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A nova cortina de ferro

19 de Setembro de 2018, 9:54 , por Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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 A Letônia está construindo uma cerca metálica de 90 quilômetros, dois metros e meio de altura, ao longo da fronteira com a Rússia, que será concluída dentro de um ano. Em 2019 se estenderá por mais 190 quilômetros da fronteira, ao custo previsto de 17 milhões de euros.

Por Manlio Dinucci – de Brasília

Semelhante cerca de 135 quilômetros está sendo construída pela Lituânia até a fronteira com o território russo de Kaliningrado.

A Letônia está construindo uma cerca metálica de 90 quilômetros

A Estônia anunciou a próxima construção de uma cerca, sempre na fronteira com a Rússia, de 110 quilômetros de comprimento e altura também de dois metros e meio. O custo previsto é de mais de 70 milhões de euros, para o qual o governo estoniano pedirá um financiamento à Uniao Europeia (UE).

O propósito da construção dessas cercas, segundo declarações governamentais, é “proteger as fronteiras externas da Europa e da Otan”. Se excluimos a motivação de “proteger” essas fronteiras de fluxos migratórios maciços provenientes da Rússia, não resta outra: as fronteiras externas da UE e da Otan devem ser “protegidas” da “ameaça russa”.

Posto que a cerca construída pelos países bálticos ao longo da fronteira com a Rússia tem eficácia militar praticamente nula, seu objetivo é fundamentalmente ideológico: o de simbolizar fisicamente que, para além da cerca, há um perigoso inimigo que ameaça.

Isto faz parte da martelante operação psicológica político-midiática para justificar a escalada dos EUA/Otan na Europa contra a Rússia.

Em tal contexto, o presidente da República foi duas vezes à Letônia, a primeira em julho, em um giro pelos países bálticos e na Geórgia. No almoço oficial em Riga, o presidente da República italiana elogiou a Letônia por ter escolhido a “integração dentro da Otan e da União Europeia” e ter decidido “abraçar um modelo de sociedade aberta, baseada no respeito ao Estado de direito, na democracia, na centralidade dos direitos humanos”.

Fez essas declarações para o presidente letão Raymond Vejonis, o qual já tinha aprovado em abril o projeto de lei que proíbe o ensino do russo na Letônia, um país cuja população, numa proporção de quase 30%, é de etnia russa e onde o russo é usado como língua principal por 40% dos habitantes. Uma medida liberticida que, proibindo o bilinguismo reconhecido pela própria União Europeia, discrimina ulteriormente a minoria russa, acusada de ser “a quinta coluna de Moscou”.

Em setembro, o presidente Mattarella voltou à Letônia para participar em uma cúpula informal de chefes de Estado da União Europeia, na qual ficou tratado, entre outros, o tema dos ataques cibernéticos por parte de “Estados com atitude hostil” (clara a alusão à Rússia).

Depois da cúpula, o presidente da República foi à base militar de Ᾱdaži, onde encontrou o contingente italiano enquadrado no Grupo de batalha deslocado pela Otan à Letônia no contexto da “presença avançada e potencializada” nas fronteiras com a Rússia.

“A vossa presença é um elemento que tranquiliza os nossos amigos letões e dos outros países bálticos”, declarou o presidente da República. Palavras que substancialmente alimentam a operação psicológica, sugerindo a existência de uma ameaça para os países bálticos e o resto da Europa proveniente da Rússia.

Em 24 de setembro chegará à Letônia também o Papa Francisco, em visita aos três países bálticos. Quiçá, repetindo que se deve “construir pontes, não muros”, dirá algo sobre a nova cortina de ferro que, dividindo a região europeia, prepara as mentes para a guerra. Ou quem sabe, em Riga, depositando flores no “Monumento pela liberdade”, reivindicará a liberdade dos jovens letões russos de aprender e usar a própria língua.

Artigo publicado originalmente em Il Manifesto; tradução de José Reinaldo Carvalho para o site Resistência.

Manlio Dinucci, é jornalista, geógrafo e cientista político.


Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/cortina-ferro/

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