A violência na escola, os fabricantes de mentes vazias e a minha utopia
Infelizmente, no Brasil tem-se tornado comum as notícias sobre a violência nas escolas, principalmente aquela praticada por alunos contra professores e/ou seus próprios colegas de sala de aula. Não faz muito tempo, o Paraná ficou estarrecido com as notícias que vinham de Sarandi acerca da violência nos colégios.
Refiro-me mais especificamente àquele episódio em que um adolescente teve ferimentos graves em uma das mãos e olhos, se não me engano, quando o artefato explodiu em sua mão no instante em que tentou arremessar uma bomba caseira dentro da escola. Era um problema não exclusivo daquela comunidade, ou seja, alunos que deveriam estar na sala de aula tentavam atrapalhar quem lá estava para estudar.
Aí os meios de comunicação fizeram várias reportagens sobre o assunto durante aqueles dias. A sociedade debateu a questão: falta de segurança na cidade, falta de combate ao tráfico, despreparo dos professores, baixo salário docente, ausência de políticas públicas, desemprego, etc, etc. Parece que aumentaram o patrulhamento ostensivo da polícia ao redor de algumas escolas. Depois pouco se repercutiu na mídia casos semelhantes.
Pois bem. Uma semana antes da quarta-feira passada, os alunos de uma escola estadual de Londrina haviam provocado o “apagão” na escola para poderem ir pra casa e assistir à final do BBB (Big Brother Brasil), da Globo. Antes de ontem, alunos que estavam fora e dentro da sala de aula resolveram repetir o desligamento da energia e decidiram, por volta das 21h20, fazer um quebra-quebra (rasgaram livros, quebram alguns vidros de janelas, cadeiras, carteiras, pias). Leia detalhes aqui.
Hoje, num telejornal local de Londrina, o apresentador falou do assunto, disse que estava nervoso, falou em algumas daquelas questões que a sociedade abordou no caso de Sarandi, mas fez questão de frisar, mais de uma vez, que a polícia poderia resolver a questão.
Em ambos os casos (o de Sarandi e Londrina) tive a impressão que alguns vêm o emprego da força policial como a principal solução para o problema. Ajuda, não tenho dúvidas disso. Mas a questão é outra: precisamos tornar a escola um lugar em que as pessoas vão lá por prazer, e não por obrigação.
Quando ainda fazia o ensino médio no Colégio Branca da Mota Fernandes, abordei a questão numa redação. Disse, entre outras coisas, que eu tinha por objetivo tornar a aula de História, por exemplo (já que ela era taxada de “chata” pela maioria dos colegas), se um dia fosse professor dessa matéria, tão ou mais atrativa que a aula de Educação física na quadra de esportes da escola, única em que quase todos afirmavam – e traziam os sinais no rosto – ser a melhor das disciplinas, pois iam se divertir.
Pra começar, as estruturas de muitos de nossos prédios escolares públicos me lembram um presídio: têm portões (muitos parecidos com as grades da cadeia) que são trancados a cadeado logo depois que dá o sinal de começo da aula; têm pátios vazios (que também lembram aqueles em que os presos vão tomar banho de sol), etc.
Precisamos de arquiteturas arrojadas, formas distintas daqueles modelos quadrados. Já imaginou uma escola em forma de livro aberto?! Os mastros das bandeiras poderiam muito bem serem grandes canetas ou lápis, ou réguas, sei lá. Que tal um pátio em formato de coração, com bancos diferentes, feitos de materiais distintos, arrodeados por árvores, jardins? Já pensou em banheiros cujas decorações fossem planejadas pelos próprios estudantes?
E o que dizer de uma sala de aula de História cujas paredes, tetos, pisos, fossem decorados, pintados com temáticas sobre fatos importantes que mudaram os rumos do homem? Lousas com cores diferentes dos tradicionais verde e preto. Carteiras dispostas de formas a fugir da idéia de ordem. Tenho um projeto mais louco ainda (talvez um por cidade): museus em formato de túnel do tempo, onde cada sala representaria um século, por exemplo (talvez indo até 3 mil, ou 10 mil a.C...), com o máximo de informações possíveis sobre os principais acontecimentos de cada século, contendo não só livros com conteúdos da História “Oficial”, mas principalmente das outras Histórias Ocultas; computadores, pinturas, e também reproduções de objetos, etc.
E qual seria o impacto dos alunos deparando-se com um professor chegando para dar aula sobre a Independência da Índia vestido de Gandhi? E o professor diria para eles: “Muito bem, agora liguem seus computadores e acessem esse mapa” ou “Vamos jogar esse game e ver como era composta a sociedade indiana”.
A escola tem que ser um ambiente onde os alunos se sintam bem, tenham orgulho do local e dos funcionários que lá trabalham. Os trabalhadores da escola têm que ir pra lá com igual sentimento, pra isso precisam também de ótimos salários. Os responsáveis pelo planejamento do ensino idem. Os políticos que administram os recursos públicos têm que ter esse objetivo. Os empresários que financiam as eleições desses políticos, também. Os pais e a sociedade em geral não podem se afastar desse ideal. E é por isso que devem pensar bem na hora de eleger seus administradores.
O arguto leitor poderia estar pensando: “Nossa! Quanta ingenuidade desse cara! A utopia tem limites”. É óbvio que meu sonho é difícil de ser colocado em prática hoje, num momento em o governo Lula pegou esse país arrasado pela mesma burguesia desde quando passaram a chamar esse chão de Colônia de Portugal, mas não é impossível no médio e longo prazos.
Sabemos muito bem quais as forças que o impedem. Essas barreiras que nadam contra a maré têm nomes, às vezes estão do nosso lado, disfarçados; têm objetivos, querem acumular riquezas às custas de mentes cujas capacidades ainda não foram desenvolvidas; estão infiltrados em todas as instituições. Eles desejam que professores fiquem amedrontados ao ver alunos quebrando escolas e querendo ir assistir noveletas que instigam o consumismo, o sexo barato e os vícios em geral que produzem mentes vazias para poderem votar nos mesmos desadministradores de sempre.
__________
Postado por Marcos "Maranhão" em 4 de abril de 2008, às 22:59h






0no comments yet
Please type the two words below