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O Apóllo Natali que nós conhecemos – 4

18 de Agosto de 2018, 15:38 , por Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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Concluímos aqui a homenagem ao nosso falecido colega jornalista Apóllo Natali,  primeiro redator da Agência Estado,  colunista deste Direto da Redação, com o texto preparado por seu amigo Celso Lungaretti.
Por Celso Lungaretti, de São Paulo:
Apóllo Natali estará sempre na memória do Direto da Redação

Sua imaginação voava alto. É uma graça, por exemplo, a crônica na qual Apóllo Natali propôs uma revolução diferente para o Brasil, uma revolução de costumes políticos, cujo hino fosse… La Cucaracha

Sua imaginação voava alto. É uma graça, p. ex., a crônica na qual ele propôs uma revolução diferente para o Brasil, uma revolução de costumes políticos, cujo hino fosse… La Cucaracha

Assim como o discurso que ele se imaginou proferindo no STF, com direito a puxão nas orelhas dos meritíssimos:

Ouçam o lamento de um povo, supremos ilibados juristas, o lamento de todo um povo, e derrubem já o foro privilegiado

Era uma das guerras santas do Apollo, que queria ver a igualdade de todos perante a lei prevalecer sobre o corporativismo dos altos serviçais da classe dominante.

Outra, a defesa da necessidade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, que lhe inspirou candentes catilinárias. E não só, pois numa delas  o Apollo revelou:

“Desde a traumatizante decisão do STF que derrubou a  obrigatoriedade, venho manifestando em prosa e verso meu tormento com aquela postura cavernosa do tribunal maior do país. 

Meus mais aflitivos lamentos em defesa da obrigatoriedade do diploma de jornalismo traduziram-se no envio de mais de 600 cartas, a cada um dos 80 senadores, 520 deputados federais e às Mesas Diretoras do Senado e da Câmara.

Ele acreditava que mandar uma carta pelo correio impactava mais do que o envio de e-mails. Chegou até a escrever uma crônica  em louvor às cartas manuscritas de outrora.

Botava tanta fé na força de suas palavras datilografadas na folha em branco, com assinatura no final, que nunca tive coragem de dizer-lhe que a quase totalidade dos parlamentares, juízes e membros do Executivo delega a subalternos a abertura da correspondência. 

Estes raramente colocam na mesa do chefe as mensagens esperançosas ou aflitas de cidadãos para eles desconhecidos. Dão mais importância a um vereador de Santa Cruz de Minas (o menor município do Brasil) do que ao autor de um texto magistral como os do Apollo…

Muitas cartas ele remeteu na década passada, esperando conseguir que fosse rapidamente reconhecida minha condição de perseguido político durante a ditadura militar; e na década atual, para que parassem de boicotar, com manobras protelatórias, o recebimento de uma indenização retroativa que o ministro da Justiça me concedera (deveria ter sido paga em 60 dias e, 11 anos e meio depois, ainda não o foi). 

Era amarga a decepção dele quando, a mando de ministros e até da presidente da República, algum burocrata insensível respondia com desconversa, saindo pela tangente e até fingindo não haver entendido direito o que estava bem claro na mensagem do Apollo. Eu, que dessa gente só esperava o pior, absorvia facilmente o golpe. Ele, que sempre esperava o melhor das pessoas, não se conformava ao ver-lhes a pior face: a verdadeira.

Também me comovia seu desencanto com os rumos do jornalismo, a ponto de haver dito certa vez que não lamentara tanto lhe terem impossibilitado a readmissão na Agência Estado após a morte do pai, pois não se identificava com a nova realidade das redações (em que os ganhos tecnológicos chegam junto com a perda do idealismo e o embotamento da solidariedade para com os indefesos). 

Eis um trecho da pungente crônica na qual lamentou o fim de uma de suas mais caras ilusões:

Eu acreditava ter a imprensa o poder de transformar a realidade. Tal era minha ingenuidade!

Oh, que saudade da minha infância querida e ingênua, do meu tempo das reportagens, editorias e fechamento de páginas na redação, em que me sentia um rei ao fazer o feijão com arroz que o patrão mandava. 

Seis décadas depois, a constatação amarga e definitiva de que a humanidade (leia-se políticos) não presta. Jamais fui apresentado a nenhum dos dois honestos. É a confirmação acadêmica de que o exercício do jornalismo não muda a realidade. Dá vontade de desistir. Eu juro!

Muito eu ainda poderia escrever sobre o grande amigo e o jornalista por vocação e teimosia, que tantas barreiras transpôs para chegar aonde sonhara, sem, contudo, jamais obter reconhecimento à altura do seu enorme talento.

Mas, nas redações e na vida, tudo tem um fim. E eu temo que, se alongasse este tributo, haveria cada vez menos leitores a acompanhá-lo, salvo nossos contemporâneos, os idosos.


Pois o Apollo teve uma grandeza característica de outros tempos, quando os homens cordiais eram admirados e o mundo inteiro admirava nosso país; hoje, no Brasil das balas perdidas e das pessoas perdendo a cabeça por superfluidades, os Narcisos engendrados pela sociedade de consumo cada vez mais preferem viver só o presente, sem compromisso com o futuro de sua gente e achando tedioso o passado.

A palavra final só poderia pertencer ao Apollo. Fui buscá-la numa crônica simplesmente maravilhosa
, em que ele fala de “uma florzinha roxinha meio azulada grudada no chão do meu portão” e de “uma passarinha mãezinha que recolhe migalhas de pão no chão e deposita no bico do filhote”. Eis os parágrafos finais:

Florzinha, pardalzinho, ouçam, eu também entro e saio da minha casa todo santo dia, e vai chegar um momento em que vou entrar e não vou voltar mais. A mando de um poder maior, chega também para mim o tempo de ir embora. Saio carregado por quatro mãos agarradas àquelas alças douradas, sagradas, que sustentam corpos sem vida.

Mas não vai terminar nunca a festa de cores e de vida intensa na companhia desses meus amiguinhos.

Quando eles voltarem amanhã e tornarem a encher de alegria meu velho coração, vou correndo fazer um pedido aos dois.

Pedir que supliquem ao poder maior para deixar-me encontrar com eles no outro lado da vida, em algum portão, alguma parede velha aconchegando uma flor roxinha-azulada-princesinha, alguma escada encurvada para mamãe passarinho subir…

Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial). Tem um ativo blog com esse mesmo título.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.


Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/o-apollo-natali-que-nos-conhecemos-4/

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