Ir para o conteúdo

Correio do Brasil

Voltar a CdB
Tela cheia Sugerir um artigo

Viagem ao Vietnã, economia aberta e crescimento de 7%

11 de Junho de 2018, 19:45 , por Jornal Correio do Brasil - | No one following this article yet.
Visualizado 139 vezes

O que é o Vietnã comunista de hoje com sua economia aberta ao capital privado e aos investimentos estrangeiros, responsáveis pelo crescimento anual de 7% ao ano? A segunda geração depois da paz com os americanos não se lembra mais da guerra, usa celulares, está nas redes sociais, quer vencer na vida e vai ao trabalho de moto e scooter. Fábricas de confecções para consumo interno e exportação, introdução da indústria de laticínios, cultura privada e artesanal de chá verde, turismo de massa em Ha Long Bay, patrimônio mundial pela Unesco, exploração do carvão e criação de ostras para o cultivo de pérolas, convivem com o desejo de um desenvolvimento sustentável. Restos da guerra nas regiões infectadas com o agente laranja dioxina, cujas sequelas se transmitem dos avós aos netos.

Por Rui Martins, de Hanói, Vietnã:

As bicicletas sumiram, agora são motos que enchem as ruas

Da janela do hotel, onde acabava de chegar, uma surpresa: lá embaixo na avenida, as motocicletas e scooters tomavam a maior parte do espaço transitável. Desapareceram as bicicletas que, em 1994, formavam blocos compactos nas ruas e avenidas, entre as quais eu mesmo pedalava graças a um colega da Agência France Presse, de quem recebera emprestada uma velha bicicleta padrão, sem marcha.

O Vietnã de hoje, 42 anos depois do fim da guerra contra os americanos e com a reunificação do país, vive a euforia do crescimento anual de 6,5 a 7% do PIB, nos últimos 20 anos. A população de 95 milhões de habitantes tem uma maioria de jovens, entre 25 e 35 anos, desejosa de progredir no estilo ocidental.

A profusão de motos de pequena cilindrada revela a consequência da falta de uma infraestrutura em termos de transportes coletivos, como o metrô, e ainda a impossibilidade para a maioria da população de comprar um carro. Duas linhas de metrô estão em construção pelos chineses, enquanto a Alstom francesa deverá construir a terceira linha. Depois será necessário se convencer o povo a trocar o transporte individual, poluente e barulhento mas barato, pelo transporte coletivo.

Outro aspecto revelador do crescimento desse novo Vietnã é o da telefonia que se expandiu para as zonas rurais, onde 68% dos utilizadores utilizam smartphones. O acesso às novas tecnologias permite que 67% dessa população utilize a Internet e 60% sejam membros de redes sociais.

O vice-primeiro ministro Vu Dúc Dam explica como o Vietnã entrou nessa espiral do desenvolvimento para compensar os anos perdidos com a guerra – é a economia aberta que permite a presença de investimentos estrangeiros de 120 países estrangeiros num valor de 310 bilhões de dólares. Essa abertura econômica num país comunista de partido único se assemelha à dos chineses, mas qualquer referência a comparações com os chineses é sempre evitada.

A abertura para a participação privada começou lentamente na agricultura, com a reforma chamada doi moi, permitindo a posse de parcelas de terras por 20 anos, logo depois aumentados para 50 e 90 anos. Em pouco tempo, a descoletivização da produção agrícola levou ao fim do hábito da produção autárcica do “produzir para comer” para uma visão mercantil, a de “produzir para vender”.

O vice-primeiro-ministro Vu Dúc Dam

Depois da queda da URSS, a decisão foi a de se prosseguir com reformas nos diversos setores econômicos, mesmo com os escândalos de corrupção na passagem do século. A sequência foi uma gradativa desestatização de numerosas empresas. “Há 30 anos – conta o vice-primeiro ministro Vu Duc Dam – nossa economia era cooperativa e estatal. Havia 11 mil empresas estatais que hoje se reduziram a apenas 700, enquanto se criaram 65 mil empresas privadas. Continuamos a reestruturar as empresas estatais existentes, porém só restarão aquelas onde o setor privado não pode participar”.

“No passado, nossa economia era essencialmente estatal e pouco aberta ao estrangeiro, diz Vu Duc Dam. Hoje, a abertura significa que o Vietnã faz parte da economia mundial. Na prática, isso quer dizer que adotamos uma política de leis e regulamentos que permite assegurar não haver discriminação entre economia nacional e economia estrangeira nos negócios econômicos. Em certos critérios, os investidores estrangeiros se beneficiam de vantagens não existentes para os próprios vietnamitas. Agora a população pode comprar legumes, frutas e carne vindos da Europa e de outros países numa completa abertura”.

Entretanto, o próprio Vu Duc Dam reconhece haver muito a fazer em termos de infraestruturas, como redes de comunicação e de eletricidade, uma grande parte precisando ser modernizada. Para atender ao aumento do consumo de energia, “o governo deseja que seja limpa, ecológia. A população não quer energia nuclear, vamos desenvolver a solar, porém isso exige muitos recursos”. Outro aspecto é o da formação da mão de obra, diz Vu Duc Dam. “Há três anos, o Partido Comunista adotou uma resolução sobre educação e formação profissional propondo uma reforma integral e global no sistema atual, inclusive no ensino universitário. Queremos chegar aos padrões internacionais, obter autonomia acadêmica, valorizar o saber de todos e garantir uma melhor educação”

OS EFEITOS DA GUERRA

A guerra já é algo distante para a segunda geração de vietnamitas que, nos centros urbanos como Hanoi, procura acompanhar a moda e quer se preparar para uma vida melhor. Não escapa ao observador, as jovens dirigindo seus scooters com sapatos de saltos altos. Por isso, o governo se preocupa em preservar a memória, mantendo mesmo nas aldeias distantes monumentos, museus, comemorações louvando o heroísmo das gerações passadas. “Muitos jovens desconheciam, diz o vice-primeiro-ministro, que o número de bombas lançadas sobre o Vietnâ foi quatro vezes maior que o utilizado na Segunda Guerra Mundial, além do agente laranja dioxina lançado sobre as florestas.”

E acentua que os vietnamitas “não esquecem o passado mas não guardam rancor, abrindo os braços para a cooperação com todos os países inclusive com os que eram inimigos naquela época. Queremos a paz não só para o Vietnã como para todo mundo”.

Em Hanói, um desses centros de memória é a antiga prisão francesa Maison Centrale, também conhecida como Hoa Lo ou “Hilton de Hanoi”, na qual eram presos e torturados os líderes vietnamitas que lutavam contra os colonizadores franceses pela independência, mas na qual acabaram ficando presos os americanos, geralmente pilotos de aviões e helicópteros derrubados pelo vietcongs, como o senador e ex-candidato à presidência dos EUA, John McCain.

Principalmente em dezembro de 1972, quando os EUA tentaram um ataque surpresa, foram derrubados 23 aviões americanos B52 e 2 F11. Outro prisioneiro foi Douglas Pete Peterson que, mais tarde se tornou embaixador dos EUA no Vietnã.

Durante nossa visita à prisão Hoa Lo, estava sendo inaugurada uma exposição de fotos, Reviver a Memória, sobre os ataques americanos do 12 ao 30 de dezembro de 1972, mostrando os muitos pilotos feitos prisioneiros.

A inauguração teve a presença dos americanos Robert Chenowet, metralhador de helicóptero, preso apenas alguns meses, e Thomas Eugene Wilber, filho do piloto capitão Walter Eugene Wilber, que costuma ir com frequência ao Vietnam. Seu pai ficou preso 4 anos e 8 meses e de retorno aos EUA afirmou nunca ter sido torturado e ter tido alimentação normal numa época de guerra. Queria retornar ao Vietnã, mas morreu sem ter realizado esse desejo, que o filho concretizou.

Esses dois pilotos ao regressarem aos EUA, em 1973, ao serem libertados pelo acordo de retirada das tropas americanas com libertação de prisioneiros se uniram ao movimento contra a guerra e foram alvo de perseguições. Devido a pressões, um dos pilotos libertados, na mesma época, se suicidou logo depois de chegar aos EUA.

VÍTIMAS DO AGENTE LARANJA DIOXINA

Atualmente, 42 anos depois da guerra, existem 3 milhões de vietnamitas sofrendo das consequências das bombas desfolhantes lançadas pelos aviões americanos sobre as florestas, num total de 70 milhões de litros de agente Laranja, reforçado com TCDD dioxina.

De acordo com o presidente da Associação em Favor das Vítimas do Agente Laranja Dioxina, VAVA, um dos principais fabricantes e fornecedores era a empresa Montsanto que, até hoje não tentou indenizar as vítimas civis. Um processo impetrado nos Estados Unidos acabou indeferido pela justiça americana. Porém, em 1989, os EUA concederam 54 milhões de dólares de ajuda às vítimas.

As consequências do envenenamento com esse pesticida não eram só visíveis fisicamente, mas causavam igualmente efeitos neurológicos e se transmitiram aos filhos e mesmo netos dos contaminados, provocando abortos, deformações físicas e deficiências mentais em centenas de milhares de crianças.

As regiões bombardeadas continuam envenenadas e a limpeza do aeroporto de Danang custou 43 milhões de dólares, financiados pelos EUA. Foram feitas escavações de até quatro metros de profundidade para retirar 73 mil metros cúbicos de terra contaminada, submetida depois a altas temperaturas para desaparecer a dioxina nela infiltrada.

Encontramos em Hanói, o soldado sexagenário Nguyên Van Ninh, com sequelas nas pernas e padecendo de câncer, com sua esposa Nguyên Thi Hoàng, cuja filha apresenta estado de deficiência mental. Um neto nasceu sem os braços, outro sem um testículo, enquanto a deficiência mental não lhe permite acompanhar as aulas na escola. A atual lei vietnamita não beneficia os netos das vítimas com deficiências. A família Nguyên recebe cerca de 200 dólares mensais para viver.

TURISMO DE MASSA

Rui Martins em Ha Long Bay, ponto turístico vietnamita

Doze milhões de turistas, em grande parte chineses, visitam Ha Long Bay, com seus arquipélagos rochosos. Essa mesma região é rica em carvão, exploração que o governo mantém, em conflito com as intenções de um desenvolvimento durável. Quase artesanal, uma empresa cultiva ostras para nelas provocar o aparecimento de pérolas.

Na província de Thai Nguyen, a fábrica TNG é uma demonstração do desenvolvimento no fabrico de roupas e confecções, com suas centenas de operárias e operários costurando roupas destinadas a cadeias de lojas europeias como C&A.

Os operários trabalham 48 horas semanais e ganham 300 dólares mensais, podendo fazer mais 12 horas extras.

Especializada em produtos lácteos, Vinamilk ,com participação do Credit Suisse, tenta levar aos vietnamitas o consumo do leite e seus derivados como iogurtes e uma linha de leite maternizado. Para conquistar e mudar o hábito alimentar dos vietnamitas, a empresa emprega a mesma tática da Coca Cola dos anos 50: distribuição gratuita de leite nas escolas.

A LIBERDADE E O COLETIVO

Sobre notícias dando conta de prisões de blogueiros e dissidentes, num país de partido único, onde 22 mil jornalistas pertencem a associações ligadas ao governo, disse o primeiro vice-presidente:

“Hoje os vietnamitas estão dispostos a falar daquilo que pensam, pois podem se exprimir. Para guardar esse contato com a opinião pública temos diversas maneiras, entre as quais a associação de jornalistas. No bar ou café, os vietnamitas se exprimem livremente.

Na lei vietnamita, é proibido causar prejuízos aos interesses do Estado. Algumas pessoas podem não entender isso exatamente. Mas para nós o interesse coletivo de todo o povo é muito importante.”

SOBRE A CORÉIA

“O Vietnã espera que todo conflito seja resolvido pela via pacífica com base no Direito Internacional. O Vietnã respeita todas as decisões da ONU.”

DIREITO DAS MULHERES

“A igualdade entre os sexos é um objetivo constitucional fixado desde a declaração de independência do país. Cada ano temos objetivos bem precisos para acionar a igualdade entre os sexos. Por exemplo: a proibição total de escolher o sexo do bebê, o acesso à educação para as meninas mesmo nos lugares mais afastados.

O código de trabalho prevê todo um dispositivo de proteção para o direito das mulheres, mesmo na direção do Partido e do país. Cada congresso do PC fixa um objetivo e proporção de mulheres, obrigatório. Quando existem candidaturas para um posto de responsabilidade a preencher, se todos os pontos dos candidatos são iguais, damos prioridade à mulher.

Temos a presidente da Assembléia Nacional e a vice-presidente que são mulheres.”

Vu Duc Dam, vice-primeiro-ministro.

Por Rui Martinscorrespondente do Correio do Brasil.

Foi a Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça (APES), que reúne correspondentes de numerosos países em Genebra, quem organizou a viagem ao Vietnã, da qual participou Rui Martins, em colaboração com a Associação dos Jornalistas Vietnamitas. Durante uma semana, os jornalistas visitaram Hanói e outras cidades. Neste mês de junho, serão os jornalistas vietnamitas que virão visitar a Suíça.

O post Viagem ao Vietnã, economia aberta e crescimento de 7% apareceu primeiro em Jornal Correio do Brasil.


Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/viagem-ao-vietna-economia-aberta-e-crescimento-de-7/

Rede Correio do Brasil

Mais Notícias