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A Revolução é inevitável

12 de Agosto de 2018, 13:11 , por Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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“Assim como na vida privada se diferencia o que um homem pensa de si mesmo do que ele realmente é e faz, nas lutas históricas deve-se distinguir mais ainda as frases e as fantasias dos partidos de sua formação real e de seus interesses reais, o conceito que fazem de si do que são na realidade”.

Karl Marx (1818-1883)

 

Por Luiz Falcão – do Rio de Janeiro

Eleito duas vezes presidente da República (2002 e 2006) com grande votação popular, Luiz Inácio Lula da Silva, seis meses antes de assumir a Presidência, já deixava claro na Carta aos Brasileiros, de 22 de junho de 2002, que seu governo nada faria contra as classes exploradoras, isto é, a classe que é proprietária dos meios de produção, dos bancos e dos meios de comunicação. Lembremos um trecho desse documento:

Por isso, toda vez que as massas se organizam para o combate, imediatamente decretam uma meia-volta"Por isso, toda vez que as massas se organizam para o combate, imediatamente decretam uma meia-volta”

“O novo modelo não poderá ser produto de decisões unilaterais do governo, tal como ocorre hoje, nem será implementado por decreto, de modo voluntarista. Será fruto de uma ampla negociação nacional, que deve conduzir a uma autêntica aliança pelo país, a um novo contrato social, capaz de assegurar o crescimento com estabilidade”.

Como é sabido, na Presidência, Lula nomeou Henrique Meirelles, ex-diretor do Bank Boston e deputado federal do PSDB, para a presidência do Banco Central do Brasil e Antônio Palocci, um dos autores da Carta aos Brasileiros, para ministro da Fazenda¹.

Ao final de oito anos de governo, apesar de ter mais de 80% de aprovação popular, Lula não fez nenhuma mudança no modelo econômico; manteve a política de superávit primário, isto é, priorizou o uso dos recursos públicos para remunerar com altos juros os títulos da dívida pública nas mãos dos banqueiros, reproduzindo, assim, o mecanismo de transferência de riqueza da nação para a oligarquia financeira; ampliou o domínio do agronegócio sobre a agricultura e do capital estrangeiro na economia brasileira; além de ter sido contra uma CPI para investigar o roubo das privatizações realizadas pelo governo do PSDB.

Além de fazer um governo servil às classes dominantes, Lula tornou-se amigo de inúmeros empresários, em particular dos donos das duas maiores empreiteiras do país (OAS e Odebrecht).

Desde a ditadura militar, estas empreiteiras receberam vultosos financiamentos públicos e contratos milionários para operar grandes obras públicas pelas quais cobravam preços superfaturados. Tal prática, como reconheceu o próprio PT, não se modificou no governo de Lula nem de Dilma.

Em retribuição, essas empresas doaram milhões para as campanhas eleitorais do PT de forma oficial e também via caixa dois. Essa íntima relação chegou ao ponto de o dono da Odebrecht, Emílio Odebrecht, ter declarado em depoimento ao Judiciário, que “a empreiteira bancou cerca de R$ 700 mil anuais de despesas de marketing de uma empresa de Luís, que é filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva:

“Procurei dar como se fosse meu filho em um processo de formação e de empreendedorismo, para que pudesse montar aquilo que desejasse e que tivesse sucesso”.

Para usar uma expressão comum no momento, Lula pediu ao dono da Odebrecht que ajudasse seu filho a mudar de lado e tornar-se um patrão.

Lado a lado
com a direita

No terreno das alianças políticas, Lula e o PT passaram a alegar que para ter estabilidade política no país e maioria no Congresso, seria necessário realizar aliança com os partidos da direita, em particular com o PMDB, PP, PTB, etc.

Em carta enviada aos peemedebistas, em março de 2013, Lula escreveu:

“No meu governo, o PMDB deu uma contribuição fundamental. No governo da presidente Dilma, estreitamos ainda mais as nossas relações, e Michel Temer tem cumprido papel particularmente significativo”.

“Lado a lado, com Dilma e Temer, garantiremos conquistas ainda maiores para o Brasil e para o povo brasileiro”. (Congresso em Foco, 02/03/2013)

Na convenção do PMDB, de 10 de junho de 2014, Dilma Rousseff, justificando essa aliança com o partido de Temer, Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá, afirmou:

“Eu preciso do PMDB e quero finalizar dizendo: mais parceiros e irmãos nessa luta que se avizinha. Na nossa união está a nossa força. Viva o PMDB e viva a aliança”.

Porém, em 2016, o Congresso Nacional decretou o impeachment de Dilma, evidenciando o grave erro dessa política de se unir à direita para assegurar governabilidade. Em outras palavras, tanto o impeachment de Dilma quanto a reforma trabalhista foram consequências dessa política de conciliação com a burguesia nacional.

Diga-se, de passagem, que tal tática não foi defendida apenas pelo PT, mas também pelo PCdoB. Com efeito, em café da manhã que tomaram juntos no dia 7 de outubro de 2010, Michel Temer (PMDB) e o presidente do PCdoB, Renato Rabelo, expressaram que: “essa aliança é necessária para êxito eleitoral e para governar o país”.

Também o ex-vice-presidente nacional do PCdoB, Aldo Rebelo, falando em nome do seu partido, declarou, inúmeras vezes, que não existia nenhuma possibilidade de ter no Brasil um governo apenas com a esquerda. Coerente com essa linha política, alguns meses após sair do PCdoB, Aldo Rebelo se filiou ao Solidariedade, partido da Força Sindical e que tem como plataforma principal a defesa intransigente dos lucros dos patrões.

Em vez da luta de
massas, judicialização

Mas, apesar de não realizar as transformações que prometeu na campanha eleitoral, o povo brasileiro seguiu sendo generoso com Lula e o PT; elegendo e reelegendo Dilma Rousseff em 2010 e 2014 e colocando Lula na liderança de todas as pesquisas para as eleições deste ano.

Ao saber que existia uma ordem de prisão expedida pelo Juiz Sergio Moro, no dia 5 de abril, o ex-presidente se refugiou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Imediatamente, milhares de pessoas para lá se dirigiram convencidas de que Lula resistiria à arbitrária ordem judicial.

No entanto, após dois dias, em 7 de abril, Lula frustrou a multidão: em vez de seguir lutando pela liberdade nas ruas, judicializou a questão e resolveu se entregar à Policia Federal. Lula justificou sua decisão com as seguintes palavras:

— Eu não estou acima da Justiça. Se eu não acreditasse na Justiça, eu não tinha feito um partido político. Eu tinha proposto uma revolução nesse país.

Mas o que é a justiça? A justiça numa sociedade burguesa não pode ser outra coisa que uma justiça burguesa. Como se comprova isso? Se uma mãe ou um pai que tem um filho ou filha passando fome, retirar de um supermercado um leite, pão ou um pacote de macarrão será imediatamente preso em flagrante e poderá ficar anos na cadeia.

Já o capitalista rouba, diariamente, horas do trabalhador; se apropria do produto que o operário cria com seu trabalho, e, dessa maneira, enriquece; mas isso não é considerado um roubo ou um crime pela Justiça burguesa, mas uma contribuição ao desenvolvimento da nação.

Ao afirmar que confia na Justiça burguesa e se vangloriar de não querer a revolução, Lula despreza inteiramente a doutrina marxista da luta de classes, doutrina esta que; além de coerente e íntegra, é comprovadamente cientifica.

Em particular, desconsidera o que Karl Marx e Friederich Engels escreveram no Manifesto do Partido Comunista:

“A história de toda a sociedade até hoje é a história da luta de classes … A moderna sociedade burguesa não aboliu os antagonismos de classe, o que fez foi simplificar esses antagonismos de classe, de forma que toda a sociedade está a cindir-se, cada vez mais, em dois grandes campos hostis, em duas grandes classes em confronto direto: a burguesia e o proletariado”.

A volta das
ilusões perdidas

No seu discurso, Lula enumerou alguns pontos do que faria caso se tornasse presidente pela terceira vez:

“Não vão vender a Petrobras. Vamos fazer uma nova Constituinte, vamos revogar a lei do petróleo que eles estão fazendo. Não vamos deixar vender o BNDES, não vamos deixar vender a Caixa Econômica, não vamos deixar destruir o Banco do Brasil, e vamos fortalecer a agricultura familiar, que é responsável por 70% do alimento que comemos nesse país”.

Como vemos, não há aí nada que indique querer enfrentar a dominação da burguesia sobre a economia nacional. Governaria, portanto, outra vez, para manter a classe capitalista no poder, seu domínio sobre os meios de produção e a feroz exploração que essa classe realiza dos trabalhadores. Também o ex-presidente Lula nada disse sobre a dívida pública, o sistema financeiro e seus astronômicos lucros.

Ser contra a venda da Caixa, do BNDES, do Banco do Brasil, da Petrobras, apesar de ser uma posição progressista, em nada altera o modelo econômico existente no país, pois os maiores beneficiários dos recursos desses bancos e também dos contratos da Petrobras são a grande burguesia; as empreiteiras, os usineiros e centenas de multinacionais.

Basta olhar a relação das empresas beneficiadas com os empréstimos e financiamentos da CEF, do Banco do Brasil e do BNDES para certificar-se dessa verdade.

Ainda em seu discurso, o ex-presidente Lula denunciou Globo, a Record, a Bandeirantes, os grandes meios de comunicação e prometeu, que se eleito, faria a regulação da mídia:

“Eles têm de saber que nós vamos fazer definitivamente uma regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima das mentiras todo santo dia”.

Bem, deixamos de lado o fato de que o PT teve 14 anos no governo e não elaborou nenhuma lei para limitar a ação dos meios de comunicação da burguesia. Vamos admitir que, agora, um novo governo do PT levaria a sério esse problema.

Acontece que a regulação dos meios de comunicação é apenas uma invenção da própria burguesia para manter a propriedade privada da mídia e impedir o controle popular sobre esses meios. Em todos os países capitalistas que possuem leis de regulação (Inglaterra, Alemanha, França, Áustria,etc.) nenhuma lei desse tipo altera o fato de os meios de comunicação continuarem sendo propriedade privada do grande capital e dos bancos.

Dito de outro modo, regulação alguma fará um meio de comunicação burguês defender o fim da propriedade privada; apoiar uma greve geral dos operários; propor diminuir os lucros da burguesia; defender a nacionalização da terra e a reforma agrária, e muito menos o controle social dos meios de produção.

Portanto, para ocorrer uma real mudança no país, mesmo que seja retirar a posse dos meios de comunicação de uma classe, a burguesa, e colocar nas mãos de outra classe, a operária, é necessário realizar uma revolução. Mas isso, infelizmente, Lula proclama em alto e bom som que não defende.

Ademais, qualquer proposta para regular os meios de comunicação necessita ser aprovada pelo Congresso, ou seja, por deputados e senadores que serão eleitos numa democracia burguesa.

Ora, os partidos com mais tempo de TV e rádio e que receberão a maior parte do dinheiro do fundo eleitoral são os que hoje têm as maiores bancadas. Logo, a tendência é manter o status quo.

Não bastasse, a lei eleitoral em vigor permitir as doações de pessoas físicas e se o doador for ele próprio, candidato, não há limite para o autofinanciamento. Ou seja, além de maior tempo de propaganda eleitoral, os partidos da direita e os ricos candidatos têm vários privilégios nas eleições para o Congresso ou para uma Constituinte que aconteça debaixo do atual sistema.

Tem mais: partidos que defendem o fim da propriedade privada dos meios de produção e da exploração da classe operária; o controle popular da economia, a estatização das empresas privatizadas; o fim do lucro na educação e na saúde, a anulação da dívida pública; como a Unidade Popular (UP), estão impedidos de disputar as próximas eleições.

Porém, o PT e outros partidos ditos de esquerda ignoram esta realidade e fazem política como se o interesse da burguesia nacional fosse o progresso da nação e não aumentar a exploração dos trabalhadores para crescer seus lucros; ter a posse de todas as terras férteis, apropriar-se do patrimônio público e perpetuar o mecanismo da divida pública.

Enfim, fazem política como se tivesse sido abolida da sociedade brasileira aquilo que foi nas suas consciências: a contradição antagônica entre patrão e trabalhador.

A causa do retrocesso

Qualquer análise séria da economia capitalista concluirá que as crises econômicas são inevitáveis nesse regime econômico. De fato, segundo o insuspeito órgão de auditoria do Congresso dos Estados Unidos, o General Accounting Office (GAO), entre 1991 e 2001, ocorreram 134 recessões em 87 países em desenvolvimento.

Por sua vez, com a crescente dominação do capital financeiro, o capital é cada vez mais deslocado para a especulação. A consequência são menos indústrias e empresas e mais desempregados.

Para os operários, as crises são ainda mais destruidoras, pois estes só podem se alimentar quando estão trabalhando, quando conseguem vender sua força de trabalho aos donos dos meios de produção. Desempregado, o trabalhador e sua família passam fome, mendigam um pão ou um leite para os filhos; deixam de comprar o gás de cozinha; vão morar nas ruas ou se tornam escravos do tráfico de drogas.

O modo de produção capitalista tem, portanto, uma profunda contradição: a produção é realizada por milhões de pessoas, que vivem na pobreza, mas as fábricas, as terras, as lojas, os bancos são propriedade de uma ínfima minoria: os privilegiados capitalistas.

Dessa forma, quando acontecem as crises econômicas, embora elas sejam marolinhas para as classes ricas, para a grande maioria da sociedade é sofrimento; pobreza e desemprego. Até porque, seja qual for o governo de plantão, ele adota medidas econômicas contrárias aos interesses da maioria do povo, isto é, joga o ônus da crise nas costas dos trabalhadores.

São os chamados planos de austeridade ou de ajuste fiscal, com o objetivo de retirar direitos da classe operária, dos camponeses, indígenas e da juventude e garantir que a riqueza da classe capitalista permaneça intocável.

Foi o que fez Dilma Rousseff no seu segundo governo, nomeando o diretor do Bradesco Joaquim Levy para ministro da Fazenda e adotando o ajuste fiscal, que de uma tacada só, cortou R$ 70 bilhões de investimentos sociais e ainda elevou os juros para assegurar o chamado superávit primário e os pagamentos aos banqueiros.

O fascista Temer foi ainda pior: congelou os gastos sociais por 20 anos, implementou uma reforma que eliminou históricos direitos dos trabalhadores, aumentou o desemprego e quer acabar com aposentadoria e privatizar a Eletrobras.

Pois bem, na medida em que o capitalismo se desenvolve, essa contradição não desaparece nem diminui; ao contrário, se aprofunda. O antagonismo entre os capitalistas (em número mais reduzido graças ao processo de centralização e concentração do capital) e o proletariado, em vez de se atenuar, aumenta brutalmente. Voltemos ao Manifesto do Partido Comunista:

“Nas crises, declara-se uma epidemia social que teria parecido um contrassenso a todas as épocas anteriores – a epidemia da sobreprodução. As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas para conterem a riqueza por elas criada. E como supera a burguesia as crises?

“Por um lado, pela destruição forçada de uma massa das forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda dos mercados velhos. Como, então? Preparando crises mais generalizadas e mais graves e reduzindo os meios para prevenir as crises”.

Não se trata de uma teoria complicada ou difícil de entender. No entanto, lamentavelmente, Lula, o PT e seus seguidores consideram ultrapassada essa científica análise marxista da sociedade.

Para eles, o Brasil é um país onde a burguesia nacional é progressista; o MDB tem gente de bem; as Forças Armadas querem a democracia, e devemos acreditar na Justiça burguesa; enfim, vivemos numa democracia e não numa ditadura da burguesia. Confessemos, difícil é admitir alguma base científica nessa análise.

Imobilismo e
acomodação
das lideranças

Por outro lado, a política de abandonar a luta de classes não só levou o PT a ser dominado pela classe capitalista, como o afastou da luta de massas; dos movimentos sociais e da militância combativa e consciente.

Em particular, colocou grande parte do movimento sindical no imobilismo, com a CUT passando a defender como via principal a negociação entre operário e patrão em vez da greve; aderindo, na prática, ao “sindicalismo de resultado” da Força Sindical.

Em 2003, primeiro ano do governo Lula, o número de greves no país foi de 340. Nos anos seguintes, o número de greves não teve grandes alterações. Foi um período de refluxo, no qual os sindicatos e a CUT, que inclusive indicou seu presidente Luiz Marinho para ministro do Trabalho no governo Lula, viveu debaixo do lema de “paz entre as classes”.

Tal posição levou o movimento sindical a privilegiar a negociação e o acordo em vez das passeatas e greves, que quando ocorriam, na maioria das vezes, duravam um ou dois dias.

Em 2009, quando o Brasil começa a sentir os primeiros efeitos da crise do capitalismo mundial, ocorreram 518 greves. Em 2013, no terceiro ano do governo Dilma, e após 11 anos de governo do PT, ano que ficou conhecido pelas jornadas de junho, as greves tiveram um enorme assenso, atingindo 2.050 paralisações e mobilizando mais de dois milhões de trabalhadores.

Em 2014 e 2015, as greves continuaram crescendo, alcançando cerca de 2 mil paralisações. Em 2016, o número de greves bate novo recorde e chega ao total de 2.093, evidenciando que os trabalhadores preferiram a luta como caminho principal para conquistar melhores salários e condições de trabalho.

No movimento estudantil, não foi diferente. A UNE e a Ubes foram tão imobilistas que ficaram conhecidas como entidades chapa branca, porque viviam mais nos gabinetes em Brasília do que mobilizando a juventude contra a privatização da educação e por seus direitos e sonhos.

Em recente entrevista ao (portal da mídia conservadora) UOL, Frei Betto, assessor especial do presidente Lula e coordenador de mobilização social do programa Fome Zero, entre 2003 e 2004, fez a seguinte análise dos governos do PT:

“Eu esperava que o PT fosse coerente com as três bandeiras emblemáticas de sua fundação: ser o partido de organização da classe trabalhadora, ser o partido da ética e ser o partido de reformas estruturais… O PT formou mais uma nação de consumistas que de protagonistas políticos e sociais.

“Não se fez a alfabetização política de nosso povo…Lamento que ele tenha abandonado o trabalho de base, o que reduziu consideravelmente aquela militância aguerrida que varava a noite em campanhas políticas…” (UOL, 25/03/2018).

Dito de outro modo, a política de harmonia entre as classes desarmou os militantes tanto do PT quanto dos sindicatos e do movimento operário e popular. Com efeito, a maioria dos dirigentes do PT e do PCdoB e também das entidades sindicais e populares que dirigem, se burocratizaram, se transformando naquilo que Engels chamou de “aristocracia operária”.

Isso ficou demonstrado, na incapacidade que tiveram de organizar uma greve geral ou realizar grandes manifestações para libertar da prisão seu candidato a presidente, uma das principais lideranças sindicais e políticas da história do país, eleito duas vezes presidente da República e presidente de honra do partido da verdadeira social democracia brasileira. Bem, e ainda há quem diga que o reformismo pode ser revolucionário.

Conciliação ou revolução?

Observemos, agora, a evolução do desemprego no Brasil no governo Dilma. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, no final do primeiro governo Dilma, em 2014, o Brasil tinha 6,5 milhões desempregados. Após dois anos, em seu segundo governo, em maio de 2016, os desempregados alcançaram 11 milhões.

Quer dizer, mantido o regime capitalista, e após 14 anos de governo, o número de desempregados cresceu.  No dia 26 de abril, o IBGE revelou que o desemprego continua aumentando: agora são 13,7 milhões de pessoas desempregadas.

Verificamos ainda a impossibilidade de se acabar com a pobreza numa economia capitalista.  Em 2016, o Brasil tinha 13,34 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza extrema (Pessoas que sobrevivem com menos R$ 40 por mês).

Em 2017, esse número cresceu e atingiu 14,83 milhões. Um crescimento de 11%.  Mas as estatísticas do IBGE, dizem que o PIB cresceu 1% em 2017. Vejam o que é o capitalismo: a economia cresceu 1% e o número de seres humanos vivendo na pobreza extrema aumentou 11%.

Tem mais: ainda em 2016, o Brasil tinha 24,8 milhões de brasileiros vivendo com renda inferior a ¼ do salário mínimo por mês, o equivalente a R$ 220. Isso significa que 12,1% da população do país vive na miséria, números da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em 2014, o mesmo levantamento do IBGE apontou que eram 16,2 milhões de brasileiros com rendimento mensal abaixo de ¼ do salário mínimo. Assim, somente em dois anos, aumentou em 8,6 milhões o número de pessoas vivendo na miséria.

Não bastasse, os salários também tiveram uma importante redução no seu valor real. Em oito anos, de 2008 a 2015, o salário médio no Brasil caiu 15,3%, revelou estudo da consultoria Korn Ferry.

Por sua vez, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirmou que, em 2015, o salário do trabalhador brasileiro teve uma queda de 3,7%, a maior redução nas Américas.

Na outra ponta, quatro bancos (Itaú, Santander, Banco do Brasil e Bradesco) tiveram de 2014 a 2016, lucros líquidos de mais de R$ 160 bilhões. Não custa nada repetir a pergunta: pode num sistema em que 25 milhões de pessoas vivem com R$ 220 por mês e outros 14 milhões sobrevivem com 40 reais por mês, uma meia dúzia de famílias se empanturrarem com bilhões e bilhões todos os anos?

Pode-se realmente chamar de democrático um país em que 14,83 milhões de pessoas vivem na pobreza extrema e falta trabalho para 26,4 milhões de brasileiros de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE?

Pode-se acreditar na justiça de um sistema que mata de fome milhões para enriquecer um punhado de ricaços?

Portanto, construir um estado de bem-estar social no capitalismo, como demonstra a própria vida, é inviável.

Militarização é fascistização

Nada disso, porém, nega o fato de que o ex-presidente Lula foi arbitrariamente preso, enquanto outros políticos burgueses comprovadamente corruptos, como Temer, Aécio, Eliseu Padilha, Moreira Franco, Renan Calheiros, Geraldo Alckmin, José Serra, Eduardo Paes, João Dória, o vende-pátria FHC, estão todos soltos e continuam tramando para cometer mais crimes contra o povo e a pátria.  Lula, embora tenha cometido crime de corrupção, foi preso para inviabilizar sua participação nas eleições.

De fato, na atual e mais profunda crise do imperialismo capitalista desde a II Grande Guerra Mundial, a grande burguesia nacional e estrangeira, as grandes corporações mundiais, necessitam o mais rápido possível impor um governo fascista no Brasil para assegurar lucros extraordinários para a classe capitalista, maior dominação dos países imperialistas sobre as riquezas da nação e reprimir ferozmente o movimento operário e popular.

É claro que um governo de Lula e do PT, apesar de favorável à burguesia e ao capitalismo, devido à base social que formou o partido e a sua história, não seria favorável à fascistização do governo. Por isso, o PT se tornou descartável para as classes dominantes.

No dia 3 de abril, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, escreveu:

“Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do país e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?”.

No dia seguinte, o Exército divulgou nota de apoio ao general declarando:

“O Comandante do Exército é a autoridade responsável por expressar o posicionamento institucional da Força e tem se manifestado publicamente sobre os temas que considera relevantes”.

Tais declarações explicitaram o que já vínhamos denunciando há tempo: o Exército burguês, mais uma vez, se oferece como alternativa para ser o executor da via fascista no Brasil.

Diante do avanço fascista, o reformismo afirma que o povo está apático e que temos que recuar do nosso programa.

Mentira!

Como se pode dizer que a classe operária brasileira não tem disposição de luta, se, quando convocada ela foi às ruas? Não é verdade que mais de 40 milhões de trabalhadores pararam o país em 28 de abril de 2017 contra a reforma trabalhista e que continuariam em greve se as direções das centrais sindicais não tivessem se apequenado diante da burguesia e de seu sistema?

Não é verdade que em, 24 de maio do ano passado, milhares de trabalhadores marcharam em Brasília contra a reforma da Previdência e que estavam dispostos a ocupar o Palácio do Planalto e decretar o impeachment de Temer e, outra vez, as lideranças reformistas preferiram desmobilizar as massas e deixar tudo para ser resolvido nas eleições de outubro?

Também não é verdade que, diante da brutal e covarde execução da vereadora Marielle Franco, do PSOL do Rio de Janeiro, e do motorista Anderson Gomes, mais de 100 mil pessoas foram às ruas dizer não à violência fascista num Estado que está sob intervenção militar do Exército?

Por que então a esquerda reformista e acomodada insiste em que a alternativa para derrotar a direita e o fascismo não é a luta de massas?

Age assim porque, igualmente ao ex-presidente Lula, na prática, não defende uma revolução popular, não acredita que no século XXI a classe operária possa conquistar o poder político e formar um exército popular.

Por isso, toda vez que as massas se organizam para o combate, imediatamente decretam uma meia-volta, suspendem a luta e dizem que vão esperar uma data de votação no Congresso ou o resultado de um recurso na Justiça.

Temem o que é inevitável de ocorrer numa sociedade capitalista: a revolução socialista!

Com efeito, as causas profundas da miséria, da pobreza, do desemprego não são removidas por simples reformas no sistema capitalista. Por isso, é inevitável, a derrocada da classe que está no poder, a burguesia, e sua substituição, pela classe que é hoje oprimida e explorada, a classe operária.

Só conquista
quem luta

Nada disso, entretanto, deve nos tirar do verdadeiro caminho revolucionário. As massas, a classe operária; os camponeses lutam para garantir seu direito à vida; salvar seus filhos e filhas da fome; ter uma pátria soberana e acabar com a exploração, a corrupção e a injustiça.

É preciso, portanto, organizar o povo nos bairros e os trabalhadores nas fábricas, a juventude nas escolas e universidades para buscarem o que é seu. Unir todos os explorados em torno de propostas que realmente promovam uma transformação em nosso país, apresentando um programa que realmente convença as massas de que haverá uma mudança radical na sua vida.

Não basta, pois, falar que não vai vender esse ou aquele banco, essa ou aquela empresa ou fazer promessas de distribuição e diminuição da pobreza que na primeira crise se transformam em espumas.

É necessário levantar bandeiras que permitam acabar com a desumana exploração das massas, anular a dívida pública e o mecanismo de transferência dos recursos públicos para os banqueiros, estabelecer o controle dos trabalhadores sobre a produção e a distribuição dos produtos, acabar com a espoliação do Brasil pelo capital estrangeiro, nacionalizar o sistema financeiro e retirar as terras das mãos da burguesia e a entregar aos camponeses; garantir o direito ao trabalho e à redução da jornada de trabalho; revogar a famigerada reforma trabalhista.

Esta não é uma luta que será vencida num dia e numa noite; a vitória será consequência de nossa determinação, de um trabalho perseverante e firme. Muito embora, temos pouco tempo para construir um partido de massas revolucionário e torná-lo a esperança de transformação da vida de nosso povo.

Precisamos, portanto, trabalhar para formar centenas e milhares de combatentes da causa da revolução, dispostos a entregar a vida para salvar a vida de todo um povo, e da nação e que saibam de que não há força mais poderosa que a força da classe operária unida; organizada e consciente de seus objetivos.

Isso quer dizer que existem na luta política realmente dois lados: o lado da burguesia, essa minoria insignificante que assalta os cofres públicos e explora o povo, e o lado dos trabalhadores, a imensa maioria da sociedade, que é duramente explorada.

Eis a questão: servir à burguesia ou servir à classe operária. Ser reformista ou ser revolucionário.

Consequentemente, existem também duas táticas: a tática da social democracia, que se limita a propor reformas no capitalismo e causou retrocesso na consciência de classe; e a tática dos comunistas revolucionários, que aponta para a conquista do poder político como objetivo estratégico do movimento operário e popular; que defende organizar as massas exploradas para lutar por seus direitos, pela revolução e pelo poder popular.

Luiz Falcão é membro do Comitê Central do PCR e diretor de Redação do jornal A Verdade.

¹“Eu e Palocci somos unha e carne. Tenho total confiança nele”. Presidente Lula em maio de 2005.


Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/revolucao-inevitavel/

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