A reviravolta da Turquia
Gennaio 7, 2017 10:28O Presidente Vladimir Putin anunciou ter concluído um cessar-fogo na Síria com a Turquia, até aqui o principal apoio operacional dos jiadistas. Como se explica este golpe de teatro ? Irá o Presidente Erdoğan conseguir fazer bascular o seu país da influência norte-americana para a da Rússia ? Quais são as causas e as consequências desta grande reviravolta ?
por Thierry Meyssan
no sítio voltairenet.org
A Turquia é membro da OTAN, aliada da Arábia Saudita, chefe do jiadismo internacional desde a hospitalização do Príncipe Bandar ben Sultan, em 2012, e apadrinha os Irmãos Muçulmanos desde o derrube de Mohamed Morsi e a desavença entre Doha e Riade em 2013-14. Além disso, ela atacou a Rússia, em Novembro de 2015, destruindo um Sukhoi-24 e provocando a ruptura de relações diplomáticas com Moscovo.
Ora, no entanto, é a mesma Turquia que acaba de apadrinhar o cessar-fogo na Síria, imaginado pela Rússia [1]. Porquê ?
Desde 2013, Washington não considera mais Recep Tayyip Erdoğan como um parceiro de confiança. A CIA lançou pois várias operações, não contra a Turquia, mas contra Erdogan em nome próprio. Em maio-junho de 2013, organiza e apoia o movimento contestatário do parque Taksim Gezi. Aquando das eleições legislativas de Junho de 2015, ela financia e enquadra o Partido das minorias, o HDP, de maneira a limitar os poderes do Presidente. Ela repete a mesma táctica durante as eleições de Novembro de 2015, as quais o Poder falsifica. A CIA passa então da influência política à ação secreta. Ela organiza quatro tentativas de assassinato, das quais a última em Julho de 2016 irá correr mal, tendo empurrado os oficiais kemalistas a tentar realizar um golpe de Estado, sem nenhuma preparação.
Recep Tayyip Erdoğan encontra-se, pois, na posição do Primeiro-ministro italiano dos anos 70, Aldo Moro. Os dois homens estão à cabeça de um Estado-membro da OTAN e devem fazer face à hostilidade dos Estados Unidos. A OTAN conseguiu eliminar o Italiano, manipulando para isso um grupo de extrema-esquerda [2], mas falhou em matar o Turco.
Além disso, para ganhar as eleições de Novembro de 2015, Erdoğan adulou os supremacistas turco-mongóis reabrindo unilateralmente o conflito com a minoria curda. De facto, ele juntou à sua base eleitoral islamista do AKP, os pretensos «nacionalistas» do MHP. Em alguns meses, levou à morte mais de 3.000 cidadãos turcos de etnia curda e arrasou várias aldeias, até mesmo bairros de grandes cidades.
Por fim, deixando passar para a al-Qaida e para o Daesh (EI) as armas que lhe faziam chegar a Arábia Saudita, o Catar e a OTAN, teceu uma relação estreita com as organizações jiadistas. Ele não hesitou em utilizar a guerra contra a Síria para ganhar dinheiro a título individual. Primeiro, desmantelando e pilhando as fábricas de Alepo, depois traficando o petróleo e as antiguidades roubadas pelos jiadistas. Progressivamente todo o seu clã se ligou aos jiadistas. Por exemplo, o seu Primeiro-ministro, o mafioso Binali Yıldırım, organizou instalações de contrafacção nos territórios administrados pelo Daesh (EI).
Entretanto, a intervenção do Hezbolla na segunda guerra contra a Síria, a partir de Julho de 2012, e em seguida a da Federação da Rússia, em Setembro de 2015, fizeram virar a sorte das armas. Agora, a gigantesca coligação (coalizão-br) dos «Amigos da Síria» perdeu grandes extensões de terreno que antes ocupava e tem cada vez mais dificuldade em contratar novos mercenários. Milhares de jiadistas desertaram do combate e fugiram já para a Turquia.
Ora, a maior parte de entre eles são incompatíveis com a civilização turca. Com efeito, os jiadistas não foram recrutados para compor um exército coerente, mas, sim para fazer número. Eles chegaram a ser 250.000, pelo menos, talvez muito mais ainda. À partida, tratava-se de delinquentes árabes enquadrados pelos Irmãos Muçulmanos. Progressivamente, juntaram-lhe os sufis Naqchbandis do Cáucaso e do Iraque, e até mesmo jovens ocidentais em busca de Revoluções. Esta inacreditável mistura não se aguenta se a deslocam para a Turquia. Primeiro, porque agora os jiadistas querem um Estado para si próprios e parece impossível proclamar de novo o Califado na Turquia. Em seguida, por todo o tipo de razões culturais. Por exemplo: os jiadistas árabes adoptaram o wahhabismo dos patrocinadores sauditas. Segundo esta ideologia do deserto a História não existe. Logo, eles destruíram inúmeros vestígios antigos, pretensamente porque o Alcorão interdita os ídolos. Se isso não levantou qualquer objecção a Ancara, não é menos certo que está completamente fora de questão que eles toquem no património histórico Turco-Mongol.
De facto, hoje em dia Recep Tayyip Erdoğan tem —para além da Síria— três inimigos simultâneos :
- Os Estado Unidos e os seus aliados turcos, o FETÖ do islamista burguês Fethullah Gülen ;
- Os Curdos independentistas e sobretudo o PKK ;
- As ambições de Estado sunitas, dos jiadistas, particularmente do Daesh (E.I.).
Se o interesse da Turquia será prioritariamente o de apaziguar os seus conflitos internos com o PKK e o FETÖ, o de Erdoğan é o de encontrar um novo aliado. Foi-o dos Estados Unidos no seu apogeu, e deseja tornar-se no da Rússia, agora primeira potência militar convencional do mundo.
Essa reviravolta parece tanto mais difícil de realizar quando o seu país é membro da Aliança Atlântica; uma organização que ninguém, jamais, conseguiu deixar. Talvez possa ele, numa primeira fase, sair do comando militar integrado, como o fez a França em 1966. À época, o presidente Charles de Gaulle tinha sido obrigado a enfrentar uma tentativa de golpe de Estado e numerosas tentativas de assassinato pela OAS, uma organização financiada pela CIA [3].
Mesmo supondo que a Turquia consiga manejar bem esta evolução, ela terá ainda que enfrentar dois outros enormes problemas.
Em primeiro lugar, embora se ignore com precisão o número de jiadistas na Síria e no Iraque, pode-se estimar que eles não serão, hoje em dia, mais que entre 50 e 200. 000. Tendo em atenção que estes mercenários são maciçamente irrecuperáveis, o que é que se vai fazer com eles ? O acordo de cessar-fogo, redigido de maneira deliberadamente imprecisa, deixa aberta a possibilidade de um ataque contra eles em Idlib. Esta província está ocupada por uma miríade de grupos armados, sem laços uns com os outros, mas coordenado pela OTAN a partir do Landcom em Esmirna, via ONGs «humanitárias». Ao contrário do Daesh, estes jiadistas não conseguiram organizar-se adequadamente e permanecem dependentes da ajuda da Aliança Atlântica. Esta, abastece-os através da fronteira turca que poderá ser fechada em breve. No entanto, se é fácil controlar os camiões que circulam pelas rotas bem definidas, não é possível parar a passagem de homens através dos campos. Milhares, talvez dezenas de milhar, de jiadistas poderiam rapidamente fugir para a Turquia e desestabilizá-la.
A Turquia já começou sua mudança de retórica. O Presidente Erdoğan acusou os Estados Unidos de continuar a apoiar os jiadistas, em geral, e o Daesh(EI) em particular, sugerindo que, se ele fez o mesmo no passado, foi sob má influência de Washington. Ancara ambiciona ganhar dinheiro confiando a reconstrução de Homs e de Alepo à sua empresa de construção e obras públicas. Todavia, percebe-se mal como após ter pago a centenas de milhar de sírios para que deixassem o seu país, após ter pilhado o Norte da Síria, e após ter apoiado os jiadistas que destruíram este país e mataram centenas de milhar de Sírios, a Turquia poderia iludir todas as suas responsabilidades.
A reviravolta da Turquia, se se confirmar nos próximos meses, terá consequências em cascata. A começar pelo facto que o Presidente Erdoğan sem apresenta agora, não somente como o aliado da Rússia, mas, também como o parceiro do Hezbolla e da República Islâmica do Irão, quer dizer dos heróis do mundo xiita. Terminada, portanto, a miragem de uma Turquia líder do mundo sunita batalhando contra os «heréticos», com o dinheiro saudita. Mas, o conflito artificial intra-muçulmanos, que Washington lançou, não parará enquanto a Arábia Saudita não tiver, ela também, renunciado ao mesmo.
A extraordinária viragem da Turquia é, provavelmente, difícil de compreender para os Ocidentais, segundo quem a política é sempre pública. Sem mencionar a detenção de oficiais turcos num bunker da OTAN em Alepo-Leste, há duas semanas atrás, é mais fácil de interpretar para aqueles que se lembram, por exemplo, do papel pessoal de Recep Tayyip Erdoğan durante a primeira guerra da Chechénia, quando, então, ele dirigia a Millî Görüş; um papel sobre o qual Moscovo jamais se pronunciou, mas do qual os serviços secretos russos conservaram inúmeros arquivos. Vladimir Putin preferiu transformar um inimigo em aliado, mais do que fazê-lo cair e ter que continuar a lutar contra o seu Estado. O Presidente Bachar Al-Assad, sayyed Hassan Nasrallah e o aiatola Ali Khamenei seguiram-lhe o exemplo com gosto.
A reter :
- Depois de ter pensado conseguir conquistar a Síria, o Presidente Erdoğan encontra-se, em exclusivo devido à sua política, pressionado em três frentes : pelos Estados Unidos e pelo FETÖ de Fethullah Gülen, pelos Curdos independentistas do PKK, e pelo Daesh (E.I.).
- A estes três adversários, poderá de novo juntar-se à Rússia que detêm inúmeras informações sobre o seu percurso pessoal. Assim, o Presidente Erdoğan escolheu, portanto, aliar-se com Moscovo e poderá sair do comando integrado da OTAN.
2016 registrou 1 latrocínio por semana no DF
Gennaio 7, 2017 9:13![]() |
| DANIEL FERREIRA/METRÓPOLES |
Em 2016, a cada oito dias uma pessoa morreu vítima de latrocínio no DF
Estudo obtido pelo Metrópoles revela onde houve mais casos e os horários mais tensos. Ceilândia e Samambaia lideram o ranking
Este ano mal começou e o Distrito Federal já registou três latrocínios (roubos seguidos de morte): um no Gama, um em Brazlândia e outro no Itapoã. O que chama a atenção é que, na primeira semana de 2017, já foi quase alcançado o número registrado em todo janeiro de 2016, quando houve quatro ocorrências.
O ano passado, aliás, teve uma alta de 30,4% em relação a esse tipo e crime na comparação com 2015, levando-se em consideração os latrocínios consumados e as tentativas, que poderiam ter acabado em mortes. Em 2015, foram 187 tentativas e 46 óbitos. Em 2016, os registros passaram, respectivamente, para 262 e 42 consumados. É como se a cada oito dias uma pessoa tivesse morrido na capital federal vítima de latrocínio.
O Metrópoles obteve, com exclusividade, uma análise criminal feita pelas forças de segurança locais, que mapearam todos os casos registrados nos últimos dois anos. O levantamento identifica o dia da semana, a faixa horária e os locais onde os roubos seguidos de morte ocorreram com maior frequência.
No ranking das cidades que mais registraram esse tipo de ocorrência, Ceilândia está em primeiro lugar, com 50 casos, somando 2 latrocínios e 48 tentativas. Na sequência, vêm Samambaia (7 e 28); Taguatinga (3 e 21); Gama (2 e 21) e Paranoá ( 2 e 19).
Entre as cidades que menos registraram casos dessa natureza criminal, aparecem três com apenas uma tentativa de latrocínio em cada localidade ao longo de 2016: Park Way, Fercal e Riacho Fundo II. As regiões de Águas Claras e Vicente Pires registraram duas tentativas de latrocínio e nenhum consumado. Já no Plano Piloto, foram 13 tentativas e nenhuma morte, segundo o balanço.
Cuidado com as quintas-feiras e as madrugadas
Segundo o relatório, a quinta-feira é o dia da semana em que os latrocínios foram cometidos com maior frequência em 2016. Ao todo, sete pessoas perderam a vida e outras 49 ficaram feridas nesses dias. No panorama geral, o horário mais perigoso é entre a 0h e as 5h59, quando 18 das 42 vítimas morreram.
O Metrópoles entrou em contato com a Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social para pedir dados oficiais detalhados sobre latrocínios. A pasta se recusou a divulgar as informações e alegou que “a divulgação das manchas criminais pode gerar consequências para além da área de segurança pública, como, por exemplo, a discriminação dos moradores dessas áreas e a desvalorização imobiliária, entre outros problemas”.
Casos de repercussão
A estratégia da secretaria de manter informações sigilosas sob o pretexto de evitar “consequências para além da área de segurança pública” parece não surtir efeito sobre a população. Até mesmo porque, diariamente são noticiados casos de violência. Como alguns dos latrocínios cometidos no ano passado que tiveram grande repercussão.
Na manhã de 12 de dezembro, por exemplo, um policial militar da reserva remunerada foi atingido por quatro tiros durante um assalto. O subtenente Abraão Holanda Cavalcante acabou morrendo 10 dias depois do crime, durante uma cirurgia para retirar uma bala do fêmur.
Outro episódio de grande comoção foi a morte do servidor do Senado Eli Roberto Chagas, 51 anos, na porta da escola enquanto aguardava os filhos, no Guará II. O caso ocorreu em fevereiro e os bandidos envolvidos foram presos após semanas de investigação.
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| O servidor do Senado Eli Chagas foi morto no estacionamento de uma escola no Guará 2 LEONARDO ARRUDA/METRÓPOLES |
Mistério
Em contrapartida, um dos crimes mais emblemáticos de 2016 não foi solucionado até hoje. Em 14 de junho, a estudante Jéssica Leite, 20 anos, foi esfaqueada no peito em Taguatinga. A suspeita é de que tenha sido uma tentativa de roubo ao celular da jovem. Por isso, o caso é tratado como latrocínio.
Os criminosos deixaram a universitária, que cursava jornalismo, agonizando até perder a vida ainda no local do crime. O Corpo de Bombeiros foi acionado e tentou realizar atendimento emergencial, mas Jéssica não resistiu. Ninguém foi preso pelo crime. O caso permanece sendo investigado pela 17ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Norte).
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| Jéssica Leite foi morta a caminho da faculdade, em Taguatinga ACEBOOK/REPRODUÇÃO |
Já em 2017…
Este ano, os latrocínios chamaram a atenção dos brasilienses. Na manhã de quarta-feira (4/1), a professora Raquel Costa Miranda, 41 anos, foi assassinada no Gama ao ter o carro roubado. À noite, o taxista José Soares Brandão, 46, perdeu a vida ao reagir a um assalto em Brazlândia. Na manhã de quinta (5), o idoso Nilson Marciano da Costa, 63, morreu ao ter a casa onde morava no Itapoã invadida por ladrões.
Para o especialista em segurança pública George Felipe de Lima Dantas, os índices que medem a incidência de crimes contra o patrimônio — entre eles o latrocínio — devem continuar em alta, principalmente por conta do baixo efetivo das forças policiais.
O cobertor é curto e os criminosos percebem isso. A tendência é que a onda de criminalidade alcance seu pico os próximos meses. Isso porque teremos um maior fluxo de pessoas e de dinheiro nas ruas, já que ainda estamos em período de férias"George Felipe de Lima Dantas, especialista em segurança pública
Questionada sobre as ocorrências deste ano, a SSP disse que “os três latrocínios ocorridos nos dois últimos dias são considerados fatos atípicos no Distrito Federal neste curto lapso de tempo. Ressalta-se que os roubos com morte se deram em cidades e horários diferentes, situações que não impediram a pronta investigação da Polícia Civil”.
do Portal Metrópoles
Retardado que pediu mais chacinas é demitido
Gennaio 7, 2017 8:39![]() |
| Reprodução/Facebook |
Secretário de Temer deixa cargo após dizer que deveria haver mais massacres nos presídios
De Brasília
Joaquim Dantas
Para o Blog do Arretadinho
O secretário nacional de Juventude, Bruno Júlio, foi demitido nesta sexta-feira (6), após declarar que "deveria acontecer uma chacina por semana" nos presídios brasileiros.
Em entrevista a imprensa mineira, o filhote de fascista disse que "havendo uma valorização muito grande da morte de condenados, muito maior do que quando um bandido mata um pai de família que está saindo ou voltando do trabalho".
O governo golpista considerou que a declaração de Júlio foi "infeliz" e demitiu ele, entretanto, oficialmente o Planalto declarou que ele pediu demissão.
Em uma outra entrevista, antes dessa declaração, o ex-secretário teria dito que era "filho de policial" e compreendia "o dilema diário de todas as famílias". "Quando meu pai saía de casa, vivíamos a incerteza de saber se ele iria voltar, em razão do crescimento da violência", afirmou - seu pai, Cabo Júlio (PMDB), atualmente é deputado estadual em Minas Gerais.
Em entrevista concedida ao jornalista Ilimar Franco, publicada no site do jornal O Globo, Júlio disse que "tinha era que matar mais" e "tinha de ter uma chacina por semana". "Eu sou meio coxinha sobre isso. Sou filho de polícia, né? Tinha era de matar mais. Tinha de fazer uma chacina por semana", afirmou à coluna.
Bruno Júlio foi nomeado por indicação da bancada mineira do PMDB. Ele é presidente licenciado da Juventude Nacional do partido. Para o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, é uma "afronta" mantê-lo na secretaria após as declarações.
Com informações R7
Ciro diz que a elite vai cavar o buraco de Temer
Gennaio 6, 2017 17:52"A elite brasileira sabe que não dá para esperar e vai cavar o buraco de Temer também", diz Ciro Gomes
Em entrevista exclusiva, o experiente político fala sobre a perda de sustentação do atual governo, questiona o déficit da Previdência e as medidas econômicas implementadas e analisa os significados geopolíticos do impeachment de Dilma Rousseff
Uma aparente base sólida no Congresso Nacional contrasta com a baixa adesão popular. Por trás de mais uma possível contradição num país que definitivamente não é para amadores, existe a centelha para um novo processo de erosão no comando do Palácio do Planalto. Essa é a leitura que faz Ciro Gomes, um dos nomes cotados para lançar candidatura ao posto máximo da República em 2018, sobre o cenário que se desenha para Michel Temer. Ele acredita que o atual presidente não terá condições de encerrar o mandato, e teme que os efeitos da anarquia na política nacional podem trazer turbulências ainda maiores ao país.
Para o ex-ministro e ex-governador, o peemedebista é mero peão no xadrez dos bastidores do poder, que assumiu o comando do país encarregado de cumprir três principais missões em nome de uma elite que chama de "plutocracia": garantir a saúde dá relação dívida/PIB, remodelar a posição do Brasil no sistema político e econômico da multipolaridade internacional e adotar postura mais permissiva à participação estrangeira na exploração do petróleo nacional.
Em contraste com o que foi entendido por muitos como demonstração de força do governo na aprovação de medidas tidas como importantes para o ajuste fiscal proposto, Ciro Gomes enxerga vulnerabilidade. "Ele não tem forte apoio no Congresso. A elite brasileira, o baronato que manda no país é que baseou o impeachment é quem controla, de fora para dentro esses congressistas. Eles deram a Michel Temer tarefas para serem cumpridas. Para elas, há apoio no Congresso. Mas basta rivalizar com qualquer outro tipo de assunto [que se observar a fragilidade do governo]", argumenta.
Agora filiado ao PDT, após uma sucessão de trocas de partidos ao longo de sua trajetória política, Ciro Gomes acredita que o atual presidente não tem respondido da forma correta à primeira e principal missão que lhe teria sido conferida e isso deverá custar seu mandato. Tido como um dos poucos possíveis candidatos da esquerda no próximo pleito presidencial que se dedicam ao debate econômico, o ex-ministro defende a necessidade de se adotar medidas anticíclicas e uma política monetária frouxa para a recuperação da economia nacional e que somente a volta do crescimento provocará um alívio nas receitas e o reequilíbrio fiscal. Preocupado com o nível de endividamento das empresas e o estado de paralisia nacional, ele acusa o atual governo de contribuir para a manutenção do quadro depressivo.
Infomoney: O senhor defende que não há rombo na Previdência. As estimativas de que o déficit do INSS vai superar os R$ 180 bilhões em 2017 estão erradas?
Ciro Gomes: Todas as vezes em que se reflete sobre um problema complexo no Brasil, os oportunistas a serviço dos interesses prevalecentes acabam reduzindo opiniões que deveriam ser complexas. A grande questão hoje é que, se você tem as receitas destinadas pela lei versus as despesas para a Previdência, não há déficit. Se somarmos CSLL, PIS, Cofins, as contribuições patronais do setor privado e público e as contribuições dos trabalhadores, contra as despesas do presente exercício, temos ainda um pequeno superávit. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de decência e não esteja a serviço da manipulação de informações vê isso. Eles têm a audácia de falar em déficit, porque propõem uma DRU [Desvinculação de Receitas da União], que capta 30% de todas essas receitas e aloca para pagar os serviços da dívida, com a maior taxa de juros do mundo, no momento da pior depressão da história do Brasil.
Dito isso, a Previdência Social tem dois problemas. Um é estrutural, derivado de uma mudança da demografia. Tínhamos seis pessoas ocupadas para cada aposentado quando o sistema foi montado, com expectativa de vida de 60 anos. Hoje, temos 1,7 trabalhador ocupado por aposentado, para expectativa de vida superior a 73 anos. Para resolver estrategicamente a equação de poupança e formação bruta de capital do Brasil, precisamos avançar com prioridade em uma reforma, mas nunca na direção que estão propondo. E aí vem o segundo problema: o futuro ou potencial déficit da previdência brasileira se dá pelas maiores pensões, dos maiores rendimentos, que levam mais da metade das despesas. Juízes, políticos, procuradores precocemente aposentados e com pensões acima de qualquer padrão de controle do país. Isso é uma aberração. A maior punição a um juiz ladrão que vende uma sentença no Brasil é a aposentadoria compulsória com 100% de seus proventos.
E o que fazer para resolver o problema?
O superávit vai sumir em dois ou três anos. Temos que evoluir do regime de repartição [em que as contribuições dos trabalhadores em atividade pagam os benefícios dos aposentados] para o de capitalização [em que cada trabalhador poupa para sua aposentadoria], que é o que todos os países do mundo fazem. E fazer uma espécie de transição, que é o mais complexo mas há como fazer também, de maneira que, ao fim do processo, tenhamos uma previdência básica para 100% da população da transição, e a previdência complementar pública, porém sob controle de coletivos de trabalhadores e com regramentos de governança corporativa, com prêmios para um grupo de executivos recrutados por concurso e com coletivos de apuração dos riscos dos investimentos.
Qual é sua avaliação sobre a fixação de uma idade mínima para aposentadoria?
Sou a favor, desde que se compreenda as diferenças do país. Considero uma aberração estabelecer uma idade mínima igual para um trabalhador engravatado, como eu, e um professor, que, no modo como Temer vê as coisas, precisaria trabalhar ao menos 49 anos para ter aposentadoria integral. A expectativa de vida no semiárido do Nordeste, por exemplo, não chega a 62 anos. Um carvoeiro do interior do Pará também não. É preciso evoluir para um padrão que conheça o País. Há de se estabelecer uma idade mínima, mas não pode ser por um modo autoritário e elitista, ditado pelos setores privilegiados da sociedade.
Há economistas que, assim como o senhor tem feito nessa discussão da reforma da Previdência, questionam os atuais termos do debate. Qual deveria ser a agenda econômica atual na sua avaliação, levando-se em consideração a força do governo e do mercado em conduzir as discussões?
O setor financeiro está produzindo uma crise para si próprio, com a proporção dívida/PIB indo de 75% para 90% no ano que começou. É tão estúpido o modelo feito com [Henrique] Meirelles que agora estão produzindo o próximo ciclo de crise. É uma crise do setor bancário, cujas sementes estão dadas. Já são a maior inadimplência e o maior volume de reserva de crédito para recuperação duvidosa da história, e eles estão querendo compensar os prejuízos com a taxa de juros real, que simplesmente está fazendo despencar a receita pública. Nos estados, já é caricata a situação de Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e mais 14 estados por conta desse receituário absolutamente estúpido do ponto de vista técnico.
Temos que inverter essa ideia boba de ganhos de confiança, que vai se deteriorar todo dia muito mais. Confiança depende de números práticos, e o mais relevante deles é proporção dívida/PIB para o setor financeiro, mas para o setor produtivo é emprego, renda. Tudo isso está se deteriorando. O que tem que ser feito é o oposto do que essa gente está fazendo. Em todo momento de depressão econômica, até os mais conservadores sabem, é preciso que o governo aja de forma anticíclica para liberar uma dinâmica de retomada de desenvolvimento. E não é com farra fiscal, porque quem está produzindo desequilíbrio é a queda substantiva da receita. Basta ver que as despesas que estão aumentando são todas de iniciativa do senhor Michel Temer. A saber: reajuste das maiores corporações, a forma descuidada com que negociou a dívida dos estados e municípios.
Enquanto isso, há uma porção de iniciativas semiprontas que eles estão descontinuando. Desencomendaram 17 navios da recém-retomada indústria naval brasileira e desempregaram 50 mil pessoas; descontinuaram as obras da Transnordestina, que tinha 7 mil homens trabalhando; descontinuaram as obras do Rio São Francisco, enquanto o Nordeste brasileiro amarga seu quinto ano de seca. Tem áreas importantes colapsando o abastecimento de água humano. Essa é a realidade do governo.
Qual seria a taxa de juros ideal para a retomada do crescimento, na sua avaliação como crítico à atual política monetária?
Todos os grandes mercados do mundo estão com juros negativos neste momento. Qual é a razão de o Brasil ter os maiores juros reais do planeta? Teoricamente, defende-se juro alto para desconjurar inflação, que é o princípio mobilizante desses enganadores há duas ou três décadas no Brasil. Qual é a inflação de demanda que temos no país? Qual setor de produção brasileiro está com hiato de produto (demanda maior que oferta)? Estamos com a maior capacidade instalada ociosa da história moderna do Brasil.
Quando a taxa de juros foi estabelecida pela Dilma em 14,25%, a inflação estimada era de 11,5%. Portanto, se aceitássemos para argumentar -- o que é uma aberração, porque a inflação que se apresentou derivou-se de preços administrados pelo governo e das consequências da desvalorização do câmbio, ambos fenômenos sobre os quais os juros não têm efeito -- que 14,25% é uma taxa correta para enfrentar inflação anualizada a futuro de 11,5%, hoje a inflação projetada para 12 meses está inferior a 5%. Qual é a explicação para o atual patamar a não ser a boçalidade com que o Banco Central serve o setor financeiro?
Mas seria possível reduzir essa taxa tão rapidamente?
Evidentemente que está interditada a ideia, mas nada justifica que o Brasil não traga a taxa de juros tão rapidamente o quanto possível, para não quebrar expectativas e nem causar prejuízos mais graves a ninguém, e de forma profunda.
O senhor mesmo tem o diagnóstico de que haveria um confronto entre as coalizões, sobretudo no mercado financeiro, no caso de uma queda abrupta na taxa. Como sair disso?
Não estou falando em ser abrupto. Mas acho que o Banco Central tem que acabar com a história de reunir o Copom a 45 dias. Tem que se reunir, reduzir em um ponto [percentual a Selic] agora e anunciar um viés de baixa, que o mercado inteiro entenda. Os bancos mais sóbrios sabem que tenho razão. O Bradesco, por exemplo, sabe que a taxa de juros está causando prejuízo aos bancos. Em São Paulo, ninguém está pagando ninguém. Hoje, o Brasil está proibido de crescer também, porque o passivo das 300 maiores empresas estrangulou. No último trimestre, nenhuma das grandes empresas de capital aberto do Brasil gerou caixa para pagar o trimestre de dívida.
Os bancos privados estão todos saindo da praça e os créditos de recuperação duvidosa estão todos de novo se concentrando no Banco do Brasil e na Caixa Econômica. Enquanto isso, ninguém abre a boca. Só no calote da Oi, foram R$ 65 bilhões espetados no Banco do Brasil e na Caixa Econômica -- ouça-se: nas costas do povo brasileiro.
Alguns especialistas chamam atenção para a situação de endividamento das empresas e seus efeitos sobre o sistema financeiro. Existe a percepção de um processo de deslavancagem em curso, que pode culminar em transferências de controle de companhias brasileiras a grupos estrangeiros. Qual é o seu entendimento sobre esse processo?
É o passivo externo líquido explodindo. O desequilíbrio das contas externas brasileiras é outro fator que nos proíbe de crescer. Então, tem-se a depressão imposta, com o governo fazendo um processo restritivo, cíclico, as empresas com passivo estrangulado e o passivo externo líquido do país explodindo, inclusive com o governo fazendo desinvestimentos na Petrobras. É um crime, e o jornalismo brasileiro é cúmplice, por regra.
O senhor se diz contrário às privatizações, ao passo que existem aqueles que veem nessa iniciativa a melhor saída, tendo em vista os recentes escândalos de corrupção revelados por operações como a Lava Jato...
A Odebrecht é estatal?
Não.
Então está aí minha resposta.
O senhor é um dos poucos candidatos que se define ideologicamente de esquerda e se dedica a um debate macroeconômico...
O que eu advogo é uma grande aliança de centro-esquerda, que produza um projeto explícito, fora dos adjetivos desmoralizados gravemente pelo próprio PT, que malversou o conceito ‘esquerda’ e virou uma agremiação que cooptou setores organizados da sociedade para praticar uma agenda mista de alguma atenção ao consumismo popular, mas de absoluto conservadorismo nas estratégias de desenvolvimento do país. O que advogo é a coisa prática, que dê condição de novo da sociedade brasileira voltar a produzir e trabalhar.
Quais são os riscos de sua candidatura não acabar vista como representante do eleitorado progressista e tampouco conquistar alguma adesão em um debate de maior controle da direita?
No Brasil, infelizmente estamos olhando de forma rasa sobre problemas complexos. Não vou mudar minha posição, continuarei tentando pedagógica e pacientemente conscientizar o brasileiro sobre essas necessidades estratégicas do país.
As esquerdas no mundo estão tendo um diagnóstico errado sobre o que representa a eleição de Donald Trump (e outros fenômenos globais), ao atribuí-la exclusivamente a um discurso reacionário e xenófobo? O pré-candidato Bernie Sanders, por exemplo, teve chances consideráveis de vencer o pleito e não poderia oferecer leitura mais antagônica.
Acho que esse é um olhar superficial. Evidentemente, estamos com um debate em efervescência no mundo, com o colapso da Europa, a saída do Reino Unido [da União Europeia], vis-à-vis a tensão que a China está produzindo nas novas relações mundiais. Não sei o que Trump vai afirmar, mas ele foi eleito pela negação da perversão neoliberal e do rentismo prevalecendo sobre a produção. É o trabalhador branco, desempregado, do setor industrial americano a substância da base da eleição. Bernie Sanders sistematizou um pouco mais claramente esses valores, mas de forma dialeticamente difícil de ser engolida pelo grande sistema americano.
Mas o debate está fervendo na Europa, e todo mundo percebendo que a solução para o problema é recuperar os mecanismos de coordenação estratégica do governo e por interação com a iniciativa privada. Não é estatismo ao modo velho, muito menos esse liberalismo estúpido que produziu a maior agonia do capitalismo mundial com a crise de 2008, cujos escombros estamos vivendo ainda hoje.
Muitos nomes favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff, pensando em uma retomada da economia, começaram a se ajustar a projeções mais negativas. O país ainda pode evoluir em 2017?
Não vamos evoluir. É claro que você vai assistir o Banco Central correndo um pouco mais rapidamente na direção correta, mas ainda muito mais lentamente do que o necessário, de forma insuficiente para reverter expectativa. O ano de 2017 também já está comprometido.
Em uma palestra em um think tank em Washington, logo na iminência do impeachment, com todos muito animados, eu disse: “vocês estão completamente equivocados em querer colher maracujá em pé de laranja. Dessa coalizão de corruptos, incompetentes e entreguistas, não sai nada senão corrupção, incompetência e entreguismo”.
O ajuste fiscal não seria uma saída?
A única forma de o Brasil sair da profunda crise fiscal em que se encontra é aumentar a receita. Nessas circunstâncias, há duas condições -- o que não quer dizer que não se tenha que impor a eficiência da despesa. Uma delas é, de forma segregada, imediatamente aumentar alguns tributos, como Cide e CPMF. Mas estrategicamente só há um jeito de fazer a receita voltar a crescer: o país assumir a decisão de crescer.
Para isso, é preciso fazer grandes movimentos de conjuntura, como consolidar o passivo do setor privado, descendo a taxa de juros aceleradamente. Mas também proponho que se possibilite a consolidação de passivo com US$ 50 a 70 bilhões extraídos das reservas e alocados em um fundo soberano, que pode ser feito nos BRICS ou em um fundo soberano que o Brasil crie. Seria trocada dívida interna no juro brasileiro por uma dívida externa, com câmbio razoavelmente estabilizado, correndo a taxa de juros negativa no exterior. Você pagaria o hedge e ainda compensaria dramaticamente, também sendo um grande coadjuvante para a retomada do investimento privado e da queda da taxa de juros pela consolidação dos passivos de grandes empresas brasileiras, que tinham plano de investimento quando esses estúpidos começaram a destruir a economia.
Nesse cenário de dificuldades na economia, o senhor vê Michel Temer encerrando o mandato em 2018?
Não consigo ver. A elite brasileira sabe que não dá para esperar tanto tempo e vai cavar o buraco para ele também.
Levando-se em consideração sua experiência parlamentar e como ministro e governador, qual é a avaliação que tem da atual situação de governabilidade de Temer? Um forte apoio congressual, mesmo em meio às fraturas na base, e a contradição com o elevado nível de reprovação popular.
Ele não tem forte apoio no Congresso. A elite brasileira, a plutocracia, o baronato que manda no país e que baseou o impeachment é quem controla, de fora para dentro, esses congressistas. Eles deram a Michel Temer, que é uma pinguela ou um trambolho, tarefas para serem cumpridas. Para elas, há apoio no Congresso. Mas basta rivalizar com qualquer outro tipo de assunto [que se observa a fragilidade do governo]. Por exemplo: a reforma trabalhista não vai acontecer. Pergunte a opinião de Paulinho da Força (SD-SP), que estava junto com ele no impeachment, sobre esse assunto. Outro exemplo é a negociação dos governadores sobre a dívida. Pergunte ao filho do César Maia [Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados] a qual senhor ele serviu quando agiu lá. Então, vivemos de ilusões. Também é tarefa minha pedir ao jornalismo brasileiro que saia desse pacto de estupidez.
O senhor compartilha do entendimento de que houve um golpe contra Dilma Rousseff e que ele não se restringe ao nível doméstico. Qual é o seu desenho da geopolítica do processo?
Basicamente, o impeachment foi provocado ancestralmente pela descontinuação do governo Dilma, em função da distância entre a marketagem de campanha e a prática no início do segundo governo. Isso criou um ambiente que desconstruiu muito precocemente seu laço com o povo brasileiro. Ela fez uma opção de, ao não politizar os problemas estratégicos na campanha, enganar o povo e achar que teria tempo para corrigir. Essa é a causa remota.
A causa que se organizou – fissura, inclusive, pronta nessa contradição de Michel Temer -- tem três interesses bastante práticos:
1) Gerar excedentes fiscais, em ambiente de agonia fiscal, a qualquer preço para proteger a inflexão da proporção dívida/PIB, para o rentismo. Essa é a primeira grande razão e a tarefa de Temer, que tem que cumpri-la e não o está fazendo. O déficit primário vai se aproximar de R$ 200 bilhões, enquanto o nominal, R$ 450 bilhões.
2) O alinhamento internacional do Brasil completamente desmontado. [Apesar de] Contraditória e despolitizada, a presença do país em uma ordem internacional difusamente multipolar teve aproximações sensíveis com Rússia em uma hora de Crimeia, com a China, em uma hora em que a estratégia americana era o Tratado do Transpacífico (que Trump prometeu revogar). Em um momento estratégico como esse, os primeiros centrais princípios da política do império são não permitir uma ordem multipolar que não se renda ao monopólio do poder que ganhou na bala, na Segunda Guerra Mundial, e se sustenta na base do termo de troca (dólar) e na sofisticação tecnológica.
3) A entrega do petróleo. Observe a pressa com que [José] Serra apresentou um projeto para eliminar as restrições de acesso da Petrobras a reservas [do pré-sal], de eliminar o conteúdo nacional e a pressa como estão vendendo subfaturados vários dos investimentos da companhia. Na cara da imprensa brasileira, venderam o campo de Carcará por US% 1,35 o barril de petróleo para uma estatal norueguesa e agora venderam, por US$ 2 bilhões coisa que custou recentemente US$ 9 bilhões, para a empresa francesa Total. Tudo com muita pressa.
As três grandes demandas Temer está tentando entregar. Não vai conseguir a mais grave, e, por isso, vai cair.
Se o senhor se candidatar à Presidência em 2018, como pretende governar com um Congresso tão conservador, fragmentado e empoderado como o atual?
Digo de novo: vou pensar mil vezes em me candidatar. Meu partido vai definir e cumprirei minha obrigação. Mas, se for, irei para fazer história.
O presidencialismo tem mil desvantagens e a mais grave delas é essa lógica de impasses, em que o presidente tem as responsabilidades pela saúde dos negócios de Estado e um Congresso, que não tem, no sentido jurídico do tema, responsabilidade nenhuma, pode diminuir ou aumentar despesas, sem pagar qualquer consequência, enquanto, no Parlamentarismo, isso não acontece.
Mas o presidencialismo também tem sua vantagem, que é a capacidade que o presidente da República tem tido, na tradição brasileira, de se escorar na opinião pública e fazer a construção de uma maioria de forma qualitativa. Fui ministro da Fazenda no governo Itamar Franco. Ele não tinha partido, não tinha maioria orgânica -- o que não é meu caso, que tenho experiência política e tenho um partido, onde as alianças políticas são perfeitamente praticáveis --, mas, ainda assim, conseguiu governar com força política imensa e, cada vez que precisou, apostou no povo, na mobilização da opinião pública, para que os grupos de pressão clandestinos não o esmagassem.
Um entendimento do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e uma lei recentemente aprovada pelo Congresso, à revelia do que determina a Constituição Federal, apontam para chances de eleições diretas em caso de queda do governo Michel Temer. O senhor se vê apto a se candidatar se o processo eleitoral se iniciasse amanhã?
Meu partido que vai resolver isso e cumprirei minha responsabilidade. Mas, se for, farei o que deve ser feito pelo País, para voltar para casa com a consciência tranquila. Tenho muita esperança e confiança de que é possível resolver o problema do país, não que seja simples ou fácil, mas é perfeitamente praticável fazer o Brasil retomar seu destino, que não é essa mediocridade corrupta que tomou conta.
Mas estou muito incomodado com esse estado de anarquia que as coisas têm acontecido. A Constituição diz que, se o presidente da República for cassado, o vice assume. Se o vice, por alguma razão, sair antes de dois anos de mandato, há eleições diretas. E, se ele sair depois de dois anos, a eleição é feita indireta pelo Congresso. Eu tenho nojo e pavor da ideia de que isso vá acontecer. Mais nojo e pavor tenho da ideia de se ficar manipulando a Constituição, desses juízes que fazem discursos políticos, porque isso é um estado de baderna e é muito pior do que qualquer outra coisa.
A Operação Lava Jato é um tabu para a esquerda. Enquanto parte apoia, outra foge do debate, e uma terceira parcela critica abusos cometidos e os efeitos gerados para a economia do país e as empresas. Como promover um combate à corrupção sem provocar grandes fissuras na economia? O que o senhor proporia de diferente?
Temos que olhar as coisas complexas com olhares complexos. A Lava Jato é uma coisa essencialmente importante para o Brasil, porque parece dar fim ao histórico de impunidades do baronato da política e do mundo empresarial. Por isso, ela merece todo o apoio e estímulo.
Isto dito, temos também alguns problemas, como o excesso de aplausos e exibicionismos de juízes e procuradores. Isso não é bom, mesmo para a Lava Jato, porque à medida que você extrapola, o risco de suspeições está dado. Várias sentenças que alçaram a segunda instância da Justiça foram anuladas, é só se lembrar da Operação Satiagraha. É isso que está fadado a acontecer se não forçarmos a mão com essa garotada de Curitiba. Eles têm que se lembrar que Justiça é severidade, modéstia e não ficar se exibindo.
Outra coisa gravíssima é que quem comete crime é a pessoa física. No ordenamento jurídico brasileiro, pessoa jurídica não comete crime. Então, as punições têm que ser severas, mas destinadas exclusivamente à pessoa física, que praticou o ato ilícito. O mundo inteiro salva a cara das empresas. A Construção Civil é um dos raros setores em que temos algum protagonismo global, mas eles estão destruindo as empresas. Isso, no entanto, não é culpa dos juízes, mas dos políticos, que não têm coragem de fazer acordo de leniência e não deixam que os juízes cumpram suas tarefas de dar a pena que for necessária para as pessoas. Mas salvar as empresas para que elas atuem é um imperativo de ordem pública no Brasil.
Fonte: Infomoney
Fui agredida por sair à noite, ser mulher e de esquerda
Gennaio 6, 2017 17:34![]() |
| Lais e a amiga, pouco antes da agressão que a vitimou |
Vivo escrevendo sobre as taxas de feminicídio, agressão contra mulheres e o clima de intolerância que assola o mundo, mas realmente não esperava usar esse espaço para falar de mim, na verdade, expor ao mundo o que aconteceu comigo é uma forma de denunciar e reafirmar que o nível de intolerância está beirando a barbárie.
Por Laís Gouveia*
no Portal Vermelho
Estava com uma amiga no bar, isso mesmo, duas mulheres sozinhas em um bar numa quinta-feira à noite. Pode isso? Até na noite de ontem pensava que sim. Estava tudo divino maravilhoso quando fomos abordadas por um senhor (foto abaixo) com cara de bonachão, alto, que questionou se éramos socialistas. Olhei com uma cara de “oi??” e continuei as conversas com minha amiga.
Papo vai, vem, disse para minha amiga que estava indo hoje à tarde para Guaratuba, região litorânea de São Paulo, quando o mesmo senhor que tinha questionado minha proximidade com o marxismo esbravejou: “Eu ouvi vai pra Cuba!?????”
Não aguentei. Fiquei revoltada com aquela situação. Questionei: “Moço, do que você está falando, o senhor está louco?” Era o prato cheio para ele. O brutamontes já levantou e começou o seu circo, aproximando-se de mim e me ameaçando com seu tamanho. Eu, com meu 1,57 levantei meus pés e continuei dizendo que ele não tinha o direito de ser tão inconveniente. Ele me deu um safanão no braço.
Naquela situação insustentável, minha arma foi o celular. Peguei e comecei a gravar, “bate agora que eu estou gravando, o mundo vai ver sua cara seu covarde!”, disse.
Ele então lançou um soco no meu braço e arremessou meu celular no lixo. Com toda a dor que eu senti no momento, reuni forças e enfiei minha mão no meio de restos de comida para pegar o celular. Após o ocorrido, pessoas próximas chegaram para nos defender. Um outro amigo dele gritava como em um surto psicótico “morre na Venezuela”. Os garçons orientaram que nós fossemos para dentro do estabelecimento. Acho que se não fosse isso poderia ter sido pior.
Entrei em pânico, minha respiração ficou ofegante. Eu só queria chegar em casa e me sentir segura. No meio do caminho fiz um post com a foto do agressor.
Passado o horror, queria agradecer toda a corrente de solidariedade que se formou ao meu redor, principalmente a União Brasileira de Mulheres, que se colocou à disposição para me dar todo o amparo necessário. Isso é muito bonito e valoroso, gratidão!
Hoje eu sigo para delegacia, vou fazer um boletim de ocorrência. Faço isso porque eu não aguento mais viver numa sociedade que expõe a mulher como lixo dessa forma. Faço isso porque eu perdi uma colega estuprada até a morte nos últimos dias e também porque eu tenho direito de ser o que que eu quiser, inclusive socialista.
Basta!
Solidariedade
Em nome de toda a equipe do Portal Vermelho manifesto inteira solidariedade à nossa companheira Lais Gouveia, uma jovem jornalista que tem registrado diariamente em suas matérias a luta do nosso povo na defesa de seus direitos, da democracia e do Brasil. Lais, como relatou acima, já cobriu muitos casos de agressão à mulheres e a luta contra essa violência desprezível, fruto do machismo e da intolerância que ainda permeiam a sociedade brasileira. Lamentamos que ela agora seja vítima dessa truculência e oferecemos todo apoio para denunciar e buscar a punição do agressor.
Inácio Carvalho
Editor chefe
*Lais Gouveia é jornalista e editora de movimento sociais do Portal Vermelho








