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Eleições municipais e a construção de uma alternativa ao bolsonarismo

20 de Outubro de 2020, 10:04 , por Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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Com período de campanha eleitoral curto, candidatos para as eleições municipais nacionalizam os debates e buscam polarização para conquistar votos. A alternativa deve ser um projeto que saiba explorar as fraquezas do bolsonarismo sem o incentivar.

Por Marco Campanella – de Brasília

Poucas semanas nos distanciam das eleições municipais de 15 de novembro, tempo extremamente curto para que os candidatos a prefeito e a vereador consigam fazer chegar suas mensagens aos eleitores, mas uma eternidade para os que ainda não definiram seu voto e ainda estão longe de colocar isso como prioridade.

O bolsonarismo aposta na naturalização do extermínio em massa provocado pelo coronavírus como não tivesse nenhuma responsabilidade pela catástrofeO bolsonarismo aposta na naturalização do extermínio em massa provocado pelo coronavírus como não tivesse nenhuma responsabilidade pela catástrofe

O fato é que a realização de eleições em tempos de pandemia e sob a regência, ou, melhor, o desconcerto, de um governo como o de Bolsonaro, afastou ainda mais o povo da política e reduziu a importância de um pleito cujo objetivo é a escolha dos representantes que estão mais próximos da população.

O quadro de pulverização de candidaturas e de candidatos, em grande medida incentivado pela obrigatoriedade de lançamento de chapas próprias proporcionais (no caso, de vereadores), também contribui para o recrudescimento desse fenômeno.

A despeito dessa situação fática e a natureza local das eleições, a nacionalização das campanhas é crescente e absolutamente inevitável, principalmente nos grandes centros urbanos, e a polarização acontecerá, inapelavelmente, entre Bolsonaro e seus aliados e os candidatos do campo progressista ou do próprio centro democrático.

Ainda que o debate fique centrado na discussão e solução dos problemas locais, certamente, questões de fundo, subjacentes, emergirão no inconsciente coletivo e poderão fazer a diferença na hora do voto.

Que questões são essas? Precisamente, as que estiveram no centro do debate social ao longo de 2020, a crise sanitária, os problemas econômicos e a defesa da democracia, e como as forças políticas atuaram e se posicionaram frente a elas, especialmente as que se encontram no comando do governo da União.

A postura e o discurso negacionista seguem de vento em popa mesmo diante da tragédia que provocou a morte de mais de 150 mil brasileiros até o momento. A racionalidade pueril conforta as vítimas com a inevitabilidade do genocídio, mesmo quando a realidade brasileira é cotejada com as de outros países, de todos os continentes.

O bolsonarismo aposta na naturalização do extermínio em massa provocado pelo coronavírus como não tivesse nenhuma responsabilidade pela catástrofe, afinal, trata-se de um fenômeno que aconteceu de fora para dentro, provocado por mais uma conspiração comunista arquitetada pela China.

A economia, por sua vez, de acordo com o porta-voz número 1 do bolsonarismo sobre a matéria, Paulo Guedes, vai muito bem, obrigado e só não está melhor por causa da pandemia e das ações de distanciamento social que governadores irresponsáveis adotaram durante a crise sanitária. Agora, sob o manto protetor do teto de gastos, a âncora que jogou por terra os investimentos públicos, o todo-poderoso ministro profetiza e articula despudoradamente a alienação das joias da coroa ao capital forâneo como a tábua de salvação de uma economia que está em seu pior momento.

Moçada de Chicago

Está em V, segundo o chefe da moçada de Chicago que resistiu, com o respaldo de Bolsonaro, enquanto pode, ao auxílio emergencial de R$ 600 e sabotou, deliberadamente, as ações de apoio aos estados e municípios, assim como ao setor produtivo nacional, especialmente às pequenas e médias empresas, impossibilitado de faturar durante a crise, o que gerou uma onda irrefreável de desemprego, além da compressão da renda e o incitamento à precarização do trabalho, enquanto os bancos e rentistas em geral continuaram vitaminando seus bolsos.

A democracia também sofreu duros golpes e ameaças em 2020. A horda bolsonarista, com as bênçãos do chefe-capitão, chegou ao limite da histeria e clamou por uma “intervenção militar” contra as instituições republicanas, só refreada pela conformação de uma ampla frente política e pelo juízo ainda predominante nas tropas e em seus escalões superiores, o que levou Bolsonaro a um forçado recuo estratégico e à prática da cooptação do que existe de mais fisiológico e venal na política.

Afinal, é preciso escudar-se de eventuais dissabores no terreno parlamentar e blindar a entourage política e familiar que foge da Justiça como o diabo foge da cruz, mesmo que ao custo da frustração dos que viam no “mito” a figura capaz de erradicar, definitivamente, a corrupção no país, como ele próprio anunciou ter conseguido, oferecendo como troféu o sepultamento da Operação Lava-Jato, por ter se tornado inócua, sob os aplausos entusiásticos e cínicos de arautos da moralidade, mais sujos que ninhos de rato.

Grande eleitorado

É verdade que, ao grande eleitorado, ainda não foi possível identificar uma alternativa clara ao bolsonarismo, que o petismo buscou, sem sucesso, alcançar em 2018, mas, o tempo e a realidade vão demonstrando que o PT, hoje mais fragilizado, dificilmente conseguirá a façanha que tentou há dois anos atrás, e cuja confrontação acabou por resultar na ascensão do protofascismo representado por Bolsonaro.

A interdependência entre essas duas correntes políticas, ainda que os discursos sejam dissonantes, é a maior prova de que há uma avenida de possibilidades para a construção de uma alternativa real ao projeto ultraliberal e de viés fascista que ocupa, atualmente, o poder central do país.

As eleições municipais e seus resultados poderão começar a desenhar, para 2022 ou na possibilidade de uma ruptura antes do pleito nacional, uma nova opção de poder, comprometida com a democracia política, a justiça social e o desenvolvimento soberano do país, a partir de um programa mínimo de salvação nacional frente ao imenso e clamoroso desafio de reconstrução que se colocará diante dos escombros, inexoravelmente, herdados de Bolsonaro e o bolsonarismo.

 

Marco Campanella, é jornalista.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil


Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/eleicoes-municipais-construcao-alternativa-bolsonarismo/

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