Morre o primeiro gravador calígrafo de Brasília
Aprile 1, 2018 10:22![]() |
| (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press) |
Morre, aos 86 anos, José Macêdo, o primeiro gravador calígrafo de Brasília
por Correio Braziliense
Macêdo estava com a saúde debilitada devido a um câncer. Ele trabalhava na rua da Igrejinha, na 108 Sul
Morreu, na tarde deste sábado (31/3) às 16h35, o baiano José Macêdo, 86 anos. Ele era conhecido na capital federal como o primeiro gravador calígrafo de Brasília e trabalhava na rua da Igrejinha, na 108 Sul. Macêdo estava com um câncer na bexiga que se alastrou e, há dois meses, entrava e saía da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga. Ele morreu devido a uma infecção generalizada.
O velório será no domingo (1º/4), a partir das 13h, na capela 8 no Cemitério Campo da Boa Esperança, na Asa Sul. O sepultamento será às 15h.
José Macêdo veio para a cidade ainda na época da construção, onde morou na Cidade Livre, como era chamado o Núcleo Bandeirante. Em seu currículo, gravações feitas no Memorial JK e até para o papa João Paulo II durante a segunda visita ao Brasil.
"Ele era um pioneiro de Brasília. Fez placas para o JK e diversos outros famosos. Durante muitos anos, quando morou em São Paulo, gravou as medalhas da São Silvestre", lembra com o carinho o filho Julio César Macêdo. José Macêdo deixa seis filhos.
Em entrevista ao Correio, publicada na Revista do Correio, em 2014, ele lembrou de alguns trabalhos que havia feito como calígrafo. "Gravei para o Eisenhower (presidente dos EUA) na época do regime militar, para o papa João Paulo II em sua segunda visita ao Brasil, para a rainha Elizabeth, para Honestino Guimarães. Também fiz as medalhinhas dos filhos de João Goulart e de Nelson Piquet", contou.
China poderá realizar o sonho de Kadhafi de acabar com o dólar
Aprile 1, 2018 9:51Muammar Kadhafi queria acabar com o domínio do dólar norte-americano no Oriente Médio por meio da introdução do dinar apoiado em ouro, mas suas intensões fracassaram. Os analistas opinam que a China tem agora a oportunidade de terminar o que o ex-líder líbio tinha começado.
A ideia de efetuar o comércio de petróleo em outras divisas além do dólar já surgiu várias vezes. Algumas destas tentativas foram severamente reprimidas pelos EUA, como aconteceu com Muammar Kadhafi, que propôs introduzir o dinar de ouro no comércio de petróleo no Oriente Médio, recorda o especialista russo em divisas Aleksandr Egorov ao canal RT.
Atualmente, a China está apostando nos futuros de petróleo apoiados por ouro e esta intenção de derrubar o dólar poderá ter sucesso, pois Pequim, segundo o especialista, tem o que Kadhafi não tinha.
"Além do papel da China na economia mundial e do crescente interesse no renminbi [a moeda oficial da República Popular da China, distribuída pelo Banco Popular da China], o país asiático está protegido por um escudo nuclear. Por isso, o país pode se dar o luxo de tentar destruir o monopólio no comércio de petróleo. Isso daria até mais peso ao yuan", disse estrategista da TeleTrade.
O analista sublinhou que a economia da China é agora o maior consumidor mundial de petróleo e que "todos os produtores de matérias-primas terão que tomar em conta a estratégia das autoridades chinesas".
Segundo Egorov, o momento para lançar o petroyuan é perfeito. Os principais produtores de petróleo, a Rússia, o Irão e a Venezuela, estão sob a pressão das sanções dos EUA, sendo um bom momento para eles se livrarem do dólar no comércio de petróleo, substituindo-o pelo yuan.
Outro especialista, Mikhail Maschenko, analista da rede social para investidores eToro, compartilha tal opinião, se referindo neste caso à Rússia.
"Do ponto de vista da geopolítica russa, é benéfico reduzir o papel do dólar no comércio exterior. […] no país se registra um crescimento recorde das reservas de ouro. Outros países que estão sob uma ameaça constante de novas sanções, como o Irã e a Venezuela, também podem aproveitar esta situação. Os contratos em renminbi permitirão o comércio de petróleo sem autorização dos EUA", afirmou ao RT.
Ambos os especialistas acreditam que, não obstante, passará algum tempo até que o petroyuan se transforme em uma ameaça para o dólar. A China precisa ganhar o apoio dos maiores produtores de petróleo do mundo, como a Rússia e a Arábia Saudita. Caso contrário, sua iniciativa está condenada ao fracasso, advertiu Maschenko. Outro aspecto que poderá assustar os investidores potenciais, segundo o analista, é que o yuan é totalmente controlado por Pequim.
por Sputnik Brasil
POR QUE O OVO DE PÁSCOA É TÃO CARO AQUI NO BRASIL?
Aprile 1, 2018 9:31![]() |
| Foto Sabores da Cidade |
É comum nessa época do ano as comparações entre ovos de páscoa e barras de chocolate. Sempre que questionadas a respeito das diferenças de valores, as empresas que fabricam os chocolates atribuem a "culpa" ao processo de produção, custo de logística e embalagens. A sazonalidade da produção também faz forte influência sobre o preço do produto final.
Segundo o Procon-SP, os ovos de chocolate ficaram cerca de 4,84% mais caros que em 2017. Enquanto as barras de chocolate tiveram uma média de redução de 4,25% em seus valores. Apesar do aumento no valor dos produtos, durante uma feira que aconteceu em São paulo, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Cacau, Chocolate, Amendoim, Balas e Derivados (ABICAB), Ubiracy Fonseca, disse estar otimista e eles apostam na tradição brasileira de presentear os entes queridos com os ovos de chocolate.
Os preços
Segundo Renata Moraes, vice-presidente do Grupo CRM, dono das marcas Kopenhagen e Brasil Cacau, "o empresário pensa em uma produção apenas para um período do ano, então ele tem que negociar um lote de embalagem especial, um lote de matéria-prima, um custo de mão de obra diferenciado. Então é mesmo diferente do custo de um produto que fica o ano inteiro disponível."
Outro fator citado pela executiva seria a fragilidade do produto e os custos indiretos. Como margem de devolução, ovos danificados, entre outros. De acordo com o presidente da ABICAB, o processo de embalagem dos ovos na maioria dos casos é feito manualmente. E as embalagens são mais sofisticadas do que das linhas de chocolates regulares. O que consequentemente acaba por elevar os preços do produto final. O presidente da ABICAB destaca ainda que o varejo tem suas próprias políticas de preço.
Há quem afirme que o preço destes produtos, na verdade, possam ter pouca relação com seus custos de produção. Os preços estariam diretamente relacionados pela forma pela qual os consumidores valorizam o produto. Ou seja, os consumidores atribuem valor ao produto o suficiente para que sejam pagos os preços praticados.
A antropóloga Silvia Borges diz que o valor dos ovos de Páscoa vai muito além do seu valor na etiqueta. "Do ponto de vista simbólico, a questão é que as pessoas atribuem ao ovo de Páscoa o símbolo de um momento especial, que começou com a tradição religiosa, mas que hoje transcende esse significado. É uma troca social. Mesmo sabendo que o preço vai diminuir um ou dois dias depois, a pessoa quer participar da troca no feriado e se dispõe a pagar mais por isso."
Então pessoal, o que acharam da matéria? Deixem nos comentários abaixo a sua opinião e não se esqueçam de compartilhar com os amigos.
por Jesus Galvão em Fatos Curiosos
“A guerra às drogas afeta diretamente a vida de mulheres negras”
Aprile 1, 2018 8:59![]() |
| 68% da população prisional feminina é composta de mulheres negras' |
Entrevista - Juliana Borges
“A guerra às drogas afeta diretamente a vida de mulheres negras”
por Tatiana Merlino na Carta Capital
Pesquisadora e autora do livro 'O que é encarceramento em massa?' explica a relação entre as altas taxas de encarceramento e o racismo no Brasil
Não é possível falar sobre o sistema carcerário brasileiro sem discutir racismo e feminismo negro, explica a pesquisadora Juliana Borges, autora de "O que é Encarceramento em Massa?", lançado no começo de março. "Houve um aumento exponencial da prisão de mulheres, e de mulheres negras, depois da promulgação da lei de drogas", explica.
Entre 2006 e 2014, a população feminina nos presídios aumentou em 567,4% incluindo o Brasil no ranking dos países que mais encarceram no mundo, ficando no 5º lugar. 67% destas mulheres são negras.
"Minha militância sempre passou pelo debate da violência policial", afirma a pesquisadora, nascida numa família de mulheres fortes do Jardim São Luís, zona sul de São Paulo, região com altos índices de mortes de jovens. Juliana teve dois amigos de infância assassinados, presenciou abordagens policiais violentas e ela mesma foi vítima de uma, aos 14 anos. "Fui revistada por um policial masculino que não se importou com o fato de eu ser uma jovem."
Durante a graduação, participou de encontros de juventude negra e então iniciou a militância feminista ."Meu foco sempre foi mais a discussão da segurança pública e do encarceramento e comecei a ver que não tinha como discutir isso sem falar de política de drogas no nosso país", explica a autora.
O livro é o segundo da coleção “Feminismos Plurais”, organizada por Djamila Ribeiro e publicado pelo Grupo Editorial Letramento.
Confira abaixo a entrevista que Juliana Borges concedeu a CartaCapital.
CartaCapital: Na sua pesquisa você faz uma relação entre encarceramento e racismo. Como essas questões se relacionam?
Juliana Borges: Historicamente, ao se pensar como o sistema de justiça se organiza, vemos que sempre houve seletividade penal racial. No País, historicamente, quando as leis criminais são aprovadas, sempre há uma diferenciação no tratamento para o encarceramento, para a punição de pessoas negras, sejam elas libertas ou escravizadas. As políticas e o estabelecimento do que deve ser criminalizado ou não acaba tendo um recorte racial.
Por exemplo, a lei da vadiagem determinava que pessoas que estavam na rua sem fazer nada eram potenciais criminosas, que elas precisavam ser encarceradas, punidas, presas. Quem são essas pessoas, no pós abolição, sem emprego, num País que começa a importar mão de obra de fora ao invés de utilizar esses trabalhadores recém libertos? Eram os homens negros. Há um processo de encarceramento de negros já nesse período no Brasil, passando também pela criminalização da capoeira, dos terreiros.
Gosto muito das perguntas que a Angela Davis faz, que nos colocam a pensar: “O que é crime?” “Quem é o criminoso?” “Quem define o que é crime ou criminosos?”.
Se pensarmos a branquitude como uma parcela que detém, não simplesmente etnicamente, mas o poder, podemos falar que são os 1% mais brancos e ricos e que detém os meios de produção e sempre estão presentes na atuação hegemônica nas instituições brasileiras. São eles que determinam o que é crime e quem é o criminoso. E de acordo com esse perfil que se estabelece, os criminosos são sempre jovens, homens, negros, potenciais criminosos.
No livro, eu tento mostrar que isso está presente em toda história do Brasil, até chegarmos na contemporaneidade, com a nova lei de drogas, aprovada em 2006.
Por um lado, é uma lei que tem um avanço significativo, porque descriminaliza o usuário, mas por outro lado transforma tráfico em crime hediondo. E quando fica nas mãos do policial a definição de quem é o usuário e quem é o traficante, tais instituições têm demarcado como criminoso o jovem, homem negro, que vai ser visto como traficante e não usuário. Então, de fato, até temos uma redução do encarceramento, mas de quem? De pessoas brancas. E um forte encarceramento da população negra.
CC: Como as mulheres foram afetadas pela promulgação da lei de drogas?
JB: Houve um aumento exponencial da prisão de mulheres, e de mulheres negras. 68% da população prisional feminina é composta de mulheres negras. De 2006 a 2014, houve um aumento de 567% no contingente de mulheres encarceradas. O de homens aumentou em 220%. E 62% das mulheres estão presas por tráfico de drogas, ao passo que os homens são cerca de 27%. Essa política que declara guerra às drogas tem impactos diretos em mulheres negras. Costuma se dizer que o Brasil é multicultural, mas quando olhamos a população encarcerada, a população com maiores vulnerabilidades, ela é muito pouco multicultural e multiétnica.
CC: Em relação à população carcerária masculina o que mudou pós lei de drogas?
JB: Houve um aprofundamento do aprisionamento masculino. E um aumento da construção de presídios no Brasil. Quatro em cada dez presídios foram construídos após a aprovação da lei de drogas de 2006. E hoje os presídios estão em situações paupérrimas. 40% da população prisional são presos provisórios e a taxa de superencarceramento é em torno de 38%.
Se conseguíssemos garantir minimamente uma menor taxa de aprisionamento provisório conseguiríamos resolver a questão da superlotação porque temos um sistema de justiça criminal que vê na prisão a única saída para resolução de conflitos. Junto a isso há um fortalecimento das facções do crime organizado. Superlotar presídios significa fortalecer facções. Temos um estado que alimenta o que eles dizem combater.
Eles dizem combater as facções, mas quando prendem as pessoas que são réus primários, presas por crimes leves, e elas entram num ambiente que é totalmente agressivo, pela lei da sobrevivência, pelas condições em que se se estabelecem as relações nos presídios, são estabelecidas relações de resistência e sobrevivência. Prende-se pessoas que poderiam responder em liberdade, que poderiam continuar construindo nas suas comunidades e assim passam a se relacionar com as facções, então é um círculo vicioso.
CC: Poderia falar um pouco sobre a relação entre aumento do encarceramento feminino e a entrada das mulheres nas facções criminosas?
JB: Elas nunca estão em situações de mando nas facções, é uma dinâmica que se estabelece por conta de uma necessidade de sobrevivência. No caso dos homens encarcerados, mantém-se uma certa rede de apoio, as mulheres continuam indo aos presídios, levando alimentação.
No caso das mulheres não, elas são chefes de família, elas que garantem o sustento. Então quem vai garantir a sobrevivência delas nos presídios, muitas vezes são as facções, nas quais essas mulheres não assumem papeis de comando.
Estão trabalhando sempre na ponta do varejo, como pequenas comerciantes. E muitas vezes as condições de trabalho que o tráfico oferece são melhores do que as convencionais, pois ela pode estar ali perto dos filhos, em casa. Temos que desromantizar essa ideia de mulher que é presa porque está apaixonada pelo companheiro, muitas delas acabam entrando para esse mercado das drogas porque precisam garantir o sustento das famílias
CC: Qual é o impacto do aumento do aprisionamento feminino na estrutura familiar das mulheres?
JB: Desastroso. Há um caso de uma mulher que foi presa no Rio de Janeiro transportando 20 quilos de cocaína. Estava grávida de cinco meses e já tinha uma filha de 4, 5 anos. Foi presa no Rio de Janeiro e era de São Paulo. O drama já começa aí. Ela relatou que tinha feito o transporte porque precisava comprar o enxoval do bebê.
A primeira questão era como garantir quem ia ficar com a filha e como a menina ia visitar a mãe no presídio. Nesses casos, quando não é encontrado nenhum parente que possa ficar com as crianças, elas são levadas para adoção, casas de acolhimento.
Há uma desestruturação total das relações familiares. O principal impacto é a perda de direitos da manutenção da vida daquelas pessoas, por isso que o habeas corpus coletivo, que foi aceito pelo STF foi tão importante. Para garantir o que já estava em lei, que mulheres em situação de prisão provisória grávidas ou com filhos até 12 anos, ou filhos deficientes possam cumprir pena em prisão domiciliar.
CC: Qual é o perfil do perfil do delito cometido por essas mulheres?
JB: Em 2014, uma pesquisa do Rio de Janeiro fez um levantamento sobre o perfil das apreensões e foi demonstrado que a média era de 20 gramas de droga por cada apreensão, ou seja, uma quantidade muito pequena. Além disso, a maioria não foi presa em situação violenta, não estavam praticando o tráfico de forma violenta, não tentaram impedir a prisão.
Quando vemos os processos das mulheres vemos que não tem motivo para estarem presas. Elas não são grandes comandantes da cadeia do tráfico, mas mesmo assim tão presas, porque temos sistema de justiça criminal que é absolutamente punitivo.
As detenções femininas ainda são acompanhadas de uma carga moralista. Elas ouvem dos juízes:"Mas você estava traficando e é mãe? Que exemplo que você quer dar para seu filho?”. Mas quais são as condições que sociedade oferece para essa mulher dar bom exemplo para seus filhos? E também podemos discutir o que é bom exemplo.
CC: Qual sua opinião sobre as audiências de custódia, elas estão melhorando o quadro do aprisionamento no Brasil?
JB: As audiências de custódia são um dispositivo importante, ferramentas importantes, mas já tem grupos de estudiosos analisando seus resultados. Observa-se que continua sendo muito difícil, mesmo nas audiências, que um juiz garanta que a pessoa responda em liberdade. A prisão ainda tem sido a primeira saída que juízes vêm para a resolução de conflitos.
Nessas audiências também há indícios de seletividade racial, porque quando o réu é negro é mais difícil que ele consiga responder em liberdade. A subjetividade racial ainda tem peso muito grande nas decisões.
CC: Quais são maiores desafios hoje, o que deve ser feito para mudar esse cenário?
JB: Desencarceramento, legalização das drogas e desmilitarização. Desencarcerar significa pensar e repensar os presos provisórios num primeiro momento. Significa colocar em prática o habeas corpus que foi concedido no caso das mulheres, que já tem demonstrado dificuldades para sua execução, pois vários juízes têm se mostrado resistentes para garantir a liberdade das mulheres mesmo com a decisão do STF.
Para legalizar as drogas não basta descriminalizar o usuário. Quando falamos em guerra às drogas, não estamos falando meramente na liberdade individual de ser usuário de drogas, a gente está falando que essa narrativa tem servido para encarcerar uma parcela da população, com uma política de segregação e discriminação racial.
E a desmilitarização é necessária pois temos uma polícia que continua agindo de forma totalmente hierarquizada, com visão de que ela precisa eleger um inimigo para atuar no território. E o inimigo interno a ser combatido é a população negra.
Espíritas e a negligência do aborto paterno
Aprile 1, 2018 8:44![]() |
| Ilustração: Reprodução/Pinterest |
Para muitas pessoas, ser religiosa e feminista é algo incompatível. Para mim não, já que as duas coisas me formam, formam meu modo de agir, de pensar e ser no mundo. E as duas se complementam.
Fui criada dentro da doutrina espírita e cheguei a me afastar um tempo dos trabalhos, justamente por achar que alguns julgamentos feitos dentro da instituição eram incompatíveis com a minha vivência enquanto mulher feminista – mesmo que na adolescência ainda não soubesse que o nome do que eu vivia e pensava era feminismo.
Mas voltei porque é na casa espírita que me sinto em casa. Orando, estudando as palavras de Jesus, acompanhando os trabalhos é que me harmonizo para viver o dia a dia.
Aprendi na casa espírita valores que são muito importantes para mim.
E o que seria da minha saúde física e mental se aos 14 anos, quando descobri ter uma doença incurável e degenerativa (esclerose múltipla), eu não tivesse minha fé? E fé pra mim é algo vivido em cada ato, não apenas rezando em voz alta.
Tenho fé de que nunca estou sozinha, de que tudo tem um propósito e é essa fé que me ajuda a seguir adiante mesmo nos momentos mais difíceis.
E o que isso tem a ver com feminismo?
Tudo. Porque eu não me vejo serena e feliz sem minha fé religiosa e não me vejo forte e empoderada sem o feminismo. E isso, sem dúvida, me trouxe alguns problemas dentro das instituições.
Durante um tempo foi muito complicado pra mim algumas questões relativas ao meu direito de ser dona de mim e de toda mulher ser dona de si e de suas escolhas, além de certo autoritarismo de julgamentos que a religião faz sobre nós.
Na leitura que eu faço do evangelho de Jesus, vejo que não devemos julgar nossas irmãs, mas sim apoiá-las nas suas escolhas, ainda que não sejam as nossas. E não era isso que eu via (e infelizmente continuo vendo) na maioria das casas espíritas em relação a questão do aborto, por exemplo, um tema muito debatido na minha religião.
Enquanto mulher, quero poder escolher se quero ser mãe ou não e quando quero. Depois de me tornar mãe, essa questão se tornou mais forte ainda porque eu sei o quanto de dedicação e abdicação é necessário para exercer a função da maternidade.
E sei que a nossa sociedade não apoia a maternidade
A verdade é que todo mundo acha “lindo de morrer” ser mãe, mas ninguém pega junto.
Se uma mulher, que não quer ser mãe, engravida e está dentro de uma instituição religiosa, os membros da instituição vão condená-la se escolher abortar, mas ninguém vai ajudar e pegar junto na maternagem se ela decidir ter o filho.
Sei disso porque eu, que escolhi ser mãe, não tenho o apoio que gostaria dentro da minha religião. Enquanto isso, homens abortam o tempo inteiro. Não fosse assim, não teríamos a realidade de milhões de pessoas sem o nome do pai na certidão de nascimento.
Ninguém incrimina um homem que se nega a ser pai
Enquanto mulher, mãe e espírita, acredito que quem mais sofre em todo um processo de aborto é a mulher.
Mulheres que abortam espontaneamente sofrem. Mulheres que escolhem abortar sofrem. Mulheres que não podem escolher se querem ou não ser mães sofrem. E o sofrimento não é apenas emocional, mas físico também, já que muitas fazem (a maioria mulheres pobres, porque as ricas fazem com todo o conforto)o procedimento em condições precárias e morrem por conta disso.
Mas Bruna, e o espírito da criança que iria reencarnar, não conta? Conta sim, sem dúvida.
Acredito que nossos filhos e filhas estão ligados a nós muito antes da concepção. Então, sim, o bebê sofre também com esse desligamento. Mas ele também tem capacidade de perdão, entendimento e crescimento nesse processo.
Acredito que a vida daquela que já reencarnou e está num processo de evolução e aprendizado é mais importante nesse momento. Somente ela, enquanto mulher e espírito em desenvolvimento numa sociedade como a nossa sabe o que fazer e, sendo assim, não deve ser tratada como uma criminosa por exercer um direito sobre a sua vida.
Mas então, é incoerente ser espírita e ser a favor da legalização do aborto?
Na minha visão não. Enquanto mulher, mãe e espírita, quero ser dentro da casa espírita a pessoa que acolhe quem busca informação sobre a maternidade e que apoia as decisões das mulheres sem julgamentos.
Quero ser aquela que abraça aquelas que, por algum motivo que não cabe a mim julgar, escolheram não ser mães agora e que, com toda certeza do mundo, sofrem sim com essa decisão também.
Sou contra os julgamentos morais que se fazem sobre as escolhas de cada uma de nós. Afinal, o livre arbítrio tá aí. Não acho que uma mulher que comete um aborto seja uma assassina como muitos dizem. Nem que seja uma pessoa melhor ou pior.
Estamos todos aqui para aprender, amar e evoluir. Jesus nos disse “amai-vos uns aos outros” e não julgai-vos. Acredito que as mulheres, independente das escolhas que façam, precisam ser abraçadas, acolhidas e amadas dentro das religiões. E eu posso fazer isso hoje.
Bruna Rocha Silveira é Publicitária, Mestre em Comunicação Social, Doutora em Educação, Pós-doutoranda em Educação (UFRGS), blogueira, mulher, feminista, espírita, mãe do Francisco.
fonte Justificando por Bruna Rocha Silveira




