da direita ficam mais visíveis.
O STF foi arrastado a este episódio por uma decisão de duvidosa pertinência jurídica que retirou o caso da primeira instância. Em seguida foram tomadas decisões polêmicas e algumas até questionadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR). A direita e a grande mídia se valeram dessa situação e acionaram o abjeto modo Lava Jato e empreendem um movimento para desmoralizar a instância máxima do Poder Judiciário, uma manobra que objetiva conter o alcance do papel daquela Corte na defesa da democracia e no combate decidido às ações golpistas do bolsonarismo, um processo ainda em andamento, sobretudo quanto à punição dos financiadores da tentativa de golpe de Estado. Trata-se, ainda, de uma tentativa de debilitar o STF no exercício das atribuições que lhe cabem, em conjunto com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na garantia da lisura das eleições de 2026.
O caso Master, para além das investigações, julgamentos e punições que devem se realizar a fundo, respeitado o devido processo legal, evidencia a necessidade, em termos de urgência, como tem salientado o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), do debate e realização de reformas estruturais democráticas. Tais reformas visam a superar obstáculos que travam o desenvolvimento nacional e o progresso social.
Nestes termos, o elenco de reformas dá concretude à jornada pelo desenvolvimento soberano. Sem elas, o Brasil seguirá preso às amarras neoliberais e neocoloniais.
Entre as tarefas, se destaca, exatamente, a reforma do sistema financeiro que integra a grande obra indispensável de reconstrução do Estado Nacional. O Estado nacional foi enfraquecido, moldado nos últimos tempos para servir à oligarquia financeira. A chamada autonomia do Banco Central, as algemas do dito tripé macroeconômico de cunho neoliberal, são manifestações disso. Hoje o país, por pura imposição do mercado financeiro, tem seu crescimento alvejado pela segunda maior taxa real de juros do mundo.
O sistema financeiro atua no Brasil como um setor desgovernado desde que a abertura e a desregulamentação financeira foram adotadas como regra suprema. O caso Master é apenas a ponta desse iceberg.
Isso proliferou e há uma miríade de instituições financeiras que atuam, praticamente, à margem do ordenamento do BC, isto é, sem o devido controle, o que resultou, inclusive, no uso de parte delas pelo crime organizado, como provou a operação Carbono Oculto.
A farra financeira se estende para cobranças abusivas de tarifas e de juros, a exemplo do extorsivo spread – a diferença entre os juros que os bancos pagam na hora de captar dinheiro (pegando emprestado de outros bancos ou de poupadores) e os juros que cobram sobre os empréstimos que fazem aos tomadores (pessoas físicas e jurídicas) –, um dos maiores do mundo.
Essa ciranda financeira, estimulada pelo próprio Banco Central, precisa de um ponto final. É inaceitável o descontrole do sistema financeiro, agravado pela “independência” do Banco Central, responsável por evitar casos como esse do Master.
O país precisa de uma reforma que estabeleça um sistema robusto que financie o desenvolvimento nacional, ofereça crédito ao setor produtivo, o que exige, no âmbito de um conjunto de medidas, uma questão principal: a volta do Banco Central à alçada do Estado brasileiro. Hoje parte considerável da política econômica do Brasil é decidida fora do governo, fora do Estado, isto é, por um BC regido pelos interesses da oligarquia financeira.
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