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Quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro

20 de Outubro de 2018, 10:24 , por Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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Ancorados na maior crise do capitalismo, iniciada nos Estados Unidos em 2008, cujos reflexos até hoje são sentidos em diversos países, especialmente nos periféricos (como é o caso brasileiro), os porta vozes do conservadorismo têm brandido o receituário neoliberal.

 

Por Maria Fernanda Arruda – do Rio de Janeiro

 

Os ancianos conceitos de direita e esquerda voltaram à baila no Brasil, notadamente com o acirramento do processo eleitoral para a presidência da república. No fluxo da onda conservadora que está varrendo boa parte do chamado mundo ocidental, esses conceitos apresentam uma nova roupagem.

Maria Fernanda Arruda escreve para o Correio do BrasilMaria Fernanda Arruda escreve para o Correio do Brasil

Ancorados na maior crise do capitalismo, iniciada nos Estados Unidos em 2008, cujos reflexos até hoje são sentidos em diversos países, especialmente nos periféricos (como é o caso brasileiro), os porta vozes do conservadorismo têm brandido o receituário neoliberal.

Vespeiro

No entanto, por trás dessa máscara, dessa falsa dicotomia esquerda x direita, esconde-se o comportamento predador que os detentores do poder sempre exercem para preservar sua posição de mando na sociedade.

Na verdade, o que está por trás dessa disputa é a velha busca pela retomada de franjas de poder que foram perdidas pelos condôminos do Estado Patrimonialista, em decorrência de incipientes experiências de governos social democrata e trabalhista implementadas nos últimos anos em alguns países.

O exemplo mais gritante desse movimento ocorreu no Brasil a partir do momento em que Dilma Rousseff mexeu, a partir de 2012, no vespeiro do sacrossanto lucro do sistema financeiro, ao tentar reduzir o pornográfico spread bancário. Para isso ela tentou reduzir os juros praticados pelos bancos estatais (especialmente o Banco do Brasil, BNB e a Caixa).

Cortina de fumaça

Nunca foi perdoada. Em que pese sua inabilidade política também não ter ajudado muito, associada ao novo cenário institucional de combate à corrupção aprovado por ela própria e Lula (lei de acesso à informação, lei de transparência, lei de responsabilização da pessoa jurídica, atualização da lei de lavagem de dinheiro, lei de combate ao crime organizado e da delação premiada), que viabilizou as bem vindas e seletivas operações de combate à corrupção.

Assim, todo o primitivismo em termos de costumes do candidato Bolsonaro (mulheres, negros, sem-terra, LGBT, índios, meio ambiente, direitos humanos, armamentismo etc.) é apenas uma cortina de fumaça que os donos do poder estão utilizando para retomar o que nos últimos anos foi duramente conquistado pela parcela mais pobre da população (reajuste real do salário mínimo, acesso ao ensino superior, bolsa família, reforma agrária, combate ao desmatamento, reconhecimento de quilombolas etc.).

Altos juros

Uma parte desse serviço sujo já foi feito por Temer, com a reforma trabalhista e, especialmente, com a Emenda Constitucional do Teto de Gastos, que congelou investimentos nas áreas de saúde, educação e assistência social. Mas preservou a integralidade do pagamento dos juros e serviços da dívida pública. Não que se deva dar o calote na dívida pública, mas sim que todos devem participar dos esforços para ultrapassar a crise, e não apenas os mais necessitados.

Mas com Bolsonaro no poder o que a elite restabelecerá mesmo – e é o que está em jogo – será o comando dos financiamentos dos bancos públicos (eles não são contra se criar os chamados “campeões nacionais”, como fez o BNDES, mas querem é que eles indiquem quais serão os amigos escolhidos), a manutenção e até o incremento dos altos juros sobre a dívida pública e o consumo, e, para custear esses privilégios (e não assustar o “mercado externo”), o corte direto (bolsa família, financiamento estudantil, seguro desemprego, saúde etc.) e indireto de benefícios sociais (congelamento do salário mínimo, seguro desemprego e arrocho salarial).

Então, o Bolsonaro se divertirá no poder com as questões de costumes, provavelmente tornando ainda mais rígidas as regras contra as brigas de galo e os cassinos, e a Casa Grande utilizará ad nauseam o seu mantra “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Maria Fernanda Arruda é escritora e colunista do Correio do Brasil.


Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/quando-farinha-pouca-meu-pirao-primeiro/

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