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Baques, golpes, e a morte das almas

31 de Agosto de 2017, 10:23 , por segundo clichê - | No one following this article yet.
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Carlos Motta


Todos nós, humanos, sofremos, em algum período de nossas vidas, baques que machucam, desesperam, nos fazem perder a esperança, são capazes de arrancar lágrimas e soluços, ou, ao contrário, despertam a ira, o ódio, a violência.

Pode ser a morte de um parente, a perda de um emprego, a descoberta de uma traição, a derrota do time do coração, pode ser tanta coisa, pode ser apenas uma sensação indescritível de desconforto sem causa definida.

Cada um de nós é diferente do outro.

Cada um tem valores diversos, reage de modo distinto às situações que defronta no cotidiano.


Há pessoas que só pensam nelas próprias; há as que dedicam seus esforços em ajudar o próximo e desejam que todos sejam felizes.

Como as pessoas, uma nação, formada por elas, tem seus altos e baixos, seus momentos de glória e danação.

É o caso do Brasil, que hoje vive um inferno, do qual ninguém sabe de como vai se livrar.

O golpe que trocou uma presidenta honesta por uma quadrilha, que trocou uma democracia por uma cleptocracia, em um ano arrasou o país e destruiu seus sonhos de se tornar, ao menos em médio prazo, uma nação desenvolvida, com menos desigualdade e mais justiça para seus cidadãos.

Este novo golpe não segue igual àquele outro, de 53 anos atrás, mas da mesma maneira que seu antecessor, vai espalhando a incerteza e o desânimo, que vão corroendo o ânimo, o humor e a alma.

Em 1964 eu tinha dez anos e morava em Jundiaí. Minha lembrança do que ocorreu é apenas de alguma movimentação inusitada na cidade. Ou talvez eu tenha sonhado com isso. Não importa, pois ainda sinto os danos causados pela ditadura militar. Não, não sofri nenhum tipo de violência física, não participei de nenhum movimento contra o regime. 

O mal foi de outra ordem.

Meu pai era militar. Na época, com cerca de 50 anos, estava na reserva, ou reformado, não me lembro. O capitão Accioly havia escolhido Jundiaí para viver com sua família - minha mãe, eu e minha irmã. Autodidata, lia muito, gostava imensamente de política, e como o partido de seu coração estava na clandestinidade, militava no PSB. Foi até secretário do diretório municipal.

Mas seu ídolo era outro militar de rígidas convicções ideológicas, que depois de percorrer o país com seus companheiros numa empreitada épica, foi chamado de Cavaleiro da Esperança.

Não sei exatamente o que levou o capitão Accioly a ser comunista, mas acho que foi o fato de ele não suportar injustiças, de procurar fazer sempre as coisas certas, de não transigir no que achava correto.

Sua escolha ideológica foi natural. Naqueles tempos de guerra fria muitas pessoas acreditaram sinceramente que o marxismo-leninismo poderia redimir a humanidade. 

O capitão Accioly era calmo, metódico, disciplinado e caseiro. Pelo menos aparentava ser. Mas interiormente creio que carregava a inquietação daqueles tempos de forma silenciosa, mas intensa. Procurava acompanhar tudo o que ocorria no mundo. Comprava o Estadão pelo volume do noticiário, mas ignorava seus editoriais. Votou no marechal Lott contra Jânio, era admirador de Jango e Brizola, detestava Lacerda e a UDN.

O golpe militar foi uma surpresa para ele. Mas não me recordo de vê-lo nem agitado nem preocupado. Mantinha, pelo menos para a sua família, a calma dos que nada devem. Não foi incomodado por ninguém. Naquela Jundiaí, os comunistas eram notórios e inofensivos aos olhos da autoridades de plantão.

O capitão Accioly aparentemente seguiu sua vida de maneira normal. Porém, com o fortalecimento da ditadura, algo foi mudando nele. Passou a se interessar menos por política, a discutir menos intensamente com os amigos, a mostrar um amargor que não exibia antes. Era como se, lenta e inexoravelmente, a chama que fazia brilhar os olhos daquele homem quieto fosse se apagando.

Poucos anos antes de sua morte, o capitão Accioly já não mais existia.

Pelo menos a pessoa com a qual vivi minha juventude e com quem aprendi os valores que mais prezo e que me transformaram em quem sou.

Hoje, muito depois do fim da ditadura, ainda penso nos anos em que vi o capitão Accioly definhar física e intelectualmente. Não consigo separar essas coisas. Para mim, sempre, aquele será um tempo que aniquilou a esperança de um país, os sonhos de gerações e a grandeza de muitos homens.

Não sei o que o Brasil poderia ter sido se não tivesse passado pela ditadura. 

Sei apenas que o capitão Accioly teria vivido mais e melhor. 

E isso já é motivo suficiente para que eu despreze imensamente todos os responsáveis por essa tragédia que mancha a história brasileira.

Agora, a história se repete. 

Meu medo é que, como o capitão Accioly, muitos sucumbam ao pessimismo e deixem as suas vidas se esvair num cotidiano de frustrações, desesperança e desespero. 


Fonte: http://segundocliche.blogspot.com/2017/08/baques-golpes-e-morte-das-almas.html

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