“Cidadão de bem” militante bolsonarista mata taxista em discussão de nove segundos
Febbraio 17, 2019 16:17![]() |
| Foto: Reprodução |
Discurso de Bolsonaro e lei Moro que amplia número de armas e sensação de impunidade estão trazendo consequências graves à segurança pública
Por Redação da Revista Dórum
A narrativa belicista adotada pelo governo de Jair Bolsonaro e encampada pelo ministro da Justiça Sérgio Moro, por meio de seu pacote anticrime, já estão trazendo graves consequências à sociedade brasileira.
Um homem assassinou brutalmente um taxista, após uma discussão de apenas nove segundos, em João Pessoa, Paraíba.
O crime ocorreu em uma rua movimentada no bairro do Bessa, onde se localizam uma escola, um supermercado e uma igreja. Neste sábado (16) foi decretada a prisão preventiva de Gustavo Teixeira Correia.
No vídeo, é possível observar o assassino, de 42 anos, corretor de imóveis, no banco do passageiro de um carro. No táxi, está Paulo Damião dos Santos, também de 42 anos, que está fazendo uma manobra.
O motorista de aplicativo aproxima muito o veículo, e então o taxista pede que ele afaste. A partir daí o corretor desce para falar com o taxista. Depois de nove segundos de discussão, ele levanta a camisa, saca a arma e atira várias vezes.
Depois do crime, demonstrando frieza, ele sai caminhando normalmente em direção à casa dele, que fica a poucos metros do local.
O corretor apagou as luzes da residência, a polícia foi acionada e iniciou-se uma negociação para que o homem se entregasse. Pelo menos 15 viaturas policiais apareceram no local, incluindo o Grupo de Operações Especiais.
A esposa de Gustavo, que seria advogada, tomou a frente das negociações. Após mais de três horas, o homem decidiu se entregar.
De acordo com a Polícia Militar, no momento do crime o suspeito estava bêbado e sendo levado para casa por um motorista de aplicativo. Ele teria curso de tiro.
A Polícia Militar informou, também, que Damião dos Santos foi alvejado por três tiros. Ele foi socorrido e encaminhado ao Hospital de Emergência e Trauma de João Pessoa, mas não resistiu aos ferimentos.
Flagrante
O homem foi autuado em flagrante por homicídio doloso. Segundo o advogado de Gustavo, após a audiência de custódia, o suspeito foi levado para o batalhão porque possui ensino superior completo. Durante a audiência, o pedido da defesa para que o suspeito respondesse em liberdade foi negado.
O taxista Paulo Damião era casado e pai de dois filhos, uma jovem de 20 anos e um menino de 8. Segundo o irmão, Paulo nunca tinha se envolvido em confusões no trânsito, mesmo estando diariamente dirigindo o táxi.
Já o atirador, Gustavo Teixeira, é corretor de imóveis, casado e pai de uma menina de 10 anos, segundo a polícia. Fotos em que ele aparece segurando armas – um revólver e uma arma longa – foram divulgadas pela TV Cabo Branco. A que foi usada no crime ainda não foi encontrada.
As redes sociais de Gustavo Correia foram bloqueadas ainda na noite desta sexta. Na internet, o homem se autoproclamava um “cidadão de bem” e posava com armas de fogo. A única rede de Gustavo onde ainda é possível obter alguma informação a seu respeito é o Instagram, embora todas as imagens já tenham sido removidas.
O perfil do assassino no Instagram diz: “Gestor hospitalar, Técnico em Radiologia, Corretor de Imóveis, Atirador Desportivo, Atleta de Musculação e Apreciador de uma boa cerveja”.
Redes sociais
Na cidade de João Pessoa, o crime causou enorme repercussão nas redes sociais: “Teria esse cidadão de bem agido por escusável medo, surpresa ou violenta emoção?”, questiona uma internauta, se referindo ao pacote anticrime de Sérgio Moro.
“Sujeito rico, mora em uma bela casa no Bessa, bairro nobre. Logo mais vai ficar solto, enquanto o pai de família está preso numa cova. Esse é o Brasil”, desabafou outra pessoa.
“Mais uma vez em briga de trânsito o cidadão armado acha que é dono do mundo. Mais uma vez a arma acabou com a vida de um ser humano”, disse outro.
Extra
Outro exemplo de que a política armamentista do governo atual estimula a violência foi o caso do segurança Davi Ricardo Moreira Amancio, que matou Pedro Henrique Araújo, de apenas 19 anos, no supermercado Extra, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, na quinta-feira (14). A foto do perfil do assassino no Facebook diz: “Sou amapaense e sou Bolsonaro”.
Assistam ao vídeo do momento do crime:
https://youtu.be/WPB9INrJ9Mo
“Marighella”, de Wagner Moura, estreia na Berlinale com protestos
Febbraio 16, 2019 23:59O ator/diretor transmite mensagem política na estreia, que tem presença de Jean Wyllys e atos por Marielle e Lula
O primeiro filme dirigido pelo ator Wagner Moura, Marighella, estreou nesta sexta-feira 15 na mostra principal do Festival de Cinema de Berlim. A obra retrata a história de Carlos Marighella, guerrilheiro baiano assassinado pela ditadura militar em 1969.
A estreia foi marcada por protestos. No tapete vermelho, Wagner Moura entrou com uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco. A execução da ativista e de seu motorista Anderson Gomes completou onze meses e, até hoje, o crime permanece sem respostas. O público acompanhou a entrada da equipe gritando “Marielle presente”.
“Nosso filme não é obviamente somente sobre os que resistiram nas décadas de 1960 e 1970, mas é também sobre os que estão resistindo agora”, afirmou Moura após a exibição do filme, arrancando aplausos da plateia.
Falando em inglês, o diretor disse acreditar que será “extremamente difícil” lançar o filme no Brasil, mencionando a polarização política. Segundo ele, a participação na Berlinale, ao promover internacionalmente a obra, será importante para a estreia do filme em solo brasileiro.
Moura chamou ao palco a equipe do filme e encerrou seu pequeno discurso de cerca de cinco minutos entoando “Marielle presente”.
Em coletiva de imprensa na quarta-feira, o brasileiro já havia lembrado a morte da vereadora. “Marighella foi assassinado em 1969. Um homem negro, revolucionário, de esquerda. Foi assassinado pelo Estado dentro de um carro há 50 anos. E 50 anos depois de Marighella, uma vereadora no Rio de Janeiro, também negra, de esquerda e defensora dos direitos humanos, foi assassinada dentro de um carro provavelmente também por agentes do Estado”, afirmou.
Questionado se o filme é declaração ao novo governo brasileiro, o diretor disse não se tratar de uma resposta ao presidente Jair Bolsonaro, que em diversas ocasiões já saiu em defesa da ditadura militar e manifestou abertamente apoio à tortura.
O ator/diretor transmite mensagem política na estreia, que tem presença de Jean Wyllys e atos por Marielle e Lula
O primeiro filme dirigido pelo ator Wagner Moura, Marighella, estreou nesta sexta-feira 15 na mostra principal do Festival de Cinema de Berlim. A obra retrata a história de Carlos Marighella, guerrilheiro baiano assassinado pela ditadura militar em 1969.
A estreia foi marcada por protestos. No tapete vermelho, Wagner Moura entrou com uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco. A execução da ativista e de seu motorista Anderson Gomes completou onze meses e, até hoje, o crime permanece sem respostas. O público acompanhou a entrada da equipe gritando “Marielle presente”.
“Nosso filme não é obviamente somente sobre os que resistiram nas décadas de 1960 e 1970, mas é também sobre os que estão resistindo agora”, afirmou Moura após a exibição do filme, arrancando aplausos da plateia.
Falando em inglês, o diretor disse acreditar que será “extremamente difícil” lançar o filme no Brasil, mencionando a polarização política. Segundo ele, a participação na Berlinale, ao promover internacionalmente a obra, será importante para a estreia do filme em solo brasileiro.
Moura chamou ao palco a equipe do filme e encerrou seu pequeno discurso de cerca de cinco minutos entoando “Marielle presente”.
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| FÃS SEGURAM UMA FAIXA PERTO DO TAPETE VERMELHO ANTES DA ESTRÉIA DO FILME “MARIGHELLA” EXIBIDO FORA DA COMPETIÇÃO DURANTE O 69º BERLINALE. (FOTO: TOBIAS SCHWARZ / AFP) |
Em coletiva de imprensa na quarta-feira, o brasileiro já havia lembrado a morte da vereadora. “Marighella foi assassinado em 1969. Um homem negro, revolucionário, de esquerda. Foi assassinado pelo Estado dentro de um carro há 50 anos. E 50 anos depois de Marighella, uma vereadora no Rio de Janeiro, também negra, de esquerda e defensora dos direitos humanos, foi assassinada dentro de um carro provavelmente também por agentes do Estado”, afirmou.
Questionado se o filme é declaração ao novo governo brasileiro, o diretor disse não se tratar de uma resposta ao presidente Jair Bolsonaro, que em diversas ocasiões já saiu em defesa da ditadura militar e manifestou abertamente apoio à tortura.
“Esse filme é provavelmente um dos primeiros produtos culturais da arte brasileira que está em contraste com o grupo que está no poder no Brasil”, acrescentou.
Inspirado na biografia Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras), escrita pelo jornalista Mário Magalhães, o filme conta com o músico e ator Seu Jorge no papel principal. O elenco tem ainda outros nomes de peso como Adriana Esteves, Bruno Gagliasso, que interpreta o policial que perseguiu Marighella, e Humberto Carrão.
“Esse filme é forte, é visceral, é potente, mas é movido por amor. Isso ninguém pode esquecer”, afirmou Gagliasso na coletiva.
A narrativa do filme começa logo após o golpe militar de 1964 e mostra os últimos cinco anos da vida do guerrilheiro. Apesar de ter sido selecionado para a mostra principal do festival, Marighella não concorre ao Urso de Ouro.
Primeira aparição pública de Jean Wyllys
A estreia do filme contou ainda com a presença de Jean Wyllys (Psol), na primeira aparição pública do ex-deputado desde que ele anunciou que estava desistindo de seu terceiro mandato no Congresso para deixar o Brasil. Ameaçado de morte, o parlamentar vivia com escolta policial desde o assassinato de Marielle.
À DW Brasil, Wyllys disse ter se emocionado muito com o longa. “Marighella foi um filme que me tocou muito pessoalmente, particularmente pela situação que estou vivendo. O Wagner Moura construiu uma obra prima”, afirmou.
“É um filme necessário para instruir as novas gerações sobre o fato de que nós não devemos ser complacentes e nem tão pouco tolerantes com torturadores. Por isso não me arrependendo de ter cuspido na cara do atual presidente do Brasil no dia em que ele elogiou um torturador em cadeia nacional”, acrescentou.
“A decisão que eu tomei foi muito difícil, deixar para trás minha família, meus amigos, meus livros por conta de ameaças de morte, por conta de uma ditadura nova que não tem as características da ditadura que Marighella enfrentou, mas que tem pontos semelhantes, porém vem de outra maneira, inclusive muitas vezes invisibilizada”, ressaltou.
Wyllys aproveitou para criticar as propostas anticrime apresentadas pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro. “O pacote é nada mais do que a legitimação, por parte do Estado, da tortura e da violência contra qualquer resistência ao pacote neoliberal econômico”, ressaltou.
Protesto à parte
A estreia do filme em Berlim também motivou um protesto organizado por brasileiros que moram na cidade. Cerca de 35 pessoas se reuniram na Potsdamer Platz, que fica próxima ao palácio da Berlinale, para se manifestar contra a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e contra as políticas do governo Bolsonaro que ameaçam os indígenas em detrimento do agronegócio.
O governo transferiu da Fundação Nacional do Índio (Funai) para o Ministério da Agricultura a tarefa de demarcação de terras indígenas. Já a própria Funai, que fazia parte do Ministério da Justiça em administrações anteriores, foi submetida ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.
“O protesto é importante para nós não cairmos na sensação de impotência e também para chamar a atenção para o que está acontecendo no Brasil”, afirmou Marta Rocha, uma das organizadoras do ato.
Os manifestantes também denunciaram os riscos que a guinada à direita no Brasil representam para minorias e movimentos sociais e alertaram contra reformas que podem reduzir o direito de trabalhadores.
O grupo lembrou ainda a morte de Marielle Franco. Da Potsdamer Platz, os manifestantes caminharam em direção ao palácio da Berlinale, para aguardar a chegada do elenco ao tapete vermelho.
“Ele se excedeu na legítima defesa”, diz delegado sobre segurança do Extra
Febbraio 16, 2019 10:10![]() |
| Testemunhas registraram o momento em que o segurança imobilizou o rapaz. REPRODUÇÃO/REDES SOCIAIS |
Morte de jovem de 19 anos por parada respiratória após ser imobilizado por funcionário alimenta debate suscitado por pacote de Sérgio Moro
por JOANA OLIVEIRA no El País Brasil
Um segurança do hipermercado Extra da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, matou um jovem de 19 anos depois de deitar em cima de seu corpo e aplicar uma gravata para imobilizá-lo nesta quinta-feira. Pedro Henrique Gonzaga sofria uma parada respiratória, enquanto testemunhas tentavam convencer Davi Ricardo Moreira, o funcionário do estabelecimento, de soltá-lo: "Está sufocando ele!", "Ele está roxo!", gritavam, conforme mostra um vídeo que circula nas redes sociais, em que é possível vê-lo por ao menos dois minutos na posição, enquanto o rapaz parece desacordado. Em um momento, um cliente do mercado aproxima-se de Moreira, tentando afastá-lo do jovem, ao que o segurança responde: "Não segura, senhor, quem sabe sou eu". O funcionário, que acusava o jovem de ter tentado roubar sua arma, "se excedeu na legítima defesa", na avaliação do delegado Cassiano Conte, responsável pelo caso. Ele prestou depoimento, pagou 10.000 de fiança e foi liberado. Pedro será enterrado neste sábado.
O rapaz chegou a ser socorrido pelo Corpo de Bombeiros e foi levado para um hospital no mesmo bairro em que fica o mercado, mas não resistiu e morreu na unidade hospitalar. Moreira foi preso em flagrante, mas deixou a Delegacia de Homicídios do Rio na madrugada desta sexta-feira. Ele responderá em liberdade por homicídio culposo (quando não há intenção de matar).
O caso ocorre pouco mais de uma semana depois de o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, apresentar um projeto de lei anticrime que amplia a definição e o escopo do que passa a ser considerado legitima defesa no que tange a agentes estatais. Um agente de segurança que matar uma pessoa e alegar que agiu sob “escusável medo, surpresa ou violenta emoção” pode ficar sem nenhuma punição, de acordo com o projeto —trata-se do chamado excludente de ilicitude—. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 14 pessoas são assassinadas após intervenção policial no país.
Especialistas em segurança pública temem que o abrandamento da legislação com o excludente de ilicitude abra portas para que o projeto de lei vá além dos agentes do Estado. "A grande questão é a retórica dessa medida, que legitima o excesso de uso da força. Claro que, como o projeto do ministro Moro ainda está em debate, não é possível relacioná-lo diretamente com este caso, mas é, sim, um exemplo do que pode acontecer com essa desproporcionalidade na legítima defesa", pondera Ilona Szabó, cientista política especialista em segurança pública do Instituto Igarapé.
Para Bruno Langeani, gerente de Sistemas de Justiça e Segurança Pública do Instituto Sou da Paz, o caso tem menos relação com o projeto de Moro e mais com a retórica que o governo de Jair Bolsonaro (PSL) arrasta desde as eleições. "É mais um resultado do discurso que diz que 'bandido bom é bandido morto'".
Versão da defesa
Em declarações ao jornal Extra, o advogado do segurança, André França, contou que, de acordo com a versão de Moreira, o jovem correu em direção ao segurança, parecendo "alterado" e se jogou no chão para simular um ataque convulsivo e, depois, um desmaio. O segurança teria, então, iniciado um procedimento de primeiros socorros: "Nesse momento, ingressa a mãe do rapaz informando que ele era dependente químico, que estava sob o efeito de entorpecentes. Ele desperta dessa simulação, agride o segurança, entra em luta corporal. Ele consegue retirar do coldre a arma do segurança, levanta e começa a ameaçar esse segurança, o outro e mais presentes no estabelecimento. O segundo segurança consegue retirar a arma do rapaz, que entra em luta com o Davi, que consegue fazer a contenção e aguarda a chegada da força policial", relatou o advogado.
A rede de supermercados Extra reiterou, em nota, que a ação do segurança foi uma reação à "tentativa de furto da arma de um deles", mas que afastou os profissionais envolvidos na agressão. "A rede esclarece que repudia veemente qualquer ato de violência em suas lojas", diz a nota. "Após o indivíduo ser contido pelos seguranças, a loja acionou a polícia e o socorro imediatamente. A empresa já abriu um boletim de ocorrência e está contribuindo com as autoridades para o aprofundamento das investigações", finalizou a empresa.
Em depoimento à polícia, familiares da vítima confirmaram que encontravam-se no supermercado para comprar mantimentos para o jovem, que seria internado em uma clínica na cidade de Petrópolis para tratamento da dependência química. De acordo com o delgado Cassiano Conte, o depoimento também indica que, ao ter um surto, Pedro Henrique teria ido em direção ao segurança, com quem entrou em luta corporal. "Eu não tenho elemento concreto que o vigilante queria a morte dele. O que eu tenho é ele tentando conter o jovem, da pior maneira possível. Ele exagerou, foi imprudente na técnica", disse o delegado em declarações recolhidas por O Globo.
Pedro Casaldáiga: 91 anos de Esperança e Profecia
Febbraio 16, 2019 6:27por Leoni Alves Garcia em CEBs do Brasil
Ao completar 91 anos, no dia 16 de fevereiro de 2019, queremos homenagear a Dom Pedro Casaldáliga, pastor, profeta e poeta, que vive e testemunha com riscos de vida tanto a pobreza como a libertação dos mais oprimidos: os indígenas e os camponeses, expulsos pelo latifúndio em terras de São Felix do Araguaia matogrossense.
Que essa carta sirva de inspiração nesses tempos de retirada de direitos.
Que nosso presente seja seguir seus ensinamentos na fidelidade aos pequenos. VIVA A ESPERANÇA! VIVA PEDRO CASALDÁLIGA!!
Carta de Dom Pela de Pedro Casaldáliga ao Papa João Paulo II
Querido Papa João Paulo II, irmão em Jesus Cristo e Pastor da nossa Igreja.
Há muito tempo queria escrever ao senhor esta carta e há muito a venho pensando e colocando-a em oração.
Gostaria que fosse um colóquio fraterno – na sinceridade humana e na liberdade do Espírito – como também um gesto de serviço de um bispo para com o bispo de Roma, que é Pedro, para a minha fé, para minha co-responsabilidade eclesial e para minha colegialidade apostólica.
Há 18 anos estou no Brasil, para onde vim voluntariamente como missionário. Nunca mais regressei ao meu país natal, a Espanha, nem por ocasião da morte da minha mãe. Nunca tirei umas férias nesse tempo todo. Não saí do Brasil em 17 anos. Nestes 18 anos vivi e trabalhei no nordeste do Estado do Mato Grosso como o primeiro sacerdote a morar de maneira permanente nesta região. Já são 15 anos que sou Bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia.
A região da Prelazia está situada na Amazônia Legal brasileira e abrange uma área de 150.000 quilômetros quadrados. Não conta até hoje com um palmo de estrada asfaltada. Só recentemente foi instalado o serviço telefônico. Frequentemente a região fica isolada ou a comunicação torna-se precária por causa das chuvas e inundações que interrompem as estradas. É área de latifúndios, nacionais e multinacionais, com fazendas agropecuárias de centenas de milhares de hectares, com os empregados vivendo frequentemente em regime de violência e semi-escravidão. Venho acompanhando a dramática vida dos indígenas, dos posseiros (lavradores sem título da terra) e dos peões (trabalhadores braçais do latifúndio). Toda a população em geral, dentro da Prelazia, tem sido forçado a viver precariamente, sem serviços adequados de educação, saúde, transporte, moradia, segurança jurídica e sobretudo sem terra garantida para trabalhar.
Sob a ditadura militar, o governo tentou, por cinco vezes, a minha expulsão do país. Quatro vezes foi cercada a Prelazia toda por operações militares de controle e de pressão. A minha vida e a vida de vários sacerdotes, agentes de pastoral da Prelazia têm sido ameaçadas e colocadas publicamente a preço. Em várias ocasiões, esses sacerdotes, agentes de pastoral e eu fomos presos; vários deles também torturados. O padre Francisco Jentel foi preso, maltratado, condenado a 10 anos de prisão, posteriormente expulso do Brasil, vindo a morrer exilado, longe de seu país de missão. O arquivo da Prelazia foi violado e saqueado pelo exército e pela polícia. O boletim da Prelazia foi editado de maneira falsificada pelos órgãos de repressão do regime e assim divulgado pela grande imprensa, para servir de peça de acusação contra Prelazia. Ainda neste momento três agentes pastoral acharam-se submetidos a processos judiciais, sob acusações falsas. Eu pessoalmente tive de presenciar mortes violentas, como o padre jesuíta João Bosco Penido Burnier, assassinado a meu lado, pela polícia, quando os dois nos apresentamos diante da delegacia-prisão de Ribeirão Bonito para reclamar oficialmente contra as torturas a que estavam sendo submetidas duas mulheres, lavradoras, mães de família e injustamente presas.
Ao longo desses anos todos multiplicaram-se as incompreensões e calúnias dos grandes proprietários de terras, nenhum dos quais vive na região, e de outros poderosos do país e do exterior. Também dentro da própria Igreja surgiram algumas incompreensões de irmãos que desconhecem a realidade do povo e da pastoral nestas regiões afastadas e violentas, onde o povo, com frequência, tem por ele apenas a voz daquela Igreja que tenta se colocar a seu serviço.
Além desses sofrimentos vividos no âmbito da Prelazia, como responsável nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e como membro participante do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), tocou-me acompanhar de perto as tribulações e até a morte de tantos indígenas, lavradores, agentes de pastoral e de pessoas comprometidas com a causa desses irmãos, proibidos, pela ganância do capital, até de sobreviverem. Entre esses encontra-se o índio Marçal, guarani, que saudou pessoalmente o senhor, em Manaus, em nome dos povos indígenas do Brasil.
O Deus vivo, o Pai de Jesus, é quem vai nos julgar. Deixe-me, entretanto, abrir meu coração para o seu coração de irmão e de pastor. Viver nessas circunstâncias extremas, ser poeta e escrever, manter contatos com pessoas e ambientes de comunicação ou de fronteira (pela idade, pela ideologia, pela alteridade cultural, pela situação social ou pelos serviços de emergência que prestam) pode levar a gestos e posturas menos comuns e por vezes incômodos para a sociedade estabelecida.
Como irmão e como papa que o senhor é para mim, peço-lhe que aceite a intenção sincera e a vontade apaixonadamente cristã e eclesial, tanto desta carta como das minhas atitudes.
O Pai concedeu-me a graça de não deixar nunca a oração, ao longo desta vida mais ou menos agitada. Preservou-me de tentações maiores na fé e na vida consagrada e possibilitou-me contar sempre com a força dos irmãos, numa comunhão eclesial, rica de encontros, estudo e ajudas. Certamente por isso creio que não me afastei do caminho de Jesus e espero, com isso, seguir por esse caminho, que é a verdade e a vida, até o fim.
Lamento incomodá-lo com a leitura desta longa carta, quando já tantos serviços e preocupações pesam sobre o senhor.
Duas cartas do Cardeal Gantin, Prefeito da Congregação dos Bispos, e um comunicado da Nunciatura que recentemente recebi levaram-me finalmente a escrever-lhe esta carta. Essas três comunicações urgiam minha visita ad limina, interpelavam aspectos da pastoral da Prelazia e censuraram minha ida à América Central.
Sinto-me um pouco pequeno e como que distante nesta Amazônia brasileira tão diferente e nesta América Latina tão convulsionada e frequentemente incompreendida.
Achei necessário fazer-me preceder por esta carta. Pareceu-me que só o contato sossegadamente pessoal entre nós dois, através de um escrito pensado e claro, me daria a possibilidade de aproximar-me do senhor.
A outra maneira maior de nos encontrarmos já está garantida: rezo pelo senhor, todos os dias, querido irmão João Paulo.
Não tome como impertinência a alusão que farei a temas, situações e práticas secularmente controvertidas na Igreja ou até contestadas, sobretudo hoje, quando o espírito crítico e o pluralismo perpassam também fortemente a vida eclesial. Abordar novamente esses assuntos incômodos, falando com o Papa, é para mim expressar a co-responsabilidade em relação à voz de milhões de irmãos católicos – de muitos bispos também – e de irmãos não-católicos, evangélicos, de outras religiões, humanos. Como bispo da Igreja Católica, posso e devo dar à nossa Igreja essa contribuição. Pensar em voz alta a minha fé e exercer, com liberdade da família, o múnus da colegialidade co-responsável. Calar, deixar correr, com certo fatalismo, a força de estruturas seculares seria bem mais cômodo. Não penso, porém, que fosse mais cristão, nem sequer mais humano.
Assim como falando, exigindo reformas, tomando posições novas, pode-se causar “escândalo” a irmãos que vivem em situações mais tranquilas ou menos críticas, assim também podemos causar “escândalo” em muitos irmãos, situados em outros contextos sociais ou culturais, mais aberto à crítica e a mudança da Igreja – sempre uma e “semper renovanda” – quando calamos ou aceitamos a rotina ou tomamos medidas unívocas, indiscriminadamente.
Sem “se conformar com este mundo”, a Igreja de Jesus, para ser fiel ao Evangelho do Reino, deve estar atento “aos sinais dos tempos” e dos lugares e anunciar a Palavra, num tom cultural e histórico e com um testemunho de vida e de prática tal que os homens e mulheres de cada tempo e lugar possam entender essa Palavra e se vejam estimulados a aceitá-la.
No que se refere ao campo social concretamente, não podemos dizer, com muita verdade, que já fizemos a opção pelos pobres. Em primeiro lugar, porque não compartilhamos a pobreza real por eles experimentada, em nossa vida e em nossas instituições, e, em segundo lugar, porque não agimos, em face da “riqueza da iniquidade”, com aquela liberdade e firmeza empregadas pelo Senhor. A opção pelos pobres, que não excluirá a pessoa dos ricos – porquanto a salvação é oferecida a todos e a todos se deve o ministério da Igreja – exclui, sim, o modo de vida dos ricos, “insulto à miséria dos pobres”, e seu sistema de acumulação e de privilégio, que necessariamente espolia e marginaliza a imensa maioria da família humana, povos e continentes inteiros.
Nã fiz a visita ad limina, mesmo depois de receber, como outros, um convite da Congregação dos Bispos, relembrando essa praxe. Eu queria, e quero, ajudar a Sé Apostólica a rever a maneira dessa visita. Ouço da parte de muitos bispos que a fazem uma crítica, pois, embora reconhecendo que ela propicia um contato com os dicastérios romanos e um encontro cordial com o Papa, ela se mostra incapaz de gerar um verdadeiro intercâmbio de colegialidade apostólica dos pastores das Igrejas particulares com o pastor da Igreja universal. Faz-se uma grande despesa, criam-se contatos, cumpre-se uma tradição. Cumpre-se, porém, a tradição de “videre Petrum” e de ajudar Pedro a ver toda a Igreja? Hoje, não teria a Igreja outros modos mais eficazes de intercambiar, de criar contatos, de avaliar, de exprimir a comunhão dos pastores e de suas igrejas com a igreja universal e mais precisamente o bispo de Roma?
Nunca pretenderia supor no papa um conhecimento detalhado das Igrejas particulares ou pedir a ele soluções concretas para a sua pastoral. Para isso estamos os respectivos Pastores, Ministros e Conselhos Pastorais de cada Igreja. Para isso estão também as Conferências Episcopais, que, no meu entender e no entender de muitos, não estão sendo devidamente valorizadas e são até preteridas ou injustamente marcadas por certas atitudes de algumas instâncias da Cúria Romana. Se as Conferências Episcopais não são “teológicas” ou “apostólicas” como tais poderiam não existir. Sem elas caminhou a Igreja. Tampouco são, em si, “apostólicas” ou “teológicas”, as cúrias, nem mesmo a Cúria Romana: Pedro presidiu e regeu a Igreja, de modo diferente, nas diversas épocas.
O Papa tem necessidade de um corpo de auxiliares, embora sempre mais simples e participativo, como dele também necessitam os bispos todos da Igreja. Entretanto, irmão João Paulo, para muitos de nós, certas estruturas da Cúria não respondem ao testemunho de simplicidade evangélica e da comunhão fraterna que o Senhor e o mundo de nós reclamam; nem traduzem em suas atitudes, às vezes centralizadoras e impositivas, uma catolicidade verdadeiramente universal, nem sempre respeitam as exigências de uma co-responsabilidade adulta; nem mesmo, por vezes, os direitos básicos da pessoa humana ou dos diferentes povos. Nem faltam, com frequência, em setores da Cúria Romana, preconceitos, atenção unilateral para as informações e até posturas, mais ou menos inconscientes, de etnocentrismo cultural europeu em face da América Latina, da África e da Ásia.
Ninguém pode negar, com isenção de ânimo, que a mulher continua a ser fortemente marginalizada na Igreja: na legislação canônica, na liturgia, nos ministérios, na estrutura eclesiástica. Parar uma fé e uma comunidade daquela Boa Nova, que já não discrimina entre “judeu e grego, livre e escravo, homem e mulher”, essa discriminação da mulher na Igreja nunca poderá ser justificada. Tradições culturais masculinizantes, que não podem anular a novidade do Evangelho, explicarão talvez o passado; não podem justificar o presente, nem menos ainda o futuro imediato.
Outro ponto delicado em si mesmo e muito sensível para o seu coração, o irmão João Paulo, é o celibato. Eu, pessoalmente, nunca duvidei do seu valor evangélico e de sua necessidade para a plenitude da vida eclesial, como um carisma de serviço ao Reino e como testemunho da gloriosa condição futura. Penso, entretanto, que não estamos sendo compreensivos nem justos com esses milhares de sacerdotes, muitos deles em uma situação dramática, que aceitaram o celibato compulsoriamente como exigência, atualmente vinculante para o ministério sacerdotal na Igreja latina. Posteriormente, por causa dessa exigência não vitalmente assumida, tiveram que deixar o ministério, não puderam regularizar sua vida, nem dentro da Igreja, nem, por vezes, diante da sociedade.
O Colégio Cardinalício é privilegiada, às vezes, com poderes e funções que dificilmente se coadunam com os direitos anteriores e com as funções mais Eclesiasticamente conaturais do Colégio apostólico dos Bispos como tal.
Das Nunciaturas tenho eu, pessoalmente, uma triste experiência. O senhor conhecer melhor do que eu a persistente reclamação de Conferências Episcopais, de bispos particulares, de presbitérios, de grandes setores da Igreja, em face de uma instituição tão marcadamente diplomática na sociedade e, com frequência, paralela em suas atuações junto dos episcopados.
João Paulo, irmão, permita-me ainda uma palavra de crítica fraterna ao próprio Papa. Para mais tradicionais que sejam os títulos “Santíssimo Padre”, “Sua Santidade” … – como outros títulos eclesiásticos de “Eminentíssimo”, “Excelentíssimo” -, resultam evidentemente pouco evangélicos e até extravagantes, humanamente falando. “Não se façam chamar de pais ou mestre”, diz o Senhor. Como seria mais evangélico – e também mais acessível à sensibilidade atual – simplificar a indumentária, gestos, distâncias, dentro da nossa Igreja.
Penso ainda que seria muito apostólico que o senhor procurasse uma avaliação, suficientemente livre e participada, de suas viagens, tão generosas, e até heroicas em muitos aspectos, porém tão contestadas e, no meu entender, nem sempre sem motivos. Não são elas conflitivas para o ecumenismo – testamento de Jesus, pedindo ao Pai que sempre fôssemos um -, para a liberdade religiosa na vida pública pluralista? Não exigem essas viagens grandes despesas das Igrejas e dos Estados, revestindo-se de uma certa prepotência e de privilégios cívico-políticos com relação à Igreja Católica, na pessoa do Papa, e se tornam irritantes para os outros?
Por que não reexaminar, à luz da fé, a favor de Ecumenismo, para dar testemunho ao mundo, a condição de Estado com que o Vaticano se apresenta, investindo a pessoa do Papa de uma dimensão explicitamente política, que prejudica a liberdade e a transparência do seu testemunho como pastor universal da Igreja?
Por que não se decidir, com liberdade evangélica e com o realismo também, por uma profunda renovação da Cúria Romana?
Sei do sofrimento do senhor em sua viagem à Nicarágua. Mesmo assim, sinto-me no dever de confiar-lhe a impressão – que outros muitos compartilham – de que seus assessores e a atitude do senhor não contribuíram para que essa viagem, extremamente crítica e necessária por outra parte, fosse mais feliz e sobretudo mais evangelizadora. Ficou uma ferida no coração de muitos nicaraguenses e de muitos latino-americanos, como ficou no coração do senhor.
No ano passado, estive na Nicarágua. Foi minha primeira viagem fora do Brasil depois de dezessete anos de permanência neste país. Pela amizade que eu tenho há tempos com muitos nicaraguenses, por contatos pessoais ou carta, senti que deveria fazer-me presente, como pessoa humana e como bispo da Igreja, numa hora de agressão político-militar gravíssima e de profundo sofrimento interno.
Não pretendi substituir o episcopado local, nem subestimá-lo. Achei, entretanto, que poderia e até deveria ajudar aquele povo e aquela Igreja. Assim o escrevi aos senhores bispos da Nicarágua, tão logo ali cheguei. Tentei conversar pessoalmente com alguns deles, mas não fui recebido. A hierarquia nicaraguense está abertamente de um lado; de outro, há milhares de cristãos, aos quais a Igreja também é devida.
Penso sinceramente que a nossa Igreja – eu me sinto Igreja da Nicarágua também, como cristão e como bispo da Igreja – não está dando oficialmente, naquele sofrimento país e com repercussões negativas para toda a América Central, o Caribe e a América Latina, o testemunho que deveria dar: condenando a agressão, defendendo a autodeterminação daqueles povos, consolando as mães dos caídos e celebrando, na esperança, a morte violenta de tantos irmãos, católicos em sua maioria.
Só com o socialismo ou com o sandinismo, não pode a Igreja dialogar criticamente, sim, como criticamente deve dialogar com a realidade humana? Poderá a Igreja deixar de dialogar com a história? Dialogou com o Império Romano, com o feudalismo e vem dialogando à vontade com a burguesia e com o capitalismo, muitas vezes sem críticas, como a avaliação histórica posterior veio a reconhecer. Não dialoga com a administração Reagan? O império norte-americano merece mais consideração da Igreja do que o processo doloroso com que a pequena Nicarágua pretende ser ela, por fim, arriscando e até cometendo erros, mas sendo ela?
O perigo do comunismo não justificará nossa omissão ou nossa conivência com o capitalismo. Essa omissão ou conivência poderá “justificar” dramaticamente, um dia, a revolta, a indiferença religiosa e até mesmo o ateísmo de muitos, sobretudo entre os militantes e nas novas gerações. A credibilidade da Igreja – e do Evangelho e do próprio Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo – depende, em grande parte, do nosso ministério crítico, sim, porém comprometido com a causa dos pobres e com os processos da libertação dos povos secularmente dominados pelos sucessivos impérios e oligarquias.
O senhor, como polonês, está em uma condições muito pessoais de entender esses processos. Sua Polónia natal, tão sofrida e forte, irmão João Paulo, tantas vezes invadida e ocupada, privada de sua autonomia e ameaçada em sua fé por impérios vizinhos (Prússia, Alemanha nazista, Rússia, Império Austro-Húngaro) é irmã gêmea da América Central e do Caribe, tantas vezes ocupados pelo Império do Norte. Os Estados Unidos invadiram a Nicarágua em 1898 e depois voltaram a ocupá-la com seus Marines 1909-1933, deixando em seguida uma ditadura que durou até 1979. O Haiti estave sob ocupação de 1915 a 1934. Porto Rico continua ocupado hoje, desde 1902. Cuba sofreu várias vezes invasões e ocupações, assim como os outros países da região, especialmente o Panamá, Honduras e a República Dominicana. Mais recentemente, Granada sofreu o mesmo destino. Os mesmo Estados Unidos exportam para esses países suas seitas que dividem internamente o povo e ameaçam a fé católica e a fé de outras igrejas evangélicas aí estabelecidas.
Sei também de suas preocupações apostólicas a respeito da nossa Teologia da Libertação, das Comunidades Cristãs no Meio Popular, dos nossos teólogos, dos encontros, das publicações e de outras manifestações de vitalidade da Igreja na América Latina, de outras igrejas do Terceiro Mundo e de alguns setores da Igreja na Europa e na América do Norte. Seria ignorar sua missão de Pastor universal pretender que o senhor não se interessasse e até se preocupasse com todo essa movimentação eclesial, sobretudo quando a América Latina, concretamente, representa quase a metade dos fiéis da Igreja Católica.
Outra vez, contudo, peço-lhe desculpas para expressar uma palavra sentida, com o modo como vêm sendo tratados pela Cúria Romana, a nossa Teologia da Libertação e o seus teólogos, certas instituições eclesiásticas – como a própria CNBB, em determinadas ocasiões -, iniciativas das nossas Igrejas e algumas sofridas comunidades deste Continente, assim como seus animadores.
Diante de Deus, posso dar-lhe o testemunho dos agentes de pastoral e das comunidades com as quais estabeleci contato na Nicarágua. Nunca pretenderam ser uma Igreja “paralela”. Não desconhecem a Hierarquia em suas legítimas funções e têm consciência de serem Igreja, manifestando sincera vontade de nela permanecerem. Por que não pensar que algumas causas desse tipo de conflitos pastoral possam provir da hierarquia também? Nós, com frequência, membros da hierarquia, não reconhecemos, de fato, os leigos como adultos e co-responsáveis na Igreja, ou queremos impor ideologias e maneiras pessoais, exigindo uniformidade ou fechando-nos no centralismo.
Acabo de receber a última carta do Cardeal Gantin, prefeito da Congregação para os Bispos. Nela, o senhor Cardeal, entre outros admoestações, recorda-me agora a visita apostólica que recebi e recebeu a Prelazia de São Félix do Araguaia, em 1977. Quero apenas ao senhor que essa visita foi provocada por denúncias caluniosas de um irmão do episcopado; que o visitador apostólico passou apenas quatro dias em São Felix, não visitando nenhuma comunidade, só aceitando conversar com pouquíssimas pessoas e ver o Arquivo da Prelazia, depois de termos insistido que ele fizesse. Nem ele, nem a Nunciatura, nem a Santa Sé, mesmo tendo eu solicitado, jamais me comunicaram as conclusões dessa visita.
Quero, finalmente, reafirmar-lhe, querido irmão em Cristo e Papa, a certeza da minha comunhão e a vontade prosseguir com a Igreja de Jesus, no serviço do Reino. Deixo a seu critério de Pedro da nossa Igreja a tomar a decisão que julgar oportuna sobre mim, bispo da Igreja também. Não quero criar problemas desnecessários. Quero ajudar, responsável e colegialmente, a levar adiante a missão evangelizadora da Igreja, particularmente aqui no Brasil e na América Latina. Porque acredito na perene atualidade do Evangelho e na presença sempre libertadora do Senhor Ressuscitado, quero acreditar também na juventude de sua Igreja.
Se senhor considera oportuno, pode me fazer indicar uma data apropriada para que eu vá visitá-lo pessoalmente.
Confio em sua oração de irmão e de pontífice. Deixo nas mãos de Maria, Mãe de Jesus, o desafio desta hora. Reitero ao senhor minha comunhão de irmão em Jesus Cristo e, com o senhor, minha condição de servidor de sua Igreja de Jesus.
Com a sua bênção apostólica,
Pedro Casaldáliga ,
Bispo de São Félix do Araguaia, MT-Brasil
22 de fevereiro de 1986
Festa da Cátedra de Pedro




