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A resposta do capitalismo ao coronavírus é um forte argumento para o socialismo

April 9, 2020 16:52 , by Luíz Müller Blog - | No one following this article yet.
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Enquanto bolsas de valores caem e o desemprego cresce, fica óbvio que não só os humanos, mas nosso sistema econômico, são muito suscetíveis a uma pandemia global.

Por Zeeshan Aleem; Traduzido por Marina Schnoor

Reproduzido de VICE

Como em qualquer crise, o novo coronavírus – que já tirou mais de 86 mil vidas no mundo até esta quarta-feira – tem sido esclarecedor e revelador. Um dos problemas mais óbvios que ele mostrou nos EUA é o tamanho da podridão da administração Trump. Mesmo depois de três anos de Trump na Casa Branca, ainda foi chocante descobrir como ele desmantelou ferramentas administrativas necessárias para nos preparar para este momento, e depois vê-lo discursar em público com mentiras e desinformações, se recusar a ajudar governadores que não são legais com ele, e se gabar de como o número de espectadores de suas declarações sobre o coronavírus rivalizam com o Monday Night Football. Bem parecido com Bolsonaro no Brasil, né, minha filha?PUBLICIDADE

Mas essa pandemia também tem funcionado como um exame de ressonância magnética, revelando em detalhes impressionantes os órgãos desfigurados e doenças sistêmicas de nossa política econômica – as condições subjacentes que resultaram na liderança vergonhosa de hoje. Enquanto bolsas de valores caem e o desemprego atinge uma velocidade sem precedentes, fica claro que não só os humanos, mas também nosso sistema econômico, são muito suscetíveis ao vírus.

Imobilidade é letal para uma economia capitalista. Essa vulnerabilidade do nosso motor econômico é o motivo para o Partido Republicanos ter abandonado suas odes ao individualismo e autossuficiência, e emergir como um defensor dos grandes governos em questão de semanas. Republicanos estão felizes em distribuir auxílios do governo, liderar a maior medida de estímulo da história americana moderna, e aprovar testes médicos gratuitos. Trump tinha criticado o Defense Production Act, que exige que empresas privadas deem prioridade para qualquer pedido federal de produtos, como uma política socialista – depois foi em frente e o usou.

Para evangelistas do liberalismo – capitalismo laissez faire -, a coisa ficou séria. Nos EUA, o pacote de US$ 6 trilhões em empréstimos e subsídios para corporações, negócios e indivíduos tem mostrado que a questão nunca foi se o governo americano podia gastar muito dinheiro com as deficiências de uma economia de mercado, mas se aqueles no poder querem fazer isso. Se o senador Mitt Romney (republicano do Utah), um ex-executivo de capital privado que uma vez caracterizou 47% dos americanos como parasitas vitimistas do governo, está liderando os esforços para distribuir cheques incondicionais para americanos, então os republicanos confessaram que seu argumento de que é ruim para a economia ajudar os americanos comuns era só um ardil.

É preciso uma crise que atinge sem piedade todas as classes, raças e geografia – e amedronta muita gente num nível visceral – para revelar quanto do que pensamos sobre dinheiro, serviços e quem os merece não é apenas um cálculo econômico técnico, mas também moral e político. O político que tem demonstrado ter a melhor noção dessa realidade é o senador Bernie Sanders, que agora desistiu de se tornar o indicado à presidência pelo Partido Democrata, mas cuja busca pelo socialismo democrático nos EUA é mais atraente que nunca.

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Atualmente, republicanos e democratas dos EUA estão fornecendo alguma ajuda para pessoas comuns. Mas o foco é ajudar as corporações, e as medidas deles são inteiramente inadequadas para lidar com quão ruim as coisas estão ficando e como vão piorar em breve. As ideias de democracia social que Sander defende – coordenação governamental para a produção de suprimentos essenciais, saúde pública para todos e ajuda econômica tão generosa para as pessoas quanto para as grandes corporações – é o que é necessário para lidar com os problemas subjacentes agravando esta crise. Os céticos sobre o pedido de Sanders por uma revolução devem notar que essa agenda não é apenas mais justa para os despossuídos – ela beneficiaria todas as pessoas mais igualmente, e protegeria de maneira mais eficiente a economia de mercado.

Escassez de equipamento de proteção pessoal e suprimentos sanitários demonstraram as limitações do mitológico poder da “oferta e procura” para atender as necessidades numa crise urgente. Médicos de todo os EUA estão trabalhando sem máscaras e proteção para os olhos apropriadas, enfermeiros são obrigados a usar sacos de lixo como uniforme, e hospitais estão demitindo profissionais de saúde por reclamar dessas condições. Hospitais, que reduziram sua oferta de leitos em 40% nos anos 1980 e 90 para aumentar os lucros, agora não têm capacidade para lidar com o fluxo de pacientes. Para pessoas comuns, álcool gel e suprimentos de limpeza são quase impossíveis de encontrar, um problema exacerbado por acumuladores e aumento nos preços dos produtos mais buscados.

Em vez de esperar pela mão invisível do mercado resolver essa zona, esses problemas podem ser mitigados pela produção direcionada pelo governo de suprimentos, algo que os EUA já usou em tempos de guerra. Curiosamente, enquanto a administração Trump usou o Defense Production Act centenas de milhares de vezes para propósitos militares, o país sempre usou essa lei poderosa de maneira relutante e muitas vezes tarde demais. Pior ainda, Trump está focando apenas em ventiladores e máscaras até agora, e parece que ele não alistou empresas suficientes para atender a demanda que cresce rapidamente.

“O Defense Production Act dá ao presidente uma gama de autoridades que ele até agora não escolheu empregar totalmente”, disse Todd Tucker, diretor de estudos de governança do Roosevelt Institute. “Por exemplo, ele poderia apontar os chefes da Ford, General Motors e General Electric para gerenciar diretamente fabricação para o setor público como empregados do governo. Ou poderia usar os poderes de alocação do DPA para converter todo o setor de fabricação para uma resposta de crise.”

Trump poderia estar usando a lei para coisas como aventais hospitalares, luvas, produtos de limpeza, testes de coronavírus, medicação crucial que está rapidamente se esgotando, e mais. O governo federal também poderia ajudar a financiar e coordenar esforços para construir hospitais improvisados e centros de testes em locais mais afetados; a China construiu alguns hospitais em Wuhan em apenas uma semana. O efeito dessa intervenção temporária não seria para abolir o setor privado, mas protegê-lo, garantindo que o vírus seja controlado mais rápido.

O coronavírus também destacou como nosso sistema de saúde privado é bárbaro, ligando renda à qualidade do tratamento e lucrando através de minimizar a cobertura, o que é um empecilho para lidar com a crise. Fazer o teste para coronavírus é grátis para todos, mas ser tratado dos sintomas não é: uma análise do Health System Tracker da Peterson-Kaiser Foundation descobriu que o tratamento para a doença respiratória que o vírus causa pode custar até US$ 20 mil nos EUA, uma estatística aterrorizante para 75 milhões de americanos que não têm plano de saúde ou têm um plano de saúde ruim, e outros milhões que agora estão perdendo seu plano quando perdem o emprego. O relatório também descobriu que pessoas nos Estados Unidos com plano de saúde ligado ao emprego terão que pagar US$ 1.300 do próprio bolso para tratamento de pneumonia, e cerca de um em cinco pacientes pode receber uma conta surpresa de fornecedores de saúde fora da rede.

Isso não é só injusto – isso vai exacerbar a crise. Um sistema de saúde que pune pessoas de baixa renda vai acabar as encorajando a ignorar sintomas, e fazer com que elas evitem procurar o sistema de saúde para fazer o teste (muitas podem não saber que é gratuito) ou se tratar dos sintomas severos em isolamento apropriado. Isso significa que pessoas sem plano de saúde provavelmente vão sofrer e espalhar o vírus. Um sistema Medicare-for-all que forneça cobertura universal gratuita e encoraje as pessoas a procurar profissionais de saúde diminuiria o risco para a sociedade como um todo.

Com a economia parando para acomodar o distanciamento social, provavelmente por muitos meses, a grande questão é: quem está recebendo mais ajuda? Nos EUA, até agora, a resposta é a América corporativa. No CARES Act, há várias assistências reais oferecidas para trabalhadores e pequenos negócios, asseguradas em grande parte pelos democratas: um aumento significativo para benefícios de desemprego, pagamentos para lares não-ricos, e pequenos empréstimos perdoáveis para companhias manterem os empregados na lista de pagamento, entre outras coisas. Mas essa ajuda não é nada comparado com o que as grandes corporações ganharam. Enquanto indivíduos e pequenos negócios receberam cerca de US$ 1 trilhão, a lei tem um fundo de subsídio de US$ 4,5 trilhões para corporações em termos muito favoráveis, como restrições limitadas para demissões e recompra de ações, e quase nenhuma supervisão.

Um governo menos preocupado com o lucro de acionistas teria investido mais agressivamente nos trabalhadores e pequenas empresas encarando um período inimaginável de volatilidade. Estamos em território não mapeado: pelo menos 10 milhões de pessoas perderam o emprego nas últimas duas semanas nos EUA, e o Federal Reserve Bank de St. Louis estima que o desemprego pode alcançar chocantes 32% – mais alto que no pico da Grande Depressão. Semanas depois do começo da crise, a indústria imobiliária estimou que quase 40% dos nova-iorquinos não vão conseguir pagar o aluguel em abril – e logo, boa parte dos EUA pode acabar na mesma situação.

O que precisamos são soluções proporcionais à crise, irrestritas por medos equivocados de gastar dinheiro demais: uma moratória total de aluguéis e hipotecasum aumento dramático nos pagamentos diretos para negócios manterem os trabalhadores recebendo; grandes pagamentos para indivíduos e famílias que sejam recorrentes e durem até a crise acabar; pacotes de licença de saúde mais robustos; e centenas de bilhões em auxílio direto para os estados, que estão de mãos atadas por orçamentos restritivos, para garantir que eles possam expandir sua rede de segurança social e empregar trabalhadores da linha de frente para lidar com a pandemia, como paramédicos, enquanto as coisas pioram. Enquanto alguns republicanos como a senadora Lindsey Graham estão preocupados em ser generosos demais com os desempregados, pode ser sábio lembrar que evitar que as pessoas se afoguem em dívidas, gastar dinheiro na nossa economia dependente de consumo, e manter os empregos em primeiro lugar, é o melhor jeito de proteger a economia de mercado que eles gostam tanto de fetichizar.

Socialistas como o senador Bernie Sanders e a representante de Nova York Alexandria Ocasio-Cortez têm sido figuras-chave em agitar reformas, que meramente pressionam para que os EUA seja tão generoso com seus cidadãos comuns quanto é com grandes corporações. Isso é um testemunho de quão retrógrado o status quo é: que ideais como defender que trabalhadores tenham dinheiro para comer e receber tratamento médico, e poder tirar licença para não espalhar um vírus mortal, sejam considerados uma ideia radical. Uma luz no fim do túnel nesta crise pode ser que mais pessoas vão começar a ver essas ideias como simples bom senso.

Zeeshan Aleen é um colunista da VICE. Siga o cara no Twitter e se inscreva nanewsletter de política dele.


Source: https://luizmuller.com/2020/04/09/a-resposta-do-capitalismo-ao-coronavirus-e-um-forte-argumento-para-o-socialismo/

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