Um romance policial perfeito: “O ENIGMISTA”, de Ian Rankinby alfredomonte |
(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,em 23 de fevereiro de 2010)
Quem aprecia seriados policiais ingleses tais como Prime Suspect, Silent Witness ou Rastros da Maldade (Wire in the blood), que giram em torno de delegacias envolvidas em investigações complexas, encontrará o equivalente literário deles no ótimo O Enigmista (The Falls, 2001, em tradução de Cláudio Carina) do escocês Ian Rankin.
Em Edimburgo, a filha de um banqueiro, Flip Balfour, desaparece e dias depois é encontrada morta. Antes disso, porém, na aldeia de Falls, perto da qual a família da moça possui uma propriedade, é encontrado um caixão simbólico. Destoando da habitual tranqüilidade da cidade em termos de ocorrências policiais, esse crime mobiliza praticamente o efetivo inteiro de investigadores, entre ele John Rebus (o protagonista da série criada por Rankin, que já conta com 17 volumes), veterano com um pé no alcoolismo, dois pés na solidão, totalmente desiludido e pessimista, o qual sempre consegue se encrencar com a chefia.
Rebus, sob ostensivo descrédito, insiste em investigar a conexão que o assassinato de Flip e outros desaparecimentos e mortes, ao longo de décadas, acompanhados pelo aparecimento dos estranhos ataúdes, poderiam ter com a descoberta, no século XIX, de uma série de artefatos semelhantes na montanha de Arthur´s Seat, fato que se tornou uma espécie de lenda urbana escocesa. Ele conta com a ajuda do patologista aposentado Donald Devlin e da curadora do museu Jean Burchill, com quem se envolverá romanticamente. Ambos o levam à figura sinistra do anatomista Kenneth Lovell, cuja descendente (e candidata a patologista) Claire Benzie se torna uma das principais suspeitas do crime atual, já que guardava ressentimento contra a família da amiga Flip, de certa forma responsável pela ruína e suicídio do seu pai.
O título nacional privilegiou a segunda linha de investigação do romance, seguida por Siobhan Clarke, a qual está dividida entre ser uma policial na linha do parceiro mais velho, e portanto, permanecer meio que à margem, ou se tornar o braço-direito da recém-nomeada inspetora-chefe, que a usaria como porta-voz da polícia junto à imprensa, que acompanha avidamente o caso.
Siobhan descobrira, no computador de Flip, que ela participava de um jogo virtual comandado pelo misterioso Enigmista. Mesmo revelando-se a ele como policial, ela e o charadista iniciam um jogo engenhoso onde as pistas e etapas têm a ver com a topografia escocesa. E Siobhan começa a ficar obcecada pelo jogo, tanto que o clímax do livro é o encontro que marca, sozinha, com o Enigmista.
Será que as duas linhas de investigação levarão ao mesmo assassino?
Já tendo revelado até demais de O Enigmista, é preciso dizer que ele se destaca na produção atual do gênero pelo equilíbrio perfeito da ação, da erudição e da densidade psicológica, além da atmosfera de Edimburgo. Até sua lentidão é apropriada (nisso também lembrando aqueles seriados antológicos).É o ritmo ideal para esse tipo de mistério, sem pressa, e no entanto, nunca enfadonho. Nada falta, nada sobra.








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