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Cultura

30 de Agosto de 2016, 13:39 , por Blogoosfero - | No one following this article yet.

A cidade onde a pobreza é crime

7 de Março de 2018, 10:14, por segundo clichê

 
Carlos Motta
 
Os vereadores da cidade paulista de Jundiaí, mais de 400 mil habitantes, IDH de 8,22 (muito elevado), PIB de mais de R$ 36 bilhões, localizada a apenas 60 quilômetros da capital, acabam de aprovar um projeto de lei do Executivo que torna crimes as atividades de pedintes e artistas de rua em semáforos.
 
Já os comerciantes do Centro vêm pedindo às autoridades providências para afastar os mendigos e sem-teto que, de uns tempos para cá, resolveram habitar a região, prejudicando os negócios da gente de bem.
 
Pelos comentários nas redes sociais, muitos moradores de Jundiaí apoiam a decisão dos vereadores que, como o prefeito, acham que a pobreza é crime.
 
Quanto aos artistas, eles fazem o que podem para se expressar e sobreviver.
 
Alguns são mestres nos malabares, mesmo nos locais mais improváveis, como as ruas, onde exibem o frágil equilíbrio de suas vidas; outros, por meio de música e poesia, retratam a triste realidade que veem.
 
Como Chico Buarque e Francis Hime em "Pivete":
 
 
No sinal fechado
Ele vende chiclete
Capricha na flanela
E se chama Pelé
Pinta na janela
Batalha algum trocado
Aponta um canivete
E até
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
Se manda pra Tijuca
Sobe o Borel
Meio se maloca
Agita numa boca
Descola uma mutuca
E um papel
Sonha aquela mina, olerê
Prancha, parafina, olará
Dorme gente fina
Acorda pinel
Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Mané
Arromba uma porta
Faz ligação direta
Engata uma primeira
E até
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
Se manda pra Tijuca
Na contramão
Dança para-lama
Já era para-choque
Agora ele se chama
Emersão
Sobe no passeio, olerê
Pega no Recreio, olará
Não se liga em freio
Nem direção
No sinal fechado
Ele transa chiclete
E se chama pivete
E pinta na janela
Capricha na flanela
Descola uma bereta
Batalha na sarjeta
E tem as pernas tortas
 
Ou Théo de Barros, com seu "Menino das Laranjas" ( na voz de Elis Regina):
 
 
Menino que vai pra feira
Vender sua laranja até se acabar
Filho de mãe solteira
cuja ignorância tem que sustentar
É madrugada vai sentindo frio
Porque se o cesto não voltar vazio
A mãe já arranja um outro pra laranja
E esse filho vai ter que apanhar
Compre laranja
Menino que vai pra feira
É madrugada vai sentindo frio
Porque se o cesto não voltar vazio
A mãe arranja outro pra laranja
E esse filho vai ter que apanhar
Compra laranja, laranja, laranja doutô
ainda dou uma de quebra pro senhor
Lá no morro
A gente acorda cedo e é só trabalhar
Comida é pouca e muita roupa
Que a cidade manda pra lavar
De madrugada
Ele menino acorda cedo, tentando encontrar
Um pouco pra poder viver
Até crescer
E a vida melhorar
Compra laranja, doutô
Ainda dou uma de quebra pro senhor
Compra laranja, doutô
Ainda dou uma de quebra pro senhor
 
Emprego, que é bom, nada. E assim o Brasil se afasta, celeremente, da civilização.



Taiguara, a voz mais censurada pela ditadura

3 de Março de 2018, 10:36, por segundo clichê



Carlos Motta


A ditadura militar instaurada no Brasil em 1964 e que caiu de podre 20 anos depois perseguiu implacavelmente inúmeros artistas que ousaram se opor a ela - ou simplesmente adotaram uma liberdade estética fora dos padrões oficiais. Na música popular, os casos mais notórios são os de Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque.

Nenhum cantor e compositor, porém, foi tão perseguido quanto o talentosíssimo Taiguara, que nos anos 60 e 70 do século passado foi figura constante nos festivais de música e paradas de sucesso, com as suas canções e voz despudoradamente românticas - ao mesmo tempo em que, em seus shows e entrevistas, dizia cobras e lagartos do regime que suprimia as liberdades do povo brasileiro.

A jornalista Janes Rocha, que escreveu um livro sobre o artista, levantou 81 composições de Taiguara vetadas pela censura.

Dois discos, “Imyra, Tayra, Ipy” e “Let the children hear the music”, gravado em Londres, foram inteiramente proibidos depois de lançados.

A barra era muito pesada naqueles tempos de "Brasil, ame-o ou deixe-o"...

Taiguara morreu em 1996. Doze anos antes, lançou uma obra-prima, o disco "Canções de Amor e Liberdade", absolutamente político, um grito de revolta, um testemunho de um grande artista sobre uma época que envergonha a espécie humana.

É um disco de rara coerência, com melodias calcadas em ritmos regionais, letras que soam como lindos poemas libertário e arranjos criativos.

Uma das faixas, "Voz do Leste", tem a participação da excelente dupla sertaneja Cacique e Pajé. "Anita", um bolero, é dedicada à filha de Luís Carlos Prestes, o eterno "Cavaleiro da Esperança"; o clássico "Índia" ressurge com a letra original traduzida; "Estrela Vermelha", com melodia do avô de Taiguara Graciliano Silva, é de um lirismo emocionante...

Que falta faz um Taiguara neste Brasil Novo!

https://www.youtube.com/watch?v=1tfWmF6eHY0&t=64s

Voz do Leste

Sou Voz Operária do Tatuapé
Canto enquanto enfrento o batente co'a mão
Trabalho no ritmo desse Chamamé
Meu pouco Salário faz minha ilusão

Sou voz operária do Tatuapé
Vivo como posso e me deixa o patrão
E enquanto respira dessa chaminé
Meu povo se vira e não vê solução

No teatro da vergonha
aonde a verdade não se diz
Tem quem representa a massa,
quem ri da desgraça
E quem banca o infeliz

Tem até burguês que sonha
que entra em cena e engana a atriz
Tem quem sustenta a trapaça
e depois que fracassa
amordaça o país

Tem quem sustenta a trapaça
E depois que fracassa,
Amordaça o país.

Já meu drama é o da cegonha...
quase morre o meu guri...
Sobra pr'o Leste a fumaça
e a peste ameaça
O ar do Piqueri

Pior que a matança medonha
é o desemprego pra engolir...
Seja no peito ou na raça,
esse teatro devasso
Alguém tem que proibir...

Seja no palco ou na praça
Essas peças sem graça
vão ter que sair.
(sair de cartaz...)

Sou voz operária...



A coisa tá feia: se o Picasso fosse vivo ia pintar tabuleta

1 de Março de 2018, 10:30, por segundo clichê

 

Carlos Motta


Tião Carreiro é conhecido como o Rei do Pagode, ritmo que criou naturalmente, com base nos ritmos regionais que tão bem conhecia - e tocava, em sua viola, como ninguém.

Tião Carreiro, além desse título, é também lembrado como um dos mais icônicos artistas do gênero que se convencionou chamar de "sertanejo" ou "caipira", um balaio onde se encontra uma variedade de ritmos e influências.

Embora tenha atuado com outros parceiros - Carreirinho, Paraíso e Praiano - foi com Pardinho que ele se tornou uma lenda para o público em geral e para os violeiros em particular - sua habilidade é tanta que houve quem dissesse, fazendo uma analogia com o gênero musical mais difundido no mundo, que ele é o "Jimi Hendrix brasileiro".

Tião Carreiro, nascido em 1934, morreu em 1993. Deixou um legado artístico imenso e uma legião de fãs absolutamente fiel.

Algumas de suas composições são peças obrigatórias no repertório de qualquer artista "sertanejo" que se preze.

Como a deliciosa "A Coisa Tá Feia", dele em parceria com outro craque do gênero, Lourival dos Santos: "Já está no cabo da enxada quem pegava na caneta/Quem tinha mãozinha fina foi parar na picareta/Já tem doutor na pedreira dando duro na marreta", dizem três de seus 28 versos, escritos para ironizar uma realidade que, mais que nunca, está viva, neste incrível, inacreditável e surrealista Brasil Novo.

https://www.youtube.com/watch?v=6vpFdu_WDmY

Burro que fugiu do laço tá de baixo da roseta
Quem fugiu de canivete foi topar com baioneta
Já está no cabo da enxada quem pegava na caneta
Quem tinha mãozinha fina foi parar na picareta
Já tem doutor na pedreira dando duro na marreta
A coisa tá feia, a coisa tá preta...
Quem não for filho de Deus, tá na unha do capeta.


Criança na mamadeira, já tá fazendo careta
Até o leite das crianças virou droga na chupeta
Já está pagando o pato, até filho de proveta
Mundo velho é uma bomba, girando neste planeta
Qualquer dia a bomba estoura é só relar na espoleta
A coisa tá feia, a coisa tá preta...
Quem não for filho de Deus, tá na unha do capeta.


Quem dava caixinha alta, já esta cortando a gorjeta
Já não ganha mais esmola nem quem anda de muleta
Faz mudança na carroça quem fazia na carreta
Colírio de dedo-duro é pimenta malagueta
Sopa de caco de vidro é banquete de cagueta
A coisa tá feia, a coisa tá preta...
Quem não for filho de Deus, tá na unha do capeta.


Quem foi o rei do baralho virou trouxa na roleta
Gavião que pegava cobra, já foge de borboleta
Se o Picasso fosse vivo ia pintar tabuleta
Bezerrada de gravata que se cuide não se meta
Quem mamava no governo agora secou a teta
A coisa tá feia, a coisa tá preta...
Quem não for filho de Deus, tá na unha do capeta.



'Canção Para Inglês Ver': como o genial Lalá reagiu à invasão americana

18 de Janeiro de 2018, 17:49, por segundo clichê



Carlos Motta


Lamartine Babo, o Lalá, é um dos gigantes da música popular brasileira. O carioca morto aos 59 anos, em 1963, ficou conhecido por ter composto dezenas de deliciosas marchinhas de carnaval, que fazem sucesso até hoje, mas sua obra é muito maior: ele compôs sambas (Serra da Boa Esperança/esperança que encerra/no coração do Brasil/um punhado de terra..."), valsas ("eu sonhei que tu estava tão linda/numa noite de raro esplendor..."), e até uma opereta - embora não tocasse nenhum instrumento.

Compôs também hinos para os 11 clubes que disputavam, na sua época, o campeonato carioca, um mais bonito que o outro, uma façanha que por si só já o colocaria entre os gênios da MPB.

Foi craque também no rádio, mídia que, antes da TV, fascinava o Brasil, apresentando, durante muitos anos, o programa Trem da Alegria, junto com Yara Salles e Heber de Bôscoli - os três formavam o Trio de Ossos, que ficou famoso no país todo.

Gozador, trocadilhista, inquieto, Lamartine Babo soube como nenhum outro artista resumir a alma do carioca.

E, atento às mudanças que ocorriam no tempo em que viveu, foi um dos primeiros a perceber o impacto do "soft power" americano entre os brasileiros.

Em 1931 Lamartine lançou uma de suas músicas mais originais - ou malucas, ou cômicas, como queiram -, "Canção Para Inglês Ver", que tem uma letra aparentemente surrealista, mas que, no fundo, é uma crítica ao estrangeirismo que começava a tomar conta do Brasil - principalmente aquilo que vinha dos Estados Unidos, por meio dos primeiros filmes falados.

"Canção Para Inglês Ver", um foxtrote, ritmo nascido nos EUA, muito popular nos anos 30 do século passado, tem sido gravada até hoje - continua atualíssima.

Afinal, o Brasil de agora é muito mais americanizado que o de 87 anos atrás, quando ela foi lançada...

https://www.youtube.com/watch?v=USCS_EWv30g

Ai loviu

Forguétisclaine maini itapiru
Forguestifaive anderu dai xeu
No bonde silva manuel, manuel, manuel
Ai loviu
Tu revi istiven via catumbai
Independence la do paraguai
Estudibeiquer jaceguai
Ies mai glass, ies mai glass
Salada de alface
Flay tox mail til
Istandar oiu, forguet not mi, oi
Ai loviu
Abacaxi uisqui of chuchu
Malacacheta independence dei
No istriti flexi me estrepei
Elixir de inhame, elixir de inhame
Reclame de andaime, reclame de andaime
Mon paris jet'aime, sorvete de creme
Mai guerli gudi naiti, oi
Duble faiti
Isso parece uma canção do oeste
Coisas horríveis lá do faroeste
Do tomas veiga com manteiga
Mai sanduíche
Eu nunca fui paulo istrish
Meu nome é laska di clau
Jone felipe canar
Laiti andipauer companhia limitada iu
Zê boi iscoti avequi boi zebu
Lawrence tíbeti com feijão tutu
Trem da cozinha não é trem azul
Mai sanduíche
Eu nunca fui paulo istrish
Meu nome é laska di clau
Jone felipe canar
Laiti andipauer companhia limitada iu
Zê boi iscoti avequi boi zebu
Lawrence tíbeti com feijão tutu
Trem da cozinha não é trem azul





O Época de Ouro se renova para continuar o mesmo: um patrimônio artístico

16 de Janeiro de 2018, 14:45, por segundo clichê



Carlos Motta


O Época de Ouro deixou de ser, há muito tempo, um grupo musical: é hoje um patrimônio artístico da humanidade.

Se estivesse atuando num país de verdade, não seria o conjunto que se apresentaria de terno e gravata em seus recitais, mas sim a plateia, que se obrigaria a usar esse traje em reverência à excepcional qualidade da música a ela oferecida.

O fato é que não existiria mais chorinho no Brasil - e no mundo todo - se não fosse o Época de Ouro. E se existisse, ele estaria confinado a guetos minúsculos e escondidos, com executantes centenários, guardiões de segredos musicais tão complexos como a mais bem guardada fórmula do mais obscuro alquimista.

Mas o Época de Ouro resistiu às modas e à voracidade da indústria de entretenimento, e não se rendeu ao canto da sereia dos modernismos passageiros: a música que faz há mais de meio século continua pura e cristalina como as notas extraídas no pequeno instrumento de cordas de seu fundador, o imortal Jacob Pick Bittencourt, vulgo do Bandolim.

Essa música espalhou sementes por toda a terra, gerando frutos de tamanhos e cores diversas, mas de sabor único e delicioso.

A árvore mãe, para nossa felicidade, continua não só intacta, mas renovando sua folhagem e flores.

O ano de 2018 nem bem começou e trouxe a boa notícia: o Época de Ouro está com nova formação e vai estreá-la em dois concertos - isso mesmo, concertos, não shows -, no Sesc Pompéia, dias 26 e 27 de janeiro, sábado e domingo, às 21 e 18 horas, respectivamente. O recital, uma homenagem ao centenário de Jacob do Bandolim, terá ainda as participações da cantora Mariene de Castro e do bandolinista Rodrigo Lessa, fundador do Nó Em Pingo D'Água.

O "novo" Época de Ouro tem Celsinho Silva no pandeiro, substituindo seu pai, mestre Jorginho do Pandeiro, falecido em julho do ano passado, Jorge Filho (cavaquinho), Ronaldo do Bandolim, Antonio Rocha (flauta), e os violões de João Camarero (sete cordas) e Luiz Flavio Alcofra (seis cordas).

Todos craques, todos dignos representantes da música brasileira, essa inesgotável fonte de criatividade e beleza.



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