Ir para o conteúdo

Luiz Muller Blog

Voltar a Blog
Tela cheia Sugerir um artigo

Por que os evangélicos pobres estavam ausentes nas manifestações bolsonaristas?

10 de Setembro de 2021, 10:35 , por Luíz Müller Blog - | No one following this article yet.
Visualizado 16 vezes

Por Carlos Wagner no Blog Histórias Mal Contadas

Desconhecimento da imprensa sobre os evangélicos confunde o leitor. Foto: Reprodução

Como todo mundo, os evangélicos que apoiam o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), colocam gasolina nos seus carros, compram gás de cozinha, vão a supermercados, têm boletos para pagar e alguém na família procurando emprego. Portanto, sabem que os preços estão subindo como um foguete devido à inflação – por exemplo, o botijão de gás de 13 quilos já custa mais de R$ 100. E que, além da inflação e do desemprego, também preocupa o ritmo conta-gotas da vacinação contra a Covid-19, que não é só uma ameaça para a vida como um dos fatores responsáveis pela paralisia na economia. E o que os jornais estão noticiando sobre os evangélicos e Bolsonaro? Estão focados nos pastores, que pressionam o presidente pelo avanço das pautas de costumes. É sobre esse assunto que vamos conversar.

Realmente há pastores aliados a Bolsonaro preocupados com a lentidão com que avança a pauta dos costumes. Como Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória, conhecido pelo discurso de ódio às minorias nas suas pregações na TV. E Edir Macedo, da Igreja Universal e também do Grupo Record (TVs, rádios e jornais). Mas a grande massa de evangélicos, principalmente os neopentecostais, são trabalhadores de baixa renda, portanto se preocupam com os problemas que afligem a maioria dos brasileiros, como o desemprego. A imprensa precisa começar a conversar com eles para saber o que estão pensando da situação. Na semana passada tive uma conversa longa com um pastor de uma igreja neopentecostal que conheço há duas décadas e alguns anos. A igreja dele fica em uma favela por onde faço um atalho para deixar a minha filha na escola, na zona sul de Porto Alegre (RS). Nos últimos quatro meses notei que em vários casebres começaram a surgir canos de fogão de lenha. E pela manhã era possível ver a fumaça formar uma espécie de nuvem de baixa altitude, como ocorria antigamente, quando os fogões a gás eram raros por serem “coisa de rico”. Ouvi do pastor que a maioria da juventude que mora entre os crentes está desempregada porque trabalhava no pequeno comércio, que fechou as portas. “A falta de trabalho para os jovens na vila (favela) é complicada porque os pais perdem o controle e eles começam a se envolver com o que não devem”, disse o pastor.

Também conversei com os meus colegas repórteres de outros estados sobre os evangélicos pobres que apoiam Bolsonaro. A ideia geral que temos é que os trabalhadores de baixa renda estão se afastando do presidente porque problemas como desemprego e inflação estão tornando complicada a vida deles. Aqui vou fazer uma parada na história para acrescentar uma informação que considero importante. Vou citar uns números, de fontes oficiais, apenas para facilitar a conversa. Voltando à história. Vejamos: os organizadores das manifestações bolsonaristas do Dia da Independência acreditavam que conseguiram colocar 1 milhão de pessoas no ato em Brasília. Colocaram 400 mil, segundo a Polícia Militar. Em São Paulo, a previsão era 2 milhões de manifestantes. Foram 102 mil, informações da Polícia Militar. O que aconteceu? Há muitas explicações. Mas uma delas diz respeito aos evangélicos, que correspondem a pelo menos 30% dos “apoiadores raiz” do presidente da República. Muitos não foram às manifestações porque não tinham dinheiro e também por não acreditarem que a presença deles mudaria alguma coisa em suas vidas, explicou um colega de São Paulo. Tenho lido tudo que se publicou sobre a presença dos evangélicos na base de apoio do governo Bolsonaro. Lembro que faz parte do modo de agir das redações dos jornais o uso de uma única palavra para descrever uma situação como se ela fosse um fato único. Não é, na maioria das vezes. E essa maneira de informar acaba confundindo o leitor. Os evangélicos são divididos em denominações diferentes formadas de pessoas ricas, classe média e pobres. Uma coisa é o andar de cima, onde estão Malafaia, Edir Macedo os ministros evangélicos do governo, que somam seis, entre eles a pastora pentecostal Damares Alves (Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), o luterano Onyx Lorenzoni (Trabalho e Previdência Social), Marcelo Álvaro Antônio, da Igreja Cristã Aranata (ex-ministro do Turismo), e André Mendonça, pastor presbiteriano (ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo e indicado pelo presidente à vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal). Outra coisa é o andar de baixo, onde estão os trabalhadores de baixa renda que são a grande massa dos evangélicos, principalmente entre os neopentecostais.

Conheço bem a questão dos evangélicos porque um dos focos da minha carreira de repórter foram os conflitos agrários e por conta disso sempre viajei muito pelos rincões do Brasil. Na  década de 70 fiz muitas reportagens sobre a instalação das igrejas neopentecostais em regiões pobres do interior e nas favelas das cidades grandes. No início, existia entre nós jornalistas a conversa de que eles haviam sido enviados ao Brasil pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos com a finalidade de combater os religiosos seguidores da Teologia da Libertação, que defendiam a luta pela terra e a organização popular. Lembro-me que na época o mundo vivia a Guerra Fria, que tinha de um lado os Estados Unidos, capitalista, e do outro a União Soviética, socialista. E por conta disso as ditaduras militares proliferam na América do Sul. No Brasil, os militares governaram o país de 1964 a 1985. A Guerra Fria acabou, as ditaduras militares desapareceram e os evangélicos, em especial os neopentecostais, se consolidaram e cresceram. Arrematando a nossa conversa. Uma coisa são os pastores evangélicos e os seus acordos com o governo Bolsonaro. Outra coisa são os trabalhadores de baixa renda que sofrem com o caos do governo como qualquer outro brasileiro.

Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.


Fonte: https://luizmuller.com/2021/09/10/por-que-os-evangelicos-pobres-estavam-ausentes-nas-manifestacoes-bolsonaristas/

Novidades