O pluralismo de araque do Roda Viva
agosto 20, 2012 21:00 - no comments yetNão se espere do Roda Viva nenhuma veleidade de aprofundar a discussão sobre a deficiência, nem que saiba diferenciar a luta pela inclusão das visões estereotipadas difundidas.
Se Mário Sérgio Conti buscasse um mínimo de seriedade na discussão, se não o dominasse o espírito de patota, a entrevista traria pensamentos divergentes não apenas no campo jornalístico, mas no da inclusão - tema que o entrevistado passou a recorrer como forma de legitimar sua atuação jornalística, eximindo-a de abusos recorrentes.
TV Cultura "veta" participação do redator-chefe da revista Trip no 'Roda Viva'
Convidado para participar do 'Roda Viva' desta segunda-feira, 20, o criador do blog 'Falha de São Paulo' e redator-chefe da revista Trip, Lino Bocchini, foi "vetado" do programa. De acordo com as informações do jornalista, a emissora informou que ele tinha sido cortado da lista nesta manhã. A exibição, que foi ao ar às 22h, entrevistou Diogo Mainardi, ex-Veja.
| Bocchini não participou do 'Roda Viva' desta segunda-feira (Imagem: Arquivo pessoal) |
Ao Comunique-se, o jornalista explicou que na última sexta-feira, 17, recebeu formalmente o convite para participar do programa e o livro de Mainardi, que será abordado como tema durante o encontro. Além disso, na segunda-feira pela manhã a produção confirmou o carro que o pegaria na revista Trip. "Logo depois me ligaram dizendo que tinham cancelado a minha participação, pois o programa só poderia ter cinco participantes. Então questionei, pois na lista só tinha cinco mesmo".
No release divulgado pela TV Cultura, o nome de Bocchini aparece junto de outros quatro profissionais - Rodrigo Levino, editor-assistente do caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo; Rinaldo Gama, editor do caderno Sabático, do jornal O Estado de S. Paulo; Michel Laub, jornalista e escritor; e Mona Dorf, colunista do portal IG.
O redator da Trip conta que, logo depois, o nome de Joyce Pascowitch foi cotado para participar da atração. "Me senti desrespeitado e pedi para que alguém do canal me ligasse", contou. O apresentador do 'Roda Viva', Mario Sergio Conti, entrou em contato com o jornalista da Trip e explicou que, para a entrevista de hoje, Joyce "seria mais adequada" e deixaria o encontro mais plural.
Bocchini, em parceria com o irmão, é criador do blog Falha de S.Paulo, que foi censurado pela Folha de São Paulo há dois anos. À época, o site fazia crítica bem-humorada do conteúdo publicado pelo jornal e foi tirado do ar por meio de uma liminar que cassou o domínio registrado. Depois do caso, os irmãos criaram o 'Desculpe a nossa Falha', onde o caso é explicado com detalhes.
O Comunique-se falou com a TV Cultura, que confirmou a troca de jornalistas para o programa de hoje, mas não informou os motivos.
Do Blog Manual da Midia Legal - de agosto de 2003MANUAL DA MÍDIA LEGAL 2 - www.escoladegente.org.br
Esse manual traz, entre outros textos, a análise de matérias que abordam de maneira inadequada pessoas com deficiência e outras minorias.
Título: Estou com os paraplégicos, Revista Veja (Coluna Diogo Mainardi), 06 de agosto de 2003
Trechos analisados
Trecho 1: (...) E foi ainda mais longe em Os Vingadores Aleijados, no qual um cego, um surdo-mudo, um perneta e um deficiente mental se unem para enfrentar uma seita de guerreiros sádicos. É meu filme predileto.
Trecho 2: A televisão não mostra a Paraolimpíada. Se mostrasse, eu passaria o dia inteiro grudado nela. É o evento esportivo mais entusiasmante que há. E, contrariamente ao que acontece nas Olimpíadas, o Brasil não passa vergonha.
Trecho 3: Uma vitória na Paraolimpíada é mais honrosa para um país do que uma vitória em qualquer outra competição. Eu sou do time dos paraplégicos
Análise dos universitários
Trata-se de um artigo em que não se consegue entende com clareza qual é a perspectiva defendida pelo colunista. Parece que procura enaltecer, supervalorizar tudo o que se refere à pessoa com deficiência. Entretanto, ele acaba difundindo uma postura preconceituosa. Juliana, Direito
O texto é, do início ao fim, preconceituoso. Tem uma abordagem cruel de um assunto relevante (...) Fala que uma medalha de ouro conseguida por um atleta com deficiência é mais honrosa. Por quê? Fábio, Jornalismo
Na tentativa de defender a posição de igualdade em relação às pessoas com deficiência e valorizar os esforços delas, o colunista acaba tomando uma postura radical, que cria uma espécie de discriminação ao avesso (...) Thais, Direito
O texto associa a cegueira à idéia de incompetência. O autor passa a impressão de que um filme protagonizado por um personagem com deficiência deveria ser necessariamente cômico (...) Estimula as pessoas com deficiência a praticarem artes marciais como uma forma de defesa ao preconceito que sofrem, solução que não ajuda e aumenta as chances de segregação (...) Bárbara, Direito
O articulista satiriza a questão da deficiência. Confunde conceitos como faz no trecho em que fala do filme Vingadores Aleijados, no qual um cego, "um surdo-mudo", um "perneta" e um deficiente mental se unem. Ele junta diferentes deficiências numa classe de "aleijados". Mariana, Jornalismo
O colunista manifesta um descaso sobre as pessoas com deficiência. Apesar de aparentemente estar tentando ser solidário com o problema da deficiência, ele continua contribuindo para a exotização das pessoas com deficiência, utilizando um tom de sarcasmo em sua coluna. Yuri, Direito
Comentário da Escola de Gente
O que há de equivocado em se acreditar que as paraolimpíadas são o evento esportivo mais entusiasmante que existe? Nada, desde que para defender seu ponto de vista o articulista não se mostrasse tão preconceituoso em relação a pessoas sem deficiência.
Não existiria uma outra forma de valorizar pessoas com deficiência que não fosse desmerecendo pessoas sem deficiência? Isso fica claro na frase "uma vitória na paraolimpíada é mais honrosa para o país do que uma vitória em qualquer outra competição." Por quanto tempo perpetuaremos a prática de compararmos condições humanas?
Página 37
Não é hora de nos soar ultrapassado o hábito de se dividir a humanidade em dois blocos homogêneos de pessoas, os com e os sem deficiência? É justamente essa prática que a "ética da diversidade" se propõe a combater.
O que existe entre um homem gordo e um magro? O mais ou menos gordo ou o mais ou menos magro? Entre um homem gordo em um magro existe uma infinidade de formas humanas que, sob a ótica da diversidade, não representam, jamais, a média.
Anote
Use "surdo" e não "surdo-mudo". Existem múltiplas formas de comunicação entre seres da nossa espécie, sendo impossível compará-las como "a mais humana" ou "a menos humana". O fato de a maioria das pessoas "falar pela boca" não nos dá o direito de considerar esta forma de expressão como a única valorizada, ou seja, o modelo. Esta é uma visão que favorece a comparação entre condições humanas. Para uma pessoa surda é difícil falar o português, sendo natural que opte pela língua de sinais brasileira (Libras). Neste caso, ela não é muda, apenas surda.
Comentário do Ministério Público
Por Eugênia Augusta Gonzaga Fávero, Procuradora da República e Procuradora Regional dos Direitos do Cidadão no Estado de São Paulo.
"O papel aceita tudo" é um ditado comum, mas a mídia não deveria fazer o mesmo. Se o autor do texto queria elogiar as Paraolimpíadas, incentivar a prática de esportes por pessoas com deficiência, ele poderia fazer isso de outra forma, sem usar termos estigmatizantes e altamente refutados pelos movimentos sociais: "maneta", "aleijados", "surdo-mudo", "perneta", "paralisado cerebral"...
O conteúdo do texto dá a impressão de que o autor se diverte muito e acha engraçada a performance das pessoas com deficiência, dando mais a sensação de ironia do que de qualquer outra coisa.
Em termos de Direitos Humanos, pensamos que as Paraolimpíadas deveriam ser reestruturadas de forma que os atletas com deficiência pudessem participar das Olimpíadas, bastando que houvesse modalidades específicas, computando-se suas medalhas juntamente com todas as outras obtidas pelos países. Penso que, no futuro, é isso que vai acontecer e as pessoas gostarão de assistir a todas as cenas, mas não por um interesse à beira de níveis doentios, mas por saberem que a espécie humana é definida pela diversidade.
Contra o autor do texto, caberia pelo menos uma ação por dano moral por parte dos grupos que se considerassem ofendidos. Com relação ao veículo, pelo menos um pedido de direito de resposta, em igual espaço e destaque.
Luis NassifNo Advivo
Paulo Preto avisa: “Vou falar tudo”
agosto 20, 2012 21:00 - no comments yetConvocado a depor na CPI do Cachoeira no dia 29, o ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, afirmou que não vai pedir habeas corpus à Justiça e que está disposto a responder às perguntas dos parlamentares. Paulo Preto deixou a Dersa - estatal paulista, governada pelo PSDB encarregada das rodovias - em abril de 2010. "Vou falar tudo o que eu desejo falar desde 2010 para cá", afirmou
Paulo Preto teria desviado doações recebidas pelo PSDB para campanha de José Serra quando foi candidato a Presidência. Reportagem publicada na Revista IstoÉ, afirma que Paulo preto "fugiu com R$ 4 milhões" que seriam usados na campanha de Serra. Paulo Vieira de Souza assumiu a Diretoria de Engenharia da Dersa durante a gestão do tucano no governo do Estado.
O ex-dirigente indicou que ficará na defensiva em relação a acusações feitas pelo ex-diretor do Dnit Luiz Antonio Pagot. Pagot disse à revista IstoÉ ter ouvido de um procurador de uma empreiteira que dinheiro de obras do Rodoanel teria sido desviado para uso em campanha eleitoral de José Serra.
"Pelo que conheço da personalidade do Pagot, ele vai falar sobre os esquemas de arrecadação", avaliou Vieira de Souza, que vai à CPI um dia depois do ex-diretor do Dnit.
Autor de uma das frases mais marcantes da eleição de 2010, Paulo Preto mandou recado para José Serra (PSDB) -: "Não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada" disse Paulo Preto, em referência ao fato de Serra ter dito que não o conhecia após o debate em que seu nome foi citado - No dia seguinte, José Serra lembrou de Paulo Preto e definiu-o como um engenheiro competente.
Até agora, 'CPI do Silêncio'
Em funcionamento há quatro meses, a CPI do Cachoeira transformou-se na CPI do Silêncio, onde impera o mutismo dos envolvidos com o esquema do contraventor Carlos Augusto Ramos.
Dos 32 depoentes, apenas 13 falaram. Em geral os que tinham pouco a dizer. A lei do silêncio em vigor é fruto de acordo entre governistas e oposição, que decidiram pela dispensa de depoentes com habeas corpus para ficar calados.
A estratégia teve como objetivo poupar futuros depoentes, como Fernando Cavendish, principal acionista da Delta, que só vai depor no dia 29. "Vai ficar muito ruim para esta CPI o senhor Cavendish ficar calado", diz o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). "O mais importante são as provas técnicas e não os depoimentos", rebate o presidente da CPI, Vital do Rêgo (PMDB-PB).
Para o relator, Odair Cunha (PT-MG), o fato de o depoente não falar sinaliza seu envolvimento com Carlos Cachoeira. Mesmo diante da falta de avanços na investigação, a CPI deve acabar até 4 de novembro. Cunha já começou a alinhavar o relatório, que pretende apresentar entre o primeiro e segundo turnos da eleição, provavelmente no dia 16 de outubro. No relatório, Cunha deverá propor ao Ministério Público o indiciamento do governador tucano Marconi Perillo (GO) e do prefeito de Palmas, Raul Filho.
Saiba mais
Em fevereiro de 2012, a operação Monte Carlo, da Polícia Federal, revelou as íntimas relações do bicheiro Carlos Cachoeira com políticos, tanto da oposição como da base aliada.
O senador goiano Demóstenes Torres (ex-DEMo), figura de proa da oposição, foi o primeiro atingido. Visto como um dos mais combativos políticos do Congresso, usava sua influência e credibilidade para defender os negócios de Cachoeira. Acabou cassado.
Os grampos da PF também complicaram parlamentares de pelo menos seis siglas (PSDB, PP, PT, PTB, PPS e PCdoB), governadores e a Delta, de Fernando Cavendish, empreiteira com maior número de obras no PAC. As revelações levaram à abertura de inquéritos no Judiciário e à constituição da CPI.
No Blog de Um Sem-MídiaDespreparo de Joaquim Barbosa pode causar nulidade do julgamento
agosto 20, 2012 21:00 - no comments yet
O advogado Marthius Sávio Lobato, defensor do ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato no processo do mensalão, afirmou nesta terça-feira (20) que o voto do ministro relator pode causar uma nulidade no processo.
Apesar de ainda não ter concluído seu voto a respeito dos crimes de peculato, corrupção e lavagem de dinheiro a partir de desvio de recursos do banco, o ministro Joaquim Barbosa dá indícios de que condenará Pizzolato.
Para Lobato, o ministro está julgando seu cliente com base em algo que não constava da denúncia feita pelo Ministério Público. "A denúncia se baseou em o fundo Visanet ser eminentemente público, e nós [defesa] provamos que ele é privado. No voto, o ministro vem dizer que, independentemente de ser público ou privado, houve o crime de peculato", afirmou.
Segundo o advogado, essa mudança prejudica a defesa de Pizzolato. "Como isso não constava da acusação, não pudemos fazer a nossa defesa em relação a um fundo privado e a existência do crime de peculato". Ele afirmou que isso pode gerar uma nulidade no processo, por cerceamento de defesa.
Lobato apontou ainda uma "predisposição" de o ministro Joaquim Barbosa votar pela condenação dos réus. "De certa forma, ele está sendo mais eficiente do que a acusação. Foi muito mais pontual do que a acusação, principalmente quando a acusação afirma de uma forma e ele altera para julgar de outra", disse.
Sobre a Petrobras
agosto 20, 2012 21:00 - no comments yetA Petrobrás com Graça e Gabrielli
Suely Caldas - O Estado de S.Paulo
Alvo de críticas e ataques à sua gestão, o ex-presidente da Petrobrás (sic) José Sérgio Gabrielli veio a público se defender, em entrevista publicada neste jornal na quarta-feira. A mudança de diretores e a revisão de metas irrealistas e de investimentos apresentados por sua sucessora no plano estratégico da empresa (na verdade, um choque de realidade) suscitaram dúvidas em relação à sua gestão. Acusado de deixar esqueletos que Graça Foster começa a desmanchar, o futuro candidato do PT ao governo da Bahia decidiu falar e dar sua versão sobre os fatos. Não convenceu.
Nem poderia. Sua candidatura morreria antes de nascer, se ele identificasse a verdadeira causa dos problemas: a intensa crise de confiança vivida pela estatal, sobretudo nos oito anos do governo Lula, dos quais Gabrielli esteve à frente da gestão por cinco anos e meio. Essa crise, que atende pelo nome de "interferência política nos negócios", produziu um custo muito alto para a Petrobrás (sic) e seus acionistas e frustrou os brasileiros com o orgulho pela empresa abalado.
Um breve resumo dos estragos: entre agosto de 2008 e dezembro de 2011, o valor de mercado da Petrobrás (sic) caiu de US$ 303,6 bilhões para US$ 155,4 bilhões, um tombo de quase 50%. Recentemente, ela perdeu para a colombiana Ecopetrol o título de maior empresa da América Latina. Desde 2010, perdeu para a Vale outro título, o de maior exportadora do Brasil. E, no balanço do trimestre abril/junho, amargou o primeiro prejuízo em 13 anos.
Feitos também ocorreram na gestão Gabrielli. Afinal, com competência técnica, geólogos e engenheiros escreveram e continuam escrevendo uma história de sucesso para a Petrobrás (sic) ao longo de seus 58 anos. O maior feito foi a descoberta de jazidas gigantes de óleo por onde se estende a rocha salina do pré-sal. Na verdade, a presença de óleo abaixo da rocha já era conhecida dos geólogos desde 2001. O desconhecido era ali existirem reservas gigantescas e que começaram a ser dimensionadas em 2006.
Mas a marca da ruinosa interferência política nos negócios da estatal começou a surgir depois que Lula tomou posse, em 2003. Aliás, o ex-presidente não se preocupou em esconder sua intenção, escancarada no episódio da demissão do físico Luiz Pinguelli Rosa da presidência da Eletrobrás: "Que me desculpe o Pinguelli, mas ele não tem um só voto no Senado", justificou Lula. E o substituiu por Silas Rondeau, apadrinhado do senador José Sarney.
Nas diretorias da Petrobrás (sic) fez o mesmo. Partidos da base aliada aliciavam funcionários da estatal e Lula os nomeava. Abortado o mensalão em 2005, Lula reforçou o uso de cargos públicos na barganha com a base aliada. Fez isso com todas as estatais. O resultado em desvios de dinheiro e outras práticas corruptas pode ser percebido pela faxina que Dilma Rousseff apenas começou.
Depois que Graça Foster anunciou a revisão do plano estratégico e trouxe números, metas e investimentos à realidade, as ações da Petrobrás (sic) reverteram a queda na Bovespa e começaram a valorizar. Mesmo depois de anunciado o prejuízo de R$ 1,346 bilhão do balanço.
A substituição de diretores políticos por funcionários escolhidos por mérito; o reconhecimento no balanço da sangria (não revelada por Gabrielli) de R$ 2,7 bilhões aplicados em 41 poços secos ou improdutivos; o reajuste de preço de derivados há anos congelados e fonte de prejuízos crônicos; e o adiamento ou cancelamento de investimentos políticos, cuja localização Lula definia com governadores amigos, são fatos concretos que Graça Foster apresentou ao mercado - com o compromisso de não repeti-los - para tentar derrotar a crise de confiança, a descrença em relação a uma gestão de qualidade técnica no futuro e que contribuíram para valorizar os papéis da estatal.
Com o respaldo de Dilma Rousseff, Graça tem sinalizado que vai resistir às demandas de interesses e maus negócios propostos por partidos aliados do governo. Resistência que Gabrielli não mostrou. Pelo contrário, em 2006, ele próprio apareceu em programa televisivo do PT aproveitando-se do cargo de presidente da Petrobrás.(sic)
JORNALISTA, É PROFESSORA DA PUC-RIO E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR
* * *
Carta-resposta de José Sérgio Gabrielli a Suely Caldas
Prezado Editor,
Prezada Suely Caldas
Respeitando inteiramente seu direito de opinião, gostaria também de ter direito de discordar e emitir minha opinião contraria sobre o artigo assinado e publicado no Estado de São Paulo de hoje, 19/08/2012, pagina B2, em que sou mencionado várias vezes.
De acordo com Suely Caldas, parece que a Petrobras viveu uma intensa crise de confiança, durante os oito anos de gestão de Lula na presidência da Republica e o tempo que fiquei na direção da Petrobras. O preço de um titulo PBR, equivalente a ações da empresa no mercado de NY, saiu de 3,67 dólares em 31/12/2002 para 55,31 dólares em 1/08/2008, aumentando 15 vezes, até que veio a crise de 2008. Mesmo depois da crise, em finais de 2011, o valor da PBR era US24,67, o que equivalia a 6,7 vezes o seu valor de antes do tempo em que a equipe indicada pelo presidente Lula assumisse a direção da companhia em 2003.
Ela diz que entre Agosto de 2008 e Dezembro de 2011 o valor de Mercado da Petrobras caiu quase à metade devido, segundo ela, a “interferência política nos negócios”(sic). De acordo com a nossa prestigiada analista econômica e politica essa seria a principal causa da “intensa crise de confiança vivida pela estatal”.
Vamos aos fatos:
1. A chamada crise não parece se manifestar na opinião dos analistas do mercado financeiro que acompanham a Petrobras. De acordo com a empresa, no seu site público, nenhum, repito nenhum, dos analistas de 21 corretoras que negociam ações no Brasil e das 18 que negociam no exterior, recomenda a venda de ações da empresa. Nenhum analista!
2. No mesmo período mencionado pela autora o valor do real caiu de 1,55 reais por dólar para 1,87 reais por dólar. A conta da Doutora Suely Caldas deixaria de ser uma perda de valor de mercado em dólares de 48,8%, para ser uma queda de 38% do valor de mercado em reais. Esses 10% de diferença não têm nada a ver com a causa suposta pela autora.
3. O preço do petróleo internacional, elemento fundamental para a precificação do valor de mercado das empresas petrolíferas, estava em 124,1 dólares em final de julho de 2008, caiu para US$35,82 em finais de dezembro de 2008, atingindo 108,9 dólares em dezembro de 2011, o que significa uma perda de 12% de valor internacional do barril de Brent associado a variação dos preços externos. Não me consta que o preço internacional do barril de petróleo tenha a ver com a interferência política de Lula na Petrobras.
4. Todas as empresas do mercado de ações do mundo sofreram perdas decorrentes da crise financeira posterior a queda do Lehman Brothers, que pediu concordata em 15/09/2008. Isso também não foi causado por influencias politicas na Petrobras.
5. A comparação com a Ecopetrol e com a Vale é uma mistura de empresas completamente dispares em seus ciclos. A Ecopetrol, uma empresa colombiana com forte base em petróleo onshore, iniciando seu processo de entrada no mercado de capitais e a Vale, uma grande exportadora de minério de ferro, que tem seu valor altamente correlacionado com o preço dessa mercadoria, com vendas internas muito pequenas em relação ao seu faturamento total. O movimento dos seus valores de mercado têm muito mais relações com o momento do ciclo de cada uma de suas mercadorias em relação ao Petróleo, do que a comparação entre as gestões das empresas.
6. Foi o ciclo de expansão das expectativas sobre as perspectivas de crescimento da produção offshore da Petrobras a principal razão do descolamento do crescimento de seu valor de mercado anterior a 2008. A grande valorização o anterior à crise, a enorme capitalização (a maior da história do capitalismo) da empresa em 2010 e o melhor conhecimento sobre as realidades do gigantesco potencial do pré-sal ajustaram as expectativas e colocaram ancoras na elevação do valor de suas ações, durante a recuperação pós Lehman Brothers. Nada disso foi influência da política brasileira.
7. Segundo a Doutora Suely Caldas os efeitos da “ruinosa interferência política”(sic) do Presidente Lula sobre a Petrobras foram muito nocivos para a empresa. De acordo com apresentação da Presidente Graça Foster, no 13o. Encontro Internacional da FIESP, em 7/08/2012 o Brasil cresceu sua produção de petróleo de 73% de 2000 a 2011, durante o período nefasto à la Suely Caldas, contra um crescimento mundial de 12%. A produção de gás cresceu 61% contra 36% do mundo, as reservas cresceram de 73% contra 38% do mundo.
8. Entre 2000 e 2011, o Brasil cresce 729% de capacidade de geração de energia a Gás Natural, 124% a energia a óleo e atinge 1,3 mil MW de capacidade de geração de energia eólica. Em todo esse crescimento, o papel da Petrobras foi fundamental.
9. A Petrobras construiu parcerias com mais de 120 universidades e centros de pesquisa no Brasil, pais que está vivendo uma extraordinária expansão do seu mercado de derivados de petróleo. Durante o período “ruinoso” segundo a autora do artigo, de Lula e da Presidenta Dilma, de 2000 a 2011, o mercado de combustíveis, que vinha de uma longa estagnação, se acelera. De acordo com dados da presidente Graça, a demanda de gasolina subiu 49% no período, contra uma expansão mundial de apenas 15%. No diesel, a diferença entre o Brasil e o mundo é de 43% a 29%, no QAV foi de 53% e -2%. Crescimento econômico, distribuição de renda e boa politica econômica sob o comando dos dois presidentes é o que explica essa diferença.
A Doutora Suely Caldas perdeu a objetividade por causa de seus preconceitos ideológicos. Como toda boa jornalista ela deveria pesquisar um pouco para informar aos seus leitores que, durante os nove anos em que estive na Diretoria da Petrobras, o numero de mudança de diretores foi das menores da história da empresa e sempre com profissionais com reconhecida competência em suas áreas de conhecimento. Eu substitui o presidente Dutra, depois de quase três anos de Diretor Financeiro, o diretor Paulo Roberto substituiu o diretor Manso no Abastecimento, a atual presidente Graça Foster substituiu o diretor Ildo Sauer na Diretoria de Gás e o diretor Zelada substituiu Nestor Cervero na Internacional. Foram somente essas trocas de comando nos nove anos em que estive na direção executiva da maior empresa da América Latina, em um período em que ela viveu extraordinário crescimento.
Todos podem ter a ideologia que quiser. O que o jornalista deve evitar é ser contaminado pela sua e perder a objetividade.
Despedindo-me
Atenciosamente
Jose Sergio Gabrielli de Azevedo
Secretario do Planejamento do Estado da Bahia, professor titular licenciado da UFBa e ex-CEO e ex-CFO da Petrobras.








