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Não violência em tudo

31 de Julho de 2013, 10:03 , por Desconhecido - 0sem comentários ainda | No one following this article yet.
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Por Cida Medeiros*

“A força da alienação vem da fragilidade dos indivíduos que apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une.” Com esta frase sempre atual, o geógrafo, advogado e pensador brasileiro Milton Santos, convida à reflexão sobre a postura que pacifica, que amplifica uma presença humana, integrando-a à biosfera ou a limita.

Se é fato que qualquer movimento de mudanças sociais é baseado em conexões, também é fato que tem ficado cada vez mais clara a importância do cuidado com a qualidade não somente das conexões, como principalmente a de todos os indivíduos cidadãos participantes delas.

Vencendo a apatia

Ao nos depararmos com números como os de aumento de homicídio nas cidades, já que mais de 50% da população mundial vive em cidades, mesmo o aumento do número de denúncias de mulheres vítimas de situação de violência, se ao ligarmos a tevê e somente nos deparamos com tiros, filmes violentos, jornalismo que privilegia notícias sobre assaltos, roubos seguidos de morte e outros tipos de violência, então estamos inequivocamente conectados a esta realidade violenta e à percepção de que esta violência é o único recurso disponível para a solução dos conflitos da vida.

Uma coisa é o enfrentamento do fato, conhecendo números, dados, ouvindo relatos e principalmente contextos para formar uma opinião qualificada. Outra coisa é entender o que “eu tenho a ver com isto” e “o que eu vou fazer para mudar esta realidade”.

Vencer a apatia é o primeiro passo – reconhecendo que estamos vivendo neste mundo sim, com este nível de complexidade excitante para ser desvendado, mas também entender que viver numa sociedade inclusiva, pacífica, em que o ganha-ganha possa sobrepujar todos os apelos à reclusão, ao “isso não é comigo”, ou “eu não sou violenta ou violento”, não vai ajudar a resolver, pois a todo o momento as questões baterão à nossa porta.

Para vencer a apatia é importante entender que algumas tradições culturais entendem a violência como algo mais profundo do que simplesmente o tiro, a paulada ou o beliscão, para citar Plínio Marcos, na sua peça “Navalha na Carne”, em que beliscão é um alicate usado para torturar quem escolher esta opção, aparentemente mais fácil.

Você tem fome de quê?

Segundo a socióloga brasileira Luciane Lucas, hoje residente em Portugal, onde trabalha e aprofunda estudos com Boaventura de Souza, talvez o nome mais importante da filosofia de nossos dias:

“É urgente debater o sentido de violência nos dias de hoje, bem como os mecanismos institucionalizados que a alimentam. A violência não advém só da corrupção dos políticos nos quais a sociedade vota (e depois esquece). Ela está, também, no modelo de mundo que ajudamos a erguer, no lobby que naturalizamos, nas bancadas políticas que ajudamos a engrossar em número, na miopia (coletiva) que vê o crescimento como palavra de ordem. Os grandes projetos econômicos são violentos – mas desta microfísica cotidiana da violência ninguém quer falar.”

Gandhi orientava que, antes de combater a injustiça, é necessário autoeducar-se. E ressaltou que é preciso haver cooperação para que uma situação de violação de direitos se sustente. Tanto é que ele pregava a Não Cooperação Não Violenta e, para isto, há livros e muita informação para municiar interessados em um mundo pacífico e habitável por todos.

De fato, o conhecimento isolado é perigoso. “As diversas crises que assolam a humanidade provam isto”, segundo o filósofo budista Daisaku Ikeda, em sua mais recente proposta de paz dirigida à ONU, Compaixão, sabedoria e coragem para a humanidade viver em paz.

Inúmeros autores, desde Gandhi há mais de uma centena de anos, Martin Luther King, Johan Galtung, Gabriel Marcel, Michel Maffesoli, Maturana, Xesús R. Jares, Boris Cyrulnik e tantos outros vêm sistematicamente auxiliando a convergência de entendimento e os últimos acontecimentos que têm mobilizado jovens pelo mundo e aqui no Brasil, estão a apontar para o caminho de que é a criação de seres humanos conscientes do impacto que eles próprios produzem serve à construção de uma sociedade humana, pacífica e de convivência criadora.

Um outro mundo é possível…

“Para que o respeito à dignidade da vida seja o fundamento de um esforço contínuo, é necessário que as pessoas do mundo inteiro sintam e vivam esse respeito de maneira palpável em seu próprio modo cotidiano de ser e viver” afirmou Ikeda.

Para isto é fundamental que todos e cada um de nós desperte também para esta nova possibilidade que está em nossas mãos, nos apropriando de novos conhecimentos, que possam nos tirar do analfabetismo emocional que tem gerado todos os números de impacto na In-Segurança Pública. O medo, por ser paralisante, é a grande estratégia utilizada nas estruturas das violências cometidas. Está em nossas mãos mudar.

Nunca antes na história do planeta – já que estamos vivendo condições planetárias de terrorismo, violência, crise econômica, manifestações, cyber ativismo, conectividade, números da fome, doenças e de refugiados ambientais, de guerra etc. – foi tão fundamental entender sobre resiliência, violação de direitos como sendo diferente de liberdade de expressão, justiça restaurativa, tolerância, educação em direitos humanos para vencer as próprias fraquezas deste tipo de analfabetismo que provoca a ilusão do descrédito no ser humano e na vida.

Para além do multiculturalismo e da constatação de que vivemos em sociedades complexas, em que o diferente pode ser visto como um problema (índios, mulheres, negros, homossexuais, culturas “bárbaras” em detrimento das “civilizadas”, países In e países Out), está sendo mais do que urgente partir para o exercício da interculturalidade, como apresentada pelo professor Marcelo Andrade, do departamento de Educação da PUC-Rio, porque é uma proposta e não uma regra, já que é a promoção do diálogo entre os diferentes grupos de uma sociedade plural; porque entende a diferença como riqueza, sem negar os conflitos. É um campo propício para a educação, crítica, contextualizada, com centralidade no diálogo, tendo a diferença como um valor que nos constitui como humanos.

Ubuntu – sou o que sou pelo que nós somos. Urge que comecemos a entender como a árvore do conhecimento se constrói: na qualidade do toque entre as membranas das células e as informações que irão para dentro delas, nutrirão e farão órgãos e todo organismo se movimentar, como afirmou Maturana e Varela, no livro A Árvore do Conhecimento. E isto tanto vale para a célula quanto para qualquer forma de vida.

Somos as pessoas pelas quais estivemos esperando.
Fontes para o artigo/para saber mais:

Blog Monocultura do Consumo. “Nem tudo que reluz é ouro: sobre o risco de banalização do político” – Disponível em http://monoculturadoconsumo.blogspot.com.br/2013/06/nem-tudo-que-reluz-e-ouro-sobre-o-risco.html

Biblioteca Virtual de Direitos Humanos/USP. “Distribuição equitativa através da Não-Violência” – Disponível em

http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-n%C3%A3o-Inseridos-nas-Delibera%C3%A7%C3%B5es-da-ONU/mahatma-gandhi-distribuicao-equitiva-atraves-da-nao-violencia.html

Palas Athena – Promotora, agenciadora e incubadora de programas e projetos na área de Educação, Saúde, Direitos Humanos, Meio Ambiente e Promoção Social. http://www.palasathena.org.br/

*Cida Medeiros é pesquisadora multidisciplinar independente desde 2005, quando começou a se envolver com estes temas, enquanto criava uma política de desenvolvimento sociocultural para a Avon, mais tarde integrada a uma visão de responsabilidade corporativa ao agregar a coordenação da campanha de enfrentamento da violência doméstica do Instituto. As pesquisas e a prática geraram inúmeros frutos, pesquisas, vídeos e publicações.


Fonte: http://blogoosfero.cc/news/blog/nao-violencia-em-tudo

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