Vivemos um paradoxo tecnológico. Enquanto o Vale do Silício nos vende a Inteligência Artificial (IA) como uma ferramenta para gerar imagens fúteis ou automatizar o desemprego, no coração do Brasil profundo, uma revolução de outra natureza está germinando. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) está provando que a tecnologia, quando despida da lógica do lucro desenfreado, pode ser o maior aliado da justiça social e da sobrevivência do planeta.
A “IA do MST” não é apenas um conjunto de códigos; é um manifesto político traduzido em dados.
Historicamente, a tecnologia no campo foi sinônimo de exclusão. O agronegócio latifundiário utiliza satélites e drones para gerir monoculturas estéreis, dependentes de veneno e voltadas exclusivamente para a exportação. É uma “inteligência” que ignora a fome local e a saúde do solo.
Em contrapartida, a apropriação tecnológica pelo MST inverte essa lógica. Ao aplicar IA para o monitoramento de biomas e o manejo agroecológico, o movimento retira a tecnologia da redoma das grandes corporações e a entrega para quem realmente entende de terra: o camponês. Utilizar algoritmos para proteger sementes crioulas ou otimizar a logística de alimentos saudáveis para as periferias é a prova de que a inovação só faz sentido se tiver um propósito social.
Não podemos falar de soberania alimentar sem falar de soberania tecnológica. Se a classe trabalhadora não dominar as ferramentas de sua época, ela estará fadada a ser apenas consumidora de soluções desenhadas para explorá-la.
A IA desenvolvida no contexto da reforma agrária é uma ferramenta de emancipação. Ela reduz a penosidade do trabalho no campo e aumenta a viabilidade econômica das pequenas propriedades. Isso é fundamental para manter a juventude rural na terra, combatendo o esvaziamento do campo e garantindo que o conhecimento tradicional não se perca, mas se potencialize com a análise de dados.
O que o MST está fazendo deveria ser o padrão para o desenvolvimento global. Em um mundo assolado pela crise climática, precisamos de uma inteligência que saiba regenerar solos e prever desastres, e não apenas de uma que maximize o rendimento de ações na bolsa.
A verdadeira inteligência não está na capacidade de processamento de um chip, mas na capacidade de usar esse processamento para garantir que ninguém vá dormir com fome.
A IA do MST nos ensina que o futuro não precisa ser uma distopia cibernética controlada por poucas empresas de tecnologia. O futuro pode — e deve — ser verde, diverso e digitalmente soberano. É hora de pararmos de olhar para o Vale do Silício em busca de progresso e começarmos a olhar para os assentamentos que estão redesenhando o que significa ser moderno no século XXI.
Segundo o Brasil de Fato, a Construção da IA já esta em andamento com experimentos e deve ser lançado em Maio, na Feira Nacional da Reforma Agrária:
Os principais experimentos e etapas atuais incluem:
- Sistematização de Conhecimento: A IA está sendo utilizada para processar e organizar milhares de artigos, teses e relatórios de experiências produzidos por institutos do MST, como o Iterra e o IEJC. O objetivo é tornar esse vasto conhecimento técnico, antes disperso, acessível para consultas rápidas no campo.
- Apoio à Assistência Técnica: Experimentos iniciais focam em usar a ferramenta como suporte para técnicos agrícolas, auxiliando em diagnósticos de plantio e manejo agroecológico, sem substituir o trabalho humano.
- Fase de Construção Orgânica: Até maio de 2026, a base de dados continua sendo alimentada de forma colaborativa com os movimentos sociais para garantir que a IA reflita a realidade camponesa.
- Pilotos em Cooperativas: Há uma previsão de que o acesso inicial seja liberado de forma limitada para cooperativas e associações do movimento, devido a restrições de infraestrutura tecnológica, antes do lançamento aberto ao público.