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Morre ex-presidente do Mali, IBK, sem ver a paz reinar em seu país

16 de Janeiro de 2022, 14:50 , por Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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Keita – ou ‘IBK’, como era conhecido – tinha 76 anos e subiu ao poder em 2013 na sequência de eleições nas quais superou mais de duas dezenas de candidatos e recebeu 77% dos votos. Em agosto de 2020, foi deposto por um golpe militar e anunciou, algumas horas depois, a sua demissão.

Por Redação, com agências internacionais – de Bamako

Ex-presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, que liderou o país desde 2013 até sua destituição, em 2020, morreu, este domingo, aos 76 anos, nesta capital. “O Presidente IBK morreu esta manhã às 09:00 GMT na sua casa” em Bamako, disse à agência francesa de notícias AFP um de seus familiares.

Ibrahim Boubacar Keita, MaliIbrahim Boubacar Keita, IBK, recebeu as últimas homenagens após sua morte, neste domingo

A notícia foi também já confirmada à agência inglesa de notícias Reuters pelo antigo ministro da justiça do governo de Boubacar Keita. A causa da morte ainda não foi divulgada. No final do mês de setembro, os médicos do presidente deposto solicitaram que Boubacar Keita viajasse para os Emirados Árabes Unidos para receber tratamento médico, após um curto AVC. Keita regressou ao país no final de outubro.

Keita – ou ‘IBK’, como era conhecido – tinha 76 anos e subiu ao poder em 2013 na sequência de eleições nas quais superou mais de duas dezenas de candidatos e recebeu 77% dos votos. Em agosto de 2020, foi deposto por um golpe militar e anunciou, algumas horas depois, a sua demissão e a de todo o Governo numa declaração transmitida pela televisão nacional.

Paz distante

“Sonhava com a paz, mas não conseguiu torná-la uma realidade no seu país. O presidente deposto do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, faleceu sem ver o seu país livre da insegurança e do medo. Amado e desprezado, respeitado e depois derrubado – o antigo presidente do Mali IBK foi em tempos a esperança para a paz no seu país. IBK sonhava em tornar o Mali, devastado pela crise, um país seguro”, escreveu a agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW).

— Temos de apostar na paz. O povo do norte, os jovens, os mais velhos – todos querem a paz — disse ele à DW em 2019. O que não viria a acontecer durante o governo de IBK. Em agosto de 2019, os militares forçaram-no a abandonar o poder.

Estudos em França

Keita nasceu a 29 de Janeiro de 1945, na cidade de Koutiala, conhecida pela produção algodoeira. Filho de um funcionário público, estudou no Liceu Askia-Mohamed em Bamako e depois na Universidade de Sorbonne em Paris, onde se formou em História, Ciência Política e Relações Internacionais. Após os estudos, trabalhou como investigador no Centro Nacional de Investigação Científica, na França.

Aos 41 anos, IBK regressou ao Mali, onde trabalhou como consultor técnico para o Fundo Europeu de Desenvolvimento e lançou o primeiro programa de desenvolvimento para as atividades de ajuda da União Europeia no Mali. Tornou-se também o representante da organização ‘Terre des hommes’ para o Mali, Burkina Faso e Níger.

Em 1990, juntamente com outros opositores do ditador Moussa Traoré, fundou a Aliança para a Democracia no Mali (ADEMA), historicamente o maior partido do Mali. Keita travou amizade com Alpha Oumar Konaré, que foi eleito presidente depois do governo de Traoré ter sido derrubado num golpe militar em 1991.

 Konaré promoveu-o primeiro a embaixador na Costa do Marfim, depois a ministro dos Negócios Estrangeiros e finalmente a primeiro-ministro. Entre 1994 e 2000, Keita reprimiu uma série de greves, construindo uma reputação de político forte. No entanto, e devido a desacordos no seio da ADEMA, Keita demitiu-se do cargo de primeiro-ministro em fevereiro de 2000, e mais tarde, em outubro, abandonou a liderança do partido.

Rebeldes

Fundou, então, a União para o Mali (RPM, na sigla em francês), tendo ficado em terceiro lugar nas eleições presidenciais de 2002, cujo vencedor foi Amadou Toumani Touré. Em abril de 2007 voltou a concorrer às eleições e a perder. Cinco anos mais tarde, em 2012, um motim organizado por soldados, que acusaram o presidente Touré de incompetência na luta contra os rebeldes tuaregues e grupos armados no norte do país, forçou a queda do governo.

Touré fugiu do país, tendo anunciado a sua demissão em abril de modo a permitir a realização de novas eleições. Keita, então, tirou partido da situação tendo a sua carreira atingido o pico em 2013 quando se tornou presidente. Na cerimônia de posse, prometeu restaurar a reputação do Mali como modelo de democracia na África Ocidental e declarou “tolerância zero” à corrupção no país.

— Quero reconciliar corações e mentes, restaurar a verdadeira fraternidade entre nós para que todos os povos possam desempenhar harmoniosamente o seu papel na sinfonia nacional — disse à época.

Um dos maiores desafios do seu primeiro mandato como presidente foi a situação da segurança no norte do país. Apesar do apoio das tropas francesas e internacionais contra os rebeldes e islamistas, o mandato de Keita ficou marcado pela devastação, mortes e abusos das suas próprias forças.

Esperança

Ainda assim, Boubacar Keita foi reeleito para um segundo mandato de cinco anos em 2018, tendo derrotado, no segundo turno, o antigo ministro das finanças Soumaïla Cissé, que contestou os resultados eleitorais.

Keita entrou no seu segundo mandato com o objetivo de finalmente trazer estabilidade ao país. No entanto, isso não aconteceu. A situação de segurança no Mali continuou a deteriorar-se apesar do destacamento de forças internacionais para o país. Internamente, no entanto, o apoio ao seu governo começou a decrescer.

Há muito que IBK fugia às críticas de figuras da oposição como Cissé e confiava demasiado na sua reputação internacional como um baluarte contra a ameaça dos grupos armados.  Mas os protestos começaram a intensificar-se em Junho. Milhares de apoiadores da oposição manifestaram-se nas ruas de Bamako devido ao fracasso de Keita em controlar a insurreição jihadista no norte do país.

Em 18 de agosto de 2020, a situação agravou-se: as forças militares organizaram um golpe de Estado e assumiram o controlo do país. IBK demitiu-se nessa mesma noite numa declaração na televisão nacional.

— Se hoje certos elementos das nossas Forças Armadas querem que isso acabe através da sua intervenção, eu realmente tenho escolha? Não tenho outra escolha senão submeter-me, porque não quero que seja derramado sangue para me manter (no cargo) — afirmou.

Homenagens

Após a sua libertação, o presidente deposto viajou para os Emirados Árabes Unidos, onde esteve durante algumas semanas a receber tratamento médico, tendo voltado no final de outubro.

— IBK foi um homem amado em seu país. Um homem bom que nunca traiu o Mali e fez tudo o que podia para que tudo desse certo — resumiu uma mulher que foi à residência de Keita, prestar seus respeito.

Ibrahim Boubacar Keita deixa quatro filhos da sua mulher, Aminata Maiga.


Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/morre-ex-presidente-mali-ibk-sem-ver-paz-reinar-pais/

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