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April 3, 2011 21:00 , von Unbekannt - | No one following this article yet.
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Vice da Câmara avisa a Temer: Não há votos para reforma da Previdência

October 30, 2017 20:33, von Blog do Arretadinho

Antonio Augusto/Câmara dos Deputados
No dia em que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse em entrevista que o Planalto quer aprovar a reforma da Previdência ainda este anos, o vice-presidente da Câmara, Fabio Ramalho (PMDB-MG), tratou com Michel Temer sobre as pendências da semana no Congresso e disse a ele que o governo não tem os votos necessários para aprovar o texto.

"Eu disse ao presidente hoje que o governo não tem votos para a Previdência. Ele disse que sabia disso, mas que queria pelo menos passar a idade mínima", disse Fábio Ramalho, em entrevista ao G1.

Ramalho, que é o presidente interino da Câmara - já que Rodrigo Maia (DEM-RJ) está em viagem no exterior -, afirmou ainda que, para aprovar a reforma, o governo precisa "reagrupar a base aliada", que está em frangalhos, e "trabalhar a comunicação". A ideia é tentar convencer a população de que a reforma é a única saída para resolver a crise econômica.

"Se não fizer isso, não adianta que não vai passar", assegurou Ramalho. Ele esqueceu que Temer é o presidente mais rejeitado da história, com 3% de aprovação. Não há propaganda que reverta isso, diante da política de achaque aos direitos e de entrega ao patrimônio nacional. 

Do Portal Vermelho, com informações de agências



21 pessoas contam em que momento perceberam que eram negras

October 30, 2017 19:53, von Blog do Arretadinho

“Aos 5 anos, quando ouvi: ‘não brinque com eles. Eles são pretos.'”

Por Aline Ramos Do BuzzFeed

Perguntamos a algumas pessoas em que momento em suas vidas elas entenderam que eram negras. Eis as respostas:

1. “Eu só tive plena consciência a partir da minha iniciação no Candomblé”.
Além de me aproximar da minha ancestralidade através dos orixás, o ritual de transição capilar (no candomblé, raspa-se a cabeça) em minha iniciação à religião foi fundamental para a minha consciência racial. — Floriza Fernandes

2. “Quando uma professora pediu para fazermos um desenho colorido de nossas mãos.”
Eu vi todos apontando seus lápis de cor rosa ‘Peppa Pig’ e fui no embalo. Só percebi que estava errado quando olhei minha mão e olhei o lápis. Hoje dou risada, mas naquele momento me senti meio mal por não ser igual aos outros. Agora tenho muito orgulho da minha cor e das minhas origens. — Tadeu Bernardes

3. “Quando ouvi uma vez dos meus colegas : ‘quem vai querer dançar com preto?'”
Na época do primário, lá no Paraná, tinha festa junina, com dança e tal. Nenhuma menina queria dançar comigo. Eu era o único preto da sala, da primeira até a sexta série. Todo mundo formava casal… e certa vez ouvi de um dos coleguinhas: “quem vai querer dançar com preto?” Eu só tinha 7 anos e já tinha caído na real. — Eduardo Dudu

4. “Aos 5 anos, quando ouvi: ‘não brinque com eles. Eles são pretos.'”
Aos 5 anos, na escolinha particular. Um menino de 6 anos viu que a irmã dele brincava com os meus irmãos e disse: “não brinque com eles. Eles são pretos”. — Iris Abrante

5. “Eu percebi que era negra durante um teatro na escola, no ensino fundamental.”
Entre os vários personagens, tinham os anjos. Eu tentei fazer o papel de um deles, mas um colega de classe disse que eu não poderia porque anjo tem que ser branco, loiro, de olhos azuis e de cabelo bom, e que como eu era negra, só poderia fazer papel de demônio. — Angélica Alves

6. “Quando eu tinha 11 anos e a mãe de uma colega de classe me acusou de roubo.”
No meio da discussão dela com a coordenadora, essa mãe disse que uma negrinha nunca teria condições de comprar uma cola bastão, que era uma novidade na época. — Aniele Bernardo

7. “Quando um dos meus primos se recusou a brincar comigo alegando que não gostava de pessoas pretas.”
Sou filha adotiva em uma família branca. Descobri minha negritude aos oito anos, quando um dos meus primos que mora na Bahia se recusou a brincar comigo alegando que não gostava de pessoas pretas. Para uma criança de oito anos, doeu. Naquele dia, descobri minha identidade racial. No entanto, me negava ser negra. Queria ser como meus irmãos para ser aceita. Somente aos 12 anos comecei a fazer um processo de autoaceitação, buscando mais sobre a história de meus ancestrais e suas lutas contra a escravidão e o racismo. — Gerla Dutra

8. “Ouvi minha ex-cunhada comentar que eu limpava a casa muito bem: ‘é por causa da cor.'”
Num fim de semana, fiz uma limpeza na casa da minha ex-sogra e ouvi minha ex-cunhada comentar com ela que eu limpava a casa muito bem. Ouvi a resposta em alto e bom som: “é por causa da cor.” Na época não fez muito sentido para mim porque eu não me entendia como negra. Eu era café com leite, mulata, moreninha. Mas aquilo mexeu comigo, não só a frase, mas o tom que ela usou, ficou na minha cabeça. Conhecendo melhor o feminismo e o sentido de empoderamento, entendi a importância de me assumir negra e nunca mais ficar calada quando tentarem me rebaixar por isso. — Thais Moreira

9. “Aos treze anos, quando uma tia branca falou que eu nunca deixaria de ter cara de pobre.”
Olhei em volta e vi todos os primos brancos e de cabelo liso. Essa eu nunca vou esquecer. — Nara Lacerda

10. “Quando minha mãe disse que orava todos os dias pedindo a Deus que eu nascesse com a pele clara pra não sofrer.”
Em vários e vários momentos. Porém, a ficha caiu de verdade quando uma vez, falando com minha mãe sobre a gravidez dela (de mim), ela me disse que orava todos os dias pedindo a Deus para que que eu nascesse com a pele clara para não sofrer. Aquilo me quebrou. — Keren Nonato

11. “As pessoas sempre fizeram questão de enfatizar a ‘infelicidade’ de eu não ter traços finos e ser loira como a minha mãe.”
Por ser filha de mãe branca, as pessoas sempre fizeram questão de enfatizar a “infelicidade” de não ter traços finos e ser loira como ela. Aquilo me incomodava muito. Quando eu era criança não entendia, vim perceber agora adulta. — Ana Carolina

12. “Quando meu chefe disse na frente de 40 pessoas que meu cabelo não era higiênico, era sujo para o ambiente hospitalar.”
Quando, aos 18 anos, me apresentei à reunião de boas vindas no estágio extracurricular. No auditório, estavam presentes acadêmicos de Medicina, Nutrição, Farmácia e Fisioterapia (minha área). Ao longo do encontro, o médico-chefe responsável pediu para que nos apresentássemos e disséssemos em que setor estávamos lotados. Na minha vez, respondi: “me chamo Raíza, tenho 19 anos e fiz prova para o CTI Adulto”. Ele respondeu: “bem-vinda, Raíza, mas tenho que te dizer: ou você muda seu cabelo ou muda de área! Não é permitido esse tipo de cabelo em um ambiente como o CTI”.

Na hora eu não entendi (meu cabelo era um black médio, envolto em um turbante), só me dei conta quando conversei com minha única professora negra na universidade. A real é que ele disse na frente de 40 pessoas que o meu cabelo não era higiênico, era sujo para o ambiente hospitalar. Fala sério! Fiquei um ano no estágio, sofri assédio moral nos dois primeiros meses por causa do meu cabelo, até que me posicionei: disse que entraria em contato com meu advogado. Simplesmente nunca mais tocaram no assunto. — Raiza Cabral

13. “Acho que a chave só virou de vez quando comecei em meu primeiro emprego: um estágio no Tribunal de Justiça.”
Eu não percebia maldade alguma sobre como as coisas funcionavam fora da rotina casa-escola, demorei para perceber o que fazia com que as pessoas me olhassem e tratassem de uma forma diferente.

No contato com advogados, era comum que questionassem minha posição, como se eu não fosse apto para a atividade que exercia. Nos elevadores, eram frequentes as vezes em que evitavam dividir o espaço comigo, mesmo sabendo que eram 12 andares e levaria um tempo até que chegasse outro. E o que mais me constrangia era que todos os dias o mesmo segurança cumprimentava todos pela manhã, mas fazia questão que eu apresentasse meu crachá durante dois anos inteiros.

Uma maneira de eu compreender essa diferença também aconteceu quando percebi o quanto me sentia bem e próximo da copeira que trabalha no andar abaixo do térreo: uma senhora negra adorável, que tratava a todos como seus netos, ainda que nem todos retribuíssem com o mínimo de educação.

Essa experiência também foi divisora quando eu percebi fazer a diferença mesmo nas ruas e, por algum tempo, cogitei ser o culpado pelos olhares e comportamentos, fosse pela forma como me vestia, pela maneira como estava meu cabelo ou até mesmo a expressão facial de quando andava. — Guilherme Tintel

14. “Quando conheci, por acaso, o movimento dos Panteras Negras e a série ‘Dear White People’.”
Todos me consideravam parda ou morena, nunca me vi como negra e nunca tinha sido apontada como tal. Quando conheci, por acaso, o movimento dos Panteras Negras e a série ‘Dear White People’, minha mente pareceu finalmente se abrir. Comecei a me informar cada vez mais e foi como se eu finalmente tivesse me achado. Sinto muito orgulho de ser quem eu sou e, não importa o que digam, eu sou negra e estarei sempre lutando pelos meus ideais. — Clara Portela

15. “Com um comercial que tinha a Taís Araújo se autoafirmando negra.”
Felizmente de forma positiva, com um comercial que tinha a Taís Araújo se autoafirmando negra. Vi que eu parecia com ela quanto ao tom de pele. — Cássia Victória

16. “Eu estava brincando com um prima ruiva no parquinho do condomínio e uma moça me avisou “gentilmente” que os filhos dos empregados não podiam usar aquela área.”
Sempre soube que era preta, mas descobri o racismo quando tinha sete anos e estava brincando com um prima ruiva no parquinho do condomínio e uma moça me avisou “gentilmente” que os filhos dos empregados não podiam usar aquela área. Detalhe: minha tia morava no apartamento dos meus pais. — Aline Medinah

17. “Precisei da polícia uma única vez, para registrar uma abordagem violenta da própria polícia e me foi negado o direito de registrar o B.O.”
Me dei conta que era negro quando enxerguei que quando eu ia à escola, frequentava uma praça ou voltava a noite para casa caminhando, meu maior medo era ser visto pela polícia. Pois sempre que a polícia me via, era mais uma abordagem violenta.. Precisei da polícia uma única vez, para registrar uma abordagem violenta da própria polícia e me foi negado o direito de registrar o B.O. Percebi o que era ser negro quando andava numa rua e as pessoas mudavam de calçada ou na maioria das vezes corriam. — Willi Jhon

18. “Quando meu pai me ensinava a como tomar enquadro da polícia e não sofrer repressão.”
Olha, lembro de algumas coisas básicas na minha infância. Como meu pai me ensinando a como tomar enquadro da polícia e não sofrer repressão, dizia que eu deveria tratá-los sempre como “senhor” e fazer exatamente o que eles pediam. E sempre dizia que apesar de eu ser um pouco mais claro, os olhos da polícia sempre seriam racistas. Detalhe: meu pai foi policial por 10 anos em Belo Horizonte. — Victor Rodrigues Batista

19. “Um segurança me pegou pelo braço e falou que ali não era lugar para mim.”
Passei boa parte da minha infância sem me sentir negro e sem me reconhecer assim. Por ter um pai branco com uma condição de vida boa, eu não lidava diretamente com racismo. O dia que caiu a ficha eu tinha 11 anos, foi quando fui em um restaurante chique com meu pai. Em determinado momento, fui ao banheiro. Quando estava saindo, um segurança me pegou pelo braço e falou que ali não era lugar para mim. Ele foi me levando arrastando até a saída dos fundos enquanto eu chorava e dizia que meu pai estava lá dentro. O que me deixou mais surpreso com tudo o que aconteceu era que o segurança também era negro. — Eric Satine

20. “A resposta foi que se não fosse preto, talvez eu fosse bem mais bonito e ele ficasse comigo.”
Quando se é negro e gay, é bem comum ouvir de alguns caras que você seria bem mais bonitinho se não fosse preto. Além disso, meus pais eram um casal biracial, então eu era o moreninho. Gostava de um garoto da escola e não era assumido, foi então que caí na besteira de perguntar se ele me achava interessante. A resposta foi que se não fosse preto, talvez eu fosse bem mais bonito e ele ficasse comigo. No ano seguinte, fiz amizade com uma moça incrível que sempre abordava questões raciais e LGBTQs, aprendi muito com ela. — Andre Aphonso

21. “Ela, a diretora da faculdade, exigiu crachá das duas únicas negras com a finalidade de nos expulsar da sala de informática.”
Quando a diretora do campus da faculdade onde me formei entrou na sala de informática (aberta a todos, é pública) e gritou para que quem não fosse aluno saísse do local. Ela exigiu crachá das duas únicas negras com a finalidade de nos expulsar. Mostrei meu crachá. Processo e inquérito policial correm na Polícia Federal pela fato da universidade ser federal. Ela tentou nos incriminar e até respondemos sindicância na época.

Foi quando o racismo se entregou na minha cara, na minha pele, no meu corpo. — Juliana Florentino



DOIS ANOS DO MASSACRE DO EIXÃO

October 28, 2017 21:26, von Blog do Arretadinho

Professor Jairo Mendonça
Foto Joaquim Dantas/Blog do Arretdinho
O MOVIMENTO GREVISTA DO MAGISTÉRIO 

MEMÓRIA: (substantivo feminino) reputação, aquilo que ocorre ao espírito como resultado de experiências já vivdas;
Lembranças, reminiscências; Monumento erigido para celebrar feito ou pessoa memorável.

O movimento do magistério público do Distrito Federal no ano de 2015 foi justo e legítimo como o é, todo movimento de trabalhores (as) quando reivindica direitos e melhores condições de vida e trabalho.

Tinha como eixo a exigência do cumprimento da última parcela prevista no plano de carreira da categoria a ser paga em setembro/2015, caloteada pelo gov. Rollemberg.

A truculência e a péssima relação deste com os sindicatos e movimentos sociais estabelecida desde o primeiro dia de seu (des)governo levou ao triste e lamentável episódio do ataque irresponsável e covarde ao legitimo movimento paredista da/as professores/as onde a força de choque da Polícia do DF, acionada pelo trulento governador, promoveu uns dos episódios mais lamentáveis da história de Brasília e que ficou gravado na memória coletiva da categoria como o Massacre do Eixão tendo como primeiro e único responsável o comando do Buriti.

O que se seguiu durante todo o seu (des)desgoverno foi uma sequência de ataque e desprestígio aos servidores/as públicos/as de modo geral e aos/as educadores/as de forma específica.
Tal ofensiva expôs o modelo de gestão neoliberal do governo em questão, bem como todo o reducionismo e empobrecimento das políticas e dos serviços públicos devidos à população.

Nessa esteira o DF vem amargando talvez a pior administração de todos os seus executivos que, com sua politica de arrocho prejudicou sobremaneira a economia da cidade promovendo aumento de impostos, de passagens, redução de investimentos nas áreas essenciais como educação, saúde e mobilidade urbana.

Precisamos construir um novo projeto de governo para o Brasil e para o DF e passa, necessariamente, pela valorização dos/das profissionais da educação e o fortalecimento da educação pública como caminho estratégico para o desenvolvimento e lembrar em 2018, do tratamento do (des)desgoverno Rollemberg aos educadores (as) em sua desastrosa gestão.

Viva os/as profissionais da educação em luta permanente por uma educação pública, de qualidade socialmente referenciada e emancipadora para os filhos da classe trabalhadora.

Jairo Mendonça
Professor da Secretaria de Estado da Educação e Músico.



MST ganha prêmio por recuperar Mata Atlântica

October 28, 2017 18:19, von Blog do Arretadinho

Ocupação do MST no Paraná ganha prêmio por recuperação da Mata Atlântica
Prêmio Juliana Santilli reconhece prática que alia produção de alimentos e preservação ambiental

Júlia Rohden no Brasil de Fato

“Mato para nós não é problema, é solução” brinca o agricultor Jonas Souza. Ele integra uma das 20 famílias do acampamento José Lutzenberger, no município de Antonina. O acampamento ocupa parte da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaraqueçaba, no litoral norte do Paraná, e desde 2003 concilia a produção de alimentos livres de agrotóxicos - de couve à café - com a recuperação da Mata Atlântica. Por isso, a comunidade foi contemplada no prêmio Juliana Santilli, na categoria ampliação e conservação da agrobiodiversidade. A premiação acontecerá em 21 de novembro, em Brasília, e envolve a entrega de troféu, de selo de reconhecimento e apoio financeiro para intercâmbio de experiências.

As famílias comemoraram o prêmio como uma forma de dar visibilidade ao projeto. “Estamos mostrando que nós ocupamos uma área totalmente degradada e estamos recuperando a mata e ainda produzindo alimento sem veneno. Isso mostra que a reforma agrária é um projeto viável, não apenas na questão social, mas também na ambiental”, comenta Jonas, que também é um dos coordenadores do acampamento.

Cerca de 90% do que é produzido pelos agricultores é destinado para as escolas da região através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Jonas explica que as famílias trabalham em cerca de 10% da área total, que compreende 240 hectares. “Para trabalhar no sistema agroflorestal não precisa de grandes áreas”, explica. Ele comenta que a perspectiva é ocupar cada vez mais o espaço com a produção.

Apesar de bem estruturado, com casas de alvenaria e energia elétrica, o acampamento ainda está em processo de assentamento. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) está negociando a compra da terra com os antigos proprietários.

Recuperação ambiental

“Conheci a área antes dos fazendeiros usarem para criar boi. Era uma área preservada, o rio tinha muito peixe e a comunidade plantava para subsistência”, lembra Jonas. Ele conta que as famílias não tinham o documento de posse da terra e os fazendeiros começaram a cerca e ocupar o território. “Por isso começou a luta pela terra e decidimos acampar”, completa o agricultor.
Nos primeiros três anos, as famílias resistiram ao desejo de desistir da área. O rio estava poluído, o solo rebaixado e encharcado, e o pasto dominava a paisagem. Se no início tiveram dificuldade para produzir alimentos para subsistência, hoje a perspectiva é aumentar a produção. A área degradada pela atividade pecuária vai lentamente se recuperando e o resultado fica evidente até aos olhares desatentos: nos lotes que já receberam os cuidados dos agricultores há árvores altas e diversos tipos de plantas, enquanto, muitas vezes ao lado, as áreas que não receberam o manejo são um pasto alto.

Katya Isaguirre, professora de direito ambiental e agrário da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que acompanha de perto o acampamento José Lutzenberger, por meio do grupo de pesquisa Ekoa, incentivou a comunidade a se inscrever no prêmio, junto com outro grupo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. “É evidente que a agrofloresta revive a natureza e o exemplo demonstra visivelmente como a paisagem se recupera ao tempo em que os agricultores produzem alimentos saudáveis que lhes garante condições de autonomia”, afirma.

No local é possível encontrar vários estágios de agroflorestas e são testadas diferentes técnicas de manejo e preparo do solo. O primeiro passo para a recuperação é fazer o “berço”, com plantas como hortaliças e banana. Com o tempo e o manejo adequado, os agricultores vão inserindo novas plantas de portes variados.

Jonas Souza ressalta que o sistema agroflorestal traz diversos benefícios. Além da recuperação e preservação da Mata Atlântica, as famílias camponesas passam a ter a geração de renda e a consumir alimentos de qualidade. “Também é beneficiado quem consome esse alimento livre de agrotóxico que, no caso, são principalmente as crianças das escolas municipais e estaduais”, opina.

Alimentação escolar sem agrotóxico

O acampamento, por meio da Associação Filhos da Terra, atende a quatro municípios pela rede estadual (Guaratuba, Morretes, Antonina e Pontal do Sul) e outros três (Matinhos, Antonina e Guaratuba) pela rede municipal de educação, por meio do PNAE. A cada semana são enviados para a rede estadual 1080 kg de tubérculos, 1545 kg de frutas, 390 kg de hortaliças e 45 kg de tempero, informa Ana Paula Rodrigues. A moradora explica que para a rede municipal a quantidade varia de acordo com a demanda da nutricionista escolar e, além dos alimentos in natura, também são enviadas geleias, doces e polpas de frutas. “Tudo produção agroecológica certificada”, destaca.

Jonas Souza diz que a expectativa para 2018 é criar uma cooperativa e participar de novas chamadas públicas. Até o fim deste ano, uma nova unidade deve ser finalizada, para processar os alimentos e ampliar a produção. No espaço atual, são descascados e embalados alimentos como mandioca, abóbora e palmito, e higienizados o restante dos outros produtos que chegam das hortas das famílias. Também são produzidas geleias e polpas de frutas.  “A produtividade está aumentado e é natural que isso acontece:  as famílias vão ganhando mais experiência na técnica, o mercado vai se abrindo para a produção da agroecologia e as agroflorestas começam a se recuperar e a crescer espécies novas”.

Paraná é destaque na produção de orgânicos

De acordo com dados do Ministério da Agricultura e Abastecimento, o Paraná é o estado com maior número de propriedades rurais orgânicas certificadas, com mais de duas mil unidades.

Parte dos alimentos orgânicos produzidos no estado são comercializados pela Cooperativa Central da Reforma Agrária do Paraná (CCA-PR), que centraliza 17 cooperativas regionais e a produção de mais de 20 mil famílias nos 311 assentamentos paranaenses da reforma agrária. Os alimentos chegam até os consumidores de diversas formas e neste mês a CCA-PR lançou um site que facilita ainda mais a compra dos produtos para quem mora na capital Curitiba. (www.produtosdaterrapr.com.br).

“O Paraná reúne experiências de bastante tempo na agroecologia e um exemplo disso é a Jornada de Agroecologia que já está em sua 16ª edição”, lembra Katya Isaguirre, se referindo a um dos maiores eventos nacionais de incentivo à agroecologia que aconteceu no final de setembro, na cidade da Lapa. “O trabalho da Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia (Aopa) é outro exemplo porque reúne grupos de agricultores familiares de Curitiba e região metropolitana para acessar programas como o PAA e PNAE e fazer vendas diretas e nas feiras”, completa.



Como cobrir a Venezuela honestamente?

October 28, 2017 16:50, von Blog do Arretadinho

enezuela’s President Nicolas Maduro
Escrever sobre a Venezuela é um desafio – desde a entrada em um país que não concede visto para jornalistas até garimpar fontes de informação que não sejam viciadas na sociedade mais polarizada do continente.
Por trás das notícias sobre o país, há jornalistas que tentam com muito esforço separar o joio do trigo e prover uma cobertura “honesta”, como descreve Marsílea Gombata, repórter do jornal Valor Econômico. Na sua trajetória, a jornalista já cobriu Haiti e El Salvador, mas a Venezuela, tema do seu doutorado, é a “cereja do bolo” da cobertura de América Latina. Nesta entrevista realizada na Casa Pública, no Rio, ela conversou com Yan Boechat, jornalista com 20 anos de carreira que tem se especializado em coberturas internacionais em países como Afeganistão, Tunísia, Líbano, Palestina, Síria e Iraque. Por causa da polarização, Yan desistiu das fontes oficiais ou da oposição venezuelana: “No final das contas, você vai ter duas narrativas se confrontando, e as duas estão distantes da realidade”, diz. Leia os principais trechos da entrevista.




Natalia Viana – Eu queria começar falando da capa da revista Época de 19 de outubro, sobre a crise de saúde da Venezuela. A reportagem é assinada por você, Yan, e a manchete era “A ditadura agoniza”. A gente sabe que nem sempre é o repórter que escolhe a manchete. Você concorda?

Yan Boechat – Eu acho o termo um pouco forte, “A ditadura agoniza”. Acho que entre um Estado democrático e uma ditadura, há uma vasta área cinzenta. É difícil classificar a Venezuela como uma ditadura plena ou uma ditadura clássica. De certa forma, ainda há liberdade de expressão. Existem jornais opositores que continuam fazendo quase um jornalismo político opositor, não muito comprometido com a verdade, às vezes. Por outro lado, você tem um processo muito forte de cerceamento dos veículos de comunicação que são opositores ao governo. Este ano eles fecharam 50 rádios, vários jornais têm dificuldade de acessar papel de imprensa para continuar circulando. Fecharam algumas televisões. Mas classificar o chavismo como uma ditadura clássica eu acho extremamente complicado. Com certeza ele vai se tornando cada vez mais totalitário.

Marsílea Gombata – Eu acho que a Venezuela poderia ser classificada como o que se chama de “democracia iliberal”: tem vários elementos de uma democracia, eleições, tem liberdade de expressão, mas tem um cerco forte à oposição. Quando o Maduro assumiu, havia 15 presos políticos. Em agosto de 2017, esse número era 620. Diminuiu, agora está em 430. E aí a gente põe nesse pacote estudantes, prefeitos, manifestantes. Mas não dá para falar que é uma ditadura. Fico feliz de o Valor não pedir pra eu escrever “ditadura”, porque eu não concordo. Mas acho que tem vários elementos que não condizem com a democracia.

Natalia Viana – Um desses elementos é justamente o tratamento à imprensa e a perseguição aos jornalistas. Você passou por uma situação este ano, você foi detida…

Marsílea Gombata – Noventa e nove por cento dos jornalistas que vão para a Venezuela vão sem visto. O brasileiro não precisa de visto para ir para a Venezuela. Quando perguntam qual o motivo da visita, você fala “turismo”, “vou visitar um amigo”. E lá fui eu em maio, Dia das Mães. Cheguei e fui bastante ingênua, eu levei um colete à prova de balas e um capacete. Quando a minha mala passou pelo raio-x: “O que é esse capacete?”. Eu nem lembro mais o que eu falei. Ninguém é trouxa, começaram a fazer perguntas, devassaram a minha mala. Mexeram no computador, gravador, um monte de bloquinho. Coisas que jornalistas usam. Eu acabei sendo “inadmitida”, que é uma palavra mais suave do que deportada. Fiquei 24 horas detida em Miquetía, no aeroporto. Não fiquei em uma salinha ou algemada, mas sempre com segurança do meu lado. Pegaram todos os equipamentos de segurança e também computador, celulares… tudo. Fiquei meio incomunicável. Nessas horas sempre aparecem os anjos da guarda, e o segurança da madrugada me deixou usar o celular dele. Entrei no Facebook, e o meu chefe me ligou.

Natalia Viana – Yan, voltando à reportagem de capa da Época, você comentou que há muito tempo uma matéria não o tocava tanto.
Yan Boechat – Fui fazer uma matéria para falar um pouco sobre a situação da saúde. Não só a saúde pública, mas todo o sistema de saúde da Venezuela, que sofre um problema crônico de escassez de produtos; não só de medicamentos, mas de insumos hospitalares básicos. Eu fiquei muito impressionado porque as pessoas não têm acesso a coisas muito simples. Antibiótico, uma luva, gaze. Tem gente morrendo porque não consegue comprar um antibiótico que a gente consegue comprar aqui com muita facilidade. Os médicos relatando tudo: “Todo dia morre cinco aqui comigo e eu não posso fazer nada”. Pacientes com HIV que estão sem tomar antirretroviral… Eu fiquei muito impressionado porque são coisas muito simples. Você vê as pessoas morrerem por falta de medicamento qualquer ou incapacidade de se fazer uma cirurgia simples. O país não tem dinheiro, não tem moeda forte para importar tudo o que precisa. E precisa importar tudo, porque eles não produzem nada.

Depois de 25 anos teve um surto de difteria no interior. Agora surgiu um novo surto de sarampo. E a malária, como não tem mais remédio para fazer o tratamento básico… Ano passado eles devem ter registrado cerca de 250 mil casos. Um recorde na história. E este ano deve duplicar. No caminho entre Caracas e Boa Vista é realmente impressionante, tem muita gente doente, nos hospitais, morrendo. E, para piorar, tem uma rede de traficantes de remédio no interior que comercializa principalmente esse remédio da malária, que é o remédio mais cobiçado. Eles agora têm banquinhas, como as banquinhas de camelô aqui no Rio.

Natalia Viana -– O que se fabrica, afinal, na Venezuela?

Marsílea Gombata – Tinha uma fabricação de papel, cartão, coisas básicas, plástico, indústria petroquímica. Havia uma fabricação, inclusive, de açúcar, ou mesmo de arroz, que está cada vez menor. Eles têm importado até da Colômbia e do Brasil. Então, foi diminuindo, e isso não é uma coisa do chavismo. A indústria da Venezuela foi encolhendo porque o petróleo foi ganhando um protagonismo cada vez maior na economia. Isso é um processo que vem dos anos 1930. Hoje, do que a Venezuela exporta, entre 92% e 96% é petróleo. E é maravilhoso quando se tem um barril a US$ 100. Mas hoje está bem menos, porque o petróleo venezuelano tem uma qualidade um pouco inferior, é muito pesado. Então, no sentido de produção industrial, está ruim por vários motivos. O parque industrial diminuiu: hoje é 30% do que era em 2000. As indústrias que existem operam a 30% do que podem. A esperança deles é que mude o governo para mudar a percepção econômica. Mas, se a oposição chegar ao poder, não vai ser um passe de mágica.

Yan Boechat – A Venezuela tem um problema de fluxo de caixa, principalmente. Ela não consegue gerar uma moeda forte para suprir a demanda de terra e pagar a dívida. Ela prefere pagar a dívida externa a importar produtos para abastecer o mercado interno. E, ao mesmo tempo que eles estão pagando os papéis, não estão pagando as dívidas comerciais. E a Venezuela está tirando a menor quantidade de petróleo dos últimos 25 anos. O Brasil está tirando mais petróleo do que eles, por incrível que pareça. No caso dos remédios, eles têm uma dívida grande com a indústria farmacêutica, que não importa mais nada. Não só a americana, a europeia também, de vários países. E estão trazendo agora da Rússia bastante coisa, de Cuba, da Índia.

Natalia Viana – Eu fui para lá em maio. Naquela época havia protestos todos os dias. Eu fiquei muito surpresa porque, acompanhando as notícias, a impressão era que o Maduro ia cair. Eu fui lá para cobrir a queda do Maduro. E não era nada disso, não é um governo que vai cair fácil. E fiquei muito surpresa de ver como havia empresas, como nos bairros ricos as pessoas estavam nos seus cafés tomando cappuccino, como havia pão doce. Havia comida. Tinha supermercado. Eu vi um grande descompasso entre o que eu vi e o que eu lia nas notícias. Qual a visão de vocês sobre a cobertura internacional?

Yan Boechat – Logo que cheguei, foi em um momento em que a Assembleia Constituinte praticamente dissolveu o Congresso. E eu tive essa mesma impressão, eu estava numa área rica de Caracas, Altamira. É um descompasso mesmo, porque você vê essas pessoas brigando contra a “ditadura”, mas no momento em que o Congresso é dissolvido todo mundo está numa vida relativamente normal. A vida segue normal e de certa forma as pessoas se acostumam a viver nesse processo. E eu concordo contigo: a gente reforça muito os pontos de maior contraste com a nossa visão e acaba esquecendo de colocar os pontos de menor contraste, que ajudam a contar uma história mais ampla.

Marsílea Gombata – Mas eu vejo um paralelo. Eu sou paulistana. 
Ontem eu estava lendo uma matéria na editoria de cotidiano do Globo sobre a Rocinha. Se eu não conhecesse o Rio, lendo aquela página, você não vai para o Rio porque aquilo é guerra. É uma narrativa de guerra.

Por um lado, o nosso trabalho é mostrar o que está acontecendo fora do comum. Notícia é o fora do comum. Acho que a cobertura lá é um desafio porque você fica ouvindo os dois, três lados. Mas é tudo muito polarizado. Você tem que checar uma informação às vezes em três lugares e ligar para alguém que está lá. Os jornais opositores estão militantes. Querem derrubar o governo a qualquer custo. Os do governo são aquela coisa exaltando que a Venezuela é um dos países menos desiguais da América Latina. De fato é, mas também que padrão a gente está usando?

Yan Boechat – Eu fui para lá no ano passado e senti muita dificuldade de cobrir e mesmo de fazer entrevistas. Porque você fala com uma pessoa do governo, tem um mundo aqui. Você fala com a oposição, é um mundo paralelo. Dessa vez que eu fui para lá, eu decidi não entrevistar nenhuma fonte oficial, só contar a história das pessoas. No final das contas, você vai ter duas narrativas se confrontando, e as duas estão distantes da realidade. A oposição também utiliza todos os mecanismos possíveis para demonizar o governo, e vem fazendo isso desde 1999. Por isso ela tem tão pouca credibilidade hoje.

Natalia Viana – Agora, como jornalista individual, como você consegue fazer a diferença?

Marsílea Gombata – Fazer diferença é fazer um trabalho honesto. Seria ruim ir lá e ficar só vendendo o discurso da oposição ou só do governo. O foco do Valor é mais o setor produtivo. Falar com essas pessoas, mas confrontar com dados macroeconômicos ou indicadores. Você indo lá sem preconceito… É difícil, né? Porque não somos robôs, somos pessoas. Você ir um pouco de peito aberto e fazer um trabalho honesto que traga informação.

Yan Boechat – Eu adotei a tática de tentar mostrar a vida cotidiana. Como é que as pessoas estão vivendo, independentemente de que lado elas estejam ou não. Eu tenho tentado fugir das discussões políticas maiores porque eu acho que o caso que a Venezuela vive hoje ela extrapola a questão ideológica. Resumindo tudo ideologicamente, você não consegue explicações para as outras áreas.
Natalia Viana – Yan, sobre o que as pessoas estão vivendo… Teve uma matéria sua que saiu na BBC Brasil que trata dos meninos de rua de Caracas. Você pode contar o que você descobriu?

Yan Boechat – Há uma série de problemas sociais que eles não tinham, ou tinham em pequena escala. E estão crescendo muito por conta da crise. Um deles é a população de crianças de rua, que tem crescido bastante nesses últimos anos. Essa população de rua foi de certa forma cooptada pela classe média e pela oposição para fazer parte dos protestos. Não só crianças, é o pessoal que eles chamam da “resistência”. Moradores de áreas periféricas, jovens, que recebiam comida, grana. Mas no caso das crianças especificamente, elas passaram por um processo – é até uma palavra ruim –, um processo de “empoderamento” por parte dessa classe média, que passou a alimentá-los. Passou a dar roupa, carinho. Eles mesmos contam isso: “Nunca me deram carinho na vida. Esse pessoal tinha medo de mim e vem conversar comigo”. Então, essas crianças passaram a ter um papel importante da dinâmica nos protestos.

Natalia – Eram eles que ficavam na linha de frente.

Yan Boechat – Não só as crianças de rua. Mas no geral jovens e a população mais pobre. Algumas vezes por ideologia, por acreditar naquilo, e muitas vezes por receber algumas benesses. Os protestos estão muito concentrados nas áreas nobres de Caracas. Então, quando acabaram os protestos, a classe média começou a ficar incomodada de ter essas crianças na área deles, e foram procurar algumas ONGs que têm tratamento direto com eles. E conseguiram montar um acordo com os centros comerciais das áreas ricas. As crianças foram para áreas debaixo de viadutos, e os centros comerciais passaram a dar almoço e jantar, com a garantia de que eles não entrassem nos centros. Eles deixaram de ser heróis e voltaram a ser párias.

Júlia Tavares – De que forma as agências de notícias internacionais não têm um interesse ideológico em propagar que o governo Maduro vai cair?

Marsílea Gombata – Eu lido com agências todos os dias. A gente tem que ficar refém delas. Não temos correspondente em todo lugar no mundo, e a gente compra esse serviço noticioso. Sempre me pego pensando que a América Latina deveria ter uma agência própria, porque sempre são jornalistas da Reuters, da Bloomberg… Um jornalista alemão, britânico, ele cai na América Latina e fala “realmente, esse cara é um ditador”, porque é muito diferente da realidade dele. Mas tem que ler com parcimônia. Você liga para suas fontes lá dar uma olhada. Não sei se existe um plano de caso pensado – “quero que o Maduro caia”. Mas acho que eles ficam tão assustados com o que é muito diferente da realidade deles que tendem a ressaltar ainda mais o que eles chamam de ditadura, autoritarismo.

Natalia Viana – Você acha que a cobertura delas é ruim?
Marsílea Gombata – Não diria ruim. Mas você tem que dar uma filtrada porque a gente é América Latina falando sobre América Latina. Eles são América do Norte falando sobre América Latina, ou Europa falando sobre América Latina. É diferente.

Yan Boechat – Eu acho que nem sempre as agências ou os jornais têm uma diretriz muito clara. Mas o repórter vai se acostumando e vendo que determinadas matérias que ele faz emplacam mais do que outras. Lentamente, nós todos vamos sendo empurrados, de uma forma talvez não tão explícita, para a maneira que o seu empregador pensa. Por mais que você tenha uma posição pessoal distinta – e talvez essa não seja uma coisa muito clara, preto no branco –, você fazer uma matéria que é contra o que o jornal pensa não vai emplacar tanto. É uma coisa mais sutil.

Natalia Viana – Lá no começo, Yan, você falou que acha que não é uma ditadura, mas que o chavismo agoniza. Você vê alguma solução para essa situação?

Yan Boechat – A solução é financeira. Dinheiro. Se tiver dinheiro, o regime vai sobreviver com certeza. Eu acho que isso está um pouco na mão da Rússia e da China, mais da Rússia do que da China, em manter não só fluxo de capital, mas também alimento, remédio… Esses itens básicos de que o país precisa para não entrar em colapso absoluto. É difícil imaginar que a Venezuela não vai entrar em default daqui a um ano ou dois. Tem pouco dinheiro circulando, pouco dólar. Então eu acho que a Rússia tem um papel muito especial dentro desse processo. É interessante para a Rússia ter uma Venezuela? Talvez sim. Mas vale a pena comprar esse barulho na América Latina, que saiu da agenda há quase duas décadas?

Natalia Viana – O que significa para a América Latina o ocaso ou a permanência do chavismo?

Marsílea Gombata – É experiência de um tipo de esquerda que a América Latina sonhou por muito tempo. E a Venezuela conseguiu implementar. Teve uma série de consequências e preços altos. A esquerda da região tem muita dificuldade em criticar a Venezuela porque é uma decepção pessoal. E eu acho ruim, porque eu acho que, quando você critica, você melhora. Esse argumento de que criticando você faz o jogo da direita é péssimo porque todo mundo fica calado e ninguém pode falar nada. Serve como experiência. Não somos a Venezuela, mas podemos aprender com coisas boas e ruins do chavismo. Não acho que tudo que aconteceu no chavismo é ruim.

Yan Boechat – A Venezuela é um país muito atípico na América do Sul. É um país mais caribenho de alma e tem uma economia que é muito própria. É o único país verdadeiramente rentista da América do Sul. Mas a gente vai sentir um impacto aqui se a coisa degringolar de verdade lá. Eu acho que você vai ter um fluxo migratório bastante importante. Já teve 30 mil venezuelanos. Você vai em Boa Vista e está cheio de venezuelano morando nas ruas, em uma situação realmente complicada. Essa é uma consequência importante que os países da região precisam olhar com carinho.