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A pauta política é a pauta do povo

11 de Agosto de 2020, 10:15 , por Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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Na última semana assistimos à tragédia libanesa decorrente da explosão, acidental ou não, de quase três mil toneladas de nitrato de amônia, armazenadas no porto de Beirute. Até o momento, contabiliza-se cerca de 150 mortes, perto de 100 desaparecidos, 5 mil feridos e aproximadamente 300 mil desabrigados.

Por Jorge Gregory – de Brasília

Na última semana assistimos à tragédia libanesa decorrente da explosão, acidental ou não, de quase três mil toneladas de nitrato de amônia, armazenadas no porto de Beirute. Até o momento, contabiliza-se cerca de 150 mortes, perto de 100 desaparecidos, 5 mil feridos e aproximadamente 300 mil desabrigados. Isto em um único dia. Ainda se especula sobre as causas do desastre, sendo mais provável ter ocorrido um acidente, mas a possibilidade de ataque ou atentado sempre é levantada, não só pela situação de conflito da região, mas principalmente pela dimensão humana do fato, só comparável à resultante de uma ação bélica.

O que falta ao conjunto das forças vivas da sociedade brasileira é a compreensão de que vivemos uma situação de guerraO que falta ao conjunto das forças vivas da sociedade brasileira é a compreensão de que vivemos uma situação de guerra

Neste final de semana, no Brasil, contabilizamos mais de 100 mil mortos, mil vezes mais que a tragédia libanesa. Decorridos 176 dias da primeira morte, temos uma média de mais de 550 mortes diárias. Devemos ter, nesta segunda feira, cerca de 15 mil indivíduos internados em UTI, em razão da doença. Em média, desde o início, 12 mil pessoas contaminadas necessitaram de atendimento médico diariamente. Estima-se que, nestes 176 dias, 700 mil empresas, ou seja, quatro mil por dia, em particular as de prestação de serviços,  encerraram suas atividades e não terão condições de reabrir. Nos últimos três meses, foram fechados 8,9 milhões de postos de trabalho, uma média de quase 100 mil novos desempregados por dia. Segundo o IBGE, são quase 78 milhões de pessoas em idade economicamente ativa em situação de desocupação. Destas, com certeza um número bem superior a 300 mil por dia, sem condições de continuar pagando aluguel, são jogadas ao relento ou se amontoam em casas de parentes.

Obviamente a tragédia libanesa impressionou pelo poder devastador da explosão, varrendo do mapa quase um terço de Beirute em um único momento. Em se tratando de tragédia humana, no entanto, é como se no Brasil, há 176 dias, de forma silenciosa, tivéssemos de duas a três explosões de 3 mil toneladas de nitrato de amônia diariamente. Nós não nos aproximamos mais de uma tragédia sanitária, econômica e social, já a vivemos. E, o pior, ainda não conseguimos enxergar o fundo do poço. É simplesmente algo jamais visto na nossa história e só imaginado em hipóteses de uma guerra devastadora.

A sociedade parece anestesiada

Em que pese tamanha tragédia, a sociedade parece anestesiada, conformada com a própria sorte como o caboclo que, diante da falta de chuva para irrigar sua roça, se resigna dizendo que “o que não tem remédio, remediado está”. Os panelaços cessaram e poucas foram as iniciativas de atos fortes e unitários que substituíssem as manifestações de rua, não indicadas neste momento para se evitar contaminações. Embora possa parecer estar batendo na mesma tecla, é fundamental fazermos uma reflexão em torno dos motivos que nos levaram a este estado de inércia e que contribuem para o fortalecimento da política genocida e autoritária do governo.

Gostemos ou não de Mandetta, não há como negar que, quando ainda ministro, as coletivas diárias com sua equipe serviam de contraponto ao discurso e às atitudes negacionistas de Bolsonaro e serviam de referencial para a população. Também se constituíam em referencial, a firme posição e as manifestações de quase a totalidade dos governadores, adotando medidas de combate à disseminação da doença e posições contrárias às orientações do Presidente. Não menos importante, foram as manifestações individuais e coletivas contra as ameaças de ruptura vociferadas por Bolsonaro e alguns de seus generais ministros. Surgiram movimentos como “Direitos Já” e “Somos 70%”, entre outros, e as torcidas organizadas foram às ruas em defesa da democracia. Enfim, apresentavam-se alguns referencias e configuravam-se iniciativas que davam à população alguma esperança de enfrentamento à política sanitária criminosa de Bolsonaro e seus arroubos totalitários.

Encurralado, o Capitão é convencido, provavelmente por seus generais de pijama, que não tem forças suficientes para promover uma ruptura e implementar o governo totalitário que sonha. Recua e passa a adotar uma postura menos ofensiva. Os governadores, em especial Dória e Witzel, intimidados pelos ataques de Bolsonaro ou então sufocados pelo descontrole da pandemia, baixaram o tom, procurando administrar as graves consequências sanitárias, econômicas e sociais em seus estados. Honrosa e grata exceção é o governador Flavio Dino que, em que pesem as dificuldades de seu estado, se lança na tentativa de construção de um diálogo nacional.

Forças e personalidades

O aparente afastamento de uma ameaça de ruptura esfriou a discussão de constituição de uma frente ampla. Forças e personalidades que a ela se opunham, passaram ainda mais a se dedicar exclusivamente aos seus projetos políticos particulares. Outras, sem perceber que a ameaça totalitária continua presente, voltam-se para questões menores. Não compreendendo a exata dimensão da tragédia em que a sociedade brasileira se afunda, afastam-se das reais necessidades imediatas do povo e lhe negam a constituição de uma referência na qual possa depositar suas esperanças.

Como na física e na política não existe espaço vazio, na ausência de uma alternativa que se apresente ao povo, Bolsonaro vai fazendo da tragédia sua arma política e não só neutraliza seu desgaste, como começa a recuperar prestígio. Seu discurso começa a ganhar força, visto que a carnificina já é posta como natural e a fala de “vamos tocar a vida”, em tom conformista, contagia a população. Se a avalanche de mortes é inevitável, por que também morrer de fome com a economia totalmente fechada? Se não se apresenta outra alternativa senão o governo Bolsonaro, ruim com ele pior sem ele, pois pelo menos nos paga um auxílio emergencial que põe comida na mesa, passa a raciocinar uma parcela significativa da população. Mais, não só paga um auxílio emergencial como propõe uma Renda Brasil permanente. Em situação de guerra, quando o exército perde a confiança em seus líderes, inevitavelmente seus soldados passam a se render pacificamente ao inimigo. É a lógica de “dos males o menor”.

Em situação de guerra as disputas políticas e ideológicas são colocadas de lado para o enfrentamento do inimigo comum. O que falta ao conjunto das forças vivas da sociedade brasileira é a compreensão de que vivemos uma situação de guerra. São duas a três bombas silenciosas que explodem diariamente levando meio milhar de vidas, destruindo centenas de empresas, empregos e moradias. A arma do inimigo, a Covid19, devasta o território, e o inimigo, o bolsonarismo, o ocupa. Sem unidade, sem a confluência no sentido do enfrentamento do inimigo, a derrota é inevitável. Alertam os bispos católicos brasileiros, na recente “Carta ao Povo de Deus”, que “Este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso País à prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados. Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença”.

Sem desmerecer a sua importância, não serão programas de possíveis futuros governos, projetos de nação, debates sobre a sucessão presidencial ou a imagem passada de líderes que estimularão o povo a reagir, pois tais questões não estão postas neste momento e não respondem às suas pungentes necessidades imediatas. Aqueles que se pautam, no momento, prioritariamente por esses temas estão sendo tão responsáveis pela tragédia quanto Bolsonaro. Não só pela tragédia relacionada à perda de vidas humanas, mas também pela morte de nossa democracia, que vai sendo mutilada com a reorganização de um novo DEOPS no Ministério da Justiça, um novo SNI na Presidência da República, com a transformação da PF em polícia política, com a disputa de facções no Judiciário, com a mercantilização de mandatos por parte do Congresso. Somente um amplo movimento, com um programa unitário de guerra para o enfrentamento do desastre sanitário, econômico e social e de enfrentamento ao totalitarismo bolsonarista, será capaz de catalisar as energias populares e servir-lhes como referência de luta. A pauta política é a pauta do povo. Qualquer movimento em direção diferente significa abandonar o povo à própria sorte e consequentemente jogá-lo no colo de Bolsonaro. Que a trágica marca de 100 mil morte nos sirva como o momento da virada, como ponto de inflexão e de construção da unidade necessária.

 

Jorge Gregory, é jornalista e professor universitário, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

 


Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/pauta-politica-pauta-povo/

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