Quem entrasse na sala da nossa casa naquele momento não acreditaria no que via. Ali estava a Tônia Carrero, atriz de cinema, teatro e televisão, uma das mulheres mais admiradas do Brasil pelo talento e a beleza, de quatro sobre o tapete demonstrando um exercício para a coluna que recomendava a todos.
Nada representava melhor o que era a Tônia do que aquela cena: sua informalidade, seu cuidado com o próprio corpo e sua preocupação com os amigos — mesmo que nenhum amigo sequer tentasse imitar sua ginástica.
A Tônia nunca deixava de nos visitar quando passava por Porto Alegre. Às vezes se hospedava conosco, e sua chegada era sempre uma festa. No mesmo dia em que ficara de quatro para nos animar a fazer exercícios ela passara um bom tempo dando uma aula de maquiagem à cozinheira.
Talvez nenhuma outra grande atriz brasileira tenha se destacado como Tônia tanto pela beleza quanto pelo currículo artístico.
A beleza de Tônia era fulgurante e a sua longa carreira teatral incluiu comédias antológicas e clássicos e dramas importantes que ela abrilhantou com sua versatilidade e aquela voz inesquecível. Decididamente, não é apenas um rosto bonito.
Tônia Carrero, a Mariinha como a chamam os amigos, está fazendo 90 anos.
Olha aí, Mariinha: o meu abraço inclui os de todo o mundo aqui em casa. Inclusive dos que já se foram.
ENFADO
“Enfadonho” é uma grande palavra. Nada descreve melhor uma coisa assim, assim... Enfim, enfadonha — do que a palavra “enfadonha”. Se você disser que alguém é enfadonho está descrevendo-o com exatidão. Enfadonho não é exatamente chato, tedioso, cansativo. Enfadonho é enfadonho, a palavra está dizendo.
Por exemplo: o enorme voto do relator no julgamento do mensalão foi enfadonho — e ominoso, outra boa palavra. Pelo seu tamanho, o voto do relator já estava pronto e as defesas não fizeram a menor diferença no seu conteúdo.
Os votos dos outros ministros não serão tão grandes, mas presumivelmente já estavam prontos antes das defesas. Os advogados de defesa não só disseram o óbvio — ninguém sabia de nada, o dinheiro era para caixas 2, etc — como falaram em vão.
A não ser que dê alguma briga de soco entre os ministros — “Data vênia: paft!” — será tudo muito enfadonho até o final.
Luís Fernando Veríssimo






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