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SeCom da Presidência pagou R$ 3,2 mi para veicular discursos golpistas e mentiras de Bolsonaro na TV Brasil

29 de Setembro de 2022, 16:29 , por Luíz Müller Blog - | No one following this article yet.
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    Do TERRA

    Em um encontro com parlamentares da base governista no Palácio do Planalto, em 27 de abril, o presidente da República e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), repetiu que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) possui uma “sala secreta” — o que é mentira. “Dá pra acreditar nisso? Uma sala secreta?”, ele questionou, para em seguida insinuar que “meia dúzia de técnicos” decidem sozinhos quais candidatos serão eleitos.

    As imagens do ato, em apoio ao deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), foram registradas por funcionários da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), estatal que faz o conteúdo da TV Brasil. As mentiras golpistas de Bolsonaro contra o sistema eleitoral trafegaram via fibra óptica e foram traduzidas por um intérprete de libras. O discurso foi transmitido ao vivo no YouTube e soma mais de 744 mil visualizações. Todos esses serviços foram executados pela EBC, custaram exatos R$ 50.172,13 e foram pagos com dinheiro público pela Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República).

      Levantamento do Aos Fatos revela que a Secom pagou R$ 3,2 milhões à EBC, entre janeiro e maio deste ano, para transmitir eventos em que Bolsonaro disseminou ao menos 287 alegações falsas e enganosas. O valor corresponde a um quarto do total repassado pelo órgão à EBC no período, que foi de R$ 12,4 milhões e inclui serviços a ministérios e a produção de conteúdos como o programa A Voz do Brasil, transmitido em cadeia nacional de rádio por determinação da lei.

      O cálculo foi feito com base em relatórios da EBC que estavam disponíveis no SEI (Sistema Eletrônico de Informações) do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) e detalham os serviços prestados. Esses documentos foram retirados do ar pelo governo em agosto e contemplam apenas o período de janeiro a maio — os referentes a junho, quando Bolsonaro organizou um encontro no Alvorada em que disseminou mentiras sobre o sistema eleitoral a diplomatas estrangeiros, não foram divulgados. Os dados foram cruzados com a base do contador do Aos Fatos de declarações checadas do presidente.

      Os valores foram gastos em serviços como transmissão ao vivo, registro de imagens, interpretação em libras, transmissão via satélite, uso de fibra óptica e uso de encoder (equipamento para transmissões ao vivo). A EBC mantém um contrato remunerado com a Secom para veicular eventos que tenham a presença do presidente e de outros membros do governo.

      Foto: Aos Fatos

      Documentos. Relatório da EBC de abril deste ano mostra gastos da Secom (Reprodução)

      Aos Fatos entrou em contato com a Secom e com a EBC na tarde de segunda-feira (26), mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.

      Em uma única tarde, no dia 14 de janeiro, a Secom gastou cerca de R$ 215 mil para transmitir ao vivo pela TV Brasil o lançamento de uma infovia do programa Norte Conectado, que tem o objetivo de distribuir internet via fibra óptica para a região Norte. Na cerimônia, Bolsonaro usou o palanque para afirmar que se elegeu presidente sem recursos, que indicou todos os ministros pelo critério técnico e que sofreu um atentado perpetrado por um militante do PSOL — todas essas alegações são enganosas.

      Já o recorde mensal no período analisado ocorreu em fevereiro, quando o Planalto pagou R$ 856 mil para transmitir eventos em que o presidente desinformou ao menos 86 vezes sobre temas como a Covid-19, o endividamento de estatais e as suspeitas de corrupção no governo.

      Ainda que sejam preponderantes as transmissões de eventos ligados ao trabalho de Bolsonaro como presidente da República, como inaugurações de obras e discursos em datas comemorativas, também foram veiculadas na TV Brasil com o dinheiro da Secom participações do presidente em eventos dissociados de sua atuação direta como chefe do Poder Executivo, como atos religiosos e encontros com o agronegócio.

      Entre janeiro e maio, o Planalto gastou R$ 423 mil para mostrar a participação de Bolsonaro:

      • em edições da Marcha para Jesus em Manaus e Cuiabá;
      • em encontros da Assembleia de Deus em Cuiabá e Goiânia;
      • em feiras agropecuárias como a ExpoZebu, em Uberaba (MG);
      • a Expoingá, em Maringá (PR);
      • a Bahia Farm Show, em Luís Eduardo Magalhães (BA);
      • a Agrishow, em Ribeirão Preto (SP);
      • e a Feibanana, em Pariquera-Açu (SP).

      Nesses eventos, todos com foco em grupos de interesse da campanha à reeleição, o presidente disseminou ao menos 27 declarações falsas e enganosas.

      MENTIRAS MAIS REPETIDAS

      Ao longo dos cinco primeiros meses deste ano, Bolsonaro usou a TV Brasil para desinformar sobre uma ampla gama de assuntos. Algumas mentiras, no entanto, se repetiram mais do que outras.

      • A principal delas, dita em 17 eventos, foi a de que não haveria corrupção no governo. Essa declaração, repetida à exaustão pelo presidente para se defender de acusações, omite que integrantes e ex-integrantes do governo são alvo de investigações e denúncias de diversos crimes ligados à administração pública. Essa é, aliás, a frase mais dita por Bolsonaro desde o início do mandato: 228 vezes, segundo o contador de declarações do Aos Fatos;
      • A segunda mais repetida nas transmissões foi a de que a Petrobras teria se endividado em R$ 900 bilhões nos governos petistas. A alegação falsa, dita pela primeira vez em 31 de janeiro deste ano, é parte de um argumento eleitoral que tenta jogar a culpa da alta dos combustíveis nas gestões de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT).

      O cruzamento mostra também que Bolsonaro não setoriza a desinformação: muitas vezes as falas enganosas não se encaixavam no tema do evento e partiam para um discurso eleitoreiro. Durante a abertura da Convenção Nacional do Comércio Lojista de São Paulo, em 13 de maio, por exemplo, o presidente disse que Adélio Bispo, autor da facada que sofreu em Juiz de Fora (MG) em setembro de 2018, seria um “psolista” e que as eleições brasileiras não são auditáveis.

      Desinformações sobre o atentado apareceram, inclusive, em sete transmissões da TV Brasil. Além de tentar imputar uma suposta partidarização ao autor do atentado, Bolsonaro também sugeriu durante uma declaração à imprensa em janeiro que o advogado de Bispo, Zanone de Oliveira, teria sido pago pela imprensa, e repetiu a mentira de que alguém tentou entrar na Câmara dos Deputados no dia do atentado para criar um álibi para o agressor.


      Fonte: https://luizmuller.com/2022/09/29/secom-da-presidencia-pagou-r-32-mi-para-veicular-discursos-golpistas-e-mentiras-de-bolsonaro-na-tv-brasil/

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