Venezuela - XIII
24 de Agosto de 2012, 21:00 - sem comentários aindaIntegração regional é principal aposta internacional de Chávez
Adesão ao Mercosul, desde sua primeira eleição, foi traçada como objetivo prioritário para presidente venezuelano
Logo que chegou de viagem ao Brasil no começo de agosto, onde formalizou a entrada da Venezuela no Mercosul (Mercado Comum do Sul), Hugo Chávez anunciou a intenção de várias empresas internacionais de se instalarem em seu país. Para o presidente, são os primeiros resultados de um esforço de adesão que, segundo seus relatos, começou antes de sua posse em 1999.
Chávez reuniu sua equipe, ainda na base aérea de Maiquetia, para anunciar que a norte-americana GM (General Motors), as japonesas Yamaha e Samsung e a francesa Renault pretendiam abrir plantas no país. Lembrou das conversas que teve, logo após sua primeira eleição, com os ex-presidentes Carlos Menem, da Argentina, e Fernando Henrique Cardoso, do Brasil. “Eu disse que desejava ver a Venezuela filiada ao bloco”, declarou. “Mas a resposta foi fria. Somente com as vitórias de Lula e Kirchner criou-se uma correlação de forças a favor da integração e de mudanças.”
Wilson Dias/ABr (31/07/2012)Chávez reuniu sua equipe, ainda na base aérea de Maiquetia, para anunciar que a norte-americana GM (General Motors), as japonesas Yamaha e Samsung e a francesa Renault pretendiam abrir plantas no país. Lembrou das conversas que teve, logo após sua primeira eleição, com os ex-presidentes Carlos Menem, da Argentina, e Fernando Henrique Cardoso, do Brasil. “Eu disse que desejava ver a Venezuela filiada ao bloco”, declarou. “Mas a resposta foi fria. Somente com as vitórias de Lula e Kirchner criou-se uma correlação de forças a favor da integração e de mudanças.”

Chávez em Brasília ao lado dos presidentes do Brasil, Dilma Roussef, Uruguai, José Mujica e Argentina, Cristina Kirchner
O primeiro protocolo de candidatura ao Mercosul foi assinado em 2006, mas houve forte oposição do parlamento brasileiro. A aprovação veio apenas em 2009, após muita negociação entre governistas e oposição no Senado. Argentina e Uruguai já haviam superado essa etapa. A aceitação da Venezuela, porém, foi barrada por deputados e senadores do Paraguai, apesar de apoiada pelo presidente Fernando Lugo. Como todas as decisões no organismo regional são tomadas por consenso, instalou-se um impasse.
A derrubada do mandatário paraguaio, por ironia, acabou facilitando o processo. Suspensos por quebra da cláusula democrática, os guaranis perderam provisoriamente o direito de voto e veto no Mercosul. Bastou o consenso dos demais três integrantes para a adesão venezuelana ser chancelada.
“Não éramos membros do Mercosul pela oposição sistemática do Congresso paraguaio”, ressalta Maximilien Arvelaiz, embaixador venezuelano no Brasil. “Os parlamentares que boicotavam nossa adesão são os mesmo que deram o golpe contra Lugo.” Cumprida essa etapa, no entanto, novos problemas começam a surgir.
A Fedecâmaras (Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela), a Conindustria (Confederação Venezuelana de Industriais), a Favenpa (Câmara dos Fabricantes Venezuelanos de Produtos Automotivos), algumas das principais entidades empresariais, de perfil oposicionista, mostram-se ressabiadas com a novidade. Os argumentos são parecidos: todos reclamam que as empresas nacionais, com exceção da PDVSA, não têm competitividade, encontrarão dificuldades para competir no Mercosul e perderão ainda mais espaço no mercado local.
O governo prometeu criar um fundo para melhorar a capacidade de produção, com aporte inicial de 500 milhões de dólares. A Venezuela anunciou sua primeira exportação dentro do regime do Mercosul, no último dia 8 de agosto. Trata-se de uma carga de 82 mil toneladas de vasilhames de vidro destinadas ao Brasil e Argentina, fabricados pela estatal Venvidros (Empresa Venezuelana de Vidros).
Mudança
O ingresso no Mercosul, contudo, foi apenas o fato mais recente de um giro radical na política internacional venezuelana. No início do seu governo, em 2000, Chávez deu seu primeiro passo nas relações internacionais ao promover, em Caracas, a 2ª Cúpula de Chefes de Estado de Governo dos Países Membros da Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo). Pela primeira vez, estiveram na Venezuela ao mesmo tempo presidentes da Argélia, Indonésia, Irã, Nigéria, Qatar, Emirados Árabes, Iraque, Líbia e Kuwait. Esse encontro foi decisivo para controlar a oferta mundial de petróleo e forçar a elevação de seu preço no mercado mundial.
“Apesar de ser um dos países fundadores da Opep, a Venezuela estava voltada para a Europa Ocidental e para os Estados Unidos”, destaca Arvelaiz. “A partir dessa conferência, o governo expandiu suas relações internacionais, rompendo progressivamente com a dinâmica ditada pelos interesses das potências ocidentais. O preço baixo do petróleo arruinava as nações produtoras, beneficiando apenas as multinacionais e os países consumidores.”
Chávez gosta de dizer que trabalha “por um mundo pluricêntrico, multipolar”. Seu arco de iniciativas, além da Opep, expandiu-se também para alianças duradouras com Irã, Bielorrússia, Rússia e a China. A Venezuela mantém com esses países crescentes relações comerciais, além de acordos financeiros, projetos industriais e pactos de cooperação militar. Apesar dos Estados Unidos continuarem a ser um grande cliente, especialmente na compra de petróleo, o objetivo do governo tem sido o de diversificar ao máximo seus parceiros.
América Latina
Mas o foco principal dessa estratégia se concentra na América Latina. “Todas as iniciativas regionais que estamos ajudando a construir - Unasul (União de Nações Sul-Americanas), Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América), Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Carirbenhos) - são espaços para consolidar um bloco integrado e soberano”, explica Arvelaiz.
Arquivo pessoal[Maximilien Arvelaiz: Venezuela quebrou dinâmica ditada pelos interesses das potências ocidentais]
"Esse modelo neoliberal não pode ser a base de nossa integração", propagou na época. "Queremos um modelo que nos integre de verdade. Ou nos unimos ou nos afundamos.”
A aliança, fundada em 2004, é integrada por Venezuela, Cuba, Equador, Bolívia, Nicarágua, República Dominicana, Equador, São Vicente e Granadinas, Antígua e Barbuda.
Esse pacto proporcionou a criação de empreendimentos comuns, além de uma zona monetária regional. Parte das relações comerciais entre os países-membros já é feita através do sucre, moeda contábil comum a esse grupo de países.
Ao contrário de outros blocos, a Alba não tem como pilar a liberalização comercial ou alfandegária, mas a tentativa de estabelecer um mecanismo de auxílio-mútuo na economia, nas políticas sociais e no intercâmbio cultural. Ao seu redor reúne-se o que se poderia chamar de “núcleo duro” dos governos aliados a Chávez.
Brasil
Mesmo sem participar dessa associação, o Brasil também é um dos grandes parceiros do presidente venezuelano. A balança comercial entre os dois vizinhos, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior brasileiro, cresceu cerca de 300% nos últimos 14 anos, passando de U$ 1,46 bilhões de dólares em 1998 para U$ 5,8 bilhões em 2011.
O Brasil leva vantagem porque viu suas exportações multiplicadas por seis nesse período, atingindo em 2008 a soma de U$ 5,15 bilhões de dólares. Outro marco histórico: de quinto maior fornecedor de produtos para o país caribenho, o Brasil passou para terceiro, somente atrás de Estados Unidos e Colômbia.
Antonio Cruz/Agbr (28/04/2010)As relações comerciais entre Brasil e Venezuela ganharam um novo capítulo com as eleições de Chávez e Lula
O petróleo e seus derivados representam 65% das vendas da Venezuela para o Brasil. O restante das exportações é de derivados do óleo cru, alumínio, ferro, aço, minerais e energia elétrica. Já a Venezuela compra do Brasil principalmente itens básicos de alimentação, como açúcar, carnes bovinas, carne de frango, ovos, café e grãos. Com o incremento da cooperação brasileira na agricultura venezuelana, máquinas, tratores, caminhões e pneus também cresceram sua fatia no mercado do país vizinho.
Além das relações comerciais, também tiveram significado aumento os investimentos de empresas brasileiras, que tocam várias obras importantes de infraestrutura. Esses projetos estão concentrados em construção de moradias, plantas siderúrgicas, sistemas de irrigação agrícola e refinarias. Algumas dessas empreitadas são financiadas pelo BNDES. Outras, por linhas de crédito privadas contratadas pelas próprias companhias investidoras.
Também há um gigantesco empreendimento associado em solo brasileiro. Aos trancos e barrancas, forçadas pelos dois governos, a Petrobras e a PDVSA estão juntas para colocar de pé, em Pernambuco, a Refinaria Abreu e Lima. Apesar de atraso no aporte venezuelano e de dificuldades para consolidar o financiamento do projeto, o plano aos poucos ganha corpo e pode ser tornar em uma unidade poderosa para o refino de combustível e outros derivados.
Com a adesão ao Mercosul, avalia-se que o ritmo dessa integração deva ser acelerado e institucionalizado. Uma das iniciativas que deve ser beneficiada é o Banco do Sul, idealizado por Chávez e Lula como uma sociedade entre os países da sub-região para financiar projetos locais, a partir do depósito de parte das reservas internacionais das nações signatárias. Outra cartada estratégica é o desenvolvimento da infraestrutura energética, integrando fontes hidroelétricas com reservas de hidrocarbonetos, especialmente gás e petróleo.
No Opera Mundi
Venezuela: incêndio em refinaria está controlado
24 de Agosto de 2012, 21:00 - sem comentários aindaEn Venezuela, en la madrugada de este sábado explotó parte de la refinería en el estado Falcón. Hasta el momento las autoridades reportan 24 fallecidos, 86 pacientes atendidos, de los cuales 77 han sido dados de alta. Actualmente a situación se encuentra controlada.
Venezuela - V
24 de Agosto de 2012, 21:00 - sem comentários aindaBase chavista se concentra entre os mais pobres
Políticas sociais, geração de emprego e distribuição de renda tiraram da miséria quase nove milhões de venezuelanos
Rabin Azuaje caminha para os 70 anos, mas sua passada ainda é vigorosa. Conforme percorre o sobe-e-desce das vielas do bairro 23 de Janeiro, o veterano professor de teatro relembra os anos anteriores à chegada do presidente Hugo Chávez ao poder. “Aqui era uma espécie de zona experimental para a repressão de governos como o de Carlos Andrés Pérez (1974-1979; 1989–1993) e Rafael Caldera (1969-1974 e 1994–1999)”, recorda Azuaje, militante comunista desde os 12 anos. “Todo tipo de armamento era testado contra nós.”
Opera MundiO professor de teatro Rabin Azuaje, antigo morador do 23 de Janeiro, conta como era o país antes da chegada de Chávez
O 23 de Janeiro, assim como as demais comunidades pobres de Caracas, eram bastiões de resistência contra as administrações dos tradicionais partidos AD e Copei. “O pobre nunca teve voz. Todos podiam votar, mas nossas necessidades não eram atendidas”, ressalta Azuaje. “Com Chávez, pela primeira vez um presidente mandou construir casas para os cidadãos mais carentes. Começamos a perceber, com ele, que éramos maioria e que nossos interesses deveriam comandar o país.”
A percepção de Azuaje está materializada nos dados do INE (Instituto Nacional de Estatística). Até 1998, 50,8% da população eram considerados pobres e 20,3% extremamente pobres. Após doze anos, esses índices caíram, respectivamente, para 31,9% e 8,6%. Trocando em miúdos: 71,1% dos habitantes eram pobres ou miseráveis quando começou a atual administração e 43% desse contingente migraram para andares mais acima. Mais de 30% da população trocaram de extrato social. Não é pouca coisa.
Estudo recente da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) mostrou que, atualmente, a Venezuela é o país com menor desigualdade social na América Latina, com um coeficiente Gini de 0,394 – quanto mais próximo de zero, menor a desigualdade. A herança transmitida a Chávez pelos governos conservadores era bem pior: um índice de 0,487.
Opera Mundi
Um dos instrumentos mais importantes para promover a redistribuição de renda foi o aumento do salário mínimo. Quando Chávez venceu as eleições de 1998, o menor pagamento devido equivalia a 182 dólares. Estará em quase 480 dólares em setembro de 2012. Somado com o auxílio-alimentação, direito de todo assalariado, o montante irá beirar os 700 dólares – o maior da América Latina, de acordo com a OIT (Organização Mundial do Trabalho), secundado pela Argentina (530 dólares) e com o Brasil (350 dólares) em nono lugar.Outro componente importante do repertório chavista, no mundo do trabalho, foi a forte redução do desemprego. Situava-se em 14,5% na transição de poder em fevereiro de 1999. Na crise política de 2002-2003, quando a oposição tentou um golpe cívico-militar e paralisou a economia do país através de um locaute, quase 20% dos venezuelanos ficaram sem trabalho. Encontra-se, nos últimos meses, apesar da crise mundial, em 7,5%. Dos empregos existentes, 56% são com carteira assinada, contra 49% em 1998.
Para se compreender as razões econômicas e sociais da devoção dos mais pobres a Chávez, além da geração de renda e emprego, é preciso que se leve em conta o impetuoso crescimento dos investimentos em programas sociais. Nos doze anos anteriores ao seu governo, essa rubrica somou 73,5 bilhões de dólares, para alcançar 468,6 bilhões entre 1999 e 2011.
Adoração
Não é incomum observar em Caracas bandeiras e cartazes com o rosto do “Comandante”, todos com a cor que identifica os chavistas: o vermelho. No centro da capital, há diversas lojas que comercializam broches, camisetas, canecas e até mesmo bonecos de plástico do presidente, que repetem discursos e trechos de músicas que o próprio Chávez entoa.
As provocações aos “esquálidos”, como os oposicionistas são chamados por Chávez, são comemoradas e reproduzidas por seus seguidores. Exemplo disso foi quando o candidato às eleições presidenciais pela MUD (Mesa da Unidade Democrática), Henrique Capriles, fez uma caminhada, em junho, por La Guaira, estado de Vargas. Ao chegar na casa de uma moradora da cidade, foi recebido por ela com um quadro de Hugo Chávez nas mãos. “Acá somos todos rojos rojitos”, espicaçou a chavista diante das câmeras, para desconforto do pretendente azul.
Reprodução
A história de Alex
A dezenas de quilômetros, em uma sala no terceiro andar da Fundação Centro de Estudos Latino-americanos Rómulo Gallegos (Celarg), o professor Alex Valbuena, de 54 anos, dá uma aula sobre “Doña Barbara”, célebre romance do ex-presidente venezuelano. A história, publicada em 1929, opõe a civilização e a aspereza do campo. Fala das pessoas que são vítimas do destino, mas que ao mesmo tempo permanecem fortes e corajosas. “Ela fala da Venezuela”, resume o professor.
Opera Mundi[Alex Valbuena era vigilante e hoje dá aulas faz mestrado em Letras]
As missões sociais começam em 2003 e são a base de sustentação do governo de Chávez. Os programas mencionados por Valbuena tiveram eficácia comprovada por organismos internacionais e a Venezuela foi considerada como “território livre de analfabetismo” em 2006. Em 2003, o país tinha 1,6 milhão de analfabetos – todos aprenderam a ler e a escrever em dois anos. Dos primeiros alfabetizados na Missão Robinson, 65% entraram para a Missão Robinson II, de acordo com o governo.
Valbuena deposita em Chávez a responsabilidade por essa transformação. Assim como ele, milhões de outros venezuelanos que ascenderam ao longo dos 14 anos de administração chavista votam pela continuidade do projeto. “Ele me deu o básico, o que nenhum outro governo sequer tentou fazer. Por que eu votaria em outro?”, questiona o professor, que atualmente cursa mestrado em Letras.
No Opera Mundi
Venezuela - IV
24 de Agosto de 2012, 21:00 - sem comentários aindaClasse média mistura ódio e dúvida contra Chávez
Embate entre os ricos e o governo aparece como disputa central da política venezuelana
As arborizadas ruas Califórnia, Madri, Paris e Londres formam, junto com a avenida Rio de Janeiro, um dos mais ricos distritos de Baruta, estado de Miranda, que integra o Distrito Metropolitano de Caracas. Las Mercedes, o nome dessa localidade, é conhecido por concentrar os melhores restaurantes da região e uma vida noturna ativa, além de belíssimos edifícios residenciais.
Ali vivem parte dos venezuelanos que pertencem às classes A e B, ou 3% da população. Diferentemente de zonas mais humildes, nos muros desse bairro dourado não há qualquer menção a Hugo Chávez, Che Guevara ou Simón Bolívar. Ali, a revolução proposta pelo presidente venezuelano não dá o ar da graça.
Opera MundiEstacionamento de um restaurante em Las Mercedes, localizado em um dos mais ricos distritos da Venezuela
A rejeição ao governo é evidente a cada eleição. Foi graças aos votos da circunscrição 2 de Miranda, que abrange Baruta e outros três municípios, que a deputada Maria Corina Machado, da oposição, conseguiu impressionantes 235.259 votos (41,93% do total), um recorde nas legislativas, de acordo com o CNE (Conselho Nacional Eleitoral). Luiz Dias Laplace, do governista PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela), teve somente 43.550 votos (7,76 %).
Baruta é reduto também do candidato às eleições presidenciais pela oposicionista MUD (Mesa de Unidade Democrática), Henrique Capriles, que governou o município de 2000 a 2008 e depois governou Miranda. “Aqui ele irá ganhar a maioria dos votos, mas não será o suficiente”, lamenta o empresário Luis Rodriguez, de 29 anos, enquanto bebe uma taça de prosecco na boate Sabu, uma das baladas mais refinadas da capital. “Infelizmente Chávez conseguiu enfeitiçar os mais pobres, colocou-os contra nós.”
Opera Mundi[Ambiente da danceteria "Sabu", em Las Mercedes]
Com a voz interrompida pelo alto volume de música eletrônica, Ana acha que a vida piorou muito desde a chegada de Chávez. “Há mais violência. Sequestros e roubos são cotidianos agora. Já perdi três blackberrys”, conta. Febre no país, os celulares da marca, que custam em torno de 400 dólares cada, são usados por mais de 1,9 milhão de venezuelanos, recorde mundial de vendas per capita da empresa canadense que lançou o aparelho.
Rodriguez logo se soma à amiga e declara que caminha com medo pelas ruas da cidade. “Quando alguém chega na porta da Sabu e dá de cara com aquele macaco já pensa que será sequestrado”, arremete o empresário, sem travas na língua, referindo-se ao segurança da danceteria, um negro com mais de 1m90. Ao redor do empresário, cinco jovens na casa dos vinte anos, vestidos com camisa social e cabelos escovados para trás, dançam com entusiasmo. O mais animado do grupo tem na mão um copo de uísque Buchanan’s, dezoito anos, 150 dólares a garrafa na boate.
O uísque, aliás, é outra explosão de consumo na Venezuela. De acordo com a associação internacional do ramo, o país é o sexto maior consumidor mundial da bebida, com 9,3 milhões de litros ao ano, e o maior da América Latina. Mas se o rum é considerado uma bebida tipicamente venezuelana, porque a preferência pelo uísque? “Porque nós podemos”, responde Rodriguez, às gargalhadas.
Na danceteria, os primeiros segundos de “Gonna get your love”, cantada pela italiana Jenny B., incendeiam a pista de dança. Caminhando quase invisíveis entre os jovens, os garçons anotam com dificuldade os pedidos. “Sim, sempre tivemos uma cena noturna vibrante”, conta o empresário. “É bem parecida com a de Miami, do you know what I mean?” O empresário aproveita o embalo e conta que frequentemente viaja para os Estados Unidos, mas nunca foi a outra nação latino-americana.
Nova classe média
Rodriguez e Ana fazem parte dos 3% que odeiam Chávez como o pior dos inimigos. Essa fatia disputa com o presidente a influência sobre outros 17% que compõem os extratos mais baixos das camadas médias, agrupados pelos pesquisadores como classe C. Muitos desses venezuelanos foram diretamente beneficiados pelas políticas sociais da atual administração, mas não são mais atraídos por programas de moradia ou alimentação, por exemplo. E vão se apropriando das expectativas e valores do topo da pirâmide.
De acordo com o INE (Instituto Nacional de Estatística), o segmento da população considerado acima da linha de pobreza passou de 49,2% (11 milhões de cidadãos), em 1998, para 59,5% (17,5 milhões) em 2011. O corte é uma renda domiciliar igual ou maior que 3,6 mil bolívares, pouco menos de 1,7 mil reais em maio de 2012.

Esse montante agrupa os 3% do andar de cima, os 17% logo abaixo e os quase 40% de membros da baixa classe média e trabalhadores qualificados que majoritariamente dão suporte ao projeto liderado por Chávez. Um dos reflexos da ascensão está no aumento de 198% nas matrículas universitárias entre 1998 e 2011, fazendo da Venezuela o segundo país com maior quantidade de alunos no ensino superior.
O governo enumera outras mudanças que atenderam diretamente a classe média. No setor imobiliário, destaque para a facilitação do acesso à propriedade, com a introdução do crédito imobiliário a juros baixos. Chávez também eliminou o IVA (Imposto sobre Valor Agregado) dos automóveis e ampliou o acesso ao crédito: o número de clientes de cartões de crédito dobrou de 1999 a 2010, com uma taxa anual de juros inferior a 30%.
No setor alimentício, o combate contra a especulação com preços de produtos básicos, como sabonete e farinha de milho. Segundo o GIS XXI (Grupo de Pesquisa Social Século Siglo XXI), 70% da classe média venezuelana dizem ter sido beneficiados pelo Mercal, a rede pública de supermercados. Além disso, mais de 1,5 milhões de venezuelanos passaram a ser beneficiados pela Previdência Social, um salto de 400% de 1999 a 2011.
“Os muito ricos não se importam com o presidente que estiver no poder”, analisa Jesse Chacón, ex-ministro da Comunicação venezuelano e diretor do GIS XXI. “Na verdade, eles continuram ganhando muito dinheiro e sabem que, se algo não lhes agradar, podem subir em um avião quando quiserem. A questão é saber como se comportará a nova classe média, que ascendeu durante o governo Chávez, mas é disputada ideologicamente entre os ricos e o processo. Esse embate decide a formação de uma maioria sólida para o avanço da revolução.”
No Opera MundiVeja também: Venezuela - I - II - III




