Motorista bate o carro no mesmo lugar pela terceira vez.
noviembre 14, 2016 13:03Um homem sofreu um grave acidente de trânsito, na noite de sexta-feira (4/11), em Londrina, no Paraná.
O que seria uma notícia dita comum, chamou a atenção por dois motivos: a gravidade e por ser a terceira vez que a vítima se envolve em um acidente no mesmo trecho.
De acordo com o site TN Online, o motorista seguia com um veículo Fusca pela zona sul da cidade, quando perdeu a direção do veículo e se chocou contra um poste de energia. O impacto foi tão violento que o carro quase repartiu ao meio. A vítima foi socorrida pelo Siate e encaminhada ao Hospital Universitário de Londrina com ferimentos graves.
A família do motorista afirmou que ele já sofreu outros dois acidentes nesse mesmo trajeto e acredita que, desta vez, o sol possa ter prejudicado sua visão causando a batida.
do butecologia.com.br
"Mudar o Enem é um retrocesso", diz Haddad
noviembre 14, 2016 11:45![]() |
| 20.out.2016 - Fernando Haddad, prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação Marcelo D Santis/FramePhoto/Estadão Conteúdo |
"Mudar o Enem é um retrocesso", diz ex-ministro da Educação Haddad
Em 2009, onze anos após ter sido criado, o Exame Nacional do Ensino Médio passa por uma reforma que o modifica completamente. Até então uma prova de 63 questões que cobrava principalmente a capacidade de interpretação de texto, o exame se torna um grande vestibular, realizado em dois dias, e se consolida, ano após ano, como a principal porta de entrada para a educação superior no Brasil.
Neste 2016, ano em que o Enem completa sua maioridade, o formato e o objetivo da prova voltam a ser discutidos. Na presidência do Inep, órgão responsável pela formulação do exame, está a professora Maria Inês Fini, uma das criadoras do exame em 1998, crítica do caráter atual da prova e que não descarta uma reforma que resgate a proposta inicial da avaliação.
"O Enem atual foi uma construção histórica, com a participação dos reitores, dos secretários de Educação dos Estados. Mexer nele vai ser um grande retrocesso. Parece mais um capricho de quem acha que é dona do exame, não é?"
O questionamento é de Fernando Haddad, atual prefeito de São Paulo e o pai da reforma do Enem de 2009, realizada em sua gestão como ministro da Educação, cargo que ocupou de 2005 a 2011 durante os governos Lula e Dilma. A edição do Enem anterior à sua posse no MEC tinha registrado 1,5 milhão de inscritos. Quando deixou a pasta, mais de 6 milhões haviam participado da prova.
Hoje, a nota do exame é usada tanto para pleitear vaga em instituições públicas, por meio do Sisu (sistema de seleção unificada), como é também requisito para se candidatar a uma bolsa do ProUni ou do Fies.
UOL - A principal mudança no Enem foi promovida em 2009, durante sua gestão no MEC. Como você avalia esse processo de transformação?
Fernando Haddad - O Paulo Renato [Paulo Renato Souza, ministro da Educação no governo FHC em cuja gestão foi criado o Enem] disse uma frase na época que merece ser resgatada. Quando houve a mudança em 2009, ele se posicionou contra e disse que o Enem já não existia mais. Que tínhamos mantido a grife do nome, mas mudado completamente o conteúdo. Ele estava certo. De 1998 a 2008, ele é um exame, de 2009 em diante ele é completamente diferente: os propósitos, a estratégia. Nós mantivemos o nome até para romper com uma tradição de troca de nomenclatura. Mas é outro conceito de prova.
Qual é o conceito?
Nós queríamos começar a reforma do ensino médio pelo Enem, por isso ele é dividido em quatro áreas do conhecimento. A partir daí, havia outros objetivos, subprodutos desse primeiro, como acabar com o vestibular, transformar o Enem na métrica de qualidade do ensino médio no lugar do Saeb [Sistema de Avaliação da Educação Básica] e iniciar uma discussão sobre a base nacional comum. Meu projeto de Enem nunca foi só uma mudança de prova de um dia para dois. Quando saí do MEC, no final de 2011, tínhamos cumprido a primeira tarefa, que era justamente consolidar o exame, que é gigantesco. O restante aconteceria com o tempo...
Que poderia caminhar no sentido do que prevê a medida provisória do ensino médio?
Sim. Tem uma parte da MP, a parte boa, que não tem novidade. O Enem já estava promovendo essa divisão por áreas no ensino médio. O Sisu foi montado de maneira a permitir que cada universidade possa ponderar o peso de cada prova a partir do perfil do curso. Para ingresso em engenharia, por exemplo, o peso da prova de matemática poderia ser 5; física e biologia, 4; e ciências humanas, 1.
A ideia era de uma reforma orgânica...
Orgânica e sem MP, porque a MP é um desastre. É a primeira vez que a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996] é reformada por medida provisória. Isso nunca aconteceu nos 20 anos de existência. É um precedente horroroso, porque educação é diálogo, antes de mais nada. Você pode lançar um programa por MP. O Prouni foi lançado assim. Mas a LDB nem poderia recepcionar MP. Aliás, se eles mesmos [governo Temer] estão dizendo que a reforma começa em 2019, qual o sentido de exigir a aprovação num prazo de uma MP, com os debates apertados? Se a reforma tivesse sido proposta, acho que os estudantes teriam aceitado o debate.
Os críticos à reforma que você promoveu em 2009 afirmam que a mudança fez com que o exame perdesse a característica de diagnóstico, o transformou apenas uma prova de massa.
Ele já não tinha característica de diagnóstico. Primeiro que não respeitava a Teoria de Resposta ao Item, a TRI, usada no mundo todo. Como uma prova que não segue a TRI serve para diagnosticar o que quer que seja? Era uma prova muito precária, não servia rigorosamente para nada. Sem série histórica, não podia nem ser comparável no tempo.
O processo de consolidação do Enem pós 2009 também foi complicado, não é? O furto da prova, no fim do ano, não colocou tudo em xeque?
O problema original ali foi que o Tribunal de Contas da União cismou que o Enem teria de ser licitado. Nós falávamos que era impossível, em função dos riscos. Você não licita uma operação tão delicada e que envolve tantos atores. Ninguém tem capacidade de coordenador o Enem, a não ser o próprio MEC e, para isso, ele teria de contratar os parceiros para garantir a segurança do sistema. Tanto isso é verdade que nenhum vestibular é licitado. A Fuvest não licita o vestibular da USP [Universidade de São Paulo]. Mas não havia como vencer por argumentos. Precisou existir uma desgraça. Obvio que depois do furto, o TCU nunca mais fez carga em cima disso. Ficou provado, na prática, que estávamos com a razão. Tanto que, nos anos seguintes, os problemas são pontuais, envolvem 0,1%, dos inscritos, percentual compatível com a TRI, que justamente permite socorrer o exame quando há necessidade, como neste ano [por conta das ocupações nas escolas, o exame foi adiado em 405 locais de prova]
Mas, especificamente em 2009, não houve o risco de que o novo modelo não fosse continuado?
Era uma questão de honra. Nunca houve risco porque eu não iria recuar jamais. Até pelo contrário. O presidente Lula me chamou e brincando perguntou: "você vai precisar do Exército, da Marinha ou da Aeronáutica?" Eu respondi que dos três e ainda da Polícia Rodoviária Federal, das polícias militares e dos Correios. Fiz a lista toda de órgãos que seriam mobilizados para fazer uma prova em 60 dias para 4 milhões de pessoas. Ele botou todo o aparato e daí pudemos contratar quem nós queríamos. Não havia mais pressão pra licitar e pacificou o entendimento junto ao TCU de que o MEC estava certo. Não precisávamos ter passado por aquilo. Depois disso, ano a ano, só cresceu.
Apesar de não ter anunciado que tipo de mudança pode fazer, a atual presidente do Inep, professora Maria Inês Fini [uma das criadoras do exame, em 1998], já sinalizou que pode alterar a prova, que ela acredita ser hoje uma "lista de conteúdos". Como você vê isso?
Acho que essa mudança também seria por uma questão de custo, para deixar a prova mais barata. Não conheço os atuais reitores, mas no meu tempo de ministro essa proposta não seria aceita jamais. Ela não faz sentido. É um desmonte daquilo que estava sendo construído. O Enem atual foi uma construção histórica, com a participação dos reitores, dos secretários de Educação dos Estados. Mexer nele vai ser um grande retrocesso. Parece mais um capricho de quem acha que é dona do exame, não é?
Mudar o conteúdo da prova pode fazer com que as universidades públicas parem de adotar o exame como critério de seleção?
Receio que, se houver uma reforma na linha do que está sendo anunciado, a gente pode perder adesões importantes. Isso não é prudente. O certo seria sensibilizar as universidades para usar o Sisu de maneira adequada. Porque a ferramenta está preparada para ponderar as médias de forma quase que sob medida para cada curso. Seria o movimento que eu faria como ministro. E daí, sim, você teria escolas de ensino médio que iriam preparar mais para exatas, para humanidades, para educado profissional. Você iria diversificar o ensino médio de forma inteligente: base comum nacional e pesos diferenciados para áreas específicas de saber.
Essa reforma do ensino médio tendo o Enem como indutor, como você defende, também é bem lenta, não é?
O ensino médio é complicado no mundo inteiro --o jovem começa a ter autonomia e a autonomia não tem só vantagens, você tem de saber o que fazer com ela. Tanto que o Pisa [avaliação internacional organizada pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE)] é aplicado aos 15 anos e depois disso cada país tem uma história. Você avalia aos 15 anos e depois só volta a avaliar a produção científica. Esse miolo é muito complicado. Mas a gente imaginava que corrigindo o fundamental e acertando os parafusos do superior, chegaria o momento de reajustar o médio. E chegou, mas não desse jeito, por meio de uma MP que numa parte só atualizou o que já acontecia e na outra é um desastre. É um erro fatal na educação. Errou na fórmula, você pode estar certíssimo que não vai ter volta.
E a fórmula atual do Enem tem no que ser aperfeiçoada?
Acho que é preciso fazer uma reforma na matriz do Enem, enxugá-la um pouco em parceria com as universidades. É preciso também pedir aos reitores para sensibilizarem a sua comunidade a ponderar as notas das provas de acordo com a vocação de cada curso. As pessoas olham para o Sisu em relação às políticas afirmativas e não olham para o lado educacional dele. Isso, aliado à base nacional comum, faria que fosse sendo arrumado o que é o maior desafio mundial da educação: essa etapa dos 15 anos 19 anos. Estávamos no caminho, mas eles nunca engoliram a reforma, e menos ainda que ela tenha dado certo.
do UOL
Os acendedores de manhãs
noviembre 13, 2016 10:43![]() |
| Foto Joaquim Dantas/Arquivo |
Ah! Esses meninos. Ah! Essas meninas.
Espalham-se pelas ruas, pelas escolas, pelas universidades. Não se contentam mais em esperar pelo amanhã, não querem apenas, como deles dizia Máximo Górki, ter a face do amanhã. Têm sede de hoje, estão famintos pelo agora.
Quem são esses meninos, que ocupam o Brasil, que transbordam em sua juventude e em sua rebeldia, que não podem mais ser escondidos, por mais que tentem? São herdeiros de outros meninos, em lugares e em tempos tantos da nossa história. São herdeiros daquele menino baiano Antônio de Castro Alves, abolicionista e republicano, voz tão poderosa a pregar aos séculos que “toda noite tem auroras” e a dizer aos moços como ele que “não tarda a aurora da redenção”. Descendem eles do menino alagoano Zumbi, que imberbe ainda comandou homens e sonhou a liberdade.
Quem são essas meninas, buliçosas e de olhar tão vivo, que transpiram beleza e coragem, que erguem a voz doce e firme em tribunas hostis, obrigando velhos conservadores a desviar o olhar, envergonhados e derrotados, por mais que se vistam de vencedores? São descendentes diretas daquela menina Anita Garibaldi, que aos dezoito anos fazia guerra e amor, incendiando o sul do Brasil com a chama da liberdade. Elas vêm da baiana Maria Quitéria, pondo em fuga o opressor português. Vêm de outra baiana, Maria Bonita, que aos vinte anos armou a ternura e alou-se em lenda na caatinga sertaneja.
Por que despertam tanto ódio nas elites, por que são tão atacados? Não são um exército com tanques, mísseis, fuzis. Não são uma força estrangeira a nos invadir. Qual o perigo que representam, então? Por que jornais e emissoras de TV se empenham tanto em atacá-los? Por que representantes de um governo ilegítimo, velho, machista e misógino, atacam com tal força essas meninas que discursam? Por que recrutam milícias que parecem integralistas saídos de um mofado livro de história para atacar esses jovens?
É que esses meninos, essas meninas, riso solto e gargalhada livre, são uma grande ameaça. Os alicerces desse edifício secular das classes dominantes tremem ante o riso deles, temem a sua gargalhada. Mas acima de tudo, o que causa temor mesmo são os sonhos desses meninos e meninas. Sim, eles sonham. Sonham com educação de qualidade, sonham com justiça, sonham com uma polícia que não seja executora da juventude, sonham com um Brasil novo e têm a mais pura e justa certeza de que o novo sempre vem.
É por isso que eles são tão perigosos. É por isso que há jornalistas vendidos que os atacam. É por isso que há promotores de justiça que ordenam que eles sejam algemados. É por isso que há juízes que autorizam e recomendam o uso de técnicas de tortura contra eles. É por isso que há policiais prontos a bater, a socar, a prender. Porque esses meninos e essas meninas são perigosos, porque eles agarraram o futuro com as mãos e querem que o futuro seja aqui e agora, e não num tempo que nunca chega.
Esses meninos são perigosos porque eles podem colocar o mundo de ponta cabeça, e de virá-lo em festa, trabalho e pão, como sonhou o poeta.
E esses meninos e essas meninas estão armados. Suas armas são as ideias que carregam, são o verbo que corta, a voz que inflama. Estão armados, eles. Trazem consigo a arma mais poderosa que há. Como em Pessoa, trazem em si todos os sonhos do mundo.
Parece que saíram de algum poema, esses meninos, essas meninas. Parecem que saíram de algum poema, para em tempos de tanta escuridão, de noite tão comprida, correrem pelas esquinas do Brasil, chamando pela aurora, acendendo as manhãs.
O autor desse belo poema é Joan Edesson de Oliveira, professor do Ceará.
É proibido morrer no DF.
noviembre 12, 2016 19:45![]() |
| DANIEL FERREIRA/METRÓPOLES |
Cemitérios do DF terão que exumar corpos para evitar lotação
Situação em Taguatinga é a mais crítica, com previsão de atingir capacidade total em três meses. Unidade exumará 200 cadáveres
A morte de um ente querido não é fácil. E a dor da perda pode ficar ainda mais angustiante com a atual situação dos cemitérios do Distrito Federal. Segundo dados divulgados pela empresa Campo da Esperança, responsável pela gestão das seis unidades da capital, ao menos dois espaços estão prestes a atingir a capacidade total, e os projetos para ampliação estão travados.
Hoje, a situação mais crítica é a de Taguatinga, onde a previsão é de que, em três meses, não seja mais possível realizar novos sepultamentos. Por essa razão, a empresa anunciou que vai exumar cerca de 200 corpos sepultados entre 1974 e 2007 no Cemitério São Francisco de Assis. A medida visa evitar a lotação total.
No Gama, o limite deve ser atingido em nove meses. Ainda segundo a empresa, o campo da Asa Sul, o maior do DF, esgotará sua capacidade em até três anos. Nas outras unidades — Brazlândia, Sobradinho e Planaltina — não há problema imediato, pois a estimativa de lotação é daqui a oito anos.
A exumação de cadáveres é uma medida amparada por decreto editado pelo GDF em agosto de 1999. O texto prevê que, “não havendo fato impeditivo, os despojos mortais da ‘área social’, destinadas aos indigentes ou as pessoas que não possuem dinheiro para pagar por um enterro, serão exumados e recolhidos em ossário, devidamente registrados e em conformidade com as prescrições sanitárias”.
A reportagem questionou o GDF sobre os projetos de ampliação dos cemitérios do Distrito Federal. No entanto, até a última atualização desta matéria, o governo não havia se manifestado.
Ampliação
A Campo da Esperança venceu a licitação em 2001, com contrato válido por 30 anos. Mesmo assim, deve obedecer a uma tabela de preços e serviços determinada pelo governo. Famílias que tenham a baixa renda comprovada devem procurar um dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras). Nesses casos, o GDF arca com as despesas fúnebres.
No total, são realizados cerca de 900 sepultamentos mensais em Brasília. Metade das pessoas é sepultada em túmulos com a família. No DF, não há cemitério público nem crematório — o mais perto fica em Valparaíso de Goiás (GO).
“A Campo da Esperança apresentou proposta ainda durante o processo licitatório da concessão dos cemitérios do DF, em 2001. Em 2004, foram pedidas a liberação da área e a licença ambiental para que fosse possível dar início à construção do crematório. As autorizações, porém, ainda não foram concedidas pelo governo do DF”, informou a empresa, por meio de nota.
do Portal Metrópoles
Artigo de 2002 de Dalmo Dallari sobre Gilmar Mendes
noviembre 12, 2016 16:14Por Vânia no GGN
Dalmo Dallari falou, Dalmo Dallari avisou... Transcrito da Folha de S.Paulo de 8 de maio de 2002, tempos da bem-aventurança do segundo mandato d'El-Rey FHC, que só legou ao Brasil coisas boas:
Da Folha de S. Paulo - 08/05/2002
Degradação do Judiciário
DALMO DE ABREU DALLARI
Nenhum Estado moderno pode ser considerado democrático e civilizado se não tiver um Poder Judiciário independente e imparcial, que tome por parâmetro máximo a Constituição e que tenha condições efetivas para impedir arbitrariedades e corrupção, assegurando, desse modo, os direitos consagrados nos dispositivos constitucionais.
Sem o respeito aos direitos e aos órgãos e instituições encarregados de protegê-los, o que resta é a lei do mais forte, do mais atrevido, do mais astucioso, do mais oportunista, do mais demagogo, do mais distanciado da ética.
Essas considerações, que apenas reproduzem e sintetizam o que tem sido afirmado e reafirmado por todos os teóricos do Estado democrático de Direito, são necessárias e oportunas em face da notícia de que o presidente da República, com afoiteza e imprudência muito estranhas, encaminhou ao Senado uma indicação para membro do Supremo Tribunal Federal, que pode ser considerada verdadeira declaração de guerra do Poder Executivo federal ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, à Ordem dos Advogados do Brasil e a toda a comunidade jurídica.
Se essa indicação vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional. Por isso é necessário chamar a atenção para alguns fatos graves, a fim de que o povo e a imprensa fiquem vigilantes e exijam das autoridades o cumprimento rigoroso e honesto de suas atribuições constitucionais, com a firmeza e transparência indispensáveis num sistema democrático.
Segundo vem sendo divulgado por vários órgãos da imprensa, estaria sendo montada uma grande operação para anular o Supremo Tribunal Federal, tornando-o completamente submisso ao atual chefe do Executivo, mesmo depois do término de seu mandato. Um sinal dessa investida seria a indicação, agora concretizada, do atual advogado-geral da União, Gilmar Mendes, alto funcionário subordinado ao presidente da República, para a próxima vaga na Suprema Corte. Além da estranha afoiteza do presidente -pois a indicação foi noticiada antes que se formalizasse a abertura da vaga-, o nome indicado está longe de preencher os requisitos necessários para que alguém seja membro da mais alta corte do país.
É oportuno lembrar que o STF dá a última palavra sobre a constitucionalidade das leis e dos atos das autoridades públicas e terá papel fundamental na promoção da responsabilidade do presidente da República pela prática de ilegalidades e corrupção.
A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir calada e submissa à consumação dessa escolha inadequada
É importante assinalar que aquele alto funcionário do Executivo especializou-se em "inventar" soluções jurídicas no interesse do governo. Ele foi assessor muito próximo do ex-presidente Collor, que nunca se notabilizou pelo respeito ao direito. Já no governo Fernando Henrique, o mesmo dr. Gilmar Mendes, que pertence ao Ministério Público da União, aparece assessorando o ministro da Justiça Nelson Jobim, na tentativa de anular a demarcação de áreas indígenas. Alegando inconstitucionalidade, duas vezes negada pelo STF, "inventaram" uma tese jurídica, que serviu de base para um decreto do presidente Fernando Henrique revogando o decreto em que se baseavam as demarcações. Mais recentemente, o advogado-geral da União, derrotado no Judiciário em outro caso, recomendou aos órgãos da administração que não cumprissem decisões judiciais.
Medidas desse tipo, propostas e adotadas por sugestão do advogado-geral da União, muitas vezes eram claramente inconstitucionais e deram fundamento para a concessão de liminares e decisões de juízes e tribunais, contra atos de autoridades federais.
Indignado com essas derrotas judiciais, o dr. Gilmar Mendes fez inúmeros pronunciamentos pela imprensa, agredindo grosseiramente juízes e tribunais, o que culminou com sua afirmação textual de que o sistema judiciário brasileiro é um "manicômio judiciário".
Obviamente isso ofendeu gravemente a todos os juízes brasileiros ciosos de sua dignidade, o que ficou claramente expresso em artigo publicado no "Informe", veículo de divulgação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (edição 107, dezembro de 2001). Num texto sereno e objetivo, significativamente intitulado "Manicômio Judiciário" e assinado pelo presidente daquele tribunal, observa-se que "não são decisões injustas que causam a irritação, a iracúndia, a irritabilidade do advogado-geral da União, mas as decisões contrárias às medidas do Poder Executivo".
E não faltaram injúrias aos advogados, pois, na opinião do dr. Gilmar Mendes, toda liminar concedida contra ato do governo federal é produto de conluio corrupto entre advogados e juízes, sócios na "indústria de liminares".
A par desse desrespeito pelas instituições jurídicas, existe mais um problema ético. Revelou a revista "Época" (22/4/ 02, pág. 40) que a chefia da Advocacia Geral da União, isso é, o dr. Gilmar Mendes, pagou R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público -do qual o mesmo dr. Gilmar Mendes é um dos proprietários- para que seus subordinados lá fizessem cursos. Isso é contrário à ética e à probidade administrativa, estando muito longe de se enquadrar na "reputação ilibada", exigida pelo artigo 101 da Constituição, para que alguém integre o Supremo.
A comunidade jurídica sabe quem é o indicado e não pode assistir calada e submissa à consumação dessa escolha notoriamente inadequada, contribuindo, com sua omissão, para que a arguição pública do candidato pelo Senado, prevista no artigo 52 da Constituição, seja apenas uma simulação ou "ação entre amigos". É assim que se degradam as instituições e se corrompem os fundamentos da ordem constitucional democrática.
Dalmo de Abreu Dallari, 70, advogado, é professor da Faculdade de Direito da USP. Foi secretário de Negócios do município de São Paulo (administração Luiza Erundina).



