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Documento de identidade

12 de Março de 2018, 9:17 , por Jornal Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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Devo admitir: levo uma vida de gado. E, lançando um olhar retrospectivo, concluo que sempre levei. Das cinco décadas percorridas desde o nascimento, raros e curtos foram os interregnos em que estive apartado do cotidiano do rebanho

Por Elder Vieira – de Brasília:

Não há dia útil em que não me erga às seis horas, arrumo menino, alimento menino, deixo menino na escola e embarco no primeiro de meus tormentos: o busão. Resigno-me a ir nele chacoalhando em pé para não ter que encarar dez a quinze minutos de ladeira até o segundo tormento: o metrô. Luto para nele entrar e nele permanecer com os dois pés no chão – tal é o aperto que, erguer um deles, é ir qual saci até a próxima parada.

Documento de identidade

O metrô é um duplo tormento. Pego dois. Desembarco na Sé para baldear para a linha Leste-Oeste e travar a mesma batalha para entrar e não sufocar. Os corpos vão colados, o sujeito sem ter onde segurar.

E tome espanada de cabelo no nariz, cutucão de bolsa nas costas, pisão no dedão inflamado, cotovelada. E o desodorante, doce que só jujuba, que faz o nariz do cristão encadear uma seqüência incontrolável de espirros? E, no extremo oposto, a falta de desodorante de certas axilas? A gente é capaz de jurar que de algum cano vaza gás.

Depois de ser expelido na estação, acompanho o fluxo de ancas rumo à rampa de saída. Ao fim dela, dou de chofre com o ar empesteado do cheiro de fezes, urina e comida estragada. Gente largada nas calçadas, trapos sujos, olhos baços, assedia as reses que vão para o seu abate diário. Cada uma rumina um não e estuga a marcha para não perder a hora de bater o ponto.

Servidor público

Ponto marcado, inicio a faina de servidor público: montar processos, despachar memorandos, elaborar planilhas, atender contribuintes. No balcão do comércio do outro lado da rua, a garçonete também toca sua rotina, assim como o caixa do banco, o funileiro defronte, a atendente de telemarketing, a enfermeira, o motorista do ônibus que nos trouxe até o metrô e operador de trem que nos conduziu até nosso destino, o mecânico de alguma oficina ou o operário de uma grande fábrica em algum canto do Brasil ou do Orbe.

Dali a oito, 10 horas, deixaremos todos os nossos postos de trabalho para fazer o trajeto inverso, pontuado dos mesmos percalços da vinda, e chegar em casa só o pó para depositar a carcaça exausta na cama.

Antes, porém, cuidar do menino, ouvir suas histórias, aplacar seus medos, afagar suas tristezas, rir das peraltices e do inusitado das ideias, e pô-lo a dormir. Somente então, banhar, mastigar algo e estirar-se no colchão – porque, amanhã, tem mais hoje.

A cabeça pousada no travesseiro, ao fazer o balanço da jornada, será assaltada por renitentes porque irrecusáveis perguntas: Quanto mais de músculos e tendões e ossos será necessário moer todo dia para alimentar um punhado de ricos? E até quando se deixarão moer?

Antes de mergulhar completamente no deserto de seu sono, ouve a uma voz de menino a sussurrar:

– A verdadeira questão é: para quem mesmo temos falado?

Elder Vieira, é escritor, servidor público, militante do PCdoB desde 1983.

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Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/documento-de-identidade/

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