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O Irã diante da diplomacia armada do imperialismo (Por Sayid Marcos Tenório)

24 de Fevereiro de 2026, 11:44 , por Luíz Müller Blog - | No one following this article yet.
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Por Sayid Marcos Tenório no Desacato.

As negociações em curso entre os Estados Unidos e o Irã, mediadas por Omã e realizadas recentemente em Genebra, vêm sendo vendidas pela diplomacia ocidental como um esforço técnico para conter riscos nucleares. Essa versão é uma farsa cuidadosamente construída.

O que está em jogo não é a chamada “não proliferação”, mas uma disputa frontal entre soberania nacional e dominação imperialista, conduzida para preservar a hegemonia regional de “Israel” e manter o Oriente Médio sob tutela estratégica do eixo EUA-sionismo.

Os Estados Unidos não negociam em nome da paz nem da segurança internacional. Negociam como braço diplomático e militar do regime sionista, encarregado de neutralizar qualquer potência regional que escape ao controle colonial imposto após a Segunda Guerra Mundial.

O Irã é hoje o principal alvo dessa engrenagem porque ousa afirmar autonomia política, científica e estratégica em uma região que Washington e Tel Aviv tratam como protetorado.

A natureza real dessas “negociações” fica evidente no método adotado. Enquanto discursam sobre diálogo, os EUA reforçam a presença militar no Golfo, deslocam porta-aviões, fazem ameaças públicas e deixam claro que a alternativa ao acordo é a violência.

Trata-se da velha diplomacia do canhão, na qual o império exige concessões sob chantagem. Isso não é negociação entre Estados soberanos; é extorsão política travestida de processo diplomático.

O argumento central de Washington, envolto num suposto risco nuclear iraniano, não resiste a qualquer análise honesta. O Irã não possui armas nucleares, não anunciou intenção de produzi-las e aceita mecanismos de verificação internacional. O problema real não é nuclear, é geopolítico.

O que incomoda os EUA e “Israel” é a existência de um Estado que se recusa a integrar a arquitetura colonial de segurança do Ocidente, que sustenta capacidade dissuasória própria e que apoia, política e moralmente, os povos da região contra a ocupação e a agressão.

É por isso que a exigência de “enriquecimento zero” reaparece como mantra do consórcio sionista. Trata-se de uma imposição ilegal, discriminatória e politicamente obscena. O Tratado de Não Proliferação Nuclear reconhece explicitamente o direito ao uso pacífico da energia nuclear.

Ainda assim, esse direito só vale para aliados do império. “Israel”, potência nuclear clandestina e fora do TNP, com arsenal atômico nunca inspecionado, permanece intocável. Ao Irã, exige-se submissão total. Eis o duplo padrão que sustenta o sistema internacional vigente.

As sanções cumprem papel central nessa guerra híbrida. Não são instrumentos jurídicos, mas armas de punição coletiva, usadas para estrangular a economia iraniana, gerar sofrimento social e tentar produzir fissuras internas.

Washington utiliza o sofrimento civil como ferramenta de barganha, esperando forçar concessões políticas que jamais obteria em condições normais. É uma forma de guerra econômica que viola abertamente os princípios mais elementares do direito internacional.

Quando os EUA tentam expandir a agenda das negociações para incluir o programa de mísseis e a capacidade defensiva iraniana, revelam ainda mais claramente suas intenções. Pedir que um país negocie sua própria defesa equivale a exigir rendição antecipada.

Nenhuma potência soberana aceitaria tal imposição. O Irã rejeitou essa manobra com firmeza, deixando claro que sua capacidade defensiva não está em negociação e jamais estará.

A desconfiança iraniana não nasce de paranoia ideológica, mas de experiência histórica concreta. Os Estados Unidos romperam unilateralmente o acordo nuclear anterior, destruíram compromissos multilaterais e, em 2025, chegaram ao ponto de bombardear instalações nucleares iranianas pacíficas durante negociações em curso.

Esse histórico torna risível qualquer exigência de “confiança” por parte de Washington. O imperialismo não inspira confiança. Inspira cautela e preparação.

Ainda assim, o Irã negocia. E esse ponto é central. Negocia porque é um Estado responsável, consciente da gravidade do cenário regional e disposto a buscar soluções estruturadas. Aceita verificação, aceita compromissos técnicos, aceita diálogo. Mas resiste, e continuará resistindo, porque é soberano. Negociar não significa ajoelhar-se.

Como afirmou reiteradamente o Líder da Revolução Islâmica, Ayatullah Seyyed Ali Khamenei, o Irã não constrói sua política externa sob ameaça, nem aceita acordos impostos à sombra de porta-aviões.

A diplomacia iraniana caminha lado a lado com a dissuasão porque a história recente mostrou, de forma brutal, que concessões unilaterais ao imperialismo não produzem paz, apenas novas exigências e novas agressões.

O que se desenrola em Genebra, portanto, não é um debate técnico sobre centrífugas ou percentuais de enriquecimento. É um capítulo da crise estrutural do poder imperial norte-americano, que já não consegue impor a sua vontade sem recorrer à força bruta e à chantagem.

É também uma tentativa desesperada de preservar a supremacia regional de “Israel”, hoje abalada pela resistência dos povos e pelo fracasso militar e político do projeto sionista.

Em última instância, trata-se de uma escolha histórica: soberania ou submissão. Os Estados Unidos atuam como braço diplomático do regime sionista, tentando impor ao Irã o que jamais exigem de “Israel”: limites, inspeções e obediência. O Irã negocia porque é responsável. Mas resiste porque é soberano.

Sayid Marcos Tenório é Historiador e Especialista em Relações Internacionais. É fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal). Autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência.


Fonte: https://luizmuller.com/2026/02/24/o-ira-diante-da-diplomacia-armada-do-imperialismo-por-sayid-marcos-tenorio/

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