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3 de Abril de 2011, 21:00 , por Desconhecido - | No one following this article yet.
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A revolução das mulheres em 1917

28 de Outubro de 2017, 14:06, por Blog do Arretadinho

The diplomat Alexandra Kollontai. A photograph from the family archive, 1908. Reproduction.R. Popovkin/RIA Novosti

Elas cravaram sua marca nos eventos que originaram e sucederam a Revolução de 1917.
1. Ekaterina Breshkovsky – ‘Bábuchka da Revolução Russa’

Revolucionária russa Ekaterina Breshkovsky (Foto: Autor desconhecido/Publicada por Little, Brown and Co, Boston, 1918)

Quando a Revolução de Fevereiro balançou a Rússia, em 1917, Ekaterina Breshkovsky já tinha 73 anos e havia sido exilada na Sibéria por seu papel na Revolução Russa de 1905.

Sua idade não era nenhuma barreira, porém – tanto que conseguiu desempenhar um papel influente nos eventos que levaram à Revolução de 1917. Conhecida como a “Bábuchka (Vovó) da Revolução Russa”, Breshkovsky havia conquistado uma legião de seguidores fiéis ao longo das décadas de luta contra o regime tsarista.

O ativismo político de Breshkovsky começou na década de 1870, quando, junto com outros jovens, tentou atrair apoio público para a causa revolucionária. Pouco depois, foi presa e condenada a trabalho forçado em uma katorga (sistema prisional de então).

Depois de passar vários anos árduos ​​em uma prisão, Breshkovsky deixou a Rússia (seguindo para Suíça e EUA) antes de retornar ao país durante a Revolução de 1905. Na época, participou da criação do Partido Socialista Revolucionário (PSR) e, apesar da postura piedosa, encorajava os combatentes do partido a usar métodos terroristas.

Breshkovsky foi novamente detida e enviada à Sibéria – e ali permaneceu até os acontecimentos de 1917, quando os prisioneiros políticos foram libertados. Em seu retorno a Petrogrado (atual São Petersburgo), foi alocada em uma carruagem especial e, a cada parada, era recebida por orquestras e saudações dos regimentos militares.

“A Rússia liberta aguarda a Bábuchka para mostrar seu respeito e compartilhar com ela a grande felicidade da tão aguardada liberdade”, escreveu o jornal liberal “Retch”.

Quando ela, enfim, chegou à capital, a recepção à sua espera estava além de qualquer coisa que pudesse ter imaginado. Os ministros compareceram à estação ferroviária para conhecê-la, e depois foi levada para o Palácio de Inverno, onde recebeu abrigo.

Breshkovsky apoiou o governo provisório e odiava os bolcheviques (ela chegou a pedir às pessoas que os matassem como “cachorros selvagens”). No entanto, a Vovó ficou tão chateada com a revolução de outubro que acabou emigrando para os EUA, onde tentou, em vão, arrecadar fundos para a luta contra os bolcheviques. Abandonou a atividade política nos anos 20 e morreu na Tchecoslováquia, em 1934, aos 90 anos.

2. Maria Spiridonova – ‘Santíssima Virgem do PSR’

Maria Spiridonova (centro, de óculos), em 1905 (Foto: Getty Images)

Maria Spiridonova é lembrada como uma das figuras mais proeminentes da Revolução Russa. Ela pertencia ao PSR e passou a maior parte de sua vida em exílio e presa – tanto sob regime tsarista como soviético. Devido à força de vontade inflexível, ela era conhecida como a ‘Santíssima Virgem do PSR’.

Dez anos antes de 1917, ela já era bem conhecida como ativista revolucionária e, em 1906, matou um oficial provincial que havia suprimido uma agitação camponesa. Apesar de ser uma terrorista, muitos russos simpatizavam com ela, e depois de ela ser presa, espancada e possivelmente estuprada, o público liberou sua raiva. No início, ela foi condenada à morte, mas o tribunal suavizou sentença; em vez disso, enviou Spiridonova à prisão siberiana por dez anos.

O oficial cossaco que a interrogou foi, mais tarde, morto por revolucionários.

Spiridonova só foi libertada após a Revolução de Fevereiro. Ao retornar a Petrogrado, tornou-se figura ativa da política e uma das líderes dos Socialistas Revolucionários de Esquerda (SRs de Esquerda) após a divisão PSR.

Ela não aprovava os métodos bolcheviques, mas compreendia que as pessoas os seguiam. Por isso, apoiou a aliança entre as duas partes após os acontecimentos de outubro, quando os bolcheviques chegaram ao poder.

No entanto, essa aliança foi de curta duração. Os SRs de Esquerda não aceitaram as condições do Tratado de Brest-Litovski com a Alemanha negociada pelos bolcheviques. O partido tentou dar um golpe em julho de 1918, e Spiridonova estava intimamente envolvida – quando o plano falhou, ela foi presa de novo.

Continuou a ser perseguida pelo regime soviético e foi detida e exilada várias vezes. Em 1937, acabou trancafiada pela última vez, e executada em setembro de 1941.

3. Aleksandra Kollontai – ‘Valquíria da Revolução’

Aleksandra Kollontai, ativista pelos direitos das mulheres (Foto: RIA Nôvosti)

Aleksandra Kollontai também era de descendência nobre, mas, ao contrário de Breshkovsky e Spiridonova, não pertenceu ao PSR – era membro dos bolcheviques. Ela é mais famosa por suas visões feministas e como defensora do amor livre.

Kollontai foi a primeira ministra da história. No gabinete formado pelos bolcheviques após a queda do governo provisório em outubro de 1917, recebeu o cargo de Comissária do Povo para Assuntos do Bem-Estar Social. Embora não tenha ocupado a posição por muito tempo, conseguiu melhorar os direitos das mulheres no país. Por sua infinita energia e paixão, ela foi apelidada de “Valquíria da Revolução”.

Durante a Guerra Civil, ficou encarregada do trabalho político e de propaganda nos regimentos do Exército Vermelho que lutavam contra os brancos na Ucrânia. Atuava junto com o marido, o líder militar soviético Pável Dibenko.

Acredita-se, inclusive, que o casamento eles tenha sido o primeiro a não ser abençoado pela Igreja, mas apenas registrado junto às autoridades civis na Rússia.

Depois de ser marginalizada da liderança do partido no início dos anos 1920, seguiu carreira diplomática como embaixadora no México e na Escandinávia.

Kollontai acreditava veementemente que as mulheres deveriam ter direitos iguais aos homens e queria que os valores tradicionais da família fossem descartados, com mais ênfase na sociedade. Entretanto, seus conceitos eram muito radicais para a época, apesar de aquela década ter testemunhado grandes experiências sociais no país.

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A Revolução de Outubro e os direitos das mulheres

28 de Outubro de 2017, 12:24, por Blog do Arretadinho


A Revolução de Outubro e os direitos das mulheres

por MARGARIDA BOTELHO

«Foi a União Soviética o primeiro país do mundo a pôr em prática ou a desenvolver como nenhum outro direitos sociais fundamentais, como (…) a igualdade de direitos de homens e mulheres na família, na vida e no trabalho, os direitos e protecção da maternidade (…)»1. A Revolução de Outubro deu um impulso extraordinário à consagração dos direitos das mulheres, alcançando em poucos dias direitos que no nosso país levámos décadas a conquistar, e servindo de exemplo e estímulo à luta das mulheres de todo o mundo. O processo de construção do socialismo na URSS manteve sempre no centro das suas preocupações a emancipação feminina. O desaparecimento da URSS levou a recuos brutais nas condições de vida das mulheres, não só nos antigos territórios soviéticos, como no plano internacional.

Estes factos não são, no entanto conhecidos da generalidade das mulheres. Faça-se uma experiência simples: escrevendo no Google «direitos das mulheres«, o primeiro texto que aparece, da wikipédia, omite qualquer referência à URSS. Nem factos absolutamente inquestionáveis, como ter sido a primeira sociedade do mundo em que a todos – homens ou mulheres, analfabetos ou formados, de qualquer nacionalidade ou condição social – foram consagrados os mesmos direitos, são referidos.

É partindo dessa realidade que este artigo pretende contribuir com elementos e ferramentas para a batalha ideológica que travamos em torno do centenário da Revolução de Outubro.

O contexto

A realidade russa em Outubro de 1917 era muito complexa. Por um lado, o atraso secular do país, o pesadelo da guerra, as enormes assimetrias nos planos económico, social e cultural das diversas repúblicas que viriam a constituir a URSS – nalgumas regiões, existiam relações semi-feudais, e o papel da mulher era de subalternidade, em particular nas regiões da Ásia central, onde as mulheres faziam parte do «património» do marido.

Por outro lado, «os direitos da mulher e das crianças integravam desde o início o programa dos revolucionários russos. (…) No projecto de Programa do Partido Operário Social-democrata da Rússia, redigido por Lénine, constavam já uma série de reivindicações, tais como, por exemplo, o sufrágio universal, a igualdade de direitos laborais, o ensino universal e gratuito. Em Março de 1917, após a Revolução de Fevereiro, realizou-se em Petrogrado, o I Congresso das Mulheres Trabalhadoras, onde foi aprovado um programa com os direitos das mulheres trabalhadoras e medidas relativas à protecção da maternidade e da infância que serviram de base ao Sistema Soviético nessas áreas de intervenção».2

As primeiras decisões

A existência desse programa ajuda a compreender como foi possível avançar tanto e tão rapidamente. «O primeiro Estado socialista do mundo, logo nos primeiros tempos da existência, aboliu todas as leis que discriminavam a mulher no seio da família e da sociedade. Em 1919, decorridos apenas dois anos, Lénine chamava a atenção para que nesse curto espaço de tempo “o poder soviético, num dos países mais atrasados da Europa, fez mais pela libertação da mulher e pela igualdade com o sexo “forte” do que fizeram durante 130 anos todas as repúblicas progressistas, cultas e “democráticas” do mundo, somadas em conjunto.»3

Logo no dia 8 de Novembro de 1917, o decreto da Paz e da Terra determinava que o uso da terra era concedido a todos os cidadãos, sem distinção de sexos.

A 11 de Novembro, foi aprovado o decreto que determinava as 8 horas de trabalho diárias, com pausas para descanso e refeições, fixava os dias de descanso semanal, o direito a férias pagas e proibia o trabalho antes dos 14 anos. No mesmo dia, aprovou-se igualmente o decreto da Segurança Social, que previa protecção na doença, na velhice, no parto, na viuvez, etc. Dois dias depois, a primeira mulher ministra do mundo tomava posse como Comissária do Povo para a Segurança Social. Chamava-se Alexandra Kollontai e tempos depois viria a ser também a primeira mulher embaixadora do mundo (em 1922, na Suécia).

A 31 de Dezembro, foi aprovado o decreto que introduziu o casamento civil – que passou a ser o único reconhecido na lei –, legalizou o divórcio e acabou com a distinção entre filhos legítimos e ilegítimos.

Em Dezembro de 1918, foi publicado o Código de Trabalho. Abolia diversas discriminações (fim das restrições a profissões com base no sexo, proibição do despedimento de grávidas, salário igual para trabalho igual, entre outras), e previa condições de apoio à família que pretendiam estimular que as mulheres trabalhassem e interviessem socialmente (licença de parto, dispensa para amamentar, etc).

As mulheres trabalhadoras

Com a Revolução é promovida a ideia de que a entrada das mulheres no mercado de trabalho é um elemento determinante na sua emancipação. O número de mulheres trabalhadoras foi aumentando ao longo dos anos na URSS. Em 1975, as mulheres eram 51% dos trabalhadores, três vezes e meia mais do que em 1940.4

A especificidade do trabalho das mulheres foi protegida, prevendo-se uma idade de reforma antecipada face à dos homens (55 anos para as mulheres, 60 para os homens), havendo reformas mais cedo em certos sectores (50 para as mulheres da indústria, 45 para radiólogas, hospedeiras e certas profissões do teatro).5

Antes da Revolução de Outubro, a taxa de analfabetismo das mulheres era de 83%. O salto foi de gigante: em 1986, as mulheres eram 59% dos especialistas com educação superior e secundária especializada, cerca de 50% dos engenheiros industriais e do sector agrícola, 30% dos juízes, três em cada quatro médicos.6

Maternidade e apoio à infância

Quatro meses de licença de gravidez e parto, com salário integral, com a possibilidade de ficar até um ano em casa com o bebé com o posto de trabalho salvaguardado, trabalhos mais leves no final da gravidez, foram direitos conquistados logo em 1918.

O bem-estar das mulheres merecia constante investigação. A contracepção era gratuita. O chamado «parto sem dor» – o método psico-profiláctico – nasceu na URSS, tendo sido apresentado no meio académico soviético em 1949 por uma equipa de obstetras e psiquiatras. Foi divulgado no resto do mundo a partir de 1952, depois de o famoso francês Lamaze ter feito um estágio na URSS e regressado a Paris.

A amamentação era cuidadosamente protegida. O Código do Trabalho de 1918 previa que, durante o primeiro ano de vida da criança, e enquanto durasse a amamentação, as mães tinham direito a 30 minutos por cada três horas para amamentar o bebé.

Pelo menos desde os anos 50 que existiam bancos de leite materno em todo o país, que asseguravam aos filhos das mulheres que por qualquer motivo não podiam amamentar o alimento mais completo que os bebés podem ter. O carácter inovador desta medida fica bem expresso quando lembramos que o primeiro banco de leite humano em Portugal nasceu com carácter experimental em 2009, e que ainda hoje tem uma abrangência muito reduzida.

O Estado soviético desenvolveu uma rede de infra-estruturas de apoio e protecção à infância, com destaque para as creches e jardins de infância – com horários adaptados aos trabalhos por turnos, de carácter sazonal a acompanhar os períodos das colheitas, existentes em universidades e na maior parte das empresas –, mas que incluíam também colónias infantis, casas de campo estivais, estâncias de turismo infantil, casas de pioneiros, etc.

«Uma experiência brilhante: a legalização do aborto na URSS»7

Em 1920, confrontado com as consequências desastrosas do aborto clandestino (metade das mulheres sofriam infecções posteriores e 4% morriam, apesar de estar consagrada desde 1918 uma licença de três semanas com salário integral em caso de aborto, espontâneo ou provocado), o Governo soviético legaliza o aborto em meio hospitalar, publicando um decreto para «proteger a saúde das mulheres e considerando que o método da repressão neste campo não atinge este objectivo». Os resultados foram positivos, não se verificando nenhuma morte nem nenhuma infecção na sequência dos abortos praticados nos serviços públicos, a partir de 1925, tendo diminuído a mortalidade infantil e aumentado a natalidade.

Em 1937, esta legislação viria a ser radicalmente alterada. «O CCE do Conselho dos Comissários do Povo da URSS, depois de uma ampla discussão popular do projecto de lei durante quase um ano, decidiu proibir a prática do aborto com excepção do aborto terapêutico, estabelecendo uma “crítica social” à mulher que o faça infringindo a lei e penas de prisão para os que o executem. Esta lei parte do pressuposto de que a mudança de condições económicas e sociais se pode considerar como a cúpula de toda a longa e tenaz luta levada a cabo contra o aborto desde 1920.»

Participação política

Em 1974, 31% dos membros do Soviete Supremo eram mulheres, sendo 36% nos Sovietes Supremos das Repúblicas Federadas e Autonómas e 47% nos Sovietes locais.8

A provar que existe uma relação íntima entre ideologia e participação, e que os direitos nunca estão assegurados para sempre, registe-se o facto de que nas primeiras eleições chamadas «livres» após a derrota do socialismo, nos países da ex-URSS a presença de mulheres eleitas nos parlamentos nacionais passou a situar-se entre os 3,5% e os 20%.9

As tarefas domésticas

«Não satisfeito com a igualdade formal das mulheres, o Partido luta para libertar as mulheres de toda a responsabilidade da obsoleta economia doméstica, substituindo-a por casas comunais, cantinas públicas, lavandarias públicas, creches, etc.» – lia-se no Programa Político do Partido Comunista Russo (Bolchevique), aprovado no seu 8.º Congresso, em 191810.

Não dispondo de dados sistematizados sobre o grau de concretização destes objectivos, sabe-se que existiam diversos equipamentos a preços muito baixos como cantinas, lavandarias, ateliers de arranjos, etc.

Apesar de avanços que até vistos do século XXI parecem ficção científica, em 1975, numa edição especial da revista «Vida Soviética dedicada ao Ano Internacional da Mulher, era apresentado um estudo sociológico que referia que «cerca de 60% das trabalhadoras de diversas cidades do país responderam que fazem todos os trabalhos domésticos sem a ajuda dos maridos.»11

Na Conferência do PCP sobre «A Emancipação da Mulher no Portugal de Abril», o texto final considerava a este propósito que «não desaparecem de súbito os preconceitos sobre a mulher, nem a sua emancipação se verifica automaticamente com as novas relações de produção».12

As mulheres e a guerra

A dramática dimensão da perda de vidas humanas durante a Segunda Guerra Mundial, na qual morreram 20 milhões de soviéticos, teve naturalmente consequências na composição demográfica da sociedade. Durante a guerra as mulheres assumiram os lugares deixados vagos pelos homens que partiram para as frentes de batalha, e no pós-guerra o seu trabalho continuou a ser indispensável à produção e ao desenvolvimento económico.

Mas as mulheres soviéticas participaram também de forma destacada na própria guerra. O serviço militar foi aberto às mulheres em 1939. Estima-se que mais de 800 mil mulheres13 tenham participado directamente em acções de batalha e de guerrilha, além de serem metade dos médicos destacados na frente. São famosos os regimentos aéreos e de atiradores exclusivamente femininos, em particular o 46.º regimento de bombardeamentos de mergulho, que começou a operar em 1941 e cuja eficácia mereceu por parte do exército nazi o epíteto de «Bruxas da Noite». Refira-se a este propósito que a primeira vez que a Força Aérea portuguesa aceitou uma mulher no curso de piloto aviador foi em 1988 e que a primeira mulher piloto de caça norte-americana se formou em 1994.

★★★

Divulgar as conquistas das mulheres no quadro da Revolução de Outubro não tem apenas interesse histórico. Conhecer os direitos alcançados e a luta travada para os confirmar e aprofundar, avaliar aspectos decisivos para essas conquistas, como a arrumação das forças de classe ou a questão do Estado, aprender com as experiências e as limitações que se verificaram, reflectir sobre o tempo durante o qual se perpetuam nas sociedades determinadas mentalidades, são todos elementos que temos de ter em conta e continuar a aprofundar. Porque também no que diz respeito à emancipação das mulheres, o socialismo é verdadeiramente uma exigência da actualidade e do futuro.

Notas

(1) Resolução do Comité Central do PCP «Centenário da Revolução de Outubro – Socialismo, exigência da actualidade e do futuro», de 17 e 18 de Setembro de 2016.↲

(2) Manuela Pires, «A Revolução e os direitos da mulher», in «Vértice», 137/Novembro-Dezembro de 2007, p. 54.↲

(3) «A Emancipação da Mulher no Portugal de Abril» – Conferência do PCP, 15 de Novembro de 1986, p. 12.↲

(4) «Mulher: Direitos iguais aos do homem», entrevista com Lídia Líkova, in «Vida Soviética», Ano 1, n.º 6/7 – Outubro/Novembro de 1975, pp. 10-11.↲

(5) Idem.↲

(6) Álvaro Cunhal, intervenção de encerramento de «A Emancipação da Mulher no Portugal de Abril» – Conferência do PCP, p. 67.↲

(7) Título do capítulo dedicado à realidade na URSS em «O aborto – causas e soluções», de Álvaro Cunhal, pp. 87-93. Todas as informações e citações deste ponto são desta fonte.↲

(8) A mulher na União Soviética: Alguns dados, in «Vida Soviética», Ano 1, n.º 1, Maio de 1975, p. 21.↲

(9) Conceição Morais, no Fórum do PCP sobre «A Situação das Mulheres no Limiar do Século XXI», 23 de Janeiro de 1999, p. 94.↲

(10) Manuela Pires, artigo citado.↲

(11) «Horizontes familiares», artigo de Anatóli Khártchev, in «Vida Soviética», Ano 1, n.º 6/7 – Outubro/Novembro de 1975, pp. 22-23.↲

(12) «A Emancipação da Mulher no Portugal de Abril» – Conferência do PCP, p. 13.↲

(13) Manuela Pires, artigo citado, p. 66.↲

Sovietes de mulheres

«A nova moral soviética afirmava-se com dificuldade na vida, na consciência das pessoas. Nestas condições, os sovietes de mulheres constituíram um poderoso e ao mesmo tempo penetrante instrumento, com a ajuda do qual foi possível eliminar costumes seculares num prazo relativamente curto (10/15 anos aproximadamente).

Uma das habitantes de Ianguiiul (cidade do Uzbequistão), contemporânea desses acontecimentos, disse-nos que as primeiras activistas dos sovietes de mulheres eram russas, expressamente enviadas pelo Partido Comunista, para ajudar as suas companheiras uzbeques, tadjiques, quirguizes, turquemenas. Elas dirigiam os grupos de alfabetização, atraíam as mulheres para a actividade social, para a participação na produção, e desenvolviam uma grande actividade para que os homens adquirissem consciência da necessidade de acabar com os costumes antigos, aprendendo a ver nas suas mulheres cidadãs livres e iguais em direitos. «Na nossa aldeia (…) o soviete de mulheres organizou cursos de caixeiros. Quando elas começaram a trabalhar nas lojas, muita gente se reunia para as ver, pois eram muitos os que não acreditavam que a mulher fosse capaz de medir e pesar com precisão uma mercadoria ou de contar o dinheiro. Actualmente existem na nossa cidade centenas de médicas, professoras, engenheiras.»

do Portal O Movimento


 




MARGARIDA BOTELHO



As Mulheres na URSS

28 de Outubro de 2017, 12:15, por Blog do Arretadinho

A mulher na Rússia Czarista não possuía direitos quaisquer que fossem. Ela era privada de direitos. 
As portas para o governo e atividades cívicas estavam fechadas para ela. As humilhantes leis czaristas que regulavam as relações matrimoniais a tornavam uma autêntica escrava. Era considerado natural que houvesse mais mulheres do que homens entre os analfabetos.

O destino das mulheres da classe operária era particularmente triste. Eram as mulheres operárias, frequentemente menor de idade, que faziam os trabalhos mais penosos e não qualificados, onde recebia um salário muito mais baixo que o do homem. Como o homem, ela tinha de trabalhar dez e doze horas por dia; sua vida era de semi-fome, ignorância e miséria. Períodos frequentes de desemprego e exploração selvagem eram fatores que contribuíam para a falência da família da classe operária.

Tampouco era melhor a posição da mulher camponesa, que trabalhava do amanhecer até o anoitecer sem um momento de folga.

E no que tange a mulher das numerosas nacionalidades menores, seu destino era o mais miserável de todos. Assim, por exemplo, as mulheres das regiões orientais da Rússia czarista eram privadas dos direitos humanos mais elementares. Ela era forçada a cobrir seu rosto com o parandjlrah, o tradicional véu oriental. Ela era proibida de sentar na mesa com os homens. O nascimento de uma filha era considerado um infortúnio, e se várias garotas nascessem em uma família, era considerado uma desgraça.

A Grande Revolução Socialista de Outubro emancipou as mulheres, dando a elas plenos direitos iguais aos dos homens.

O Artigo 122 da Constituição da URSS declara:

“Às mulheres na URSS são concedidos direitos iguais ao homem, em todas as esferas da economia e da vida do Estado, cultural, política e socialmente.”

“O gozo desses direitos é assegurado pela concessão à mulher do direito ao trabalho como ao homem, com o mesmo salário, e com todos os direitos de descanso, seguro social e educacional e pela proteção do Estado aos interesses da mãe e da criança, descanso durante a gravidez, assistência em maternidade, enfermarias e creches.”

E o Artigo 137 da Constituição da URSS declara:

“As mulheres têm o direito de elegerem e serem eleitas em condições iguais aos homens.”


Às mulheres na URSS são garantidos todas as condições de exercer os direitos concedidos a elas pela lei. Existe um enorme número de mulheres empregadas em todos os setores da economia nacional da União Soviética hoje. Durante o período dos dois Planos Quinquenais (1928-1937), o número de mulheres remuneradas cresceu de 3.000.000 para 9.000.000 Ademais, o tipo de trabalho feito pelas mulheres também mudou.

Na Rússia czarista, de acordo com o censo de 1897, 55% das mulheres empregadas trabalhavam como criadas nas casas dos grandes latifundiários, capitalistas, comerciantes e ricos funcionários de governo; 25% eram trabalhadoras da lavoura em grandes propriedades de latifundiários; 4% trabalharam em instituições educacionais e de saúde pública, e 13% trabalhavam na indústria ou na construção civil.

Em 1936, 39% de todas as mulheres empregadas na URSS estavam trabalhando na grande indústria ou na construção civil, 15% estavam trabalhando em comércio, lojas, etc., transporte e restaurantes coletivos, 20% eram médicas ou professoras e apenas 2% eram empregadas domésticas, ou criadas, para usar a terminologia dos velhos tempos. Os 24% restantes trabalharam em vários outros setores da indústria, ciência ou das artes.

Há enormes parques industriais na URSS, como a Fábrica de Sapatos Skorokhod em Leningrado, por exemplo, onde 60% da mão de obra são mulheres.

Para ajudar as mulheres a tomar parte ativa na produção e na vida pública em geral, o Estado Soviético estabeleceu várias creches e jardins de infância, onde a mulher pode deixar seu filho enquanto está no trabalho.

Em 1937, as creches e jardins de infância da União Soviética (exclusivamente sazonais) acomodavam 1.800.000 crianças. O terceiro Plano Quinquenal fornece acomodação de 4.200.000 crianças até 1942.  Jardins de infância e creches temporárias estabelecidas pelas fazendas coletivas durante a temporada de colheita acomodaram aproximadamente 5.100.000 crianças em 1937.

Salas de jantar públicas e a ampla venda de pratos prontos e prontas a cozer, também libertam a mulher de uma grande parte de seu trabalho doméstico. Existem cerca de 30.000 restaurantes públicos na URSS. Em 1938, o seu faturamento ascendeu a 12.000.000.000 rublos. O faturamento previsto para 1939 é de 13.500.000.000 rublos.

As mulheres trabalhadoras soviéticas, como todo o povo trabalhador na URSS, tem uma jornada diária de sete horas, e em muitos setores, uma jornada diária de seis horas. O princípio de salário igual para trabalho igual, seja realizado por mulheres ou homens, é estritamente observado. Como os homens, a mulher soviética recebe férias anuais com salários pagos, e se a sua saúde demandar, ela recebe férias de graça em um hospital ou em uma casa de repouso.

Às mulheres são concedidas homenagens públicas pelo bom trabalho ou a obtenção de maior proficiência ou habilidades.

Uma gama de profissões que eram consideradas por séculos como estritamente “trabalho de homem” agora estão sendo “capturados” por mulheres. Antes da Revolução, as mulheres eram proibidas de estar em posições de qualquer importância nas ferrovias. Agora há cerca de meio milhão de mulheres trabalhando nas ferrovias na URSS, muitas delas ocupando posições cruciais. Entre estas ferroviárias, há 400 chefes de estação, 1.400 auxiliares de chefes de estação e cerca de 10.000 engenheiras e técnicas de ferrovias.

Qualquer operária soviética ou agricultora em fazendas coletivas que tem o desejo e que mostre as necessárias aptidões organizacionais tem a oportunidade de ser gerente de qualquer empresa soviética.

A URSS tem suas mulheres engenheiras, físicas, aviadoras, cientistas e executivas. Não há nenhum ramo da indústria, agricultura, ciência ou arte, e nenhuma fase do trabalho executivo ou governamental onde as mulheres não estejam empregadas. Há mais de 100.000 mulheres engenheiras e técnicas empregadas na grande indústria ou na construção civil na União Soviética, ao passo que em todos os outros países do mundo combinados há menos de 10.000 mulheres engenheiras.

A Rússia czarista tinha 2000 mulheres físicas. Na URSS há 132.000 físicos hoje, e cerca de metade deles são mulheres.

Também houve uma enorme transformação no uso do trabalho feminino na agricultura.
Aproximadamente 19.000.000 mulheres hoje estão trabalhando nas fazendas coletivas e estatais no campo. Mas elas não são mais as mulheres camponesas pisadas e oprimidas, as “ferramentas mudas”, como Gorki expressou, da velha Rússia. O sistema de fazendas coletivas emancipou completamente as mulheres, na verdadeira acepção do termo. As mulheres da família camponesa pré-revolucionária que trabalhavam do amanhecer ao anoitecer nunca sabiam quanto realmente ganhavam. Agora toda agricultora coletiva pode falar exatamente o quanto ela traz para sua família. Dados de 1936 demonstram que as agricultoras coletivas representaram mais de 35% de todas as unidades de trabalho diário.

Uma unidade de trabalho diário é o equivalente da quantidade média de trabalho que pode ser realizada em um dia de trabalho como definido para cada tipo de trabalho de acordo com a dificuldade do trabalho, o grau de habilidade necessária, a condição do solo, maquinaria, etc. Para o desempenho desta quota padrão de trabalho, o agricultor coletivo é creditado com uma unidade de trabalho diário. Se ele performa mais do que a cota especificada em um dia de trabalho, ele é creditado com um número correspondentemente maior de unidades de trabalho diário. No fim da temporada, a renda da fazenda coletiva em dinheiro e espécie é dividido de acordo com o número de unidades de trabalho diário que cada agricultor coletivo tem como creditado a ele.

Anteriormente era considerado que as mulheres eram capazes de fazer apenas os tipos mais simples de trabalho, que só se poderia confiar nela com ferramentas não mais complicadas do que a foice e a enxada. Hoje, existem 1.500.000 motoristas de trator e operadores combinados empregados na agricultura soviética e, entre eles, não são poucas as mulheres.

No entanto, a legislação do trabalho na URSS leva em conta as limitações físicas das mulheres e não permite a elas se engajar em trabalhos que vão além de sua força. Assim, por exemplo, a lei Soviética proíbe empregar mulheres e jovens de idade abaixo de 18 anos em indústrias que são consideradas arriscadas para a saúde. De mulheres com seis meses de gravidez, bem como mães durante os primeiros seis meses de alimentar suas crianças são estritamente impedidas de trabalhar em turnos noturnos.

Apesar da regular férias anuais, mulheres operárias têm direito a uma licença-maternidade de trinta e cinco dias de antes do parto e de 28 dias após o parto, com todos salários pagos. Mulheres das fazendas coletivas tem direito a licença-maternidade de um mês antes do parto e um mês depois, período durante o qual recebem os seus rendimentos médios.

As mulheres grávidas são transferidas a um trabalho mais leve antes de entrar na licença maternidade, e seu salário permanece o mesmo.

Mães em período de amamentação recebem nada menos do que trinta minutos adicionais de intervalo para alimentar seus filhos, ao menos a cada três horas e meia.
A legislação soviética sobre casamento e a família protege os interesses da mãe e da criança. Na União Soviética, o casamento é uma união voluntária de pessoas livres e iguais. O registro de casamentos na URSS é encorajado tanto no interesse do Estado e da sociedade como um todo e para facilitar a proteção dos direitos pessoais e de propriedade da esposa e das crianças. Contudo, casamentos sem registro são tão válidos como os registrados aos olhos da lei Soviética. Não existem filhos “ilegítimos” na União Soviética, todos os filhos possuem os mesmos direitos.

Um casamento pode ser dissolvido seja por acordo mútuo do marido e da esposa, ou pelo desejo de qualquer um deles. Ao registrar o divórcio, o Estado estabelece quanto cada um dos pais deve contribuir para o sustento das crianças e com quem as crianças devem viver.
Em 1936 o Governo Soviético chamou a opinião pública para que colaborasse na discussão de um projeto de decreto que atentasse de perto os interesses e os sentimentos de todos os cidadãos soviéticos. A finalidade do decreto era oferecer ainda maior proteção à mãe e à criança, proteger as mulheres dos conhecidos efeitos prejudiciais dos abortos frequentes, desencorajar qualquer atitude irresponsável em relação às obrigações paternas e, em geral, fortalecer a família.

O novo decreto propôs a proibição dos abortos, com a exceção de casos onde a gravidez prejudicasse a vida ou a saúde da mulher, ou onde há um perigo para a criança de herdar alguma doença dos pais. Além disso, o decreto propôs um reforço da legislação de pensão alimentícia e de divórcio.

Após uma ampla discussão de dimensões nacionais sobre este esboço de decreto, ele foi adotado pelo governo em conformidade com o desejo expresso da população.

Apenas sob o socialismo, o sistema onde não existe exploração e onde a constante melhoria do bem-estar material de todo o povo trabalhador é uma lei do desenvolvimento social, é possível levar a cabo uma série luta para fortalecer a família.

A promulgação desse decreto foi possível graças à eliminação total do desemprego na URSS, pela independência econômica das mulheres, pelo aumento do bem-estar material de toda a população, pelo fato de que a criança está segura e pode esperar um futuro seguro.
Com a promulgação desta lei, o governo soviético alocaram enormes quantidades de benefícios às mães de famílias numerosas. Após o nascimento de seu sétimo filho, a mãe recebe um benefício de dois mil rublos anualmente até que a criança tenha cinco anos de idade e a mesma quantidade no nascimento de cada criança subsequente. Mães de dez crianças recebem cinco mil rublos no nascimento de cada criança subsequente, e três mil rublos anualmente até o quinto aniversário da criança.

Do dia que a lei de proibição de abortos entrou em prática (27 de Junho de 1936) até atualmente, o Estado pagou 2.000.000.000 rublos em benefícios à mães de grandes famílias.
A lei atingiu plenamente seu objetivo - fortalecimento da família. Houve um leve declínio no número de divórcios. Por exemplo, em Moscou em 1936, 16.182 divórcios foram registrados, ao passo que em 1937 este número declinou para 8.961. Em 1936, 71.073 crianças nasciam em Moscou, enquanto em 1937, 135.848 nasceram.

A mulher soviética é impaciente para adquirir conhecimento, aprender, e o Governo Soviético estimula seu estudo em todos os âmbitos. Durante os anos do governo soviético, 40.000.000 adultos, entre eles várias mulheres, foram ensinados a ler e escrever. E muitas dessas pessoas não ficaram satisfeitas com a mera alfabetização, mas continuaram seus estudos nas várias escolas para adultos.

Hoje as mulheres tem acesso à várias faculdades e universidades da URSS. Dados 601 mil estudantes de faculdade e universitários da União Soviética, 43% são mulheres. A percentagem de estudantes de mulheres nas escolas pedagógicas e médicas é ainda maior.

A mulher soviética demonstra grande interesse em esportes e atletismo. Cerca de meio milhão de jovens mulheres passaram em testes físicos que dão direito a elas de usar a Medalha GTO (Iniciais russas para “Preparado para Trabalho e Defesa”). Cerca de 100.000 mulheres usam orgulhosamente a Medalha Voroshilov por boa pontaria. As mulheres esportistas soviéticas detém uma série de recordes mundiais, particularmente em saltos de paraquedas e aviação.

Na Rússia Czarista, a prostituição era disseminada e legalizada pelo governo. A prostituição foi completamente eliminada na URSS. Não foi abolida por meio de legislação policial, mas pela própria vida, pela segurança econômica e completa independência da mulher soviética.

A participação no trabalho construtivo do país deu às mulheres soviéticas mais do que a independência econômica. Deu às mulheres os direitos iguais aos homens na administração do Estado. Há 180 mulheres entre os Membros do Soviet Supremo da URSS. Entre os membros dos Sovietes Supremo das Repúblicas da União há 848 mulheres, e 578 mulheres são membros dos Sovietes Supremos das Repúblicas Autônomas. Cerca de 1.500.000 mulheres participam ativamente no trabalho dos Sovietes das aldeias e cidades.

Dezenas de milhares de mulheres na indústria se tornaram Stakhanovitas, introduzindo novos e melhores métodos de trabalho. Assim, por exemplo, as operárias têxteis Evdokia e Maria Vinogradova, ousadas lutadoras pela alta produtividade no trabalho em sua indústria, são extremamente populares e homenageadas por todo o país.

Foram as mulheres das fazendas coletivas que ganharam a honra de conquistar a honra de obter os maiores rendimentos de beterrabas. A competição socialista pela alta produção de beterraba sacarina foi iniciada por Maria Demchenko, agricultora coletiva. Começou por atingir até 50 toneladas de beterraba sacarina por hectare (2,47 acres). Agora, existem na União Soviética mulheres agricultoras coletivas que colhem até 100 toneladas de beterraba sacarina por hectare.

Em 1936, Pasha Angelina, uma motorista de trator de uma fazenda coletiva iniciou um movimento pela melhor motorista de trator mulher. Milhares de motoristas de trator mulheres e operadoras combinadas agora estão competindo por esta fama. Em 1937, 250 das melhores brigadas de mulheres motoristas de trator araram uma média de 1.838 acres de terra por Trator 15 h.p. enquanto a quantidade média de terra arada por Tratores 15 h.p na União Soviética era de 1.015 acres.

O povo Soviético tem todo o direito de se orgulhar de mulheres como Valentina Grizodubova, a recentemente falecida Paulina Ossipenko e Marina Raskova, aviadoras que demonstraram tamanho heroísmo e tamanho soberbo domínio da arte de voar em seu voo a longa distância, sem paradas, de Moscou até o Extremo Oriente. Com este voo, estas aviadoras soviéticas estabeleceram um recorde mundial de voo de longa distância para mulheres.

Entre os Comissários do Povo na União Soviética há 12 mulheres, incluindo Paulina Zhemchuzhina - Comissária do Povo da Indústria de Peixe da URSS, Qubra Faradzheva - Comissária do Povo de Saúde Pública do Azerbaijão, e Bakhty Altibayeva - Comissária do Povo da Indústria Leve de Turcomenistão. Uma dos Vice-Presidentes do Conselho de Comissários do Povo da URSS é mulher - Rosalia Zemlyachka.

Há 12.500 mulheres cientistas na URSS. Recentemente, a Dr. Lena Stern, autora de cerca de 300 artigos sobre fisiologia e bioquímica, foi eleita membro da Academia de Ciências da URSS.

A própria autora deste texto passou pelo caminho de operária não qualificada para Membro do Soviet Supremo da URSS.

Eu entrei em um Kolkhoz (Fazenda coletiva) em 1929, mas depois de pouco tempo eu fui para Moscou para me juntar a meu marido. Isto foi em 1930. Dentro de um ano eu comecei a trabalhar na construção da nova fábrica de transdutores em Moscou como uma operária comum. Eu estudei arduamente e diligentemente, e logo me tornei uma operária especializada. Em 1932, após a planta estar completa, eu fui escolhida para ser Mestra de Obras na loja de montagem dos transdutores. Dentro de dois anos, os operários de nossa fábrica me elegeram como sua deputada para o Soviet de Moscou. Eu ainda continuei a trabalhar na fábrica. O Governo Soviético me decorou com a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho pelo notável serviço no trabalho.

No começo de 1937, os eleitores de meu distrito, ou seja, o distrito onde a nossa fábrica se localiza, me elegeram presidente do Distrito Soviético. Logo depois, o povo impôs maior confiança em mim e me elegeu Membro do Soviet Supremo da URSS. Eu fui nomeada simultaneamente por quatro fábricas. Recentemente uma operária não especializada, e agora eu tomo parte ativa na administração do país.

O trabalho do presidente de um Distrito Soviético não é uma tarefa fácil. Tem que ser um construtor, um arquiteto, um executivo e um financeiro. O Orçamento do nosso Distrito Soviético equivale a praticamente 37 milhões de rublos. O cuidado e colocação de parques e arbustos, eliminação de lixo e limpeza de ruas, construção de estradas, indústrias locais, banheiros e lavanderias públicas e uma série de outras obras públicas, todas sob a jurisdição imediata do Distrito Soviética. Além dos meus deveres como presidente, supervisiono o trabalho do Departamento Distrital de Planejamento, o Departamento de Educação Pública, sob o qual existem quinze escolas e a Junta Distrital de Saúde.

E eu não sou a única mulher da URSS a ocupar tal posto. A União Soviética tem muitas mulheres assim hoje - e terá ainda mais.

A posição da mulher na URSS é o argumento mais convincente contra a teoria fascista da “inaptidão” da mulher, teoria esta onde as mulheres seriam capazes apenas de criar filhos e ficar em casa.

O grande democrata russo do século passado, N. Chernyshevsky, que fez tanto pela causa da educação na Rússia, escreveu:

“Que mente verdadeira, poderosa e penetrante a natureza deu às mulheres; e esta mente permanece sem uso para a sociedade, que a rejeita, a esmaga, a sufoca, embora a história da humanidade progredisse dez vezes mais rapidamente se esta mente não fosse desprezada e matada, mas fosse exercida.”

Na URSS, a mente e as habilidades da mulher soviética são exercidas nos interesses da sociedade e consequentemente nos interesses das próprias mulheres.

Escrito por M. Pichugina, panfleto de 1939

Traduzido por Gabriel Duccini

do Portal Nova Cultura



"Uma visão feminista e comunista: como conciliar classe, etnia e gênero?"

28 de Outubro de 2017, 10:50, por Blog do Arretadinho

Nos Estados Unidos, do final do século XX ao início do século XXI, um peculiar paradigma político reina sobre a esquerda. 
Você pode visitar qualquer universidade, blog ou website progressista, e as palavras “identidade” e “interseccionalidade” irão surgir como teoria hegemônica. Mas, como todas teorias, isso corresponde à posição da classe trabalhadora em relação a atual composição do capital. Teoria não é uma nuvem que flutua sobre a classe chovendo de pensamentos e ideias, mas, como Raya Dunayevskaya escreveu, “as ações do proletariado geram possibilidades para o intelectual criar teoria” (Marxism and Freedom, 91). Portanto, para entendermos as teorias dominantes de nossa época, precisamos entender o real movimento de classe.” (MITCHELL, 2013)

Antes de falar um pouco sobre esse momento histórico específico, e sobre o surgimento da teoria da interseccionalidade, gostaria de voltar um pouco mais atrás. A história, a partir da perspectiva liberal, definiu como “ondas do feminismo” o período de atividade feminista a partir do início do século XX, estritamente restrito a países Europeus e ao Estados Unidos. Com o filme “As Sufragistas” chegando, estaremos enfrentando mais de perto o seguinte debate: qual o espaço para o “feminismo marxista” nessa história? A maior parte das historiadoras da primeira onda do feminismo parece ignorar que as mulheres soviéticas já votavam, tinham direito a aborto seguro e legal e participavam da vida política, quando as sufragistas conquistaram (de forma seletiva, ainda por cima) o direito ao voto. Dessa forma, o que foi colocado pela Raya Dunayevskaya descreve sucintamente a idéia que venho propor: a verdadeira teoria feminista é fruto das ações das mulheres operárias, não da aristocracia. Sendo assim, já podemos perceber que o feminismo socialista teria dificuldade de disputar o movimento feminista, que tinha sua narrativa construída pelo ocidente. Maria Spiridonova, contemporânea de Kollontai, disse em entrevista a Louise Bryant (esposa do John Reed, que assim como ele documentou o processo revolucionário) que “não pretendo soar como uma feminista, mas… irei dizer para você minha teoria”. Isso acontecia não por ignorância das trabalhadoras soviéticas, mas sim porque as autodenominadas feministas se referiam a Kollontai e outras mulheres comunistas como “demônios vermelhos”. Havia uma real divisão entre feministas e comunistas, e o feminismo era visto como de direita — exatamente por ter nascido como um movimento social do seio da burguesia.

Não podemos perder de vista que, em todas as historicizadas ondas do feminismo, tal como hoje, existiam diversas correntes que disputavam hegemonia e que vivenciaram múltiplos embates teóricos dentro do movimento. A corrente a qual se alinhavam as sufragistas, por exemplo, colocavam como um dos argumentos ser o voto algo que as possibilitaria exercer melhor seus papeis de mães e esposas, ao passo que Kollontai e as marxistas operárias já se posicionavam radicalmente contra a prostituição, o modelo familiar burguês, os papéis domésticos da mulher e levantavam, então, bandeiras como a da união livre, do aborto, da socialização do trabalho doméstico etc. As operárias soviéticas não se reconheciam como feministas, pois trabalho, para elas, não era algo a ser conquistado, mas um dever colocado por sua classe. Sendo assim, atravessamos a “primeira onda do feminismo” e podemos, a partir daí, compreender o posicionamento das russas e perceber sua coerência.

Alguns anos depois, com o enfraquecimento das lutas dos anos 60 e 70, os primeiros teóricos da interseccionalidade começam a surgir e ganham força no início dos anos 80, reagindo ao que era conhecido como “segunda onda do feminismo”. Desse modo, detenho-me, a partir de então, à comparação entre essas duas teorias: interseccionalidade e consubstancialidade — sendo a primeira, de acordo com historiadoras feministas, Kimberlé Williams Crenshaw a precursora do termo, e a segunda mobilizada pela socióloga e feminista francesa Danièle Kergoat. Naturalmente, é preciso elencar as suas semelhanças: ambas as teorias percebem uma excessiva unilateralidade nos debates feministas na metade do século passado. Isto é, o debate partia de uma generalização tosca do que é ser mulher, o que acabava considerando como ponto de partida a mulher branca européia.

Isto posto, proponho comparar a metodologia de ambas as teorias a partir de uma análise um pouco mais prática: segundo o ministério do trabalho existem hoje 7 milhões de empregadas domésticas no Brasil. Dentre elas, uma ampla maioria negra e pobre. A consubstancialidade entende essa questão como uma forma de alienação exclusiva e única, que não abarca, portanto, o racismo enfrentado por todos os negros e o machismo enfrentado por todas as mulheres. “A minha tese (…) é: as relações sociais são consubstanciais; elas formam um nó que não pode ser desatado no nível das práticas sociais, mas apenas na perspectiva da análise sociológica; e as relações sociais são coextensivas: ao se desenvolverem, as relações sociais de classe, gênero e “raça” se reproduzem e se coproduzem mutuamente.” (KERGOAT, 2010) Isto é, não se pode entender esse caso a partir de uma política da diferença, da seccionalização das opressões que se agrupam de forma quantitativa, como é formulado pela teoria da interseccionalidade. Eve Mitchell nos explica:

“Teóricos da interseccionalidade defendem que nossas várias identidades, como raça, classe, gênero e sexualidade etc, necessariamente nos diferenciam de pessoas que não compartilham dessas identidades. Então, um homem da classe dominante, gay e negro terá uma experiência diferente, e assim, uma política diferente, de uma mulher branca e hétero da classe trabalhadora. Por outro lado, as pessoas com identidades compartilhadas, como ser negras ou lésbicas, terão uma experiência em comum que organicamente une os indivíduos. (…) Esse é o alicerce da teoria da interseccionalidade: alguns indivíduos ou grupos são diferenciados de outros grupos ou indivíduos baseado em suas experiências. Isso pode ser definido por meio de diferentes linhas identitárias” (MITCHELL, 2013).

Em uma hipotética greve organizada dessas 7 milhões de empregadas domésticas, por exemplo, não estariam elas atacando o racismo, o machismo e capitalismo de forma localizada e espaçada. Estariam, em uma greve longa e bem estruturada, desestabilizando TODO o tecido social brasileiro criado pelo novelo capitalismo-racismo-patriarcado, parando completamente o país. Percebemos, então, a partir daí, que uma mulher não é dupla ou triplamente discriminada, pois “o nó, formado por estas três contradições, apresenta uma qualidade distinta das determinações que o integram. Não se trata de somar racismo + gênero + classe social, mas de perceber a realidade compósita e nova que resulta desta fusão. (…) Não se trata de variáveis quantitativas, mensuráveis, mas sim de determinações, de qualidades, que tornam a situação destas mulheres muito mais complexa.” (SAFFIOTI, 2004). Assim, concordando com Kergoat, Saffioti também afirma que o conceito de superexploração é insuficiente.

Em suma, acredito ser a diferença fundamental a proposição de eixos de opressão pela interseccionalidade, que possuem funcionamento, origem e sentido próprios, que se acumulam e incidem em sujeitos específicos. Ao passo que a consubstancialidade concebe as opressões de outra forma , em que não entende ser possível identificar tão analiticamente onde começa o capitalismo e onde começa o patriarcado, uma vez que entende a existência de um a partir do outro. Através do apartheid sexual, por exemplo, o capitalismo extrai das mulheres o trabalho reprodutivo (cuidar da casa, dos filhos etc) necessário para manutenção estável da sociedade, ao mesmo tempo em que garante aos homens o poder sobre a sexualidade feminina; bem como através do racismo, o capitalismo consegue mão-de-obra para realização de trabalhos que a burguesia considera inferiores.

Em seu livro “Feminismo e consciência de classe no Brasil”, a autora Mirla Cisne afirma que “as discriminações do sexo no trabalho não são uma especificidade das mulheres, mas elementos fundamentais que estão na base da dominação da classe operária”,seguindo a mesma linhaelaborada por Elizabeth Souza-Lobos em seu livro “A classe operária tem dois sexos”. A consubstancialidade tem precisamente esse sentido, em que as opressões não se acumulam, mas se realizam umas nas outras, dando substância e formato ao tecido social que chamamos de realidade material. Esse tecido precisa ser entendido na sua totalidade, e seccioná-lo, mesmo com fins analíticos, pode desacertar nosso entendimento do dinamismo dos fenômenos.

O conceito de interseccionalidade e, de maneira geral, a idéia de intersecção, dificulta pensar uma relação de dominação móvel e historicamente determinada […]. Em outros termos, a interseccionalidade é um instrumento de análise que coloca as relações em posições fixas, que divide as mobilizações em setores, exatamente da mesma maneira pela qual o discurso dominante naturaliza e enquadra os sujeitos em identidades previamente definidas. (Elsa Dorlin); “Em seguida, um imperativo histórico: o caráter dinâmico das relações sociais é central para a análise. Elas devem ser historicizadas, pois possuem uma estrutura que permite sua permanência, mas também passam por transformações que correspondem a períodos históricos e a eventos que podem acelerar seu curso. No entanto, não se deve jamais historicizar uma relação social em detrimento de outras. Isso significaria transformar a relação em categorias caracterizadas pela metaestabilidade. (KERGOAT, 2010).

Achar que se pode entender a situação das empregadas domésticas primeiro como classe e, depois, como raça (ou vice-versa), torna o objeto sociológico (no caso, as empregadas) um quebra-cabeça que nunca conta com todas as peças. Temos, então, de forma sintética que o ponto de partida da teoria interseccional é conceituar o sistema de opressão, categorizá-lo e depois entender sua interação. O ponto de partida da teoria consubstancial é procurar os movimentos entrelaçados destas estruturas de poder na história como constituidores interdependentes do eixo de reprodução da própria realidade.
Um marxismo interseccional é possível?

Como o conceito de consubstancialidade não foi tão popularizado, textos relacionando o marxismo à teoria interseccional se tornaram cada vez mais constantes e, no início da década de 1980, a interseccionalidade já tinha se tornado termo usual entre a esquerda. Constantemente se voltavam para a seguinte questão: será que tudo é mesmo fundamentalmente uma questão de classe?

A questão-chave sempre foi o conceito da palavra “classe”. O que se debate aqui não é somente a importância da classe nas relações sociais, mas sim qual a composição dessa classe e como se originou tal conceito para a teoria marxista. A partir daí, veremos porque essa pergunta por si só não faz sentido, dentro do que a tradição marxista entende como classe. Classe, para o marxismo, não pode ser entendida como um grande grupo heterogêneo, no qual pessoas possuem uma renda/patrimônio médio em comum, tendo o pertencimento/despertencimento de posses materiais como seu elemento identificador. Não se pode dividí-la em faixas de riqueza — Classes A, B, C, D. Este é um erro crasso de uma confusão de abordagens sociológicas, pois esta é a definição de classe social pela sociologia de Max Weber. Esta limitação do conceito marxista de classe serve como espantalho para as críticas que Saffioti classifica como “as assim denominadas suspeitas, e até mesmo recusas veementes, com relação às explicações universais, não justificam a acusação de que os conceitos marxistas são incapazes de perceber o gênero.” (SAFFIOTI, 2004)

Ademais, Saffioti assume-o anacrônico e adverte ser a teoria weberiana quem exerce grande influencia na atualidade da fundação sociológica de diversas teorias burguesas, além de se propor a superar Marx: “Weber está na base de porção significativa dos pensadores pós-modernos, sem que seus porta-vozes mais proeminentes, ou nem tanto, se interroguem a que conduzirá tão extremado relativismo [fragilidade da consistência da classe] ou se seus tipos ideais podem ser corretamente utilizados quando aplicados a situações distintas daquelas com base nas quais foram formulados. Grande conhecedora da obra de Weber (1964–1965) Maria Sylvia de Carvalho Franco (1972) mostra como o ordenamento dos fenômenos sociais é feito com princípios a priori — não apenas pelo autor em questão, mas também por outros idealistas alinhados ao pensamento kantiano.

A autora detecta, no pensador em pauta, a presença uma “subjetividade instauradora de significados” [há, portanto, uma capacidade ilusória de criação de sentido por aquele que é objeto da relação] como alicerce do objeto, o que lhe permite afirmar, a respeito da tipologia da dominação [estudo das diversas dominações, separadas em tipos. ex: machismo, racismo, lgbtfobia, capacitismo], que o sentido empírico específico [o próprio significado] das relações de dominação é produzido pela atividade empírica de uma subjetividade [mais conhecida como vivência hoje em dia]. Este mesmo sentido [vontade do sujeito] define o objeto [o próprio sujeito] e constitui a auto-justificação, por meio da naturalização das desigualdades. Weber analisa, assim, as bases da legitimidade recorrendo a fatos sempre redutíveis a subjetividade [vivência], inscrevendo-se a autojustificação [e autoidentificação dentro desta realidade] como processo pelo qual se erige em lei universal o conceito subjacente à dominação. (p. 99)

A teoria marxista entende as classes, antes de tudo, como sujeitos históricos concretos. Para Marx, a sociedade é marcada por um antagonismo fundamental entre todos aqueles responsáveis pela produção e reprodução da realidade social, e aqueles responsáveis por criar suas diretrizes. A questão fundamental nunca esteve ligada à quantidade de moeda impressa que cada um tem ou qual a função que as pessoas precisam desempenhar para obte-las, mas sim a produção da vida real. Marx afirma que a vida é anterior à criação de um sistema econômico, este que é apenas uma forma de atender as necessidades da vida, mas que uma classe dominante faz parecer que é ele o meio pelo qual a vida existe e que as relações interpessoais só se dão através dele.

Weber cumpre exatamente este papel, de disseminar — muitas vezes de forma discreta — a ideologia burguesa, como Ranieri Carli examina em seu livro “György Lukács e as raízes históricas da sociologia de Max Weber”:

A análise do conceito de classe social em Weber precisa estar atenta para alguns pontos. Antes de tudo, 1) a responsabilidade por estar em determinada classe social é atribuída por inteiro ao sujeito; as oportunidades estão dadas no mercado e cabe ao sujeito aproveitá-las da maneira que lhe convém, conforme sua valoração subjetiva. Os homens apresentam-se em igualdade de condições ao mercado, é dada a largada, as chances são oferecidas e veremos quem terá sucesso ao fim. A superficialidade do conceito weberiano não nos diz absolutamente nada sobre as condições concretas de que partem os homens, sobre as contradições postas no processo produtivo, as quais já determinam sob que condições os homens chegarão ao mercado. Marx afirma que a produção determina a distribuição não só por realizar os objetos que serão distribuídos, mas por condicionar as formas particulares de participação no mercado. […]

Além de que, 2) o conceito weberiano une inextricavelmente a situação de classe à situação de mercado. Não há classe quando não há mercado; as várias situações de classe estão sendo distribuídas diariamente no mercado e apenas nele. O destino casual no mercado prescreve o pertencimento de classe. Os homens que não estão livres para ir ao mercado não representam uma classe: “aqueles cujo destino não é determinado pela oportunidade de usar, em proveito próprio, bens e serviços no mercado, isto é, os escravos, não são, porém, uma ‘classe’, no sentido técnico da expressão. São, antes, um estamento” (Weber). A conjunção absoluta do autor entre mercado e classe continua: “segundo nossa terminologia, o fator que cria 'classe' é um interesse econômico claro, e na verdade, apenas os interesses ligados à existência do mercado”(Weber). Logo, as classes sociais são um espaço fluido — de acordo com a nossa sorte no mercado, estaremos em determinada classe hoje e em qualquer outra amanhã. Deduz-se que os trabalhadores terão a opção de transformar-se em capitalistas assim que o humor do mercado lhes beneficiar.

Gênero como mais uma classe weberiana
Se pararmos para refletir, portanto, a própria definição do conceito de gênero, sob a luz da teoria interseccional, é uma classe weberiana. Um conjunto de características específicas (feminilidade ou masculinidade) é o suficiente para determinar uma classe, tal como as definições de sexualidade acabam “criando” a “classe weberiana” dos gays, lésbicas, etc. Enquanto isso, a teoria marxista aponta para outra análise:

A sexualidade é para o feminismo o que o trabalho é para o marxismo: aquilo que mais nos pertence, e o que mais nos é tomado. Assim como a expropriação organizada do trabalho de alguns para o benefício de outros define classe e trabalhadores, a expropriação organizada da sexualidade de algumas para o uso de outros define sexo e mulheres (…) A teoria feminista do poder é a de que a sexualidade é “generizada” e o gênero é sexualizado. Em outras palavras, o feminismo é uma teoria de como a erotização da dominação e submissão cria o gênero, cria mulheres e homens na forma social na qual nós os conhecemos. Portanto, a diferença de sexo e a dinâmica dominação-submissão definem uma à outra. O erótico é o que define o sexo como desigualdade e, por isso, como uma diferença significativa. Isso é, na minha visão, o significado social da sexualidade, e a consideração distintamente feminista da desigualdade de gênero. (MACKINNON, 1987).

É possível então traçar que desde o início da história da luta de classes a mulher foi relegada ao trabalho reprodutivo — o que não deve ser associado somente à geração de uma nova vida, mas também a limpar a casa, cuidar dos idosos, preparar a comida para o marido, isto é, todas as funções domésticas que garantem ao patriarca exercer sua função produtiva no capitalismo. Além do mais, com o advento do salário, o trabalho reprodutivo continuou não remunerado, até os dias de hoje. Como, por exemplo, você convence uma mulher ser natural a tripla jornada de trabalho (profissional, maternal e conjugal), muitas vezes sem receber quase nada? Da exata mesma forma que você convence um cobrador de ônibus que seu trabalho não é alienado. Uma mulher precisa se identificar com o famigerado estereótipo de ser mulher para se tornar um ser inteligível na sociedade. Por conseguinte, é imensamente conveniente ao patriarcado que esse estereótipo dite que mulher é frágil, submissa, e não competitiva. Fosse o contrário, as mulheres seriam uma ameaça para os homens. A função da sociologia weberiana, meio a isso tudo, é classificar as pessoas nos mais variados grupos identitários, identidades essas deduzidas de modelos ideais que o mercado demanda. Para que funcione, o sistema necessita de pobres, mulheres e negros — e a sociologia weberiana está aqui para dividi-los todos em caixas chamadas “classes”, ainda que estes não tenham qualquer controle sobre isso. Eve Mitchell esclarece:

Colocando de outra forma, sob o capitalismo, nós estamos forçados a uma caixa: nós somos motoristas de ônibus, cabeleireiros, ou mulheres. Essas diferentes formas de trabalho, ou diferentes expressões de nossa atividade humana (meios pelos quais nós interagimos com o mundo a nossa volta) limitam nossa habilidade de sermos humanos multifacetados. (…) Políticas identitárias defendem “eu sou um homem negro”, ou “eu sou uma mulher”, sem completar o outro lado da contradição, “…e um ser humano”. Se o ponto de saída e de chegada é unilateral, não há possibilidade de abolição das relações sociais racializadas e generizadas. Para apoiadores das políticas identitárias (apesar de dizerem o contrário), a feminilidade, uma forma de existência dentro da sociedade, é reduzida a uma identidade natural e estática. Relações sociais como a “feminilidade”, ou simplesmente o gênero, tornam-se objetos estáticos, ou “instituições”. Logo, a sociedade é organizada em indivíduos, ou grupos sociais com características naturais. Por consequência, a única possibilidade de luta dentro das políticas identitárias está baseada na distribuição igual ou no individualismo (MITCHELL, 2013).

Uma saída pela esquerda (marxista-leninista)

Cada vez mais o movimento feminista sente a insuficiência do debate que tem sido pautado pelos teóricos do pós-modernismo. Portanto, a palavra final precisa ser dada pela teoria feminista marxista, como explica Mirla Cisne em “Feminismo e luta de classes no Brasil”:

“Para sermos mais claras, partimos do pressuposto de que classe, “raça” e relações sociais de sexo (incluindo a sexualidade) não compõem apenas relações superpostas, tampouco adicionais ou mesmo com “intersecções”, como defende Crenshaw (1995) entre as relações de “gênero” e “raça”. Ao considerar, por exemplo, que elas seriam relações adicionais, ou seja, somáveis, cairíamos na segmentação positivista de entendê-las como relações separadas e não enoveladas”.

É necessária a compreensão de que pelo entrelace, pelo contato dessas condições umas com as outras, elas adquirem uma dinâmica própria e outra, que não é mais a mesma quando isoladas. E essa nova dinâmica se adapta a uma realidade também outra que, para que não se mantenha cristalizada, deve conter — de cada condição — seu acento histórico. E é somente a partir dessa concepção que não deixaremos que seja diluído o conceito marxista constatado pelo materialismo-histórico-dialético, que nos inquieta e que nos move, por sua complexidade, especificidade e contradição, — e é este o conceito de classe,enquanto una,enquanto nó.

Referências:
CARLI, Ranieri. As raízes históricas da sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: UFRJ/ESS, 2008. 267 p. Orientador: José Paulo Netto. (Tese de Doutorado).

CISNE, Mirla. Feminismo, Luta de Classes e Consciência Militante Feminista no Brasil. Tese de doutorado em Serviço Social defendida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Rio de Janeiro: UERJ, 2013. 409 f.

KERGOAT, Danièle. Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais. Novos estud. — CEBRAP, São Paulo , n. 86, p. 93–103, Mar. 2010.

MACKINNON, Catherine. Feminism Unmodified: Discourses on Life and Law. Harvard University Press, 1987.

MITCHELL, Eve. “Eu sou uma mulher e um ser humano: uma crítica feminista Marxista à teoria da interseccionalidade”. 2013. 

Acesso em: 
https://traducoesfemininjas.wordpress.com/2015/11/19/eu-sou-uma-mulher-e-um-ser-humano-uma-critica-marxista-e-feminista-a-teoria-da-interseccionalidade-de-eve-mitchell/
SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, patriarcado e violência. Editora Fundação Perseu Abramo, 2004.

Acesso em: http://www.contag.org.br/imagens/f759ontogenesedogeneroHELEIETHSAFFIOTI.pdf



CTB saúda os servidores pelo seu Dia

28 de Outubro de 2017, 10:27, por Blog do Arretadinho

Dia do servidor: CTB parabeniza a categoria e convoca à luta e resistência
Neste sábado,  28 de outubro, comemora -se o Dia do Funcionário Público.  A data foi instituída no governo do presidente Getúlio Vargas, por meio da criação do Conselho Federal do Serviço Público Civil,  em 1937. As leis que regem os direitos e deveres do trabalhador público estão no decreto nº 1.713, de 28 de outubro de 1939, motivo pelo qual é o dia da comemoração desse profissional. Em 11 de dezembro de 1990, foi publicado o novo Estatuto dos Servidores Públicos Civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais, a Lei nº8112, alterando várias disposições da antiga lei, porém os direitos e deveres desses servidores, como o de fazer greve e a negociação coletiva, foram definidos e estabelecidos na Constituição Federal, porém, ainda aguardam a tão sonhada regulamentação.

No último dia 26, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei (PL) 3831/15, que estabelece normas para a negociação coletiva no serviço público da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

O PL estabelece que podem ser tratados na negociação temas como plano de carreira, remuneração, condições de trabalho, planos de saúde, estabilidade e avaliação de desempenho, aposentadoria e demais benefícios previdenciários. Ao todo, são 13 pontos que podem ser negociados. Participam do processo de negociação coletiva, de forma paritária, os representantes dos servidores e empregados públicos e os representantes do ente estatal respectivo. Aprovada,  a proposta seguia para a sanção presidencial quando um recurso protocolado por algumas entidades, com o apoio de parlamentares,  que agiram equivocadamente ou de má fé, tentou retirar o caráter conclusivo do projeto, ajustado de acordo as necessidades dos servidores. 

Mas o empenho de centrais sindicais, como a CTB,  Nova Central e a Confederação dos Servidores Públicos do Brasil (CSPB), foi determinante na construção de um requerimento, protocolado por parlamentares ontem (26), na Câmara. O documento derruba o recurso e assegura o encaminhamento do PL 3831 direto para sanção presidencial.

"De uma forma geral não temos muito a comemorar, diante do retrocesso que a gente vem sofrendo, por conta de um governo ilegítimo que assumiu o poder através de um golpe parlamentar, jurídico e midiático. Estamos vendo o trabalhador do serviço público pagando a conta. Temos um grande prejuízo oferecido ao servidor das três esferas. Tivemos talvez a pior das PECs votadas (a 241, convertida em EC95), que foi a do congelamento,  por 20, anos dos gastos públicos, e isso afeta diretamente o servidor . Enfrentamos ainda o projeto que prevê o fim da estabilidade para o funcionário público,  ou seja, cria alguns critérios para a demissão do servidor. Temos também um ataque feroz à estrutura sindical que dá suporte a esses trabalhadores. O que nos resta é, nas eleições do ano que vem, tentar mudar esse Congresso e o governo com o nosso voto. Não existe serviço público de qualidade sem um servidor valorizado. Não há o que comemorar", declarou Marco Antônio Corrêa da Silva,  presidente da Federação dos Sindicatos dos Servidores Públicos (Fesep), no Rio de Janeiro.

O Secretário do Serviço Público e dos Trabalhadores Públicos da CTB, João Paulo Ribeiro (JP), acrescenta dizendo que "infelizmente nós estamos numa das realidades mais difíceis. Mas devemos comemorar, no sentido de que servir a sociedade é uma dádiva entregue ao servidor, embora passamos por nosso pior momento com esse governo que entrou ilegitimamente e está destruindo toda a esperança e todo o trabalho do serviço público. A aprovação da EC 95, que foi o teto de gastos, na verdade vai impedir toda e qualquer contratação, viabilização e, inclusive, os reajustes salariais. A ausência que temos de negociação coletiva,  liberação classista, e a própria organização do serviço público,  denuncia a falha na Constituição, que nos deu o direito de se organizar enquanto sindicato, mas não deu a forma. Não temos nem mesmo o direito a greve garantido. Temos um Congresso Nacional que hoje só faz maldades, a mando do governo Temer,  que quer destruir o serviço público".  

Em nome da CTB,  JP parabenizou os trabalhadores públicos, disse que o momento é de luta e resistência e que a central atuará sempre em defesa da categoria.  "Nesse dia 28, a Secretaria do Serviço Público e dos Trabalhadores Públicos da CTB felicita a todos os servidores e servidoras e deseja muita disposição para enfrentarmos os dias difíceis que virão, sinalizados aí pela reforma da Previdência e vários outros projetos nocivos. A CTB nos orienta a se organizar para construirmos a greve geral dos servidores. Somos hoje a categoria mais atingida pelos ataques brutais do governo Temer e seus aliados no Congresso", concluiu o dirigente. 

do Portal CTB