Por André Rosa no Facebook
Os atores Elizabeth Gasper e Zelão, que apresentavam a peça Roda Viva em Porto Alegre, foram espancados e sequestrados em 3 de outubro de 1968. A barbárie foi perpetrada por uma milícia chamada CCC (Comando de Caça aos Comunistas). O filme “A Última Tentação de Cristo” também foi alvo de protestos anos depois. Mais tarde, já beirando o século 21, uma exposição na Usina do Gasômetro também recebeu protestos e até ações judiciais. Agora, em pleno 2017, o Santander Cultural cancela uma exposição, cedendo a manifestações fascistas.
Merecerá, uma cidade como a nossa, receber mais alguma exposição de arte, ou produção cinematográfica, ou peça teatral? Afinal, arte e cultura estimulam a reflexão e são apanágio de coletividades nas quais a tolerância é praticada.
Arte e cultura são em sua essência expressões ditadas pela vontade livre do ato de criar e são muitas vezes contestatórias. É assim e assim deve ser em qualquer lugar. Mesmo na Capela Sistina do Vaticano onde talvez alguns gaúchos iriam se constranger ao ver esculturas com pintos e pererecas expostos, pinturas com viés homossexual. A arte não é passível de censura.
Se você não concorda com uma obra, criticá-la e nunca mais olhá-la. Mas jamais deve tentar contestar sua legitimidade como expressão artística. A não ser que desconheça o significado da palavra arte. Nesse caso, pessoas como a líder da facção gaúcha do Movimento Brasil Livre (MBL) e atual CC do governo Marchezan poderiam em uma simples pesquisa na internet ler uma conceituação segundo a qual “arte é a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em um ou mais espectadores, e cada obra de arte possui um significado único e diferente”.
Portanto, qualquer deturpação desse conceito, ainda mais quando exercida por extremistas em nome de Deus, nada mais é do que a censura à liberdade de expressão. Seja a partir de grosseiras manifestações contra a arte, seja na tentativa de impedir a educação libertária em pleno século XXI. Se assim for, cancelem a Feira do Livro e a Bienal do Mercosul. Tapem imagens e esculturas existentes na Catedral e igrejas da Capital, pois em alguns casos elas podem parecer pornográficas ou obras demonizadas. Proíbam seus filhos de irem à escola, infestadas de comunistas segundo o extremismo fascista. Não esqueçam também de queimar os livros.
Resta saber se, após esse ódio e intolerância exercida por partidários e secretário do prefeito,restará alguma arte em nossa cidade. Imputar ao conjunto da população o pensamento único é não reconhecer a diversidade do mundo em que vivemos. Se não houver resistência, estaremos fadados ao futuro sombrio de uma sociedade totalitária defendida por diabos travestidos de anjos.