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Maria do Rosário: “Em termos educacionais, nós estamos sendo colocados no caos” — Cristiano Goldschmidt

18 de Setembro de 2019, 17:57 , por Luíz Müller Blog - | No one following this article yet.
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Em entrevista exclusiva, a deputada federal Maria do Rosário (PT/RS) fala da crise educacional brasileira, que atinge principalmente as escolas e as universidades públicas, e de que forma isso impacta na vida dos estudantes e dos docentes. Ao comentar os ataques aos professores, ela afirma que “esse governo é parte e produto de um movimento […]

Maria do Rosário: “Em termos educacionais, nós estamos sendo colocados no caos” — Cristiano Goldschmidt

Em entrevista exclusiva, a deputada federal Maria do Rosário (PT/RS) fala da crise educacional brasileira, que atinge principalmente as escolas e as universidades públicas, e de que forma isso impacta na vida dos estudantes e dos docentes. Ao comentar os ataques aos professores, ela afirma que “esse governo é parte e produto de um movimento que incentivou, antes mesmo da posse, a agressão aos educadores e educadoras”. Liberdade de expressão, ensino de artes nas escolas, a mercantilização do ensino, a soberania e a independência dos povos e das nações, tendo como pano de fundo a crise na Venezuela, também foram questões levantadas e discutidas pela deputada. Criticada injustamente por sua luta em defesa dos Direitos Humanos, Rosário afirma que “não é legítima a atuação contra os direitos humanos, a atuação pelo ódio, a atuação pelo nazi fascismo, pela guerra, a atuação contra a diversidade religiosa ou a atuação pela censura”.
Eis a entrevista:
1- Mesmo estando no quinto mandato como deputada federal a senhora nunca se distanciou da educação e no final de agosto defendeu sua tese de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Gostaria que falasse um pouco do que se trata a sua pesquisa.
Rosário: O meu trabalho como educadora começou porque eu fiz o Magistério no Instituto de Educação, e comecei a dar aula muito cedo. Tenho um tempo na sala de aula que eu acho muito significativo na minha formação como pessoa e como profissional. Eu não vejo a política como profissão. Vejo a ação política como um serviço público em que tu te dedicas à comunidade, uma ação com a qual tu acreditas estar fazendo o melhor pela comunidade. Mas a minha profissão é o Magistério. Foi essa que eu escolhi e para isso eu fiz concurso público. E sempre acreditei que devia continuar me fortalecendo. Então, eu já era vereadora quando concluí o curso de Pedagogia. Fui eleita pela primeira vez muito cedo, depois vim a fazer o Mestrado em Educação. A minha pesquisa no Mestrado em Educação, que resultou no meu trabalho final, se chama “Pedofilização e Mercado: o corpo produto das crianças”, porque eu acho que há a produção de um produto através da pedofilização. Trabalhei muito com isso e fui aluna e orientanda da Jane Felipe. E eu até pretendia continuar os estudos em Educação, mas acabei assumindo a pasta de Direitos Humanos do governo da presidenta Dilma. Depois, quando voltei e quis continuar estudando, pensei num doutorado que pudesse trabalhar os temas de direitos humanos e da democracia. Foi esse o meu objetivo para fazer a seleção do doutorado, esse foi o meu projeto inicial, que ao longo do tempo foi se modificando, e acabei estudando o próprio parlamento: “Fronteiras da Democracia Parlamentar”, esse é o meu trabalho, no qual procuro analisar como, na decisão sobre projetos de lei ou emendas constitucionais, a Câmara dos Deputados vive um permanente conflito. E é um conflito conceitual sobre a democracia no Brasil. Analisei particularmente três matérias legislativas: a PEC do Trabalho Escravo; a LDB, Lei de Diretrizes e Bases da Educação; e a Lei de Reserva de Vagas ou de Cotas, para estudantes negros, indígenas e oriundos de escolas públicas nas universidades. Na pesquisa trabalhei a forma de como esses projetos contribuem para a democracia, de como a Câmara dos Deputados, na sua demora de sua deliberação, mostrou as suas contradições. Tentei trabalhar e constituir uma proposta de método para análise documental nos parlamentos, em arquivos legislativos. Essa é um pouco da ideia de minha pesquisa, até em diálogo com outra pesquisadora, que se chama Ana Amaral, que tem uma pesquisa mais complexa que a minha, porque ela cria um modelo brasileiro de relevância sobre atribuições parlamentares. Enquanto eu, na verdade, modestamente crio um modelo sobre iniciativas que são relevantes para a democracia. Que podem ser também trabalhados como relevantes para a cultura, do ponto de vista temático. Podem ser selecionados do ponto de vista temático. Mas também selecionei outros sete projetos relevantes para a democracia, que eu acredito que ainda devam ser analisados como forma de pesquisa.
2 – Desde o seu primeiro mandato a senhora tem entre os profissionais da educação um número bem significativo de eleitores. Qual é a sua percepção da realidade dos professores e das escolas públicas brasileiras?
Rosário: Uma terrível realidade, sobretudo a partir de onde nós vivemos que é o Rio Grande do Sul. Porque tu tens as duas faces da desvalorização da Educação no rosto dos educadores, sejam trabalhadores em educação ou docentes, e dos alunos. Há poucos dias eu falei com uma professora e ela me disse: “Meus alunos não estão mais vindo à aula. Eu nunca tive uma evasão tão grande na sala de aula no ensino médio. Porque não há passagem de ônibus, eles não têm passagem, eles não têm como se alimentar, eles estão abandonando. E ao mesmo tempo, eu também não tenho, porque eu não tenho salário.” Então eu olho isso e acho que, em termos educacionais, nós estamos sendo colocados no caos. Não há outra palavra. Não há como aprender e ensinar e, principalmente, construir conhecimento dentro da escola, com esse grau de pauperização no qual a escola está colocada. É preciso tirar a escola da pobreza absoluta, da pobreza extrema. Afinal de contas, a escola pública é uma estrutura da democracia, do liberalismo, do direito.
3 – O que precisa ser feito, em termos de políticas governamentais, para mudar essa situação na qual se encontra a educação brasileira, que é apontada como uma das piores do mundo, pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, que é o PISA?
Rosário: Acho que nós temos que investir, em primeiro lugar, nos próprios educadores e educadoras. Não há educação sem gente. A gente precisa dos computadores, de uma lousa eletrônica, a gente precisa de um quadro que é diferente, precisa de material pedagógico, precisa da oportunidade de circular na cidade e no estado, de conhecer, de viajar. Mas precisamos de gente que esteja ali, que esteja construindo, aberta a ouvir. Essa é a primeira questão, eu diria.  A segunda, eu acho que nós precisamos construir um projeto pedagógico, e não é atacando a educação, a escola e os educadores.
4 – A senhora está acompanhando os ataques promovidos pelos atuais membros do governo Bolsonaro, tanto aos professores como à educação brasileira como um todo? Que análise a senhora faz da conjuntura política do país, principalmente na questão educacional?
Rosário: Eu vejo, em termos de política pública, uma destruição orçamentária e da estrutura educacional brasileira. A Constituição e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, elas tem um fundamento que é, do ponto de vista das universidades, a autonomia, e do ponto de vista da escola de ensino básico, a gestão democrática. Isso está totalmente desfeito com as intervenções que estão acontecendo. Agora, o pior que eu vejo em tudo isso é que esse governo é parte e produto de um movimento que incentivou, antes mesmo da posse, a agressão aos educadores e educadoras. A pior coisa que se pode dizer sobre um educador ou uma educadora é que ele seja um doutrinador, ela seja uma doutrinadora. Eu não entendo porque isso é dito em relação aos educadores e educadoras, e há uma desvalorização tão grande da sua atuação. Aliás, eu entendo, e acho que nós entendemos porque isso acontece com essa profissão que tem padrões éticos extremamente elevados. Nenhum profissional da educação, nenhum docente, nenhum funcionário, ninguém está ali para o prejuízo de um aluno, ou para passar ao aluno algo como se o aluno tivesse um vazio na sua mente.Eu acho profundamente desrespeitosa a forma como os educadores são atacados. Quando no ambiente político começaram a atacar os professores e professoras, isso repercutiu para o ambiente escolar, isso repercutiu dentro das salas de aula. Penso que ações políticas que sugerem ou incentivam que docentes sejam gravados, porque se desconfia deles, é algo extremamente violento com a educação, porque a educação tem como base a confiança. Confiança desde o momento em que as crianças pequenas estão na sala de aula, até o momento em que são maiores, onde temos um debate sobre diferentes temas. Na verdade, o que esses “políticos”, vou colocar entre aspas, na verdade, o que estes que ocupam mandatos e atacam a educação fazem é tentar interditar que a escola seja um lugar crítico e do pensamento.
5 – Gostaria que a senhora falasse um pouco sobre o seu entendimento da necessidade das artes, nas suas mais diversas linguagens, como disciplinas obrigatórias nas escolas brasileiras. De que forma as artes contribuem para o desenvolvimento das crianças e dos jovens e para a produção de conhecimento no contexto escolar?
Rosário: Essa é uma área que nós precisamos certamente estudar mais. Vou falar tentando rememorar meu tempo de escola e pelos diálogos que estabeleço com as pessoas, porque é uma pergunta sobre a dimensão pedagógica, também, da escola. As artes são a identidade e a possibilidade de criar o presente e o futuro, de conhecer e de ter memória também. A possibilidade das pessoas se expressarem com liberdade faz a diferença para suas vidas, para suas comunidades. Acho que aqui reside o tema da liberdade, essa é a diferença que pode fazer. Mas também um tema do mundo. A dimensão das artes não tem exatamente uma fronteira geográfica, não tem fronteira racial, étnica, de gênero. Ela pode reproduzir ou pensar determinadas perspectivas, mas ela pode estar aberta a todas as possibilidades. E eu fico pensando: como as artes contribuem? Elas contribuem para a produção do conhecimento no contexto escolar na medida em que elas nos lembram que nós somos livres para criar. Nós não somos nem uma cópia um do outro, uma da outra e nem o que nós fazemos é cópia. Nós somos seres com criação, com criatividade e com expressão.
6 – Como é que a senhora vê o crescimento das instituições de ensino superior mercantilistas, que não se preocupam com a qualidade do ensino, que oferecem péssimas condições aos alunos e aos professores e que muitas vezes são instituições que praticam uma venda camuflada de diplomas?
Rosário: Eu acho que os governos, sobretudo na época do ministro Fernando Haddad, ele tinha um trabalho muito claro pela qualidade. O objetivo do governo era a regulação. Porque a constituição define que no Brasil convivem a educação pública e a educação privada. No ensino superior, sempre tivemos um número de matrículas muito superior na educação privada. Então, o plano de trabalho era fazer crescer as matrículas públicas, criar formas de as pessoas da educação pública entrarem na universidade pública com as cotas, e ao mesmo tempo, com o que a gente teria de capacidade, ampliar e criar novas escolas o mais rapidamente possível. Aí surge o Prouni que, na verdade, não significa uma mercantilização. O que aconteceu é que aquelas instituições que já eram tidas como filantrópicas, elas tinham uma devolução muito desorganizada ao Estado do que elas recebiam de benefício fiscal. Então, o que aconteceu com o Prouni, é que a gente organizou, o Fernando Haddad conseguiu organizar o sistema de devolução daquilo que a universidade recebe de benefício fiscal, sem gastar um tostão a mais, ela tinha que dar as bolsas de estudos. Não tinha como tirar o benefício fiscal. Por que não tinha como tirar dessas instituições? Porque elas eram tidas como filantrópicas e tinha toda a questão da filantropia, como os hospitais. Isso é uma coisa. A outra coisa são as instituições privadas mesmo, sem cunho ou objetivo filantrópico. Existem boas e ruins, e eu não tenho como julgar. Acho que o mais importante é que o Estado não deveria perder o poder de regulação. E é isso que se está perdendo ao longo do último período. O Estado devia continuar sendo responsável, e acho que não é mais, está perdendo muito isto. E com esse projeto chamado Future-se, eu creio que possa ser ainda mais difícil para a Educação de um modo geral, porque os cortes para ampliação de vagas já são muito grandes e a tendência é a situação piorar muito se vier a ser aprovado.
7 – A senhora é muito atacada pela defesa que faz dos direitos humanos, por defender projetos e por auxiliar na construção de políticas públicas que garantam a dignidade e a liberdade às minorias, a exemplo da população LGBTQI+. Qual a importância dessas pautas no atual contexto político brasileiro e como a senhora lida com esses ataques?
Rosário: As pessoas mais atacadas são aquelas que vivenciam a condição de LGBTs, as pessoas negras. Essas pessoas vivenciam ataques muito graves. Elas precisam que o parlamento, os mandatos, que a representação política também os considere como brasileiros e brasileiras com igualdade de cidadania e direitos, de acordo com a constituição. Eu considero um absurdo que no parlamento ainda haja alguém que tenha alguma dúvida sobre isso. Eu não acho que eu faça alguma coisa que seja diferente do que deva ser feito. Acho que é uma obrigação moral, legal. O que é legítimo é isto. Não é legítima a atuação contra os direitos humanos, a atuação pelo ódio, a atuação pelo nazi fascismo, pela guerra, a atuação contra a diversidade religiosa ou a atuação pela censura. Como é que eu lido com isso? Pessoalmente, com alguma dificuldade. Porque se criam formas de ataque, e o fascismo tem uma característica que nós não tínhamos vivido na nossa geração, que ele se espalha, então tu não sabes de onde vem. Eu te pergunto: um rapaz que anda de mãos dadas com outro menino na rua, ou uma menina de mãos dadas com outra, ou alguém que dá um beijo pode ser atacado por isso? Ou alguém, porque é negro, dentro de um supermercado, pode ser levado para uma salinha e receber chibatadas? Nós estamos diante disso no Brasil.
8 – Deputada, que análise a senhora faz da crise na Venezuela e sobre a interferência dos Estados Unidos na soberania daquele país? Que consequências isso pode ter para a América Latina?
Rosário: Eu acho que a Venezuela deve ter sua autonomia e sua independência como país, e precisa resolver suas próprias questões internamente. Eu gostei muito de uma proposta do Mujica para que houvesse um procedimento para a construção dos processos internos com observadores internacionais. Acho que ele foi muito correto naquele processo. Eu não conheço tanto a situação da Venezuela, eu nunca fui à Venezuela. Mas eu sou pela autodeterminação dos povos e, ao mesmo tempo, pelos direitos humanos. Então, eu procuro conjugar soberania e direitos humanos. Se eu fizer uma hierarquia, até colocaria direitos humanos acima da soberania, mas eu também não sou ingênua de achar que os que agridem a Venezuela, os que atacam a Venezuela, querem só os direitos humanos. Quando ocuparam o Iraque, era em nome dos direitos humanos, mas, na verdade, o Iraque foi destruído. E eu não gostaria de ver isso acontecendo na nossa região. A nossa região vivia em equilíbrio. O desequilíbrio da América Latina também tem a ver com o desenvolvimento de grupos de extrema direita. Por trás da situação da Venezuela pode haver muitas coisas, inclusive o seu petróleo, a sua energia. Dizendo isso eu não comungo com qualquer violação dos direitos humanos que eu nem sei como são realmente, porque eu não fui à Venezuela. Mas creio que quem deve observar a situação hoje não é o governo do Brasil, ou o governo da Argentina, mas organizações, de um modo geral, do mundo. Assim como o Brasil também precisa ser analisado. Por exemplo, o assassinato da Marielle deveria ser acompanhado, toda a investigação, deveria ser acompanhada por organismos internacionais. E por que não é?
9 – Como é que isso poderia ser feito?
Rosário: Eu acho que toda vez que o Estado, de alguma forma, ele mente, ou pode ser responsável por um crime, ou pode ter algum envolvido, não deve ser ele próprio a investigar. Vou dar um exemplo: Eu fui responsável, na pasta de Direitos Humanos, pela exumação do ex-presidente João Goulart. Exumação feita por um pedido da família, que tinha grandes suspeitas do assassinato do presidente Goulart. Então, como eu era responsável, com a nossa equipe, pela área de Memória, Verdade e Justiça, nós combinamos de produzir um trabalho sério, com a Perícia e a Polícia Federal. Assim como procurei mortos e desaparecidos pelo Brasil inteiro com a Polícia Federal e com seus peritos. Mas, quando fomos fechar o nosso protocolo, verificamos: “Mas como, nós do Governo, do Estado, que está sendo suspeito de um possível assassinato do presidente João Goulart, como ele próprio vai investigar?” Então chamamos, não lembro se oito ou dez, peritos internacionais que vieram ao Brasil e eles fizeram a exumação, coordenados pela Cruz Vermelha Internacional. O Movimento Internacional de Direitos Humanos tem isso há muito tempo. O problema é que o Brasil não tem transição, o Brasil não enfrenta essas coisas. Eu acho que isso é necessário. O fato de nos mobilizarmos internacionalmente com os direitos humanos, como sociedade, pode ser muito importante. Esse é um exemplo. Senão nós vamos ter sempre a auto anistia, como nós temos dos militares brasileiros, que se auto anistiaram. Então, sobre a Venezuela é isso, eu acho que isso pode trazer consequências muito graves para a América Latina. Eu sou contra a intervenção norte-americana ou de qualquer país na Venezuela, eu acho que a presidenta Dilma conseguiu lidar muito bem com isso e o presidente Lula também. Porque havia diplomacia no Brasil, agora não há.
10 – Falando ainda em direitos humanos, a gente tem acompanhado imigrantes venezuelanos, haitianos, que são vítimas de xenofobia no Brasil; brasileiros que são vítimas em Portugal e na Polônia, isso apenas para ilustrar com alguns exemplos. E afrodescendentes que sofrem com o racismo em todos os lugares. Vivemos uma época de normalização do racismo e da intolerância?
Rosário: Sim, é lamentável, mas vivemos. Não só no Brasil, mas no mundo. Nós não conseguimos enfrentar isto, porque nós não enfrentamos na cultura. Nós não conseguimos produzir uma cultura de direitos humanos mais forte que a cultura do ódio. Isso é terrível, porque nós já poderíamos ter feito isto. Então, nós podemos nos perguntar: por que isso aconteceu? Talvez porque nós não tenhamos tido na própria educação, nos próprios sistemas de cultura, uma responsabilidade efetiva com estes valores. Os valores de direitos humanos não são opcionais. Eu fico impressionada como agora chegou um presidente que acha que a constituição é opcional. Acha que os tratados internacionais de direitos humanos são opcionais. Não são opcionais. A pessoa se candidata para uma função e deveria saber que a primeira coisa que ele faz é jurar a Constituição. Eu realmente lamento isto. Porque fico preocupada que a gente entregue como legado para as próximas gerações um mundo de ódio, quando a gente só queria a liberdade de amar. Isso me dá uma grande tristeza. Mas acho que, por isso também, me dá um grande motivo para seguir em frente.
11 – Nesse sentido, a senhora acha que há uma negação do estado de bem estar social também por parte das elites mundiais? Ou seja, o empobrecimento de sociedades e de populações, no seu entendimento, ele é um plano ou ele é uma mera decorrência de governos inaptos ou mal sucedidos?
Rosário: Eu acho que ele é as duas coisas. Ele é um plano e ao mesmo tempo ele é a execução desse plano. Até pouco tempo nós tínhamos governos, na América Latina, e europeus também, que procuravam projetar governos de bem estar social. Nós não podemos dizer que no Brasil nós tínhamos um governo de bem estar social, mas nós tivemos uma política distributiva original, que não havia acontecido até então. Ocorre que agora nós estamos financiando capital. Desde 2008, nós estamos financiando grandemente o sistema financeiro, e o que acontece é que para financiar o capital, ele abocanha o orçamento público, nossas riquezas, nosso meio ambiente. Ele é destrutivo para conquistar a sua reprodução e manter as taxas de lucros daqueles que estavam no topo. Isso me faz pensar, e na minha pesquisa eu penso um pouco em democracia nesse sentido, que a democracia não pode ser instrumental. Ou seja, nós precisamos tomar o orçamento para o lado de cá, ou então vamos acabar com a democracia. Não tem mais conselho, não tem mais isso, não tem mais aquilo. Vamos fazer uma emenda 95, constitucional, para ter teto de gastos, ajuste fiscal, seguir um roteiro. Por trás disso, tem a seguinte questão: uma drenagem de recursos públicos que, até então, ainda que não completamente, estavam vindo para atender demandas de uma sociedade muito contraditória e que a gente agora está enviando para o capital. Nós estamos remunerando as taxas dos bancos e as pessoas são descartáveis, essas pessoas na rua, para esse sistema, se tornaram descartáveis.
12- Já que estamos falando em crise, e de América Latina, como a senhora vê essa virada de alguns países da América Latina para governos de extrema direita, mantendo relações estreitas, até de subserviência, com os Estados Unidos, especialmente o caso brasileiro. De que forma isso pode impactar na nossa independência?
Rosário: Nós sabemos que, em 1964, teve uma presença da CIA muito importante no Brasil. E isso está claramente documentado, de como o golpe foi produzido durante toda a década de 1950. O próprio Juscelino não assumiria, mas setores militares, conscientes da importância do Brasil, apoiaram a posse do Juscelino e a democracia. Assim como apoiaram a posse do Jango com toda a luta da legalidade. Bom, o que acontece agora? Nós somos uma grande nação, nós temos muitas riquezas. Somos espetaculares aos olhos do mundo, nesse sentido também. Não é a primeira vez que nós recebemos uma manipulação interna. Se, em 1964, existia a Marcha da Família e da Propriedade Privada, agora, novamente se repete. Parece que as famílias são só aquelas que alguns querem desenhar como famílias. E as famílias dos outros, e as famílias reais, essas não são famílias? Então, esse momento é um momento do obscurantismo, porque o obscurantismo interessa aos ultra neoliberais também. É uma aliança. Uns ganham na economia, outros ganham no fundamentalismo religioso, outros ganham em concessão de TV, outros ganham vendendo armas. Enfim, eles organizaram uma aliança.
13 – A senhora falou em concessões de TV. Qual o papel da mídia na defesa e na desconstrução das democracias?
Rosário: Eu não vejo que seja só a mídia que produza a defesa ou a desconstrução das democracias. Mas, na situação concreta que nós vivemos, a construção de uma fraude eleitoral chamada Jair Bolsonaro é uma produção midiática. Não só das redes instituídas, mas, principalmente, do uso da própria internet. Agora, quem achar que isso aconteceu com um rapaz no Twitter, eu acho que está sendo muito ingênuo. Isso é extremamente produzido. O fomento ao ódio e a empatia pelo ódio instigaram as pessoas a produzir uma empatia por quem fomenta o ódio. Isso não se faz sem uma estratégia de comunicação e marketing, uma estratégia cultural, aí sim, doutrinária, no pior sentido que essa palavra pode ter. Alguém pode achar “ah, isso é uma fala de teoria da conspiração.” Não, digamos que é uma teoria do que nós representamos para o mundo, sobre um Brasil que andava de cabeça erguida. Sobre um Brasil que podia se dirigir às Nações Unidas, fazendo suas propostas, porque aqui dentro se estava tirando as pessoas da fome pela primeira vez. Estava levando água ao Nordeste, estava se tornando livre energeticamente. Estava não apenas preservando o meio ambiente, mas com metas de preservação, e como disse esses dias a presidenta Dilma, que eu acho que é o mais importante: conseguindo que os outros países nos apoiassem nisso porque era justo. Então, o Fundo Amazônia não era uma doação da Alemanha ou da França. Era um pacto em que o Brasil participava incentivando o meio ambiente, preservando, e os outros também incentivavam de alguma forma. Como um patrimônio da humanidade e, ao mesmo tempo, um patrimônio brasileiro, sem abrir mão. Então, voltando à tua questão, eu acho que a gente está diante de algo muito grave, muito sério, e eu penso que a mídia tem um grande papel. Eu não sei quanto é o papel dessa mídia ou daquela mídia. Tem a internet, mas também tem uma coisa absurda no Brasil que é essa histórica concessão de TVs religiosas. Isso não deveria existir. Vou ser bem sincera, nunca tive força para enfrentar um negócio desse tamanho, mas eu não acho que deveria ter TV religiosa. Isso não é uma concessão pública? Então se o Estado é laico e a TV é uma concessão pública… Não pode pegar um ônibus, que é uma concessão pública e fazer dele o lugar de uma religião. Não se pode transformar um ônibus onde só entrem cristãos evangélicos, ou cristãos católicos, ou judeus, ou islâmicos, ou budistas. Então por que pode ter um canal de TV de uma só religião? Isso está totalmente errado. Mas isso vem de muito tempo. E veja só, o grau de respeitabilidade do tema religioso sempre foi uma preocupação tão grande para a esquerda, que os governos de esquerda nunca quiseram mexer nisso, justamente para não parecer uma intolerância. Mas, na verdade, eu estou me dando conta, que intolerância é a existência disso. E vão me odiar totalmente por dizer isso.

Fonte: https://luizmuller.com/2019/09/18/maria-do-rosario-em-termos-educacionais-nos-estamos-sendo-colocados-no-caos-cristiano-goldschmidt/

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