Uma fábula sobre o mito
сентября 26, 2018 14:46Em tempos de fake news, alertamos logo: esta é uma fábula criada para o momento. Não está nos livros infantis, pois, por mais inacreditável que pareça, atravessamos um momento em que tal conto corre um risco de estar nos livros de história. Por isso a fábula precisa ser entendia, para afastar sempre esse risco.
por Rochester Oliveira Araújo no Justificando
Os eventos narrados são meramente ilustrativos. Em um momento que criamos verdades e até seres mitológicos, pode ser uma forma de compreender melhor nosso caminho e um arriscado destino. Por ser uma fábula, podemos dizer que os personagens envolvidos são fabulosos, não como uma característica louvável, mas algo que deveria ser apenas imaginativo tamanho o absurdo de se pensar como reais.
Era uma vez… um vilarejo em um reino distante, em terras de grandes riquezas. O vilarejo, muito bem fechado em sua bolha, não sofria com fome, com pobreza ou falta de recursos. Isso era reservado aos que moravam fora do vilarejo, a ermo. Aqueles seres inferiores que vagavam e assombravam os limites da muralha que protegia o vilarejo. Mas o vilarejo também não tinha grandes fortunas, monumentos e palácios.
De casebres a pequenos palacetes, todos tinham um teto, comida e acesso aos seus mais importantes meios de viver: saúde, escola para as crianças etc. As verdadeiras fortunas eram reservadas para a nobreza, que vivia também fora do vilarejo de onde sequer eles podiam enxergar.
Só conheciam as histórias de palácios de ouro, banquetes e fortuna daquela nobreza. Embora almejassem conseguir aquela mesma vida luxuosa, os habitantes do vilarejo não deixavam de se sentir moralmente superiores àqueles nobres que esbanjavam a riqueza desejada: “construir a fortuna com o nosso suor é fácil! Difícil é juntar riqueza nesse vilarejo, com o próprio trabalho”.
Assim, ficando no meio do caminho entre os palácios dos nobres moralmente corrompidos, mas defesos da legião de seres inferiores que habitavam o “além da muralha”, o vilarejo se constituía na média entre as classes que existiam nesse reino. Uma classe do meio.
Apesar de não sofrer com a fome, miséria e outros males, e tampouco se sentirem inferiores por terem uma moral superior aos aproveitadores da nobreza, o vilarejo era assolado por um terrível mal coletivo: tinham medo! Viviam amedrontados e sequer sabiam exatamente de quê, mas pensar em estar do lado de fora da muralha era assustador.
E o que vinha de lá, também causava tremores. Era pavoroso imaginar, por exemplo, que a muralha se romperia. Ou que algo aconteceria com seu vilarejo tão confortável de se viver. Em um determinado momento, quando começaram a desconfiar de fissuras na muralha, o medo foi aumentando e aumentando. Nenhum sinal de mudanças substanciais ali: nada de forme, não faltavam recursos ou qualquer outra alteração, mas o medo se alastrava em todos os rostos dos aldeões.
Resolveram que era preciso fazer alguma coisa.
Em uma difícil construção coletiva de pensamentos, foram expondo seus medos e se alimentando ainda mais do pânico. Procuravam, em polvorosos, soluções que lhes diminuíssem esse sentimento. Algumas pessoas propuseram uma expedição: vamos conhecer o que há além da muralha! “Irresponsáveis! Aventureiros!”. Proposta rejeitada. Outros questionavam: “por que não vamos exigir dos nobres que façam algo para que essas pessoas de fora não nos causem mais medo?” “Irrealista! Sequer conseguimos chegar ao palácio daqueles corruptos”.
Um grupo de velhos, que outrora foram do exército do rei, que a despeito de não serem tomados por sábios, começaram a fazer certo barulho e resolveram apresentar sua solução: “quando estávamos no castelo, conhecemos alguns seres e bichos que vocês não conhecem. O que vocês hoje possuem, essas muralhas, tudo foi construído por que tínhamos, ao nosso lado, alguns desses monstros! E digo-lhes: ainda existem! Estão bem trancados, pois contaram coisas horríveis e distorcidas sobre o que faziam. Mas o mito é real.”
De início, muitos moradores se opuseram: “nós ouvimos as lendas e sabemos o que essas bestas fizeram!” Mas começaram a perder a voz: “não sabem de nada! Lendas são lendas! Vocês não conheceram.” E fora isso, apresentam outra solução? Ninguém conseguia expor uma saída que não fosse ridicularizada ou resolvesse o problema do medo. Assim, os velhos convenceram o vilarejo com uma proposta: façamos assim… traremos um desses seres para que ele seja conhecido por nós e iremos controlá-lo! Ele será capaz de espantar o que nós tememos! Ele irá assustar o medo e estaremos seguros.
Assim foi feito e trouxeram aquela besta que, para surpresa de alguns, não parecia tão ameaçadora.
Para decidir sobre aquela proposta, dois representantes foram escolhidos para serem ouvidos: o do grupo que achava a ideia não muito agradável, que ficaram conhecidos como não-mitos, e o do grupo que se colocava como cansado de sentir medo e não ter respostas que ficaram conhecidos como “pró-mito”. Foram todos até o centro da aldeia onde puderam ouvir a besta. Embora berrasse alto, com uma baba pegajosa que escorria pela boca, e se contorcesse para se livrar das correntes, parecia estar bem amarrado. Além disso, algo surpreendeu os moradores: faltavam-lhe os dentes! E não tinha garras!
– Vejam vocês mesmos: ele serve para afastar o medo, mas é incapaz de nos ameaçar! Faltam-lhe os dentes e as garras! Vamos ouvir o que tem a dizer!
– Eu sou uma besta feroz que posso morder e dilacerar o que estiver na minha frente! Me devolvam meus dentes e garras que irei mostrar! – berrou a besta!
Aplausos foram ouvidos, puxados por alguns velhos e seguido por vários aldeões. “É isso! Esta é a saída! Acabou o medo! Ele poderá defender o vilarejo, mas estamos seguros de sua violência porque ela só faz berrar! Serve para assustar” Discursou o representante do grupo pró-mito. Um dos velhos ainda explicou: “tiraram seus dentes e suas garras! Assim, podemos controlar sua violência! Muito bem guardado sobre nossa guarda estão algumas dentaduras de pequenos dentes ou maiores, e garras de vários tamanhos! Não será preciso usá-las, mas deixamos guardadas.” O representante do grupo não-mito, por timidez ou convencimento, bastou-se em dizer: “acho que é uma má ideia”.
Embora não fosse consenso, a maioria do vilarejo aceitou aquela proposta como uma alternativa. No portão do vilarejo, a besta foi solta e imediatamente correu para fora em um galope barulhento. No final do dia, a besta voltou com a boca um pouco suja de sangue e parecendo saciada. Isso aconteceu por mais algumas semanas e meses. Sempre que a besta retornava, saciada, as pessoas observavam e refletiam: eles terão mais medo do que nós! Estamos seguros.
Contudo, passado um período, a besta já se mostrava insatisfeita com a dificuldade de ter que fazer tudo sem seus dentes afiados e garras. Os velhos pediram que ela se manifestasse mais uma vez ao público e ela berrou:
– Eu sou uma besta feroz que posso morder e dilacerar o que estiver na minha frente! Me devolvam meus dentes e garras que irei mostrar!
As pessoas especulavam porque ela dizia aquilo: “deve estar sendo atacada por seres maiores do lado de fora! Não está mais conseguindo nos proteger.” O medo voltava a crescer, mas antes que retirasse a calma do vilarejo, os velhos trouxeram uma pequena fileira de dentes, minúsculos, porém afiados, e luvas com garras pequenas para a besta: “vejam todos! Com sabedoria que guardamos esses artefatos! Podemos calçar a besta que irá ter mais capacidade de assustar!” Muitos aplausos, e alguns inconformismos que se silenciavam. O representante do grupo não-mito expressou: “não é perigoso?” “Ora! Perigoso é estar desprotegido! Você quer que as coisas fiquem como antes”. Assim, a besta recebeu seus dentes e garras, pequenos, mas afiados.
No dia seguinte, em disparada para fora da muralha retornou antes do fim do dia, banhada em sangue e satisfeita. As pessoas se assustaram com a imagem, mas era a besta delas e podiam confiar. Sentiam-se seguras com aquilo. Mais algumas semanas se passaram e a besta, repentinamente, deixou de sair do vilarejo. Novamente, colocada para se manifestar, verborrejou:
– Eu sou uma besta feroz que posso morder e dilacerar o que estiver na minha frente! Me devolvam meus dentes e garras que irei mostrar!
Em nova assembleia, algumas pessoas, agora já dependentes daquela sensação de segurança bestial, pediram aos velhos que trouxessem dentes maiores e garras mais afiadas. “Não podemos ficar sem essa besta” – diziam. Contudo, outros aldeões se mostravam temerários: “ela pode sair do controle! Não façamos isso!” Em um lampejo de razão, não deram dentes e garras maiores para a besta. Esta se mostrou inconformada e berrou alto:
– Eu sou uma besta feroz que posso morder e dilacerar o que estiver na minha frente! Me devolvam meus dentes e garras que irei mostrar!
Mas não foi atendida e deitou-se no portão do vilarejo. Durante a noite, contudo, a besta se levantou e foi até o local onde guardavam seus dentes maiores e garras gigantes. Sem dificuldade, devorando um ou outro velho e jovem aldeão que fazia a guarda, calçou suas garras e encaixou seus dentes. Cansada de ter que sair do vilarejo para satisfazer sua violência, ali mesmo começou a atacar e dilacerar aldeões! Até o amanhecer seguiu berrando e trucidando. O pânico se abateu no vilarejo e as pessoas não sabiam o que fazer. Os guardas foram acionados e, depois de muita luta e morte, a besta foi novamente acorrentada.
Como um vilarejo de pessoas civilizadas, organizaram um tribunal para julgar o terrível ataque da besta mitológica que quebrou o acordo e atacou sua própria casa. Chegamos ao último ato da fábula que é o julgamento: no tribunal, diversos se prontificaram para ser acusadores da besta e encontrar os responsáveis por tudo aquilo. Livros e textos enormes foram trazidos com argumentos de acusação. Oradores se preparavam para o seu momento de revelar os horrores que a besta praticou e a parcela de culpa de cada responsável. Mas, para um justo tribunal, precisavam de uma defesa para o monstro. Um dos velhos disse: “ela mesma poderá se defender!”
O julgamento começou e as acusações foram diversas.
Contra a besta, parecia que se revelava uma unanimidade tardia: ela era um monstro que nunca deveria ter sido liberta. Contra ela, a acusação era de traição por ter se rebelado contra os moradores. Os responsáveis por aquilo, um a um sendo encontrados, jogavam a responsabilidade para outros. Esses, por sua vez, eram acusados de terem sido negligentes nos riscos corridos. Os velhos diziam que só apresentaram uma solução, mas que a maioria apoiou e, sem esse apoio, o monstro teria continuado preso.
O representante do grupo não-mito que, eventualmente, havia se manifestado e alertado do perigo, apontou outros aldeões que se entusiasmaram e fizeram coro para a libertação da fera: “nós avisamos que era algo irresponsável!”. Entre reclamações de que os avisos foram poucos ou tímidos, e que não se apresentava uma alternativa à fera, chegaram a uma conclusão complicada: a maioria dos aldeões era responsável pelos eventos que sucederam ao apoiar a ideia da besta.
Como uma maioria que se sente culpada mas não poderia assumir o peso de uma punição, apresentaram sua defesa: “sim, de fato nós apoiamos a única alternativa que apareceu. Além disso, nunca imaginaríamos que as coisas poderiam sair do controle como saíram. Quem poderia imaginar que a besta iria nos atacar? Soltamos ela e demos dentes pequenos para nos defender de nossos temores, somente para assustar e espantar nossos medos, mas não para se voltar contra nós! Foi uma tragédia lastimável. Contudo, a culpada é exclusivamente da besta, que além de monstruosa, é traidora.” Destacou o representante dos que defenderam o mito.
Isto posto, resolveram no Tribunal que era o momento de ouvir a própria besta terrível e lhes perguntar porque virou-se contra seus apoiadores, qual o motivo da sua traição. Nesse mesmo momento, no centro da tribuna, retirando a mordaça da besta, essa esbravejou:
– Eu sou uma besta feroz que posso morder e dilacerar o que estiver na minha frente! Me devolvam meus dentes e garras que irei mostrar!
Todos ouviram aquele berro inúmeras vezes. O tribunal, atentamente, ouviu aquele depoimento da besta maldita. Sua fala sempre foi a mesma. Seu berro sempre foi de quem poderia morder e dilacerar o que estivesse na sua frente. E, ainda, que bastava que lhes dessem dentes e garras que ela mostraria a todos. A sentença contra a besta foi uma só: “Terrível em sua bestialidade, mitológica em sua composição de monstro, a besta nunca enganou ninguém. Sempre berrou o que iria fazer para todos ouvirem. E fez.”
Rochester Oliveira Araújo é mestre em Direito Constitucional e defensor público do Estado do Espírito Santo.
Importunação sexual agora é crime
сентября 25, 2018 19:56![]() |
| Casos de assédio em ônibus ou metrô serão classificados como importunação sexual, com punição de 1 a 5 anos de prisão Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil |
Sancionada lei que tipifica crime de importunação sexual e pune divulgação de cenas de estupro
mportunação sexual e divulgação de cenas de estupro agora são crimes. É o que prevê lei sancionada nesta segunda-feira (24) pela Presidência da República, tendo como base projeto (PL 5452/16) de autoria da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), aprovado pela Câmara dos Deputados em março deste ano.
O crime de importunação sexual é caracterizado pela realização de ato libidinoso na presença de alguém e sem sua anuência. O caso mais comum é o assédio sofrido por mulheres em meios de transporte coletivo, como ônibus e metrô. Antes, isso era considerado apenas uma contravenção penal, com pena de multa. Agora, quem praticá-lo poderá pegar de 1 a 5 anos de prisão.
Também poderá receber a mesma pena quem vender ou divulgar cena de estupro por qualquer meio, seja fotografia, vídeo ou outro tipo de registro audiovisual. A pena será maior ainda caso o agressor tenha relação afetiva com a vítima.
Proteção da dignidade
Para a juíza Rejane Suxberger, do Juizado Especial de Violência Doméstica de São Sebastião (DF), a criação dessa punição ajudará a proteger a dignidade das mulheres.
“É necessário que crimes como esses sejam tipificados, que sejam trazidos a lume da sociedade, seja divulgado esse tipo de sanção, mostrando que, felizmente, não é mais permitido esse tipo de postura machista e essa conduta violenta contra a mulher", disse a juíza.
Outros pontos previstos na lei são o aumento de pena nos crimes contra a liberdade sexual e contra vulneráveis, que foram incluídos pelo parecer da deputada Laura Carneiro (DEM-RJ), relatora da proposta na Câmara.
Perda do poder familiar
Também foram sancionados outros dois projetos. Um deles amplia as hipóteses de perda do poder familiar, no caso de pessoas que cometem crimes contra o pai ou a mãe de seus filhos (PL 7874/17).
A outra proposta que virou lei é a que assegura atendimento educacional a alunos do ensino básico que estejam internados para tratamento médico, em ambiente domiciliar ou hospitalar (PL 4415/12).
ÍNTEGRA DA PROPOSTA:
Reportagem – Mônica Thaty na 'Agência Câmara Notícias'
Viva Maria: Em meio a tanto avanço tecnológico, rádio continua sendo o mensageiro de todas as horas
сентября 25, 2018 17:15
Apresentação Mara Régia na EBC
Não importa qual seja a sua crença ou religião, mas hoje é dia de lembrar que você tem um anjo ao seu lado, mensageiro de boas e más notícias. Ele também adora mandar recados. Incansável, está sempre pronto a prestar serviço, a qualquer hora e, principalmente, nas situações em que só a Polícia e o Corpo de Bombeiros são chamados. Não é à toa que ele é parente próximo do telefone. Pertence à geração das grandes invenções da primeira metade do século XX.
Apesar de dar asas à imaginação, ele está longe de ser super herói, mas é super amigo. Não é de guardar segredos, mas entra na intimidade e no coração das pessoas com a maior facilidade. Talvez, por isso, seja tão querido.
Popular, como ele só, costuma conquistar a simpatia de todo mundo. Não é à toa que o pessoal que milita no mundo da política vive grudado nele e costuma até se aproveitar de sua fama pra transformá-lo em palanque. As igrejas, em geral, também vêm nele um aliado para suas pregações e estão sempre à espera dos milagres que, porventura, ele venha a fazer.
Privado do sentido da visão, toca de ouvido as mais belas canções e, no mesmo tom, deixa sempre o cenário mais bonito, seja no campo ou na cidade. Ele tem complexo de piloto de Fórmula 1. Adora sair na frente, com as primeiras notícias do dia, e gosta de ser uma espécie de co-piloto d@s motoristas.
Na maior pilha, trabalha até sem energia elétrica. De fácil manuseio, ele dispensa senhas e códigos. Ninguém precisa ter curso superior, nem tampouco de digitação para acessar os seus comandos, que são simples como o bê-a-bá. Entretanto, ele é um instrumento de promoção da educação, em todos os níveis. É perfeito para introduzir as noções mais elementares de português, ciências e história, até os conceitos mais sofisticados de economia, política e cidadania.
Mas, apesar disso, ainda é considerado o primo pobre da comunicação. Em especial da publicidade. Por isso, não costuma frequentar as colunas sociais dos jornais. Contudo, não perde a pose. Parece filósofo grego, quando discursa em defesa da democracia, como ideal de igualdade, de justiça e de direito.
Será que a essa altura você já sabe de quem eu estou falando???
Pois é mais do que nunca, neste Dia do Rádio, nossa homenagem ao homem que, nos idos de 1923, sonhou o rádio como a escola dos que não tinham acesso a ela. Falo do pai do rádio, Roquete Pinto, que já naquela época estava convicto da função social a ser desempenhada por esse meio de comunicação.
Sabia que ele seria capaz de levar, aos confins do Brasil, notícias, informações e reflexões, que, de alguma forma, pudessem contribuir para o processo de conscientização política da população. Seu desejo e sua persistência em permitir o acesso de todos a uma forma de educação acessível se traduzem hoje na missão das rádios públicas desse nosso país, unidas cada vez mais por uma comunicação democrática e plural como é o caso da nossa Rádio MEC.
Através de emissoras como a MEC, podemos exercer nosso direito a uma comunicação que seja verdadeiramente a nossa voz! A propósito, “Nossa voz” é o nome do projeto de conclusão de curso da aluna Giovanna Muniz da Faculdade Pinheiro Guimarães no Rio de Janeiro. Em seu trabalho, ela faz uma pesquisa sobre as lutas e as conquistas das mulheres no radiojornalismo, não é isso, Giovanna?
Viva Maria: Programete que aborda assuntos ligados aos direitos das mulheres e outros aspectos da questão de gênero. É publicado de segunda a sexta-feira. Acesse aqui as edições anteriores.
Você é feminista?
сентября 25, 2018 10:08“Semana passada fui dar aula sobre assédio sexual num curso de pós graduação em São Paulo. Cheguei na sala, composta predominantemente por advogados, e perguntei “Quem aqui se considera feminista?”. Silêncio. Uma moça levanta timidamente o braço. Dois ou três caras fazem comentários baixinho e riem.
Disse “Ok. Vou fazer duas leituras rápidas para vocês”. Continuei.
“Dicionário Houaiss da língua portuguesa: FEMINISMO: teoria que sustenta a igualdade política, social e econômica de ambos os sexos.
Dicionário Jurídico da Professora Maria Helena Diniz: FEMINISMO: movimento que busca equiparar a mulher ao homem no que atina aos direitos, emancipando-a jurídica, econômica e sexualmente.”
Esperei um pouquinho e mudei a pergunta “Quem aqui pode me dizer que NÃO se considera feminista?”. Ninguém levantou a mão.
Pois é. Tenho a sensação de que 99% do mundo não entendeu até agora o que é feminismo. Porque se as pessoas entendessem, quase todo mundo teria orgulho de se dizer feminista. E o melhor: dizer “eu não sou feminista” seria considerado algo mais feio do que dizer “eu não gosto de filhote de golden”.
Não vou perder tempo aqui dizendo que feministas não são mulheres que não se depilam, não usam soutien e não transam. Primeiro porque ser feminista não tem a ver com ser mulher, tem a ver com ser humano. Segundo porque nunca entendi que raio que os pelos têm a ver com posicionamentos ideológicos. Terceiro porque soutien serve para sustentar peitos, não para sustentar ideias. E quarto porque eu já vi gente deixar de transar por causa da igreja, por causa de promessa, por falta de opção, por infecção ginecológica, problemas de ereção… Mas por feminismo nunca vi. Alguém já viu?
Enfim. Acho que ser feminista não é bom ou ruim. Ser feminista é necessário. Uma vez ouvi uma amiga dizer “a mulher que diz que nunca foi discriminada é apenas uma mulher muito distraída”. É simples assim. Não precisamos ir até o Oriente Médio. Não precisamos ir até tribos africanas. Não precisamos ir ao sertão do nordeste. Não precisamos ir até a periferia de São Paulo. Não precisamos sair dos nossos bairros. O machismo que limita, que agride, que marginaliza, que ofende, que diminui, mora ao lado, dorme por perto.
E agora, quem poderá nos defender? O feminismo. O mesmo feminismo que nos tornou civilmente capazes e independentes perante a lei. O mesmo feminismo que nos possibilitou votarmos e sermos votadas. O mesmo feminismo que segue lutando diariamente por uma sociedade mais justa para mulheres, homens, mães, pais, filhas, filhos, trabalhadoras e trabalhadores.
No século XIX, as brilhantes irmãs Brontë escreviam através de pseudônimos masculinos por saberem que suas obras não seriam aceitas na sociedade se soubessem que as autoras eram mulheres. Se não fosse o feminismo eu provavelmente também não estaria escrevendo aqui neste momento. Pelo menos não como Ruth.
Nós precisamos falar sobre feminismo. Com nossos amigos, nossos pais, nossos filhos, grandes ou pequenos. É hora de falar sobre igualdade entre meninos e meninas. É hora de falar que meninas podem jogar bola e ter carrinhos e que meninos podem cuidar de bonecas. Quem não quer ter um filho feminista? Quem não quer que eles vivam num mundo de igualdade, no qual nem meninos nem meninas sejam massacrados pela truculência do machismo?
Nesse domingo, o tema da redação do Enem foi a violência contra a mulher. Milhões de jovens tiveram que parar para pensar sobre isso. Que avanço lindo. Pensar é sempre o primeiro passo. Perceber que a questão existe, que o tema não é antiquado e que, infelizmente, as questões de gênero estão muito longe de serem superadas. A violência persiste, a discriminação no ambiente de trabalho persiste, a desigualdade salarial persiste, a discriminação com as tarefas domésticas persiste, as pequenas (e não menos graves) agressões machistas do dia a dia persistem. Então a luta tem que persistir.
O feminismo não é de esquerda nem de direita. Não é só para mulheres nem é só para homens. Não é ameaça. Não é um estranho. Mas perceba que quando você trata os feministas na terceira pessoa do plural, excluindo-se deste rol, você está afirmando não fazer parte do grupo que prega a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Pense bem de que lado você quer estar.
Se você percebeu que é feminista, fique tranquilo. Nós não contaremos para ninguém. Mas, sabe? Se eu fosse você, eu sairia contando para todo mundo. Porque ser feminista é lindo, é importante, é sinal da inteligência e da decência de qualquer ser humano. Como diz o lindo livrinho da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (leiam, ele é pequenino e indispensável): Sejamos todos feministas. E o mundo será melhor a cada dia. Pode apostar.”
- Ruth Manus



