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Everton de Andrade

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O decepcionante Ratinho

28 de Janeiro de 2019, 21:07 , por Everton de Andrade - | No one following this article yet.
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Segundo as informações do portal jornalístico Plural.jor.br, durante o lançamento nacional da colheita da soja, em Apucarana, neste mês de janeiro, o apresentador Ratinho fez uma série de declarações, dentre elas, “o time que trabalha resolveu enfrentar o time que atrapalha”; “quem trabalha é mais gente do que aqueles que atrapalham”; e enalteceu as agressões sofridas pelos esquerdistas no país.

Acompanho a atuação dessa referida pessoa pública desde meados da metade da década de 1990. Ratinho foi proprietário da Rádio Eldorado do Paraná, de São José dos Pinhais, onde fazia programas matinais, intercalando ocorrências policiais com humor.

Também me recordo da transmissão de um Atletiba, em 29 de novembro de 1995, no estádio Pinheirão, no quadrangular final do Campeonato Brasileiro da Série B, em que o apresentador Uiliam Barbosa narrou a partida, com os comentários de Ratinho e as participações especiais dos demais personagens do mencionado programa matinal. Foi a transmissão radiofônica de futebol mais hilária que acompanhei até o presente momento.

Na televisão curitibana, Ratinho foi repórter e apresentador de programas policiais. Ao assistir ao programa “Cadeia”, na CNT, certa vez ele mencionou que havia passado alguns momentos de dificuldades financeiras e profissionais, chegando a “dar banho em defuntos” para obter proventos financeiros. Também ouvi relatos de pessoas que conheceram Ratinho pobre antigamente, perambulando pelo centro da capital paranaense, sem grandes perspectivas.

No ano de 1997, em rede nacional de televisão, Ratinho apresentou o “190 Urgente” no qual, além de abordar o noticiário policial, ele recebia mensagens dos telespectadores por fax e lia algumas delas, fato que era a maior diversão do programa.

Com o sucesso obtido então, a TV Record de São Paulo contratou o apresentador curitibano como a atração noturna da emissora. Posteriormente, ele migrou ao SBT e se estabilizou financeiramente, de maneira que, a seguir, ele adquiriu as retransmissoras paranaenses do canal de televisão da família Abravanel, promoveu um dos filhos politicamente – de tal modo que esse filho é o atual governador do Paraná – e se tornou fazendeiro, inclusive em Apucarana, local da recente manifestação.

Nesse contexto, a declaração dada pelo Ratinho nos últimos dias transformou meu conceito de que as pessoas oriundas das camadas populares podem ser mais moderadas e ter uma perspectiva de realidade mais ampla do que aqueles “podres de rico” desde o nascimento.

Até recentemente, achava que as experiências de vida fizessem os ricos emergentes utilizarem as situações de privação para até persuadirem outras pessoas da elite financeira a se tornarem mais solidárias com os desfavorecidos, com os divergentes e com as lutas por direitos sociais.

Contudo, na atualidade, Ratinho se comporta como o mais genuíno “rei da soja”, como se nunca tivesse passado por momentos difíceis. Pois nem todos os pobres têm acesso à oportunidade que ele conseguiu; além disso, o artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos – da qual o Brasil é signatário até o presente momento – assegura que os seres humanos são iguais em dignidade.

O curioso é lembrar que, nas eleições de 2008, em Curitiba, o partido do filho do Ratinho teve um candidato a vice-Prefeito na mesma chapa liderada pela atual Presidente nacional do Partido dos Trabalhadores. Nas eleições municipais de 2012, Ratinho rompeu com este último partido mencionado porque, naquela época, o filho dele tinha uma grande rejeição eleitoral na cidade e o PT apoiou outra candidatura à Prefeitura curitibana.

Por outro lado, romper politicamente é diferente de apoiar agressões aos divergentes. Diante disso, lamento profundamente que o apresentador mais bem-sucedido que acompanhei tenha se tornado um garoto-propaganda de ações fascistas.