Raskól envia carta ao governador
“Aidnâlogniram, 19 de fevereiro de 2014
Ilustre 'Maranhão':
Perdoe-me se acaso incorro em demasiado pessimismo, mas é que, depois daquela experiência lecionando em Silopólidnaras, em 2013, após o reinício das aulas neste ano em que te escrevo, decorrida a constatação de que piorei na lista de classificação de professor reserva naquela cidade, e 'otras cositas más' que arrolarei nos parágrafos seguintes, resta-me apelar para o governador daqui e retornar para o tempo presente em que tu te encontras, a fim de analisarmos com mais cautela a situação aqui do futuro e, de passagem, tentarmos impedir que estas coisas não se concretizem, visto que aí ainda não dão sinal de que haverá mudanças.
Pois eis que, após constatar minha queda na lista geral de professor reserva em Silopólidnaras (desci três posições em relação ao ano passado), e, estranhamente, minha subida na tabela de Aidnâlogniram, mesmo sem dar aulas aqui (ganhei vinte e sete posições), resolvi solicitar às funcionárias do departamento encarregado da seleção de pessoal a relação de todos os meus concorrentes do ano passado – eu esperava comparar com os deste ano, vendo quem saiu e quem entrou na briga por vagas -, no que me foi negado, sob a alegação de que estes dados já se encontravam arquivados.
Não era questão pessoal, não, nem desconfiança, apenas presumi que eu tinha este direito, afinal, nada melhor do que eu ter em mãos as informações de quem é quem na disputa por uma chance de sair do banco de reservas e mostrar serviço: minha intenção era tão-somente tentar encontrar os que estavam na minha frente e solicitar informações sobre onde conseguiram tão preciosos possíveis títulos de pós-graduação, a fim de que eu pudesse ver a possibilidade de conseguir um para pagar em parcelas condizentes com minha situação financeira.
Depois desta situação desanimadora, ainda arrisquei algumas candidaturas de emprego de professor em instituições privadas, mesmo contra minha vontade. Até que coloquei uma roupa social, ajeitei-me um pouco mais, mas ficou só no 'Depois a gente te liga, tá?'. Eu já sabia. Ali se respira negócio$. É na base do QI (Quem Indica).
Agora, só como tentativa de fazer este povo do futuro não desanimar, fiz uma carta ao governador. Li em praça pública e a enviei para a capital. Sei que pode parecer perda de tempo, mas anseio deixar algumas gotas de esperanças aqui em 2014, caso nossas ações aí em 2009 falhem.
Eis a carta:
Aidnâlogniram, 19 de fevereiro de 2014
Excelentíssimo Governador de Estado do Futuro,
Aquele a Quem Assistimos Jurar Pela Constituição.
Cumprimentando-o fraternalmente;
Esta carta tem como objetivo colocar-lhe a par de como andam as coisas da educação aqui por estas províncias do norte do Estado que Vossa Excelência governa e, de passagem, solicitar-lhe revisão nos critérios de selecionamento de pessoal para compor o quadro de funcionários que lhe ajudarão a fazer um excelente exercício do mandato ora outorgado-lhe pela população.
Saiba que as notícias do bom governo vosso na área educacional, os investimentos na construção de novas escolas, as compras de equipamentos de informática, laboratoriais e de novos ônibus para o transporte de alunos e, sobretudo, a implantação de políticas de melhoria dos salários dos professores, andaram atraindo não só os profissionais dessa área moradores da região, mas também um grande número de concorrentes vindo dos Estados vizinhos – é só ver os números -, o que é um direito de todo e qualquer cidadão de qualquer parte desta nação, afinal, a Constituição nos garante o direito de ir e vir.
Diante desta situação, nos últimos concursos, quer para a contratação de professores titulares, quer para os reservas temporários, verificou-se um acirramento na disputa, o que obrigou vosso departamento que trata destas coisas por aqui a adotar critérios que, na nossa opinião, pode até ser justo para alguns que têm condições financeiras melhores (principalmente se levarmos em conta a hipótese de que governos neoliberais fazem a escolha de seus funcionários também através do exame de títulos comprados no mercado hoje largamente crescente para este fim – o que não é vosso caso), mas mostra-se deveras injusto com aqueles cujas parcas economias mal lhe dão o direito de pagar um aluguel ou comprar seus alimentos básicos, o que dirá comprar títulos. Isso sem falar no outro critério que é a comprovação por tempo de serviço.
Ora, Vossa Excelência há de convir que, desse jeito, aqueles que podem comprar 50 títulos de pós-graduação, ou os que têm 500 anos de experiência na função são beneficiados em detrimento daqueles mais lascados, os mais pobres que, a duras penas, entraram numa universidade pública e gratuita e que estão querendo ter seu primeiro emprego como professor.
Porquanto, rogamos-vos que reveja os critérios para selecionar os professores titulares e reservas. Talvez não precise acabar de vez com as exigências de títulos e comprovação de experiência, mas dê uma amenizada no negócio porque tá feio o negócio pras bandas dos miseráveis sem titulação. Quem sabe possa lhe interessar o estudo de ideias tipo, além de uma prova para escolha dos professores reservas, uma avaliação das notas nos boletins segundo cada curso, de acordo com o tipo de instituição superior (as voltadas para o que seria o ensino sério e as que visam lucros); a criação do que seria o 4º grau, ou seja, incentivo a professores que queiram dar cursos de pós-graduação gratuitos em universidades públicas a alunos que, comprovadamente, sejam pobres - sem desmerecer os mestrados, é claro -, de forma a acolher os graduados que, digamos, têm menos capacidade de passar nestas pós mais difíceis – e que não estejam a fim de ficar puxando sacos de certos professores; a preferência para quem mora na cidade há, pelo menos, o tempo de uma graduação...
Certos de que Vossa Excelência olhará com carinho para esta situação, porque não lhe cairia bem a pecha de neoliberal, tal qual àquele antecessor a quem vós dirigiu acusações neste sentido; desejosos de que vosso discurso, de que este Estado de fato seja exemplo número um na educação do país, vire prática; e que vós não gostaríeis de ouvir na porta de vosso palácio 'Ado, ado, ado, Educação não é supermercado!!!', despedimos-nos com votos de sucesso no resto de vosso mandato,
Atenciosamente,
Comissão dos candidatos a professores reservas sem títulos de pós-graduações, sem experiência comprovada em carteira, miseráveis, lascados, sem teto, portadores de licenciaturas não curtíssimas, nem instantânea, muito menos via correio.
Nos vemos aí no presente.
Raskólhnikov II”
__________
Postado por Marcos "Maranhão" em 22 de ffevereiro de 2009, às 10:31h






0sem comentários ainda
Por favor digite as duas palavras abaixo