A vida passa. O tempo corre, ontem e hoje. Ainda mais quando se fala de coisas que aconteceram ou foram registradas há 56 anos!
(Re)li por estes dias de início de 2026 o que escrevi no meu Diário em 29 de julho de 1970, eu com 19 anos, e fazendo o Noviciado no convento franciscano em Daltro Filho, então município de Garibaldi, hoje município de Imigrante, em tempos de ditadura militar:
“Escrevi carta ao Correio do Leitor do Correio do Povo. Não sei se a publicarão. É uma sátira contra o governo. Até tive medo de assiná-la.
Vou transcrevê-la aqui: ´Com agrado e satisfação, li neste jornal, há poucos dias, que o governo brasileiro tenciona empreender uma campanha contra a difamação do Brasil no estrangeiro.
Espero e estimaria muito uma campanha de verdade, com a liberdade de imprensa, pelo acabamento das torturas, pela reforma agrária e pela reforma administrativa.
Estas as medidas certas e não os vazios desmentidos através de discursos e pronunciamentos. Tenho plena certeza que, então, acabaria a pretensa difamação da nossa pátria no exterior. Pseudônimo: Chico. Nome: Selvino Heck – Daltro Filho – Garibaldi.´ É forte a carta, mas verdadeira. Duvido que seja publicada. Tenho medo de que talvez seja entregue à política ou coisa assim, mas creio e espero que não.”
Cabe registro de hoje, 23.01.26, como referência do ontem, 1970: “MST reúne mais de 3.000 militantes em Salvador para discutir os caminhos pela Reforma Agrária e pelo socialismo” (Brasil de Fato, 19.01.26).
Em 17 de novembro de 1970, escrevi, no mesmo caderno Diário, obviamente à mão: “Fomos de tarde a Taquari para votar, e voltamos na mesma tarde. Os votos foram divididos. Alguns MDB, outros ARENA. Aqui em Daltro Filho a cúpula é toda oposicionista, MDB.
Para Senador, votei num do MDB, outro da ARENA. E para deputados votei em dois arenistas. Um bem conhecido: Guido Lermen. Mas não creio que ele seja eleito. O outro foi Cid Furtado.” Eram os tempos de então, com minha primeira participação como eleitor.
Outro registro no Diário, este em 12.09.73, eu com 22 anos, e estudante de Teologia na PUCRS e morador da Vila Franciscana em Porto Alegre, ainda em tempos de ditadura militar:
“Penso às vezes em como é difícil fazer alguma coisa. Ou é impossível. Nem que a gente esteja consciente e tenha vontade e grite e bata os pés, no final, que é que resolve? Nada, nada. Ainda esta semana o candidato do MDB à Presidência da República do Brasil, deu uma entrevista na última edição da VEJA. E analisa muito a fundo e muito objetivamente o programa de seu governo, ou melhor, de sua candidatura. Ulysses Guimarães, esse seu nome, acha que vai ter liberdade de fazer sua campanha política. É o que quero ver. Só acredito vendo. Como estamos atualmente, aliás, parece-me que não dá mais pra acreditar em nada nem em nós mesmos. Ou ainda poderemos confiar em nós mesmos? Eu mesmo, nesta confusão toda, às vezes, não sei a resposta. Escuto uma poesia ´Os Estatutos do Homem`, de Thiago de Mello. É linda a poesia. Um cara meio subversivo o autor, cassado, esteve no Chile, atualmente não sei onde se encontra. No Brasil, possivelmente não.”
No mesmo dia 12 de setembro de 1973, escrevi no Diário: “Há pouco fiz uma poesia sobre pretenso suicídio de Salvador Allende e a coloquei no Jornal Mural da Teologia. Aliás, a situação do Chile está uma calamidade. E mais uma vez comprova-se que atualmente quem manda no mundo é o dinheiro. A pureza das intenções pouco vale. É preciso, antes de tudo, saber embrulhar o outro. E, no jogo das nações, ganha quem for mais rico. É realmente incrível quando se acompanha um pouco o noticiário sobre a situação internacional. O mundo está cada vez mais caótico. E o homem que vive neste mundo? É a pergunta. Cadê a resposta? Ou não há resposta?”
Registro de hoje, 23 de janeiro de 2026: O título do poema de 1973 era ALLENDE VIVE.
João Pedro Stédile, então estudante de Economia na PUCRS, leu o poema no Mural da Teologia, ficamos amigos e começamos o movimento estudantil de esquerda na PUCRS.
Resultado final, além da boa luta: acabei expulso da PUC RS no final de 1975, há 51 anos.
Em julho de 2018, escrevi texto e análise com o título ELEMENTOS DE CONJUNTURA NOS NOVOS TEMPOS, publicado em ´Lendo e Refletindo´, volume 1 (Organizadores: Cristina C. Brites, Luiz Felipe Lacerda, OLMA Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida, Casa Leiria, São Leopoldo/RS, 2021, p. 53): “Não é fácil, a poucos dias da eleição (tentar) entender tudo que aconteceu, e projetar o que vem ou pode vir pela frente. Há uma conjuntura que ainda precisa ser, e será, desvendada e descoberta.”
A palavra e declaração do presidente eleito em 2018 (esse que hoje está preso na Papudinha!), na noite da vitória, foi: “Não poderíamos mais continuar flertando com comunismo, populismo e com o extremismo de esquerda.”
Quais eram os cenários possíveis/prováveis, na análise de conjuntura de então, final de 2018? Cenário 1: “Haverá forte direitização em todos os sentidos, com corte de direitos e reformas em favor dos mais ricos, submissão internacional, com relações privilegiadas com EUA governos direitistas do mundo. O governo, mesmo sob muitas pressões de todos os lados, governará, na base da força e da truculência, e do poder político de seus aliados internos e externos” Cenário 2: “ Estabelece-se o (quase) caos político-institucional-econômico-social, com violência generalizada, ataque aos Direitos Humanos e seus defensores, crise em todos os sentidos. A sociedade brasileira se levanta, mas não consegue hegemonia, o governo perde perde o controle relativo, apela para uso das Forças Armadas e das forças policiais, a repressão é brutal e cotidiana, o país torna-se (quase) ingovernável. A democracia se enfraquece ou sucumbe”. Cenário 3: “A sociedade civil se organiza, cresce a desobediência civil, governo perde autoridade e não consegue implementar suas políticas ultraneoliberais e governar. Cresce a tensão social. O embate é na rua e na sociedade.”
Quais são as tarefas do próximo período, segundo esta análise no final de 2018?
“Tudo indica que o quadro conjuntural hoje será prolongado. Portanto, é preciso pensar e agir a médio prazo ( cinco anos) e longo prazo (mais de dez anos). 1. Constituição de uma Frente Ampla pela Democracia. 2. Estudar novamente e conhecer mais profundamente a estrutura de classes brasileira. 3. Mais movimento, menos instituição. 4. Intenso trabalho de base, de formação e politização. 4. Intensificar atuação via redes sociais, sem deixar as ruas. Conhecer e dominar o mundo da internet. 5. Luta em todas as frentes, com desobediência civil. 6. Preparar as eleições de 2020 de forma unificada.”
A análise de conjuntura de final de 2018 termina assim: “A crise é profunda e a luta será longa e difícil. Mas tal como foi enfrentada a ditadura militar e a redemocratização aconteceu, mais uma vez a democracia haverá de vencer. ´E ninguém solta a mão de ninguém´.”
São os tempos e foram as percepções e os olhares de ontem: 1970, 1973, 2018. O mundo não parou. O Brasil não parou. E em 2026 e anos seguintes, que será do mundo e do Brasil? Assunto para um próximo artigo, semana que vem.
ALLENDE VIVE
Uma bala mata o homem./ Uma bala não mata a ideia./ Os dias são muitos, incandescentes./ Ardem na poeira do tempo./ Nada como as horas que se sucedem,/ os minutos e segundos,/ as batidas do coração que abraçam milhões./ Sonhos são para serem sonhados./ Sonhos iluminam o horizonte,/ sonhos são eternos./ Há um tempo para cada coisa./ Há um tempo para a morte,/ há um tempo para a vida./ Latino-americanamente,/ caribenhamente,/ sobrevivemos./ Brasileiramente,/ vivemos e ressuscitamos Allende.
Selvino Heck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Em vinte três de janeiro de dois mil e vinte e seis