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April 3, 2011 21:00 , par Inconnu - | No one following this article yet.
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Eugênio Aragão: O desastre que nos espera

November 26, 2018 17:47, par Blog do Arretadinho

Reprodução/Youtube
Ocupar os cargos do governo com gente incapaz, vaidosa e despreparada parece ser parte da estratégia de dominação. Trata-se de forma "soft" de matar a "intelligentsia" no aparato estatal. Tacham-se os melhores quadros de "marxistas" e sobram os ingênuos, "useful idiots", para levar a máquina pública a seu descalabro.

Por Eugênio Aragão na Revista Fórum

O governo do capitão da reserva Jair Bolsonaro parece ser, aos olhos de nós, pobres mortais, de uma improvisação catastrófica. Digo que “parece ser”, porque é compreensível, dentro de minhas limitações, que um sujeito que conseguiu chegar lá por meio de sofisticadíssimo estratagema de impulsionamento global de mensagens mentirosas, com capacidade de iludir massas, esteja construindo um governo tão barbaramente desqualificado, sem que haja propósito nisso!

Posso estar vendo chifre em cabeça de cavalo. Sempre é bom ficar com um pé atrás, diante da arte do ilusionismo que tomou conta da política brasileira. Nem tudo é o que parece ser. Começo a duvidar até de meus olhos. Apenas as lembranças históricas não costumam falhar…

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Hitler e sua malta de odientos fascistas alucinados, ao assaltarem a Polônia em 1939, se propuseram a eliminar uma nação do mapa, começando por dizimar sua inteligência – professores, intelectuais, artistas, escritores, pesquisadores e técnicos qualificados. O que sobrasse dos polacos – “subumanos eslavos”, segundo a novilíngua nazista – deveria se tornar, para o resto dos tempos, um povo submisso de lacaios a serviço da “Herrenrasse” ariana.

O “empreendimento Tannenberg”, como se chamava a operação, foi meticulosamente preparada pelo Amt II da SD (serviço de inteligência da SS), com produção de listas de nomes das pessoas a serem detidas e assassinadas. Restaria, ao final, pelo desejo dos invasores, apenas uma sociedade de terra arrasada, incapaz de se opor a sua germanização.

Os tempos são outros, mas os canalhas se adaptam. Invadir o Brasil para dizimar sua inteligência seria algo anacrônico. Hoje se usa o “softpower” para destruir e submeter. Chamam-no de “guerra híbrida”. Desviam-se as potencialidades e se aproveitam as debilidades estruturais e funcionais de uma sociedade doméstica, faz-se uso de doutrinação subliminar. As redes sociais com sua veiculação impulsiva de bronca se prestam muito bem a isso.

Não é difícil verificar que o beócio do capitão da reserva que ganhou a corrida presidencial não está sozinho no seu projeto, que só é “seu” na sua fantasia e na fantasia de seus filhos oligofrênicos, bem como daquelas pobres criaturas ainda inebriadas com a miragem do “mito”. Quem, no entanto, comanda a operação arrasa-Brasil não mora aqui. Está tão distante quanto os servidores que disseminaram “en masse” mensagens mentirosas na campanha presidencial.

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Ocupar os cargos do governo com gente incapaz, vaidosa e despreparada parece ser parte da estratégia de dominação. Trata-se de forma “soft” de matar a “intelligentsia” no aparato estatal. Tacham-se os melhores quadros de “marxistas” e sobram os ingênuos, “useful idiots”, para levar a máquina pública a seu descalabro. Depois, vêm os salvadores do FMI, do Banco Mundial e do Federal Reserve, para cuidar da massa falida, para transformar o Brasil no “Generalgouvernement” americano.

De bobo não tem nada, quem está por detrás desse plano. Bobos somos nós que só olhamos para as aparências, achando que o capitão da reserva manda alguma coisa. Bobos são os que acham que foi a “corrupissaum dos petralhas” a causa dessa indignidade porque nossa nação vai fatalmente passar. Mas o buraco é mais embaixo, como diz a sabedoria popular.

Tome-se como exemplo a escolha do futuro chanceler do Brasil. Um idiota de carteirinha. Um zero à esquerda que conseguiu ser promovido este ano a ministro de primeira classe por um governo à deriva, certamente à base de muito beija-mão, como sói ser na casa de Rio Branco. Beijou mãos podres e golpistas. Produziu um blog de terceira categoria para puxar o saco do capitão e de seus filhos-diádocos, ousando o que nenhum diplomata de raiz ousaria. Depois, fez publicar um texto cheio de asneiras sobre a salvação da “civilização ocidental” por Donald Trump – um texto que faria corar até o mais inestudado aluno de relações internacionais.

Mas a escolha tem sua razão de ser. O aparente besteirol do diplomata lunático tem sistema, como o tiveram mensagens sobre a URSAL ou sobre a suposta defesa da pedofilia pelo candidato adversário do capitão da reserva, serve sobretudo para confundir e transformar a comunicação numa sopinha de letras, longe de qualquer consenso sobre significantes e significados. É com essa guerra semiótica que se desestruturam diálogos essenciais numa sociedade.

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O Brasil está alvo de um forte ataque e só não vê quem não quer. Aprofundou-se a fragmentação política de modo a impedir a adoção de qualquer agenda. As eleições, ao invés de estancar a polarização paralisante de pós-2013, a radicalizaram. Não há conversa possível com quem sugere que a embaixada da Alemanha peca por ignorância quando explica que o nazismo foi uma prática da direita política. O discurso da turba ficou tão absurdo que se reduz a um latido. E a latidos se responde com latidos. Uau-uau!

A quem interessa essa destruição do país? A importância estratégica do Brasil pode oferecer muitas respostas, mas o certo é que só não interessa às brasileiras e aos brasileiros. De uma pujante potência periférica vamos nos transformar num parque de diversões das nações centrais. Vão rir muito de nós enquanto surrupiam nossos ativos. E são, para variar, os mais pobres – os “subumanos cucarachos”, na novilíngua trumpista – que pagarão a conta, com extinção das políticas públicas, com o fim de direitos econômicos e sociais e com a degradação dos serviços públicos mais básicos, pois, quem tem dinheiro, se juntará à gargalhada da plateia gringa em Miami, com Bolsonaro, o Bozo, a se apresentar como protagonista do quadro de humor desse triste circo brasileiro.

Eugênio Aragão é ex-ministro da Justiça



ward Winning Animator’s Short Film ‘Happiness’ Is Absolutely Brilliant

November 25, 2018 11:50, par Blog do Arretadinho




Bolsonaro existe? Foi esfaqueado mesmo, ou é tudo ‘fake news’?

November 24, 2018 10:59, par Blog do Arretadinho

Jair Bolsonaro durante visita ao Tribunal Superior do Trabalho.
SERGIO LIMA AFP
Hoje, pela primeira vez, a crônica cotidiana, a história que estamos vivendo, não é narrada exclusivamente pelo poder, como no passado

por JUAN ARIAS no El País Brasil

Talvez a História nunca tenha estado tão insegura entre a verdade e a mentira. Nunca, nem mesmo o presente foi posto tanto em dúvida. Será que descobrimos, de repente, que a verdade no estado puro não existe e que tudo pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo?


Vejamos o Brasil. Tudo parece ser uma coisa e o contrário. Há até quem chegue a perguntar a si mesmo se o capitão Jair Bolsonaro, que conseguiu 57 milhões de votos nas urnas não se sabe como, existe realmente ou é uma miragem. Coloca-se em dúvida até mesmo que tenha sido esfaqueado.

Em um mundo no qual até intelectuais chegam a pôr em dúvida a existência do Holocausto judeu, com um saldo seis milhões de pessoas — homens, mulheres e crianças — exterminadas nos campos de concentração, podemos ter a impressão de que a verdade não existe e não será possível conhecê-la.

Isso é positivo ou negativo? É verdade que dessa forma todos nos sentimos mais vulneráveis e inseguros ao não ser capazes de distinguir entre verdade e mentira. E, ao mesmo tempo, talvez tenhamos de nos acostumar a conviver em uma realidade mais complexa do que pensávamos, que nos obriga a estar mais vigilantes, já que os limites entre realidade e aparência, entre notícia e fake news, estão ficando cada vez mais tornam-se se fazem cada dia mais tênues e indefinidos.

O que sentimos hoje como uma inquietação, talvez porque estivemos séculos sentados tranquilos sobre nossas certezas, pode acabar sendo uma importante purificação. Durante séculos vivemos alimentados pelos dogmas que poder civil ou religioso nos impôs. Tudo era, sem que precisássemos nos preocupar em descobrir, branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, justo ou injusto. Era assim mesmo, ou será que tínhamos nos acostumado a conviver com a verdade imposta, o que nos dispensava da dúvida? As coisas eram como eram, porque sempre tinham nos ensinado assim. Teria dado muito trabalho colocá-las em discussão.

Sempre acreditamos nos livros de História, como se fossem textos sagrados que não pudessem ser discutidos. E se, na verdade, os livros de História nos quais bebemos durante séculos fossem, em sua maioria, uma grande fake news? Nós nos esquecemos de que, em grande parte, a História foi escrita pelos vencedores, nunca pelos perdedores. Como teriam escrito os mesmos fatos aqueles que perderam as guerras, as vítimas, os analfabetos que não podiam escrevê-la, mas que a sofreram em sua pele?

Será que estaria a salvo da contaminação das fake news o grande livro da Humanidade, a Bíblia, escrita no espaço de mil anos por autores desconhecidos, que as Igrejas cristãs consideram ter sido inspirada por Deus e, portanto, verdadeira? E se descobríssemos que historicamente a Bíblia não resistiria a uma crítica séria? Ou será que alguém pode acreditar que existiram seus personagens mais famosos, como Abraão, Noé, Matusalém e Moisés?

E analisando apenas os quatro evangelhos canônicos que os católicos consideram inspirados por Deus, quanto neles há de histórico e quanto há de catequese religiosa ou política? Qual é a versão verdadeira sobre o julgamento e condenação à morte do profeta Jesus se entre as versões dos quatro evangelistas há inúmeras diferenças bem visíveis? Qual é a figura real de Jesus, a que é apresentada aos judeus da época, cuja morte é totalmente atribuída aos romanos, ou aquela narrada aos gentios e pagãos, em que se carrega nas tintas contra os judeus e fariseus?

Talvez a inquietude que todos sentimos hoje, na nova era em que a Humanidade entrou ao não saber se estamos lidando com notícias verdadeiras ou falsas nem o quanto isso pode condicionar a convivência política e social, se deva, no fim das contas, a algo positivo, embora seja preciso se recompor e recuperar a serenidade para entender que vivemos em um mar agitado, no qual é difícil distinguir um peixe vivo de um pedaço de plástico.

Essa positividade que alguns pensadores começam a farejar na situação angustiante que vivemos, na qual verdade e mentira convivem abraçadas, talvez nasça de algo novo e ao mesmo tempo positivo que não existia no passado. Hoje, pela primeira vez, a crônica cotidiana, a história que estamos vivendo, não é narrada exclusivamente pelo poder, como no passado. Não é narrada pelos que se consideravam donos da verdade e a impunham com a espada na mão, se fosse necessário. Todos os poderes, civis e religiosos, fizeram isso. Hoje, a crônica começa a ser escrita e filtrada também pelos de baixo, pela periferia, por aqueles que não têm mais poder do que o oferecido pelas redes sociais.

Isso sem dúvida levará, como já está ocorrendo, a crises de identidade e à quebra de velhos paradigmas de segurança, como o que os dogmas e as verdades oficiais ofereciam antes. Era tudo mais cômodo e causava menos angústia. Mas não éramos também mais escravos do pensamento único do poder? O fato de não termos de nos preocupar em saber se o que nos ofereciam como história era verdade ou não, ou se era só a verdade de uma parte e não da outra, dava-nos tranquilidade. Hoje, estamos no meio de um ciclone que parece arrastar tudo e não é estranho que nos sintamos inseguros, irritados e até com medo.

Tão inseguros que ainda há quem não saiba realmente quem é Bolsonaro ou se ele é uma invenção, ou se os médicos de dois hospitais de prestígio inventaram a história da facada. E Lula? E Moro? Como se escreverá amanhã a história atual do Brasil? Será que os historiadores de hoje conseguirão nos contar no futuro a verdade ou a fake news sobre o que está vivendo uma sociedade que se sente presa entre a verdade e o boato, entre o que ela gostaria que fosse e o que efetivamente é a realidade — que, afinal, tem possivelmente tem tantas caras e nuances quanto as cores do arco-íris.

É melhor não sofrer tanto e aprender a conviver em um mundo que já não é nem será aquele em que nossos pais viveram. E essa sim é uma verdade. Se opressora ou libertadora, só poderemos saber quando baixar a poeira dessa agitação em torno de verdade e falsidade ou de meias verdades e meias mentiras. O famoso filósofo espanhol Fernando Savater me lembrava de que “se o mundo parasse de mentir, acabaria despedaçado em poucos dias”. Às vezes, uma meia verdade pode salvar o mundo de uma catástrofe. Até a Igreja católica, com seus séculos de experiência em conduzir o poder, cunhou as famosas “mentiras piedosas”.

Para terminar, é verdade que Bolsonaro existe, com mais sombras do que luzes e mais incógnitas do que realidades. E também existe Lula, com toda sua história e todas suas contradições. O que não sabemos é como a História nos contará um dia este momento, que em outras colunas em já chamei de dor de parto, mais do que de funeral e morte. E em todo parto existe, ao mesmo tempo, dor e felicidade, ansiedade e esperança.

E, acima de tudo, a certeza de que a vida, com todas suas amarguras e crueldades, verdades e mentiras, é o único e o melhor que temos. Que no Brasil predomine, apesar de tudo, a cultura da vida e não a da morte. Essa é a grande aposta e a grande resistência. Para isso, todos deveríamos andar de mãos dadas.



De faxineira a juíza, a história de uma mulher pobre e negra no Brasil

November 24, 2018 8:32, par Blog do Arretadinho

A juíza Adriana Queiroz. ALINE CAETANO
Adriana Queiroz pagou parte dos seus estudos como limpadora de um hospital e escreveu um livro

por MARÍA MARTÍN no El País Brasil

A luz do quarto de Adriana Queiroz estava sempre acessa nas madrugadas. Ela trabalhava durante o dia, estudava às noites e rezava para que quem apenas a via como uma mulher negra, pobre e filha de analfabetos não quebrasse seu sonho. Adriana não queria ser o que os outros esperavam dela, ela queria ser juíza em um país onde a taxa de analfabetismo das mulheres negras (14%) mais que duplica a das brancas (5,8%), segundo o IBGE.


Adriana, com 38 anos, é hoje titular da 1ª Vara Cível e da Vara de Infância e da Juventude de Quirinópolis, em Goiás. Tem cinco pós-graduações, estuda Letras nas horas vagas, mas já foi faxineira. Ela teve que se esforçar muito mais que a maioria dos seus colegas de aula para vestir a toga. E conseguiu. Hoje conta suas conquistas em um livro que acabou de lançar, Dez passos para alcançar seus sonhos – A história real da ex-faxineira que se tornou juíza de direito.

Os pais de Adriana eram trabalhadores rurais no sertão da Bahia e se mudaram para Tupã, um município de 63.000 habitantes no interior de São Paulo, em busca de uma vida melhor. O orçamento familiar aumentou, o pai virou motorista de ônibus e a mãe vendedora ambulante, mas pagar uma faculdade era ainda um sonho de outra classe social. “A vida deles sempre foi muita dura. Meus pais sofreram muito, eles queriam me dar o que eles não alcançaram, mas não tinham condições. Ninguém na minha família tinha condições de me ajudar”, lembra a juíza em uma conversa por Skype.

A magistrada, que sempre estudou em escola pública, foi a terceira classificada no vestibular para cursar direito, mas a única faculdade de sua cidade era privada. Não tinha como pagar, muito menos como cogitar uma universidade pública em outra cidade. “Eu soube do resultado da prova numa sexta e, na segunda, já tinha que fazer a matricula ou perdia a vaga. Tive três dias para decidir o que fazer, ver se teria que abandonar”.

Ela resolveu, em seguida, pedir conselho e emprego a um professor da cidade. Ele, que trabalhava no corpo administrativo da Santa Casa, conseguiu uma vaga para ela na instituição. De faxineira. Adriana se orgulha daqueles seis meses que limpou o hospital, mas o salário mínimo que recebia não era suficiente para pagar a mensalidade da universidade e ainda ouvia chacota dos colegas. “Força nos braços, advogadinha!”, lhe gritavam. “Esse episódio é muito marcante para mim, justamente por esse preconceito de que alguém que exerce um cargo como eu exercia não possa sonhar alto”.

Faltavam horas para o prazo da matrícula expirar quando Adriana plantou-se na frente do diretor da faculdade. Compartilhou seu sonho de estudar. “Ele se sensibilizou e me concedeu uma bolsa de 50% e diluiu o valor da matrícula nas mensalidades. Assim, durante o dia trabalhava na limpeza e à noite ia estudar”.

Para espanto dos seus conhecidos e familiares, durante a faculdade, Adriana resolveu ser juíza. “Quando anunciei isso as pessoas ficaram espantadas. Não era comum no meu contexto almejar um cargo tão alto. É como se fosse algo inacreditável, faziam questão de frisar que eu era pobre e negra, como se não tivesse nenhuma chance”, lamenta. Decidida, em 2002, terminou os estudos, pediu demissão na Santa Casa, onde já tinha sido promovida ao corpo administrativo e guardou suas coisas em duas sacolas plásticas. Partia para a capital para se preparar. “Eu não tinha nem mala”, relata.

Após alugar um quartinho no bairro da Liberdade e se matricular no curso preparatório para o concurso da magistratura o dinheiro da conta dava para, no máximo, mais dois meses. “Foi um momento muito crítico, o dinheiro estava acabando e eu não tinha conseguido trabalho”, conta Adriana. “Eu me vi de novo nesse dilema de ter ou não que abandonar”. Não precisou. O diretor do curso, o procurador Damásio de Jesus, viu nela uma “pessoa incomum”.

“Logo à primeira vista, olhando nos olhos daquela jovem advogada de 24 anos, tive certeza de que estava diante uma lutadora, uma pessoa incomum, de alguém que, sem dúvida, estava fadada a um grande futuro”, destaca o jurista no prefácio do livro. Damásio ofereceu para ela uma bolsa de 100% do curso durante dois anos e a empregou na biblioteca da instituição. “Fiquei sete anos estudando, sábados, domingos e feriados. Quando as pessoas iam viajar, eu ficava na biblioteca. Depois de inúmeras reprovações, eu consegui. Em janeiro de 2011 passei o concurso e me tornei juíza em Goiânia”.

Caçula de seis irmãos, a única deles que tem ensino superior, Adriana quer motivar agora com o livro a todas as pessoas que, assim como ela, "sonham, mas estão desacreditadas”. “É possível romper os paradigmas sociais”, encoraja. “Eu, particularmente, não sofro racismo hoje. Mas sim vivencio a grande surpresa das pessoas quando me veem. Porque quando o advogado vai procurar o juiz, ele não espera encontrar alguém como eu. Eu não me importo. Eu fico feliz de ter quebrado esse paradigma”.



Mourão começa a tornar públicas suas divergências com Bolsonaro

November 23, 2018 15:32, par Blog do Arretadinho

Em entrevista à jornalista Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo, o vice-presidente eleito Hamilton Mourão mostrou que diverge de posições de Jair Bolsonaro e dos seus futuros ministros.

Segundo Mourão, sua função no governo será a de “monitoramento das atividades ministeriais e das políticas públicas”: “A ideia fundamental junto ao presidente é que, como vice, eu tenha sob meu encargo aquelas subchefias que hoje estão parte na Casa Civil e parte na Secretaria-Geral e que conformam a atividade de controle dos ministérios, de políticas públicas e do PPI [Programa de Parcerias de Investimentos]”.

Com relação à política externa, o general da reserva descartou uma intervenção militar na Venezuela, defendeu a importância de manter as relações comerciais com a China e disse que a decisão de transferir a embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém deve considerar a reação do mundo árabe e a possiblidade de o Brasil se tornar alvo de terrorismo internacional.

Mourão também afirma que “não resta dúvida” de que exista o aquecimento global e rejeita a ideia de que seja “um trama marxista”, como defende o futuro chanceler Ernesto Araújo. Sobre o Mercosul, o general disse que antes de “extingui-lo”, o Brasil deve se esforçar para atingir os objetivos do acordo comercial.

Com relação à privatização da Petrobras, Mourão disse que a estatal não será “vendida”.

O vice-presidente eleito também nega a possibilidade de uma tutela militar e da politização nas Forças Armadas.

Leia abaixo os melhores trechos da entrevista:

Relação com os EUA
A posição brasileira tem sido sempre marcada por um certo pragmatismo. A gente tem que buscar nossos objetivos e os países que fortaleçam a conquista desses objetivos. A posição dos EUA é inquestionável. É a potência hegemônica, que tem capacidade de travar guerra em dois locais diferentes ao mesmo tempo e grande projeção tecnológica. É um mercado a ser explorado e uma parceria estratégica. Mas não podemos descuidar dos outros grandes atores da arena internacional. Não podemos nos descuidar do relacionamento com a China.

China
Exatamente. Nós podemos comprar as brigas que podemos vencer. As que a gente não pode, não é o caso de comprar. Uma briga com a China não é uma boa briga, certo? Tenho certeza absoluta de que nós não vamos brigar —34% das nossas exportações são para a China. Não podemos fechar esse caminho pois tem outros loucos para chegarem nele.

Embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém
É óbvio que a questão terá que ser bem pensada. É uma decisão que não pode ser tomada de afogadilho, de orelhada. Nós temos um relacionamento comercial importante com o mundo árabe. E competidores que estão de olho se perdermos essa via de comércio. Há também uma população de origem árabe muito grande em nosso país, concentrada nas nossas fronteiras. Temos sempre que olhar a questão do terrorismo internacional oriundo da questão religiosa, que poderá ser transferida para o Brasil se houver um posicionamento mais forte em relação ao conflito do Oriente Médio. Agora, dentro daquela disciplina intelectual: após estudado o assunto, espancada a ideia, tomada a decisão, vamos com ela.

Aquecimento global
Não resta dúvida de que existe um aquecimento global. Não acho que seja uma trama marxista. Mas vamos falar do outro lado da moeda: o ambientalismo é utilizado como instrumento de dominação indireta pelas grandes economias. Quando você coloca amarras no nosso país por meio de um ambientalismo xiita, de ONGs, você tolhe um pouco o potencial que o país tem.

Mercosul
O Mercosul, como acordo de comércio, não está cumprindo a sua função. Então, antes de pensarmos em extinguir, derrubar, boicotar, temos que fazer os esforços ainda necessários para que atinja os seus objetivos. Tem que haver uma conversa maior com os nossos vizinhos. Principalmente com a Argentina.

Venezuela
Descartada [a possibilidade de uma intervenção militar], é lógico. Não faz parte da nossa tradição diplomática a intervenção em assuntos internos de outros países.

O que o Brasil pode fazer é participar do esforço conjunto internacional para que a democracia retorne ao país, mas com uma pressão diplomática, sem retaliações.
O pessoal gosta de falar de governo militar. Lá é realmente um governo militar porque as Forças Armadas estão em todas as atividades do país.

Existe uma corrupção muito grande nas Forças Armadas venezuelanas. Elas perderam a mão em relação à missão que têm no país. O regime do [Nicolás] Maduro vai cair de maduro. Essa é a realidade.

E, para quem conhece a história da Venezuela [Mourão foi adido militar no país de 2002 a 2004], o meu temor é que a situação descambe em uma guerra civil violenta. As Nações Unidas teriam que intervir, por meio de uma força de paz. Aí o Brasil teria que ser líder. Pela vizinhança e pela nossa experiência.

Tutela militar
Em nenhum momento houve isso, né? Não houve essa tutela [nos anos recentes]. O que aconteceu ao longo desse período? O país entrou numa tal rota de falta de ética, de corrupção, ineficiência e má gestão que a população como um todo passou a se voltar para as Forças Armadas. E as Forças Armadas se mantiveram calmas e tranquilas em suas funções. Ninguém saiu do quartel nem nada.

Agora, qual é a nossa missão? Defesa da pátria, garantia dos poderes constitucionais, garantia da lei e da ordem. Então tudo aquilo que poderá perturbar o desempenho de qualquer um dos Poderes constitucionais ou a lei e a ordem é algo que nos preocupa. Vamos imaginar que os dois lados começassem a se digladiar na rua. Qual é a única hipótese que poderia haver de as Forças Armadas terem que intervir? Se houvesse o caos.

A decisão [sobre o habeas corpus de Lula] não tem nada a ver. O que acontece é que se houver o caos… eu já usei até uma figura de retórica: o país está naufragando, igual ao Titanic. Nós vamos ser a orquestra? Vamos continuar tocando e vamos todos para o fundo? Está na Constituição: as Forças Armadas não podem deixar o país ir para o caos. A libertação do Lula instalaria o caos? Não sabemos. Vamos ficar devendo essa.

Zero, zero risco [de uma eventual politização das Forças Armadas]. O pessoal da reserva [participou das eleições]. Mas ninguém foi fazer propaganda dentro dos quarteis. É proibido isso.

Privatização da Petrobras
Você não vai vender a Petrobras.

Isso aí tem que ser por etapas. Nós temos problemas na distribuição que chegam a ser irracionais. Por exemplo, o camarada em Ribeirão Preto produz álcool. O produto é retirado dali, é levado para [a refinaria de] Paulínia e depois volta para ser vendido em Ribeirão. Isso é irracional, né? Então a gente pode começar racionalizando, liberando a venda, por exemplo, junto ao produtor, vai baratear custos.

Refino já tem que ser um outro estudo aí para a gente chegar à conclusão do que é importante.

Tem muita visão nacionalista, aquele nacionalismo arcaico. Nos EUA, na Inglaterra, todo mundo refina. Eu acho que essa não é a questão principal da Petrobras. Ela não ficou ineficiente por ser uma estatal. Foi porque o governo colocou gente lá dentro com outros objetivos. Se gerenciada de forma profissional, ela dará lucro, como vem dando ao longo do tempo.

Revisão da Lei da Anistia
Esqueceram como ela ocorreu. Vamos lembrar que determinados setores da esquerda não queriam a amplitude em relação a eles mesmos. Ela foi ampla, geral e irrestrita, algo concertado com a sociedade em 1979.

O Brasil puniu quem tinha que ser punido e acabou. E tem muita gente que está solta aí [de esquerda] que foi anistiada e que matou gente. Quem não quer pacificar esse assunto não compreendeu a história do país. Está com a lanterna na popa.

POR NOCAUTE