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‘Amazonas, o despertar da florestania’: de novo sob ameaça

22 de Maio de 2019, 10:28 , por Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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A floresta amazônica como símbolo da identidade brasileira é o tema deste documentário dos cineastas brasileiros Christiane Torloni e Miguel Przewodowski.

Por Cloves Geraldo – de Brasília

“A Arte é uma ciência política, não tem como não ser”. Esta frase da diretora-roteirista Christiane Torloni (18/02/1957) neste “Amazonas, o Despertar da Florestania” sintetiza bem o momento histórico vivido pelos brasileiros na “República dos Destemperados”. Embora o filme tenha sido rodado e editado antes de 2019, seu lançamento no circuito de cinemas, agora em maio, dota-o de invejável atualidade. Isto porque a estrutura de incentivo às artes e o Ministério da Cultura foram desmontados pelo Governo Bolsonaro em ação obscurantista. Mas a arte preserva a identidade do povo, reflete seus anseios e nunca silencia. Daí o horror!

Rio amazonas

Com este seu filme de estreia, co-dirigido pelo cineasta Miguel Przewodowski, depois de quarenta e quatro anos de carreira na TV, no cinema e no teatro, Torloni mostra a mesma verve de seu ativismo no movimento “Diretas Já (1983/1984). Sua preocupação agora é com a devastação da floresta amazônica, como cineasta, ativista e pesquisadora. Não só para defender a Amazônia, mas sobretudo a identidade dos 202.768.562 milhões de brasileiros (IBGE 2010). Cada um deles a enxerga à sua maneira. Milhares de brasileiros por terem nascido na região e milhões por defenderem o ecossistema nacional por vê-lo ameaçado.

Neste oportuno documentário rodado em várias regiões da Amazônia a dupla Torloni/Przewodowski acrescenta outra estratégia para protegê-la. Mais abrangente, levando em conta a cidadania, ou seja, o direito e a obrigação de lutar contra o fracionamento de uma área de 5.020.00 km². Dá para perceber a grandiosidade do desafio posto pelos dois cineastas nos 106 minutos de narrativa. Só o Brasil ocupa 60% dela, restando 13% ao Peru e os 27% restantes à Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guina, Suriname e a Guiana Francesa (IBGE, idem). O que representa 1/3 das florestas tropicais e 20% das reservas de água do planeta.

Dupla de diretores relembra os pioneiros

Em seu roteiro, a dupla não se prendeu à atualidade, centrou parte de sua narrativa no pioneirismo dos sertanistas. A começar pelo engenheiro-militar Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon (1865/1958). Com pequena equipe e raros equipamentos foi do Mato Grosso à Bacia Amazônica Ocidental. E entrou em contato com tribos que jamais tinham visto o homem branco. Tornou-se assim defensor das populações indígenas. E desta forma identificou os biomas amazônicos e instalou 372 km de linhas e 5 estações telegráficas (1914/1915).

Entre os pioneiros no contato civilizado e na defesa dos direitos dos indígenas da Amazônia estão os Irmãos Villas Boas: Orlando (1914/2002), Cláudio (1916/1998) e Leonardo (1918/1961). Conviveram largo tempo com o Marechal Rondon com o qual assentaram as bases do Parque Nacional do Xingu, inaugurado em 1961, três anos após a morte dele. Não se tratavam apenas de sertanistas e desbravadores, mas de pesquisadores e estudiosos da civilização indígena. Com eles, passaram a serem vistos como fruto de uma cultura milenar, não selvagens, perigosos e irracionais.

Contudo esta rica experiência ao longo de 50 anos não ensejou os sucessivos governos brasileiros a adotar políticas de integração econômica e social com as tribos amazônicas ou não. Trocas que, sem dúvida, seriam benéficas tanto para elas quanto para os segmentos produtivos agrícolas e consumidores do meio urbano. Pelo contrário, incentivaram a invasão das terras indígenas, levando-os a se afastarem para regiões distantes, reagindo ou como fazem hoje, ao se organizarem para evitar o extermínio. Quando muito restou a intransitável Transamazônica, construída pela Ditadura Militar para integrar o país para supostamente não entregá-lo.

Ocupação desordenada generalizou o conflito

O resultado deste incentivo predatório foi a cessão de terras para famílias do Sul e do Centro-Oeste em vastas áreas agrícolas. Daí a exploração da madeira, das jazidas de ouro e das reservas minerais. As consequências dessa ocupação desordenada foi generalizar o conflito na Amazônia. A começar pelos criadores de gado, donos de jazidas de ouro, exploradores de madeiras de lei contra os índios, reais donos das terras, por viverem nela por milênios, e os seringueiros que reagiram à devastação. Não sem razão, os 342.836 mil índios da Região Norte (IBGE 2010) são os guardiões da Floresta. Não fosse por eles a situação estaria bem pior.

O assassinato do seringueiro, ambientalista e líder sindical, Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes (15/12/1944/22-12/1988), foi motivada pelas políticas governamentais de incentivo à ocupação da Amazônia. E a nova tentativa de liberar a Base de Alcântara, localizada no

Maranhão, para o lançamento de foguetes dos EUA segue o mesmo caminho. Isto vem desde o Governo FHC (01/01/1995-01/01/2003). Agora o Brasil de Bolsonaro (21/03/1955), em visita à superpotência imperialista, firmou acordo com os EUA de Donald Trump (14/06/1946) para sua utilização, mesmo sofrendo fortes e justificadas resistências.

É o chamado Acordo de Salvaguardas Tecnológicas Brasil e Estados Unidos (AST). “Similar acordo, proposto no ano 2000, com apoio do Governo FHC, sofreu forte rejeição de um grupo de oficiais da reserva, entre os quais me incluo, pois não respeitava a soberania brasileira em alguns importantes aspectos. Entre estes, a acintosa proibição do uso, pelo Brasil, dos recursos gerados por tais lançamentos no desenvolvimento de mísseis e de foguetes. Inaceitável, também, a proibição de acesso e controle, por brasileiros, da área que seria ocupada pelos norte-americanos, bem como a ausência de fiscalização dos contêineres respectivos que chegassem à base brasileira”.

Ceder base de Alcântara é perder a soberania

“Outro aspecto, ferindo a soberania brasileira, (é) a proibição de lançamentos de outros países que utilizassem qualquer componente de origem norte-americana, hoje presentes em cerca de 80% dos objetos a serem enviados ao espaço. O pretenso acordo não foi aprovado pelo Congresso, pois foi considerado ofensivo à soberania nacional”, conforme explica o general da reserva Marco Antônio Felício, candidato do PSL a deputado derrotado nas eleições de 2018, em sua coluna dominical de 14/04/2019, no jornal O Tempo, de Belo Horizonte, pág.16”.

Em outras palavras a soberania passaria a ser dos EUA, como ocorre há 116 anos com a Base de Guantánamo, território cubano de 117 km², desde 1903 sob o controle dos estadunidenses. Tornou-se por contrato território sob o qual Cuba perdeu o controle. Alcântara serve mais aos EUA por lhe facilitar o ataque ao Oriente Médio e algum renitente país africano. São questões não negligenciáveis. O p ovo brasileiro, embora pacifista, não armamentista, pode se dar conta das ameaças só quando elas se mostrarem reais. Desta forma fica atestado que a Amazônia não é só uma região cobiçada pelos EUA, mas, sobretudo, negligenciada pelo Estado brasileiro.

Como se vê, o tema florestania tratado neste “Amazonas, o Despertar da Florestania” pela dupla Torloni/Przewodowski não mexe só no vespeiro da devastação do ecossistema amazônico como enseja a espinhosa questão geopolítica. Existe ainda as preocupantes fronteiras com a Venezuela, pelo menos por enquanto. O perigo maior está em sua ocupação por alguma nação predatória que busca se apossar das aventadas reservas petrolíferas, de ouro, minério, metais preciosos e lençóis subterrâneos de águas potável. São as questões fronteiriças, geopolíticas. Portanto, a reflexão deve ser muito mais ampla e urgente, pois os tempos são incertos.

“Não são os pobres que Invadem a Amazônia”

O recurso usado por Torloni e Przewodowsk para dar conta do tema central do filme e incentivar a adesão à florestania é levar os entrevistados aos locais ameaçados. Dá a impressão de que foram reunidos no mesmo lugar, pois a câmera do diretor de fotografia Vinicius Brum orientada pela dupla se mantém fechada neles. Raramente a deslocam para o entorno, quando muito deixa espaço no enquadramento para situar o espectador. A sensação é de estar numa região devastada por algum tsunami, não a marca predatória da indústria da exploração consentida na Amazônia.

Tocam fundo as sabias palavras do escultor polonês, Frans Krajeberg (12/04/1921-15/11/2017), que vivia no Brasil desde 1948, quando diz para a câmera que “não são os pobres que vêm para a Amazônia”. Eles seriam presos e chamados de invasores de terras, caso não fossem executados pelos latifundiários. Não só ele tinha esta visão, também um dos líderes indígenas, entrevistado pela dupla de diretores, se sente ameaçado por não ver saída no impasse em que se encontram. ”Se não nos ajudarem, não vamos conseguir sair (desta situação)”

De todo modo se este socorro não vier, pelo menos fica a inescapável verdade de que a cultura e a identidade brasileiras são amalgamas das heranças africana, indígena e europeia. Inexiste o brasileiro sem os traços destas três vertentes raciais. Nenhuma raça se sobrepõe a outra, pois os costumes estão entranhados nas misturas das línguas, nas religiões, na culinária, no entrelaçar das milenaridades destes povos. A riqueza do Brasil está justamente na ocupação do território, onde os índios já estavam há milênios, os africanos chegaram forçados como escravos e os europeus em busca de uma vida melhor. Não há espaço para o racismo, pois não lhes interessa a exclusão. Afinal, queiram ou não, são todos brasileiros. E sem dúvida a democracia e a união lhes favorece.

Florestania é mais válida hoje

Pelo menos nas sequências bem articuladas deste “Amazonas, o Despertar da Florestania” percebe-se que existem no documentário duas vertentes da política brasileira representadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (18/06/1931) e Marina Silva (08/02/1958). Ele ainda no PSDB, a se mostrar pró-ecossistema, ela na liderança da Rede Sustentabilidade rememorando sua parceria com Chico Mendes. À vontade mesmo está o compositor e cantor Milton Nascimento a destacar seu emblemático verso: “Todo artista tem de ir aonde o povo está”, na canção “Pelos Bailes da Vida”, de sua parceria com o falecido músico mineiro Fernando Brant (09/10/1946/12/06/2015).

Pela contextualização feita por Torloni e Przewodowski, os dois estão a relembrar a resistência à ditadura militar (1964/1985) nos anos 60/70/80. As imagens da passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro em preto e branco e das gigantescas manifestações das “Diretas Já” a cores são a prova de que a unidade das forças populares é a única saída. A questão é que o momento histórico é outro, mas a florestania, continua mais válida hoje do que há dois anos. Pelo fato de a reflexão chegar em meio à aguda crise político-econômica cujas consequências são imprevisíveis. A sensação da perda do chão persiste. Talvez surja daí o despertar da consciência coletiva pela democracia e não pela imposição extremista.

Cloves Geraldo, é jornalista e cineasta, dirigiu os documentários TerraMãe, O Mestre do Cidadão e Paulão, lider popular. Escreveu novelas infantis,  Os Grilos e Também os Galos não Cantam.


Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/amazonas-despertar-florestania-ameaca/

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