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Victor Lourenço

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De como a economia pode se beneficiar com as analogias médicas

3 de Novembro de 2014, 20:28 , por Victor Lourenço - 0sem comentários ainda | No one following this article yet.
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Comparações com a anatomia humana são uma boa alternativa para explicar os problemas gerais dos organismos sociais, sobretudo nos seus aspectos mais essenciais, como a economia e a irrigação ou circulação sanguínea para os seres humanos. Esta analogia médica, com certeza, pode ajudar a entender porque o Brasil está como está, enquanto o resto do mundo se questiona sobre o futuro, envolvidos em incertezas cada vez mais profundas.

Antigamente, cerca de 10, 15 anos, não mais, se falava em esgarçamento do tecido social, o que pode ser melhor entendido como uma distensão muscular: as fibras se rompem e enfraquecem o tecido, o qual, no entanto, permanece vivo, embora fora de ação por algumas semanas. O esgarçamento do tecido social tem outros efeitos concretos, entre os quais o excesso de individualismo e a violência.

Quando ocorre algo assim, expresso pelos seus efeitos mais dramáticos (o aumento da violência), o remédio é a ação enérgica do poder estatal, seja na repressão direta, por meio da polícia, seja na prevenção, por meio de políticas públicas. Nestas situações extremadas, a sociedade pode sentir fortes abalos, mas poderá se recuperar depois de algumas semanas.

A situação muda quando, já nos dias atuais, o que ocorre é o necrosamento do tecido social, por falta de circulação da riqueza. Assim como os músculos precisam de oxigênio, a sociedade, as comunidades precisam de renda e acesso aos bens essenciais. Quando isso não ocorre, equivale a um colapso das relações sociais mais elementares, da convivialidade e da coexistência pacífica. O tecido social não só se rompeu como deixou de ser irrigado, seja pelos bens como pela riqueza, e agora dá sinais de morte gradual - a gangrena.

As atuais políticas da Comunidade Europeia estão restringindo a renda de amplas camadas da população, em vários países, o que já causa enormes prejuízos econômicos e sociais, a maioria irreversível ou, na melhor das hipóteses, que só irá se regenerar após décadas, quando uma nova geração vier a substituir a atual. Mas haverá tempo para tanto?

Haveria se as políticas públicas fossem do tipo compensatória e anti-cíclicas, a exemplo do que foi feito no Brasil, especialmente após a crise de 2008. A manutenção e a defesa do mercado nacional foi decisiva não só para preservar os empregos locais como para aumentar a distribuição da renda, o que por sua vez realimentou o círculo virtuoso do mercado interno. Seguindo a analogia, o aumento do tônus muscular da sociedade, através do aumento da circulação de riqueza, garante a força e a mobilidade do conjunto do País. O Brasil se move com autonomia em meio a crise mundial porque manteve seus músculos aquecidos e bem alimentados, com pleno emprego e distribuição de renda.

ps. Devo acrescentar que o uso de metáforas como auxílio às deficiências da linguagem não é coisa nova. Bem antes deste sentido sociológico existiu o sentido na filosofia grega. No Livro Terceiro da Paidéia, o autor mostra como Platão conduziu um crítica à formação musical, da ginástica e da medicina em seu tempo. Antes, no entanto, o autor (W. Jaeger) já mencionava e evidenciava o modo como a filosofia se beneficiou dos métodos da medicina grega na Antiguidade. Os médicos eram os empiristas, numa correspondência com a atualidade.


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