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No último ato, militância aposta na virada de Haddad

October 1, 2016 9:13, by Blog do Arretadinho

Segundo Datafolha, 34% dos eleitores admitem mudar de voto.
Cenário favorece crescimento de Haddad na reta final
Foto PAULO PINTO/AGPT
No último ato de Haddad no centro da cidade, militância aposta em virada
Acompanhado pelo ex-presidente Lula e centenas de eleitores, prefeito percorreu as ruas do centro histórico. Para Rui Falcão, "o PT sempre cresce no final"

por Redação RBA

 Ao som do cântico “Ô...Haddad já virou...Haddad já virou...”, a campanha do prefeito Fernando Haddad fez hoje (30) o último ato no centro da cidade de São Paulo, acompanhada por centenas de militantes que demonstraram acreditar na ida do prefeito para o segundo turno. Com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da vice-prefeita, Nádia Campeão, do candidato a vice-prefeito Gabriel Chalita, do ex-senador e candidato a vereador Eduardo Suplicy, e da esposa, Ana Estela, a caminhada com Haddad partiu do Páteo do Colégio, local histórico na cidade, terminando na tradicional rua de compras 25 de Março.

“Como acontece sempre, o PT cresce no final. Estamos na beirada do segundo turno. E no segundo turno tudo é diferente, os candidatos têm tempos iguais na TV e é apenas um contra o outro”, disse o presidente nacional do PT, Rui Falcão. Para ele, a situação de Haddad na disputa paulistana é semelhante à que ocorre com os candidatos petistas Raul Pont, em Porto Alegre, e João Paulo, em Recife.

Rui Falcão afirmou que a situação deste ano é mais difícil diante de toda a campanha feita contra o PT, e que incluiu, nas últimas duas semanas, a prisão “desnecessária” de dois ex-ministros do partido. Apesar disso, o presidente nacional da legenda reforçou a tradicional força do partido na reta final da disputa eleitoral.

Pensamento semelhante tem a psicóloga Cristina Boa Nova, de 65 anos, que acompanhou todo o trajeto da caminhada. “Acho que dá pra ir para o segundo turno. Estou com esperança. E no segundo turno não tem quem derrube a argumentação do Haddad. Estou com muita esperança”, afirmou. Para ela, o candidato tucano João Doria (PSDB), apesar de “ser um nada” na política, oferece riscos tendo em vista suas propostas. “Ele quer apenas vender a cidade. Mas até domingo muitas máscaras vão cair.”

A professora Juliana Silva Xavier, de 37 anos, disse que é preciso relativizar as pesquisas eleitorais. E lembrou a própria campanha de Fernando Haddad em 2012, quando as pesquisas o colocavam sem chance de vitória. “Acho que dá para chegar no segundo turno sim.” E caso isso se confirme, Juliana acredita que será mais fácil enfrentar o candidato tucano. “O Doria não tem proposta. Num debate entre os dois, o Haddad é muito melhor”, afirmou a professora de educação infantil, enquanto, ao fundo, o verso “Ô...Haddad já virou...” ecoava no centro da cidade.



PF prende agricultor e solta dono de plantação de maconha

September 30, 2016 19:45, by Blog do Arretadinho

Divulgação/Polícia Federal
A Polícia Federal anunciou a destruição de nada menos do que 36 mil pés de maconha em Pedra, no agreste pernambucano.
Apenas um homem de 26 anos, que trabalhava no plantio no momento da ação da polícia foi preso. Segundo o G1,ele segue detido em um presídio em Arcoverde.

O dono das terras e da plantação, no entanto, não está na cadeia. De acordo com a assessoria de Comunicação da Polícia Federal, plantação foi descoberta graças a denúncias. Nem o dono da fazenda nem o agricultor possuem antecedentes criminais.

O agricultor continua preso, enquanto o fazendeiro já recebeu o alvará de soltura no dia seguinte à prisão, e vai responder ao processo em liberdade.

Veio do bolso do fazendeiro, no entanto, o dinheiro para financiar a complexa estrutura da plantação, e provavelmente foi para ele todo o lucro da atividade.

Outras pessoas envolvidas no cultivo de 36 mil pés de maconha foram identificadas e serão indiciadas por tráfico e associação para o tráfico.

O caso foi registrado no dia 20, mas divulgado apenas nesta semana. A estrutura encontrada para viabilizar o cultivo surpreendeu os policiais pelo investimento em infraestrutura realizado na plantação.

Um sistema de bombas elétricas captava água da Barragem do Riacho do Pau e levava para pequenos açudes. Dois quilômetros de tubulação foram usados para viabilizar a captação. Adubos químicos e outros implementos agrícolas também foram usados no cultivo.

Ao fim da operação, a Polícia Federal cortou e incinerou todos os pés de maconha, o que daria 12 toneladas da planta quando fosse preparada para a venda. Foram destruídos também 120 quilos da substância que já estavam ensacados para distribuição.

Caso sejam condenados, os acusados poderão pegar penas que variam de 5 a 15 anos de reclusão.

da Revista Exame



A vida do gado que vira bife na JBS

September 28, 2016 22:05, by Blog do Arretadinho


Acima o gado é identificado com ferro quente em seu rosto. Foto: Piero Locatelli/Repórter Brasil


Choques, socos e pauladas: a vida do gado que vira bife na JBS
Fazendas fornecedoras da JBS contradizem marketing da empresa e não seguem recomendações do Ministério da Agricultura

por Piero Locatelli

Um bezerro é queimado no rosto com um ferro quente em Mato Grosso, bois tomam choques elétricos para entrar em um caminhão em Goiás, um animal recebe pauladas ao atravessar um curral em São Paulo e um filhote recém-nascido é arrastado pelo pescoço no Mato Grosso do Sul.

Cenas como essas foram registradas pela Repórter Brasil em fazendas que fornecem gado à JBS, a maior produtora de proteína animal do mundo e dona de marcas como Friboi e Swift. As práticas dos seus fornecedores violam a política de bem-estar animal estabelecida pela própria empresa. Além disso, o tratamento dado aos bois tampouco segue as recomendações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) sobre o assunto.

Para averiguar como as fazendas fornecedoras da JBS tratam os animais, a Repórter Brasil percorreu quatro estados diferentes entre dezembro de 2015 e fevereiro de 2016. Os locais visitados constam em um site da empresa, batizado de “Confiança desde a Origem”. O site mostra a localização, os nomes e as datas em que as fazendas forneceram bois aos frigoríficos da JBS. A partir dos dados georreferenciados fornecidos pela empresa, a reportagem encontrou os locais com o uso de GPS.

Em sua página oficial na internet, a JBS divulga que sua carne é produzida a partir de animais tratados com “respeito e sem sofrimento” e que os mantém livres de “dor, injúria e doença”, uma descrição distante da realidade encontrada nas fazendas. A empresa também afirma que seus fornecedores recebem treinamento constante sobre o assunto, mas fazendeiros e empregados ouvidos pela reportagem alegam nunca ter recebido supervisão da empresa. “Nunca veio ninguém fiscalizando nada. Eu tenho doze anos morando aqui e ninguém nunca fez isso”, disse à reportagem o funcionário de uma propriedade em Mato Grosso do Sul. As imagens flagradas refletem uma prática comum em diversas fazendas no Brasil, e não são restritas somente aos fornecedores da Friboi.



Além das regras da JBS, as fazendas também não atendem às diversas recomendações do Ministério da Agricultura sobre o bem-estar dos animais. Desde 2008, quando estabeleceu uma Comissão Técnica Permanente de Bem-Estar Animal, o órgão federal publica uma série de manuais sobre como os animais devem ser tratados. Os guias servem para orientar os produtores, mas não são de cumprimento obrigatório.

A JBS confirmou a localização dos fornecedores, após ser informada da sua localização, do seu nome e dos problemas encontrados em cada uma delas. Para ler a resposta da JBS, e saber quais foram e onde ficam as propriedades visitadas pela reportagem, clique aqui.

A JBS alegou que “não é responsável pelo manejo interno das fazendas”. A empresa também afirma que “100% dos motoristas da JBS e terceiros são treinados em Bem-Estar Animal, recebem certificados e assinam um termo de responsabilidade sobre essa política da companhia”.

Confira os problemas encontrados pela reportagem e as alternativas propostas pelo Ministério da Agricultura em cada caso:

Choques elétricos e pauladas
Choques elétricos são usados para que animais entrem mais rápido em caminhões ou para que eles fiquem de pé dentro das carrocerias. Para acelerar o embarque dos bois, pauladas também são desferidas. Os golpes deixam os animais agitados e fazem até com que eles se pisoteiem.

O uso do bastão de choques elétricos é desencorajada pelo Ministério da Agricultura. Segundo as recomendações do órgão federal, o instrumento deve ser “usado apenas em situações de emergência, não sendo indicado como prática de manejo devido ao alto risco de acidentes em função das reações dos animais”.
A reportagem presenciou animais recebendo choques em dois caminhões. Um deles, da própria JBS, levava gado de uma fazenda ao frigorífico de Barra do Garças, em Mato Grosso.

Em outro caso, uma fazenda fornecedora da unidade de abate de Goiânia transportava o gado entre duas propriedades do mesmo dono.

Ferro no rosto e imobilização
Imobilizados de forma violenta, bezerros recebem marcas em seu rosto com ferro quente em uma fazenda no interior do Mato Grosso. O processo, que visa a identificar os filhotes, é feito sem qualquer tipo de cuidado com o animal.

O Ministério da Agricultura recomenda que se evite a marcação com ferro quente no rosto do gado sempre que possível. E, caso o procedimento seja necessário, “que se proteja o olho do animal no momento de marcar”, o que não ocorreu nas fazendas visitadas pela reportagem. O manual também aconselha que a parte do corpo do boi a ser marcada passe anteriormente por um procedimento de higienização, o que também não aconteceu nos casos presenciados pela reportagem.

As marcações também aconteciam com os animais agitados, contrariando as recomendações do Ministério. Em outra fazenda no Mato Grosso, vacas eram marcadas a ferro em suas pernas ao mesmo tempo em que um funcionário da fazenda realizava um exame de ultrassom – o que deixava os animais extremamente agitados.

Violência contra bezerros
Antes ainda de serem marcados no rosto, os bezerros já sofrem com violência na chamada “maternidade” – onde ficam as vacas que pariram recentemente, separadas do restante do rebanho. Bezerros nascidos no dia anterior à visita da reportagem eram amarrados pelas pernas ou pelo pescoço e, posteriormente, arrastados por cavalos.

O Ministério da Agricultura recomenda que o bezerro não seja jogado no chão, prática também vista pela reportagem durante a identificação dos animais. Segundo o manual, o vaqueiro deve erguer o bezerro do solo e utilizar sua perna como apoio para colocá-lo no chão.

Pauladas e pontapés
A agressão a bezerros e bois dentro de currais foi presenciada pela reportagem diversas vezes. Em um confinamento na cidade de Guarantã, interior de São Paulo, e em uma fazenda em Damolândia, interior de Goiás, bandeiras brancas eram usadas para agredir o gado. As flâmulas deveriam servir apenas para indicar o caminho ao gado. Segundo as recomendações do Ministério, elas devem ser usadas como “extensão do braço e não como instrumento de agressão para bater ou cutucar os animais”.

A lotação dos currais de diferentes fazendas também estava acima da capacidade máxima sugerida pelo Ministério da Agricultura. A recomendação é de que os animais ocupem no máximo “metade do espaço disponível”, mas fazendeiros trabalhavam com os currais abarrotados e os animais agitados, muitas vezes machucando uns aos outros.

As vacinações também aconteciam com os animais em movimento, o que pode causar lesões. A recomendação do Ministério da Agricultura é de que os bois sejam imobilizados antes da aplicação –o que não acontecia em fazendas visitadas pela reportagem.

Essa reportagem faz parte de um especial sobre a indústria da carne. Leia mais em http://reporterbrasil.org.br/boi/

Sistema da JBS é falho
A reportagem visitou ao menos quarenta e oito locais apontados pelo sistema do site “Confiança desde a origem” da JBS. Ao procurar os locais apontados pelo banco de dados (acesse aqui), a reportagem se deparou com um sistema impreciso e, muitas vezes, falho.

Em alguns casos, o banco de dados apontava para fazendas com nomes diferentes daqueles que eram encontrados no local. Em outros, fazendeiros negavam vender gado à empresa. O site também mostrava fazendas localizadas dentro de cidades, lagos de barragens e até de Terras Indígenas. A JBS alega que “os dados geográficos das fazendas fornecedoras de gado são checados periodicamente por uma empresa terceira para evitar possíveis erros de localização”. (Leia a íntegra da resposta).

Os problemas referentes à promoção do bem-estar animal mencionados nessa reportagem se referem somente a fazendas com localização precisa e que tiveram relação comercial com a JBS confirmada pela própria companhia.

Brasil não tem lei sobre bem-estar em fazendas
A Constituição de 1988 estabelece que compete ao poder público vedar “práticas que submetam os animais a crueldade”, mas não há legislação específica sobre o bem-estar no manejo de animais no país.

Para tentar se adequar a padrões mundiais, o governo criou em 2008 uma “Comissão Técnica Permanente de Bem-Estar Animal”. Nos anos seguintes, foram publicadas as recomendações utilizadas nessa reportagem, elaboradas por universidades que pesquisam o tema no Brasil. (Acesse os manuais publicados pelo Mapa).

Já a JBS publica em seu site a sua política de bem-estar animal, baseada no princípio das “cinco liberdades”. Segundo essas regras, os animais da sua cadeia produtiva devem ser livres de “fome e sede; desconforto; dor, injúria e doença; medo e estresse; e serem aptos a expressar seu comportamento natural”. (Acesse o site de bem-estar animal da empresa). A JBS também afirma estar entre “as melhores empresas do mundo no que se refere às práticas de bem-estar animal”.

A reportagem foi feita com o apoio da organização não governamental Peta (People for the Ethical Treatment of Animals)



É possível derrubar o governo Temer?

September 28, 2016 20:52, by Blog do Arretadinho

Foto Joaquim Dantas/Arquivo
Foto Joaquim Dantas/Arquivo
Apesar de sua força institucional e de seu apoio midiático e empresarial, o governo Temer é fortemente instável por sua ilegitimidade e impopularidade.
Por Juarez Guimarães, na Carta Maior

A esquerda brasileira ainda não formou um juízo unitário sobre a força e a fraqueza do governo Temer, se é possível pela via democrática interromper o seu mandato golpista ou se estamos diante  de um longo período de resistência, cujo horizonte é defender com radicalidade as lideranças políticas e sociais em processo de criminalização, os direitos democráticos e sociais sob gravíssima ameaça, acumulando forças para uma nova etapa das lutas.
 
Há um risco evidente de transformar desejo em realidade, maximizando a instabilidade e minimizando a potência de estabilidade do governo Temer, ao mesmo tempo em que se descura dos limites programáticos, políticos e organizativos do nosso movimento político. A leitura de certos blogs alternativos da esquerda brasileira, que exercem um papel vital de contra-informação e contra-opinião em relação à grande mídia empresarial, pode alimentar diariamente este voluntarismo. Às vezes, parece até que a derrubada do governo Temer está à esquina; basta ir ao seu encontro!
 
Há, porém, um outro risco que é o de tomar a força institucional do governo Temer  como símbolo da sua força política e o apoio empresarial e midiático como símbolo de sua legitimidade. Por esta análise, Temer, apesar da resistência importante ao golpe, cumprirá  seguramente até o  final  o seu mandato de destruição do país e de criminalização das lideranças populares. O acúmulo político da esquerda neste contexto adverso seria feito fundamentalmente fora da institucionalidade, repondo suas energias históricas através de um novo programa de esquerda, sem conciliações com as classes dominantes, e de uma nova base social e militante capaz de sustentar um novo período de mudanças estruturais do país.

A reflexão proposta neste breve artigo procura compor o que há de força épica de uma vontade política com o que há de realismo político necessário em outra, formulando uma terceira hipótese que busca compreender  a força e a fraqueza do governo Temer em relação com a força e fraqueza do movimento político que opõe resistência a ele. Trata-se de construir um quadro complexo e dinâmico de análise da conjuntura  que se apóia em três dimensões analíticas chaves.
 
A primeira delas é que o governo Temer nasce de  uma fortíssima convergência de forças políticas, corporativas judiciais, geopolíticas,  empresariais e midiáticas – lideradas pelo PSDB-  mas não conseguiu construir  uma legitimidade democrática capaz de isolar ou marginalizar os que denunciam o golpe. Como estas dinâmicas de normalização e deslegitimação se relacionam e qual prevalecerá sobre a outra?
 
A segunda dimensão analítica busca entender mais precisamente os movimentos de formação de opinião pública desde a crise do segundo governo Dilma até o período após a votação no Senado que confirmou o golpe. A avaliação que se fará é que este movimento de opinião pública ainda não se estabilizou e está polarizado à esquerda e à direita, com um grande centro ainda indeciso  entre se conformar ao possível do governo Temer ou apoiar decididamente  quem luta imediatamente pelo seu fim.
 
A terceira dimensão analítica foca no amplo, diferenciado e em processo de construção, movimento político “Fora Temer”. O que se proporá  é que a unidade deste movimento, a sua radicalidade democrática e a sua capacidade de incorporar as forças organizadas das classes trabalhadoras  tem a capacidade de decidir os rumos da conjuntura. 
 
Normalização , instabilidade e crise de governo
 
Para analisar o futuro do governo Temer , é preciso diferenciar ilegitimidade e impopularidade, instabilidade e crise de governo. Ilegitimidade diz respeito ao questionamento do caráter do próprio governo e a impopularidade mede o grau de  sua rejeição às suas políticas. Instabilidade  diz respeito ao grau de imprevisão sobre seu futuro a partir da precariedade de seus fundamentos e ingovernabilidade seria um caso extremo de instabilidade, na qual a própria ação de governo torna-se inviável.
 
Se definimos a  normalização como  o processo de crescente isolamento das lideranças ou forças políticas que questionam a legitimidade do governo Temer e propõem o seu final, pode-se afirmar que a vitória dos golpistas no Senado, mesmo com uma vantagem de votos com folga maior que a dos dois terços, não “virou a página” como esperava  a inteligência estratégica que  formulava publicamente a passagem do “governo interino” para o “presidente Temer”. 
 
A presença forte, combativa e memorável de Dilma na sessão do Senado que cassou o seu mandato, as manifestações massivas e unitárias que a ela se seguiram no dia 31 de agosto e no dia 7 de setembro, a continuidade da  repercussão internacional  da narrativa que caracteriza o impeachment sem crime de responsabilidade como golpe, a decisão agora  consensual da direção do  PT – unido-se ao  PC do B, ao PSOL e demais forças da esquerda -, em favor de uma campanha pelas diretas já  são todas evidências de que não há um isolamento político do questionamento da legitimidade do governo Temer.
 
Se a vitória da normalização não se consumou, seria correto anunciar uma instabilidade crescente do governo Temer? De um ponto de vista estritamente institucional, esta não parece a tendência:  a vitória de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara  teve o importante papel de soldar uma maioria congressual mais orgânica aos planos do governo Temer, propiciando em um segundo momento um aparente importante grau de controle sobre o processo de cassação de Cunha, cuja reação até agora  tem sido muito aquém  do escândalo disruptivo esperado; a eleição de Gilmar Mendes para a presidência do TSE e sua decisão de adiar o exame das contas da chapa Dilma/ Temer para o próximo ano retira uma outra dimensão  de pressão imediata sobre o mandato de Temer; a indicação de um novo  vice Procurador- Geral  publicamente ligado a Aécio Neves por Janot anuncia um fortalecimento do PSDB em uma instância  decisiva nestes tempos de judicialização.
 
Do STF, agora presidido por Carmen Lúcia, não se espera  nenhuma decisão que possa ferir a estabilidade do governo Temer. O processo da Operação Lava-Jato tem aprofundado a sua, desde há muito visível e cada vez mais escandalosa, orientação  partidária de caça ao PT e à liderança de Lula.
 
Por outro lado, os resultados das eleições municipais de 2016, se não confirmarem uma derrota da esquerda nos principais centros eleitorais do país, dificilmente terão um resultado nacional que possa ser apropriado diretamente contra a estabilidade do governo Temer. O trabalho de nacionalização das eleições municipais, iniciado tardiamente em função da crise de direção dos principais partidos de esquerda e de uma postura, em certos casos,  sectária do PSOL, teve até agora  resultados muito parciais.
 
Assim, a instabilidade do governo Temer está relacionada principalmente a uma possibilidade de crescimento expressivo e radical de sua impopularidade, que seja politicamente orientada  para por um fim político ao seu mandato. É esta hipótese de um crescimento radical e fatal de sua impopularidade que explica a montagem da agenda do governo Temer em relação ao programa ultra-neoliberal  que é reivindicado pelos capitais financeiros e pela força política que dirigiu programaticamente o golpe: inicia-se  a agenda pela privatização e pelo regime de concessões , fartamente financiadas pelo BNES retornado a sua função privatista dos anos 90;  após as eleições virá a tentativa de aprovar a estratégica  PEC 241, fundamental para o desmonte das políticas públicas  e, para o ano que vem, a reforma previdenciária e trabalhista. A reforma eleitoral, que talvez venha alinhada a uma recomposição partidária de um novo bloco de poder,  pode ser, enfim,  pensada casuisticamente para modelar o resultado já das eleições presidenciais de 2018.
 
A hipótese  de uma crise de ingovernabilidade golpista  ficaria, portanto, condicionada  a um crescimento de um movimento político de massas, apoiado em uma radicalização da impopularidade do governo Temer, que poderia se combinar com dissidências e contradições no seio da ampla coalizão partidária e parlamentar que o sustenta. 
 
Será esta hipótese possível ? É o que passamos a analisar a seguir.
 
Clivagens e movimentos da opinião pública; da resignação à revolta?
 
Um exame  da última Pesquisa Nacional da Vox Populi, realizada entre os dias 29 de julho e 1 de agosto, mostra que esta hipótese hoje  ainda não é possível. Se é verdade que 61 % dos brasileiros  preferem o direito de escolher um novo presidente, quando estimulados por três respostas  - a realização de eleições para presidente antes de 2018, o retorno de Dilma ou a permanência definitiva de Temer até 2018 -, os índices de avaliação do governo Temer  não autorizam uma avaliação de que há uma insatisfação generalizada e, mais ainda, uma  disposição majoritária para ir às ruas para exigir o seu fim. Em relação à pergunta acima formulada, apenas 17 % optaram por confirmar o seu mandato, o que demonstra a sua ilegitimidade mas não, nos termos que definimos, a sua ingovernabilidade.
 
Em relação à avaliação  de  Temer, se apenas 13 % têm uma avaliação positiva de seu governo, os que têm uma avaliação regular (38 %) são em maior número dos que têm uma avaliação claramente negativa (35 %), enquanto 14 % não opinaram. Isto ainda diferencia o seu governo do último período do governo Dilma, quando uma maioria de quase 2/3 avaliava como negativa o seu governo.
 
Na região Sudeste, há  um empate entre os que têm avaliação negativa (42%) e os que têm avaliação regular (41%), enquanto 17 % o avaliam positivamente. No Sul, o governo Temer melhoraria sua avaliação:  51 % regular, 30 % negativo e 19 % positivo. No nordeste, a tendência se inverte com um claro porcentual maior de desaprovação.
 
É interessante  ver a orientação classista ou popular  destes dados. A rejeição a Temer cresce  quando se vai da maior renda para a menor e do padrão educacional do universitário para o ensino fundamental. Assim, até 2 SM ( 46 % N, 41 % R e 13 % P), de 2 a 5 SM ( 40% N, 48 % R, 16 % P), mais que 5 SM ( 35 % N, 47 % R, 19 % P), sendo N negativo, R regular e P positivo. Ou, Ensino Fundamental  (44% N, 44 % R, 12 % P), Ensino Médio ( 41 % N, 44 % R, 15 %P) e Ensino Superior ( 35 % N, 47 % R, 19 % P).
 
Como interpretar estes dados? 
 
Uma análise  profunda  destes dados exigiria um trabalho interpretativo, de correlação, de análise de série de pesquisas, de utilização de outros bancos de dados, mais além do que caberia neste ensaio.  Mas é possível lançar uma hipótese verossímil.
 
Ao que tudo indica, há cerca de 1/3 dos brasileiros que rejeitam Temer já de modo mais claro. Este 1 /3 provavelmente constitui a base histórica mais estável de votação na esquerda brasileira, que ainda continua votando em Lula no primeiro turno ( 28 %) e no segundo turno ( em torno a 35 %). Mas apenas cerca da metade dela apoiava a permanência de Dilma e hoje apenas 1 /3 dela mantém simpatia pelo PT, como registra a mesma pesquisa.  
 
Se cerca de 1/3 dos brasileiros têm votado sistematicamente no PSDB em eleições presidenciais no primeiro turno ao longo das últimas eleições, é razoável supor  que  menos da metade deles apóiam decididamente o governo Temer.  A outra metade, estaria formando ainda uma opinião mais definitiva, estando disponível até para vir apoiar uma eventual troca de comando do governo golpista, em favor do PSDB que já ocupa tantos postos chaves.
 
Se desde 1994 a 2014, 1/3 dos eleitores variou o seu voto pragmaticamente  para a esquerda ou para a direita – ora dando maioria ao PSDB, ora dando maioria ao PT, da última vez dividindo-se quase ao meio -  é de se supor  que eles hoje formam a parte mais substantiva dos que ainda não formaram uma opinião sobre o governo Temer: não o consideram positivo ou negativo. Estão esperando para formar uma opinião.
 
O mais provável é que nos próximos meses este 1/3 de indecisos se volte cada vez mais para formar uma opinião negativa sobre o governo Temer.  Por três razões conjugadas: a economia está longe de dar um sinal seguro de recuperação, com a manutenção das altas taxas de juro e cortes profundos nos gastos estatais, além de recuos nas rendas das famílias brasileiras, em um quadro negativo da economia internacional; as medidas anti-populares a serem tomadas pelo governo Temer terão  uma repercussão fortemente  negativa ; os escândalos e denúncias de corrupção continuarão atingindo fortemente o governo Temer e seus aliados.
 
Dados recém divulgados do Ibope para as capitais confiram esta previsão: o patamar de ruim/péssimo do governo Temer nas capitais já estaria na ordem de mais de 40 % no Sudeste e mais de 60 % no Nordeste. E as medidas  mais anti-populares apenas começaram a ser encaminhadas.
 
O que ocorreria com um governo que já é fortemente ilegítimo para a maioria da população, passar a ser fortemente rejeitado também pela maioria da população? 
 
Neste contexto, é possível que manifestações de revoltas massivas combinadas com dificuldades cada vez maiores do governo em manter a sua base parlamentar coesa, em meio a um crescimento das tensões no interior da coalizão que o viabiliza, forme uma crise fatal para o governo Temer. 
 
Imaginar politicamente a queda do governo Temer
 
Se  a mídia empresarial  a cada dia nos quer mostrar porque a esquerda não tem sequer identidade e está derrotada, aprendemos dia a dia nas ruas lições de como a esquerda se reinventa, pode e precisa ser vitoriosa. Mas alguém já formulou a imaginação política da derrota definitiva dos golpistas?
 
Esta imaginação está no editorial de Mino Carta “Em busca da consciência” da revista Carta Capital  do dia 14 de setembro que traz na capa engajada as bandeiras do “Fora Temer” e “Diretas já”. Diz Mino Carta, no site da revista, sempre com uma garrafa de vinho – in vino veritas? – e uma taça à mão: “ A ilegitimidade do governo Temer é nítida não somente aos olhos estrangeiros, e o “Fora Temer” já sobrepuja o tom e o efeito do “fora Dilma”. Bons sinais em meio ao caos. Apreciaria evitar ilusões pela enésima vez, mas lá vou eu, de novo. E me arrisco: quem sabe algum dia o brasileiro do futuro, próximo, espero, possa dizer que o golpe de uma quadrilha a serviço da casa-grande teve o condão de despertar a consciência nacional”.
 
“A vida é sonho”, já se escreveu, e o verismo que soubermos viver neles, acrescentamos. É preciso analisar também a força e a fraqueza do movimento político “Fora Temer”.
 
A sua força  pode ser sinteticamente revelada em três fundamentos mutuamente configurados. Em um momento em que a esquerda brasileira corria o risco de perder sem identidade – ser posta abaixo e praticando políticas econômicas neoliberais -, o movimento “Fora Temer” repôs o vermelho anti-neoliberal e anti-golpista nas ruas. Sob o risco de descentramento e dissolução, o movimento “Fora Temer” soube construir uma unidade política  - a Frente Brasil Popular, a Frente Povo Sem Medo -  que há mais de uma década não se verificava. Por fim, o movimento “Fora Temer” é político-cultural e libertário, trouxe os artistas, as mulheres, os negros, os gays para o primeiro plano da luta política, “caminhando e cantando como nos velhos tempos”, Chico mas também  Caetano e Gil, o nacional-popular e a Tropicália, juntos como nunca. 
 
A sua fraqueza, da mesma forma, pode e deve ser também escavada: ele repôs o vermelho mas não ocupou o verde-amarelo, isto é, foi identitário de esquerda mas não hegemônico. É possível que 99 % dos que participaram das manifestações de rua votaram em Dilma no segundo turno em 2014, embora uma parte importante dos que nela votaram, na rua não compareceram.  A segunda fraqueza, decisiva, foi a ausência das bases dos movimentos sindicais, embora a CUT tenha tido um papel decisivo em várias momentos, e também dos povos das periferias, embora lideranças populares tenham também cumprido um papel fundamental . Além disso, em função de seu processo de institucionalização, a esquerda  brasileira carece de bases organizativas e comunicativas à altura de um protagonismo hegemônico. 
 
Daí o risco maior de falar para si, de perder o sentido da formação das maiorias a partir de sua identidade. Falta a esta esquerda um programa para um novo ciclo de mudanças,  “democrático e popular”.   A noção de que um ciclo de mudanças por dentro da ordem política corrompida e  não reformada  e em conciliação com as forças do capital financeiro chegou ao final, agora é uma consciência generalizada. O que antes se programatizava na esquerda do PT como impasse,  na cisão do PT, muitas vezes sectariamente, como  traição, agora se tornou consciência generalizada ou, pelo menos, majoritária.  Uma refundação da esquerda brasileira está no horizonte.
 
O movimento político “For a Temer” precisa agora se tornar hegemônico, no sentido mesmo de Gramsci. Por quais caminhos?
 
É possível pensar em três grandes vetores de universalização.
 
O primeiro deles é o de vincular o “Fora Temer” com a reivindicação democrática das “Diretas já”, que representa, no contexto, o caminho da reposição da soberania popular. Não se trata apenas de um slogan mas de uma campanha em torno a uma  solução democrática para o impasse brasileiro que se dirige a todos que são contra  o golpe mas não se sentem representados pela esquerda. A esquerda brasileira tem que reconstruir as suas razões republicanas no coração do povo brasileiro: daí a importância estratégica central de um plebiscito para a convocação de uma Assembléia Constituinte Extraordinária para fazer a reforma política.
 
O segundo caminho é da convocação a todos para defender a liderança histórica de Lula diante da sua infamante perseguição e ameaça de cassação. Este é o movimento histórico de uma nova fusão programática entre uma esquerda renovada e um novo ciclo popular de mudanças, de sentido frentista político, latino-americano e internacionalista, no sentido de que Lula é hoje, mais do que nunca, a principal liderança popular da esquerda mundial. Mais do que nunca precisamos do Lula, alma de peão de São Bernardo, e Lula precisa de nós, não apenas para resistir, mas para ir além.
 
O terceiro caminho é o da “dialética negativa”, para retomar a bela expressão de Adorno. Não há mais como defender os direitos do trabalho, os direitos da saúde e da educação, da previdência, dos negros e das mulheres, separadamente e até corporativamente. Sobretudo não há mais como defender estes  direitos sem por no centro o ataque aos poderes do capital financeiro e dos rentistas na democracia brasileira. Um novo ciclo de formação de direitos, universal e distributivo, feminista e anti-racista, libertário e ecológico, precisa programaticamente  ser construído na esperança do povo brasileiro.
 
Se já tivemos “a esperança equilibrista”, se “a esperança  crítica” já se fez necessária, agora é a hora da “esperança nova”.  Com Manuel Bandeira e Drummond, renovemos o nosso sentimento do mundo. Se às ruas e aos movimentos libertários  se somar a força dos trabalhadores organizados, nos próximos meses podemos por abaixo o governo golpista de Temer  hoje e cada vez mais dirigido programaticamente pelo PSDB.



Na dúvida, vá pela esquerda!

September 28, 2016 20:32, by Blog do Arretadinho


Por Gustavo Noronha, no site Brasil Debate:

“Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros” . Ernesto Che Guevara.

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”. Rosa de Luxemburgo.

O grupo que assaltou o poder no Brasil apresenta uma agenda para o país com dois pontos bem claros: a flexibilização dos direitos da classe trabalhadora (direitos trabalhistas e previdenciários) e a diminuição do papel do Estado na economia. Uma proposta que jamais foi submetida ao escrutínio popular. No voto, ideias como estas quando explicitadas de maneira honesta são sistematicamente rejeitadas pelas urnas.

Em realidade, tanto os direitos de quem vive da venda de sua força de trabalho como a ideia de um Estado atuante na proteção social, no fornecimento de serviços de educação e saúde e, até mesmo, intervindo em setores considerados estratégicos da economia em nada tem a ver com uma discussão objetiva sobre o que eventualmente seria melhor para o bem-estar geral do povo brasileiro.

Ocorre que a natureza do capitalismo é disfuncional e estas medidas são preventivas para evitar uma natural revolução social que derrube sistema. Antes do colapso soviético, não eram sequer opcionais diante da ameaça do socialismo real. Com o fracasso destas experiências, o desmonte do estado de bem-estar social e a desconstrução qualquer legislação que protegesse o trabalhador das assimetrias na relação de trabalho, surgiram de forma natural.

As organizações dos trabalhadores, desempoderadas de um modelo alternativo, têm agido reativamente desde então com a inerente bandeira contra a retirada de direitos sem, contudo, propor um outro conjunto de medidas.

Não basta enunciar palavras de ordem como “nenhum direito a menos” se, no fundo, o que todo trabalhador sonha é com direitos a mais. Do mesmo modo, não será suficiente denunciar o golpe, gritar “Fora Temer” e pedir eleições (diretas para presidente ou gerais), sem que ao mesmo tempo se apresente uma pauta concreta para classe trabalhadora.

Utilizando-se dos termos que estão na moda, a narrativa vigente apresenta a esquerda como os defensores da corrupção enquanto a direita como aqueles preocupados com os destinos do Brasil. Não será suficiente a demonstração didática de que a corrupção é parte indissociável do sistema capitalista e que, como demonstraram os áudios do Jucá, o golpe foi arquitetado para delimitar o escopo das investigações dos escândalos em curso.

A esquerda precisa apresentar uma agenda com pontos claros que a distinga da direita no projeto de país, mas, para isso, tampouco será suficiente uma agenda de conciliação de classes. O golpe destruiu as ilusões dos que acreditavam nesta utopia. O povo precisa saber exatamente qual o programa que a esquerda apresenta ao país.

Caso devolvam-nos a democracia, uma próxima vitória eleitoral permitiria a implementação de um programa de verdadeiras transformações no país. Do contrário, só restaria um assalto ao Palácio de Inverno.

Neste contexto, entendemos que o tempo de propostas intermediárias passou. O golpe deixou claro que a estratégia da conciliação de classes e de melhorias pontuais no sistema serão sempre insuficientes. Não se afirma aqui que a revolução é o único caminho, mas coloca-se a necessidade da apresentação clara de um conjunto de reformas que mudem de vez o caráter do Estado Brasileiro. O programa mínimo deve ser radical o suficiente para que tenha cara de programa máximo.

Precisa-se, claro, ter ciência de que o aparato midiático segue na mão de poucas famílias pertencentes à velha elite brasileira. Só que, ao mesmo tempo, esses grupos construíram algumas ideias que, ainda que delas se discorde, podem ser usadas na construção de um modelo alternativo de sociedade.

Se aceite, pois, o discurso de que as contas públicas necessitam ser saneadas. Não se pode naturalizar, então, um modelo em que os gastos com juros consumam um orçamento maior que os gastos com saúde e educação somados. “Ah, mas é preciso combater a inflação, dirão os teólogos do deus Mercado”, haja teologia para enxergar inflação de demanda numa recessão.

Para melhorar ainda mais as contas públicas poder-se-ia (uma mesóclise já que o presidente golpista gosta tanto!), por que não, pautar uma forte tributação sobre grandes fortunas, patrimônio e herança? Aproveita-se e discute-se junto a meritocracia de que boa parte da classe média tanto gosta.

Se é para usar o equilíbrio de mercado como um mecanismo de justiça social, é preciso repensar toda a distribuição inicial dos recursos: o direito de herança precisa ser debatido; imposto sobre grandes fortunas deve ser imediatamente implementado; expropriações têm que estar no centro do debate não apenas pela figura da função social da propriedade, mas também para que as dotações iniciais sejam ajustadas adequadamente para um resultado eficiente e socialmente mais justo.

E deve-se aproveitar esse discurso da meritocracia que a elite vende e a classe média compra para discutir o acesso a serviços de educação e saúde da mesma qualidade para todos. Se o discurso é o do mérito, todos devem largar do mesmo ponto. Portanto, é fundamental que a saúde e a educação sejam exclusivamente públicas. Deve-se vedar a existência de provimento privado para tais serviços. Somente quando os filhos da casa grande dividirem a classe ou o leito com os filhos da senzala, poderá se falar em meritocracia.

“É preciso modernizar a legislação trabalhista”, dizem todos os noticiários da grande mídia. Sabe-se o que querem dizer com isso, mas por que não ressignificar estas palavras? Não adianta apenas o discurso da resistência por nenhum direito a menos, a reforma trabalhista urgente e necessária é a redução da jornada de trabalho sem redução dos salários. Os avanços tecnológicos permitem tranquilamente uma jornada de 30 horas semanais com efeitos positivos inclusive no nível de emprego.

Outra reforma que se alardeia como necessária seria a reforma da previdência para cobrir um suposto déficit. Entretanto, a professora Denise Lobato Gentil já demonstrou que nossa seguridade social é superavitária.

Deste modo, a única reforma necessária nesta questão é um aumento do salário mínimo para que alcance o patamar necessário segundo o DIEESE, atualmente em R$ 3.991,40. Como são recursos que irão para famílias com alta propensão marginal a consumir, teríamos ainda impactos positivos no crescimento econômico com uma política desta natureza – mais emprego formal, maior arrecadação na previdência social.

Desde as fatídicas jornadas de junho de 2013, abriu-se uma brecha que a direita ocupou e a esquerda precisa retomar. A pauta inicial daquele movimento dialogava diretamente com o modelo de cidade, as eleições municipais estão aí e o campo progressista precisa claramente colocar no debate a reforma urbana. Faz-se necessária pauta que inclua desde o transporte alternativo em ciclovias ao transporte urbano público. Precisa-se debater claramente a gentrificação dos espaços públicos, pautar o IPTU progressivo, apresentar uma política habitacional que não envolva remoções dos mais pobres etc. As cidades têm que pertencer aos seus cidadãos e não aos endinheirados que nela vivem.

A reforma agrária que o Brasil perenizou para não fazer precisa de fato acontecer para que seja alcançado o sonho de José Bonifácio, Joaquim Nabuco, João Goulart e tantos outros.

Se nos tempos de crescimento econômico a reforma agrária era necessária, com a crise ela tornou-se urgente. Trata-se de uma política que fortalece o combate à miséria tanto na via da produção de alimentos como na inclusão produtiva. Constitui-se ainda como uma importante ferramenta auxiliar para enfrentar os constrangimentos do processo inflacionário.

Estudos econômicos sobre economias de escala na agricultura demonstram que a grande propriedade possui custos crescentes de escala. Custos de gerenciamento, logística e mão de obra, a imprevisibilidade meteorológica e a volatilidade dos preços internacionais são alguns fatores que nos permitem afirmar que o setor agrícola não possui características de uma atividade capitalista no senso comum.

Ademais, todas as nações cujo padrão de desenvolvimento é idealizado pela grande maioria da sociedade brasileira passaram por um processo, quase sempre radical, de democratização do acesso à terra.

Uma reforma agrária radical é, por fim, um mecanismo mais imediato de reforma política hoje disponível. Se temos uma bancada ruralista fortalecida que ousa propor o desmonte das políticas de regularização de territórios quilombolas e indígenas e busca ressignificar o trabalho escravo, isto se deve à não realização de uma profunda e radical reforma agrária. É a principal alternativa para quem aposta no fortalecimento da democracia com o desempoderamento das elites tradicionais.

Deste modo, apresentando ao menos este conjunto de propostas, pode-se chegar às pessoas e dizer: na dúvida, vá pela esquerda.



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