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Deposição branca, silêncio da mídia e ameaça ao Partido dos Trabalhadores

7 de Abril de 2020, 12:48 , por Luíz Müller Blog - | No one following this article yet.
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Este novo impulso de eliminação do PT do cenário político é bastante elucidativo dos primeiros movimentos e compromissos do governo de facto que começa a conduzir o país ao arrepio da Constituição e das instituições. A grande mídia corporativa atenta criminosamente contra o direito à livre informação assegurado pela Constituição brasileira […]

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Este novo impulso de eliminação do PT do cenário político é bastante elucidativo dos primeiros movimentos e compromissos do governo de facto que começa a conduzir o país ao arrepio da Constituição e das instituições.
Por Roberto Bueno*
A grande mídia corporativa atenta criminosamente contra o direito à livre informação assegurado pela Constituição brasileira ao omitir qualquer referência ou análises sobre a ascensão ao poder de facto pelo General Walter Braga Netto. Este silenciamento das mais graves notícias do poder é mantido ainda quando o fato que já ganha manchetes e extensas análises em jornais estrangeiros e a “deposição branca” começará a apresentar suas consequências práticas.
Braga Netto é reputado por diversos meios de comunicação estrangeiros como “Presidente Operacional do Brasil”, condição em que teria sido apresentado em comunicações informais a outras lideranças de Estado. O golpe se afirma nos porões da administração e ganhará dimensão na determinação prática das políticas adotadas. A figura do “Presidente Operacional do Brasil” inexiste em nossa Constituição e nem as suas competências exclusivas dispostas no art. 84 C.F. podem ser compartilhadas, o que evidencia a ilegalidade da opção política adotada de esvaziar a Presidência sem seguir os ritos legais disponíveis devido a mero cálculo e conveniência política voltada a manter a opção de manter o Brasil distante da estabilidade democrática.
Ao denunciar o fato não estamos aqui a defender a posição do atual presidente eleito, pois sou dos mais contumazes e ácidos críticos de tudo quanto ele representa, aríete do genocídio da população brasileira operacionalizado através de declarações e ações transmitidas por todas as mídias. Sem bloqueio, tratar com a realidade é uma imposição para qualquer análise, e ela aponta unicamente apenas para esta conclusão: estamos vivendo sob um novo golpe de Estado. Este apenas ratifica uma vez mais um exemplo histórico de que a direita e a extrema-direita se mantêm inamovíveis em seu desapreço e descompromisso radical com as instituições democráticas que caminham juntas com as armas que teimam em não submeter-se ao princípio-mor da democracia de que o povo é quem manda. Sofrem de incurável demofobia.
A gravidade da situação é evidente e salta aos olhos. É fato que a organização de eleições para a Presidência da República seria a alternativa constitucional para a queda do presidente em funções e alentadora para a reconfiguração das condições da pacificação política, mas o principal e real obstáculo é que as armas são avessas a consulta às urnas, que sempre lhes parece uma visão aterradora para estes controladores do poder no Brasil que aspiram a eternidade. Todos os democratas e defensores da legalidade constitucional no Brasil estão cientes de que a única alternativa pacificadora e reafirmadora da soberania do país implica o regresso às urnas com a permissão de que todos os partidos e candidatos possam concorrer.
A demofobia da elite unida às armas colocou em curso um novo regime com o apoio da vice-procuradoria eleitoral, que elaborou parecer apontando para o cancelamento do registro do Partido dos Trabalhadores (PT). A base utilizada foram as informações oriundas de depoimentos na operação Lava-Jato de que o PT teria recebido recursos de origem internacional, ancorada na mesma estaca de confiabilidade que os frequentes recursos ilegais que pautaram diversas operações, tais como longas prisões preventivas visando delações, conduções coercitivas imotivadas ademais de manter ligação direta com o DOJ/EUA, em flagrante desrespeito às claras normas que impõe a mediação do órgão de relações exteriores do Estado. Aproveitando da grave névoa pandêmica, o emergente e revigorado poder visa eliminar do processo eleitoral o maior partido popular, uma importante estratégia para consolidar o arco de ação da ditadura no Brasil, em mais uma mostra da anunciada estratégia militar de aproximações sucessivas, embora mantendo na superfície a aparência de funcionamento das instituições e da vigência da legalidade democrática, tal como tentado após o golpe de Estado de 1964.
Este novo impulso de eliminação do PT do cenário político é bastante elucidativo dos primeiros movimentos e compromissos do governo de facto que começa a conduzir o país ao arrepio da Constituição e das instituições, e sob o signo-mor de desprezo ao povo e às urnas que traduzem a sua vontade política. A grande mídia corporativa já foi novamente cooptada para a consecução deste projeto, sendo notável a sua omissão a noticiar este processo que ocorre nas profundezas do poder. Isto reforça a percepção de que se a imprensa não é livre em muitos países declarados como alvos do império norte-americano, por outro lado, é fato que nos países declaradamente capitalistas a grande mídia corporativa é apenas um apêndice dos interesses econômicos que controlam o poder, seja ele ameaçadoramente armado e com fuzis apontados diretamente para a população ou não.
É notório que uma marca da moralidade que permeia os atores deste coletivo de perversos demofóbicos antinacionalistas em momentos de crise já foi claramente expressa por um importante ministro da ditadura militar, Jarbas Passarinho, quando ao dirigir-se ao presidente da República em apoio ao famigerado e criminoso Ato Institucional nº 5 disse: “Às favas, Sr. presidente, todos os escrúpulos de consciência”. Não há qualquer compromisso com as instituições e com a vontade política popular. Inequívoca prova disto foi a recente Ordem do Dia alusiva ao 31 de março de 1964, lamentavelmente assinada pelo ministro de Estado da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, além dos Chefes das três Forças Armadas, Almirante Ilques Barbosa Junior, Comandante do Exército, Gen. Edson Leal Pujol, e o Comandante da Aeronáutica, Ten. Brig. Ar Antonio Carlos Moretti Bermudez. O teor da nota foi a defesa do golpe de Estado de 1964 como se em seu núcleo houvesse um átomo de preocupação com a democracia brasileira, e o primeiro período do primeiro parágrafo já é suficientemente elucidativo: “O Movimento de 1964 é um marco para a democracia brasileira”. Mais uma inequívoca sinalização do desrespeito aos princípios basilares da democracia.
A imprensa brasileira silencia quanto a este movimento, também mandando às favas escrúpulos de qualquer ordem quando assim o recomenda uma aliança conveniente com os segmentos da elite e, sobretudo, quando o fuzil já brilha lubrificado no horizonte. A imprensa brasileira hoje omite a substituição material do ocupante do Poder Executivo sem informar ou indicar o indispensável recurso ao processo eleitoral, nem sequer em remoto horizonte. Foi concretizado o golpe no golpe de Estado por parte de um dos segmentos que compõem a trupe de aventureiros. O fato do ocultamento pela imprensa brasileira uma vez mais evidencia a preocupação de manter as aparências de legalidade, sem nenhuma referência à Junta Militar que efetivamente governa, embora centralizando funções em uma só figura. É o que podemos classificar como “deposição branca”.
Como é praxe nas reais ditaduras mundo afora em todos os tempos e no Brasil em particular, as notícias sensíveis sobre a política interna já estão sendo divulgadas no exterior, enquanto a imprensa nacional permanece atrelada aos seus compromissos, sob os olhares passivos de seus repórteres e de suas redações. Esta é uma realidade paralela cuja apresentação pública impõe riscos de perseguições e processamentos de praxe, pois assim como o praça recebe e executa ordens de atos de extrema covardia, assim também o subserviente rábula oportunista bem trajado e ocupante de altos cargos. Estes são apenas a mão executora das ordens das altas patentes, que não raramente preferem ocultar-se, explicitando o antônimo de uma das virtudes que não lhes deve faltar. O primeiro ato do novo regime não declarado é contra o PT e expressão do desprezo absoluto pela vontade política do povo brasileiro, decisiva manifestação da encruzilhada que precisamos finalmente compreender e superar: democracia, e jamais farda. Democracia na urbe, nos campos e nas tribos, à farda, a selva e a defesa da soberania de ataques estrangeiros.
*Roberto Bueno é professor universitário (UFU), doutor em Filosofia do Direito (UFPR), mestre em Filosofia (UFC), mestre em Filosofia do Direito e Teoria do Estado (Univem), especialista em Direito Constitucional y Ciencia Política (CEC/Madrid) e pós-doutor em Filosofia do Direito.

Fonte: https://luizmuller.com/2020/04/07/deposicao-branca-silencio-da-midia-e-ameaca-ao-partido-dos-trabalhadores/

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