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Cultura

30 de Agosto de 2016, 13:39 , por Blogoosfero - | No one following this article yet.

Onde estão os novos Dom e Ravel para exaltar o Brasil Novo?

29 de Novembro de 2017, 10:25, por segundo clichê



Carlos Motta
 

Da mesma maneira que muitos artistas lutaram com as armas que tinham contra a ditadura militar, outros fizeram de conta que tudo estava normal no Brasil, e alguns poucos se colocaram ostensivamente ao lado do regime.

O caso mais emblemático é o da dupla Dom e Ravel, que compôs e cantou a ufanista marchinha "Eu Te Amo, Meu Brasil", que tocava sem parar em todas as emissoras de rádio e televisão nos anos 70 do século passado.

Alguns de seus versos são o suprassumo da patriotada mais canalha: "Mulher que nasce aqui/Tem muito mais amor.../O céu do meu Brasil tem mais estrelas/O sol do meu país mais esplendor.../Eu vou ficar aqui/Porque existe amor.../Ninguém segura a juventude do Brasil..."

A música, que se tornou o hino da ditadura, foi também gravada pelo conjunto de iê-iê-iê Os Incríveis, que oportunisticamente embarcou na onda de exaltação do Brasil governado pelos militares e incorporou ao seu repertório outras canções do gênero, como "Pra Frente Brasil" ("De repente é aquela corrente pra frente/ parece que todo o Brasil deu a mão/todos ligados na mesma emoção/tudo é um só coração"), de Miguel Gustavo, marchinha feita para a seleção brasileira de futebol que se consagrou tricampeão mundial no México, em 1970. Miguel Gustavo, porém, merece ser perdoado, pois é autor de deliciosos sambas de breque imortalizados por Moreira da Silva. 

A febre nacionalista de Os Incríveis foi tão forte que eles chegaram a gravar o Hino da Independência e o Hino Nacional!

A dupla Dom e Ravel, porém, era imbatível quando se tratava de defender as "conquistas" do regime militar. Estão aí, para quem quiser ouvir - é só procurar na internet - pérolas como "Você Também é Responsável", o hino do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), "Obrigado ao Homem do Campo", "Êxodo Rural", "Só o Amor Constrói"...

É estranho que hoje, neste Brasil Novo que em muito se assemelha ao do "ame-o ou deixe-o", ainda não tenha surgido sequer um Dom e Ravel, alguém que cante as maravilhas da nova legislação trabalhista, ou da reforma da previdência, ou da entrega do pré-sal às petroleiras estrangeiras.

Uma pena que Eustáquio Gomes de Farias, o Dom, tenha falecido no ano 2000, e seu irmão Eduardo Gomes de Faria, o Ravel, tenha deixado esta vida em 2011 - eles teriam muito a exaltar neste país que se lava a jato.



Para desafinar o coro dos contentes

28 de Novembro de 2017, 9:52, por segundo clichê



Carlos Motta


Houve um tempo em que os músicos brasileiros ousavam, criavam, iam além das fórmulas estabelecidas e fáceis - arriscavam tudo, nome, carreira, em troca da liberdade para se indignar, de se expressar em meio à névoa cinza que obscurecia o Brasil de então.

Não foram compreendidos na época, ainda não são compreendidos tantos anos depois, ainda carregam nas costas o pesado rótulo de "malditos", como se fossem aberrações que vagam no mundo dos perfeitos e dos "normais".

Eram, antes de mais nada, corajosos, porque sabiam que não tinham de enfrentar apenas o desprezo popular, as vaias públicas, os xingamentos ostensivos dos cães de guarda do poder, mas também a possibilidade, tangível, ameaçadora, opressiva, das dores da tortura física e psicológica, e até a eliminação física.

De certa forma, foram heróis que souberam lutar contra a crueldade institucional com as armas que tinham - seu talento, sua voz, seu cérebro, sua emoção.

O mais emblemático de todos esses "malditos" talvez seja o carioca Jards Macalé, 74 anos de fina ironia.

Sua obra sintetiza este Brasil que tentou se modernizar e depois voltou a ser a vítima preferida de uma elite ignorante, burra, escravocrata e medieval.

Macalé segue cantando, hoje com mais admiradores, mas infelizmente com nenhum - ou quase nenhum - seguidor. 

Não fez escola, pois afinal, como dizem os versos de Torquato Neto, na canção "Let's Play That", da dupla, "quando eu nasci/um anjo louco muito louco/veio ler a minha mão/não era um anjo barroco/era um anjo muito louco, torto/com asas de avião/eis que esse anjo me disse/apertando a minha mão/com um sorriso entre dentes/vai bicho desafinar/o coro dos contentes".

E quem nasce para desafinar o coro dos contentes nunca será convidado para participar do banquete dos homens de bem.

Além disso, como esperar que alguém alcance a felicidade se nasceu em Gotham City, no céu alaranjado de Gotahm City, quando caçavam bruxas nos telhados de Gotham City no dia da independência nacional?

Let's play that!

Aos 15 anos eu nasci em Gotham city
Era um céu alaranjado em Gotham city
Caçavam bruxas nos telhados de Gotham city
No dia da independência nacional

Cuidado! Há um morcego na porta principal
Cuidado! Há um abismo na porta principal

Eu fiz um quarto quase azul em Gotham city

Sobre os muros altos da tradição de Gotham city
No cinto de utilidades as verdades Deus ajuda
A quem cedo madruga em Gotham city

Cuidado! Há um morcego na porta principal
Cuidado! Há um abismo na porta principal

Só serei livre se sair de Gotham city
Agora vivo como vivo em Gotham city
Mas vou fugir com meu amor de Gotham city
A saída é a porta principal

Cuidado! Há um morcego na porta principal
Cuidado! Há um abismo na porta principal

No céu de Gotham city há um sinal
Sistema elétrico e nervoso contra o mal
Meu amor não dorme, meu amor não sonha
Não se fala mais de amor em Gotham city

Cuidado! Há um morcego na porta principal
Cuidado! Há um abismo na porta principal

("Gotham City" - Jards Macalé/José Carlos Capinan)



Léa Freire e a difícil arte de se viver dos sonhos

21 de Novembro de 2017, 0:21, por segundo clichê

Carlos Motta

 

A flautista e compositora Léa Freire (foto), uma das grandes batalhadoras da música instrumental brasileira, não mede as palavras quando fala sobre o apoio que o Estado dá aos artistas do país: "Seria bom ter uma política cultural que revisse a Lei Rouanet, que criasse programas de incentivo ao artista como os que existem na Europa e Estados Unidos, que pagasse direito autoral, que conectasse seus muitos órgãos, que não fosse somente um cabide de empregos, que fosse fiscalizado... Enfim, falta fazer tudo", diz. E complementa com uma observação que dá o que pensar: "O Sesc [entidade mantida por empresários do comércio, serviços e turismo, que atua nas áreas da educação, saúde, lazer, cultura e assistência] parece fazer muito mais pela cultura do que todo o aparato estatal."

 

A sua é uma opinião de respeito.


Afinal, Léa tem atuado, já por um bom tempo, nas duas pontas do balcão, como uma produtiva musicista, vivendo as dificuldades impostas por um mercado que, raras exceções, trata a arte como mero entretenimento, e como empresária, à frente do selo Maritaca, que comemora, neste ano, duas décadas de bons serviços prestados à música brasileira. 

"A Maritaca hoje é muito mais mecenas do que empresa", diz ela sobre a sua gravadora, que edita apenas música instrumental.

 

Neste ano, o selo lançou os CDs "A Mil Tons", um dueto entre o aclamado piano de Amilton Godoy, ex-Zimbo Trio, e a flauta de Léa Freire, com composições do pianista; "Arraial", terceiro disco do grupo Vento em Madeira, do qual ela faz parte; “Flor de Sal”, sétimo disco na carreira do compositor e multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo;  "Na Calada do Dia", do baterista e compositor Edu Ribeiro, também integrante do Trio Corrente; e "Troubadour", do contrabaixista francês, estabelecido no Brasil, Thibault Delor. Não é pouca coisa.

 

Léa conta que ouvia, durante os anos de estudo de piano, vários músicos eruditos brasileiros, como Camargo Guarnieri, Heitor Villa Lobos, Radamés Gnattali, e Souza Lima, entre outros. Foi nesse período que também conheceu a obra de Bach, Debussy e dos autores estrangeiros e se interessou pelo jazz, que a trouxe para a bossa nova, que chamou o choro e que, por fim, lhe mostrou o caminho para os inúmeros ritmos brasileiros.

Ela lançou seu primeiro CD, “Ninhal”, em 1997, com participações especiais da Banda Mantiqueira, Quarteto Livre, Joyce, Filó Machado e outros músicos de primeira linha, num total de 51 pessoas entre instrumentistas, arranjadores e compositores.

Em 1998 integrou-se ao grupo do saxofonista e flautista Teco Cardoso, com o qual fez várias apresentações, inclusive na Universidade de Miami e no Blue Note de Nova York, montando com ele um repertório que gerou o CD “Quinteto”, gravado em Nova York.

Em 2005 lançou dois CDs, o “Antologia da Canção Brasileira – Vol. 1” e “Vol. 2”, em parceria com o trombonista Bocato, com os quais recebeu cinco indicações pela imprensa como melhor disco do ano e também como melhor show.

Em 2006 realizou turnê pela Europa e no Brasil com o pianista dinamarquês Thomas Clausen e Teco Cardoso, tendo gravado o CD "Water Bikes", lançado no Brasil e na Europa. No ano seguinte foi a vez do CD “Cartas Brasileiras”, com a participação especial do maestro Gil Jardim.

Em 2011 e 2013 lançou os CDs "Vento em Madeira" e "Brasiliana", com o Quinteto Vento em Madeira e participação especial de Monica Salmaso. O quinteto é formado, além dela, por Teco Cardoso, Tiago Costa, Fernando Demarco e Edu Ribeiro.

Ainda em 2013 houve o lançamento, em Curitiba, do CD "Léa Freire e a Orquestra à Base de Sopro de Curitiba", com arranjos inéditos de suas composições.

Como produtora e editora de música instrumental brasileira, lançou, pela Maritaca, mais de 45 CDs e dois livros. Ela tem ainda parcerias com Joyce, que gravou músicas da dupla no Japão, Alemanha, Inglaterra e Brasil.

Nesta entrevista ao blog, Léa fala sobre o mercado da música instrumental no Brasil ("imagino que se formou uma rede alternativa que dá vazão a essa produção"), sobre o seu trabalho e o do Vento em Madeira ("tocamos em projetos sociais e escolas de música"), sobre o seu lado empresarial ("a indústria de hardware é hoje também dona da mídia") e, é claro, sobre a música brasileira instrumental contemporânea.

 

Segundo Clichê - Como está hoje o mercado para a música instrumental no Brasil? 

Léa Freire - Temos mais músicos e mais gravações a cada ano, cada vez com melhor qualidade, feitas por apaixonados pela música que estão espalhados pelo mundo inteiro e que por sua vez espalham essa paixão. Imagino que se formou uma rede alternativa que dá vazão à essa produção. As oficinas estão sempre lotadas de novos talentos e de nomes consagrados também.  

Segundo Clichê - No caso do Vento em Madeira e do seu próprio, como está se desenvolvendo o trabalho e quais os planos para o futuro?  

Léa - O Vento, este ano, além de lançar o CD "Arraial", se dedicou a tocar nos projetos Guri, da cidade e do Estado de São Paulo, além de escolas de música públicas e privadas, voluntariamente, visando a  formação de plateia e o contato com estudantes  de música. 

Segundo Clichê - Dá para explicitar, em termos gerais, que tipo de música instrumental se faz hoje no Brasil?  

Léa - Muitos, inúmeros! Choro, choro Jazz, uns com pegada mais jazzística, outros mais regionais, coisas com uma cara erudita, outras com um pé no contemporâneo... Tem de tudo.  

Segundo Clichê - A produção brasileira é bem aceita em muitos países pelo mundo e vários artistas nacionais são conhecidos mais no Exterior do que aqui. Por que isso acontece?   

Léa - Países com educação musical nas escolas tendem a ter plateias mais acostumadas com a música sem letra. Aqui existe uma pré-indisposição criada artificialmente, que desaparece quando as pessoas têm oportunidade de conhecer essa música.  

Segundo Clichê - No que se refere à sua atuação como empresária: como tem evoluído a Maritaca Discos?  

Léa - A maior dificuldade é a difusão: a indústria do hardware hoje também é dona da mídia, das gravadoras. A Maritaca hoje é muito mais mecenas do que empresa. Nosso maior sucesso foi o "Antologia da Canção Brasileira Vol. 1". Só gravei música instrumental, mas aqui voz é instrumento e poesia também é música. Não sou muito afeita a rótulos.  

Segundo Clichê - Na sua opinião, o que o Estado, por meio de seus órgãos ligados à arte e cultura, poderia fazer para ajudar os músicos brasileiros?  

Léa - Seria bom ter uma política cultural que revisse a Lei Rouanet, que criasse programas de incentivo ao artista como os que existem na Europa e Estados Unidos, que pagasse direito autoral, que conectasse seus muitos órgãos, que não fosse somente um cabide de empregos, que fosse fiscalizado, enfim, falta fazer tudo. O Sesc parece fazer muito mais pela cultura do que todo o aparato estatal...



Versos de luta, músicas de um país que sangra

17 de Novembro de 2017, 9:58, por segundo clichê

 

 
Carlos Motta


"Mordaça", um hino de resistência à ditadura militar que sufocava a nação, foi lançada no LP "O Importante é que Nossa Emoção Sobreviva", mesmo título do show que reuniu os dois autores da música - Eduardo Gudin, melodia, e Paulo César Pinheiro, letra, além da cantora Márcia.

Os versos do poeta Paulo César Pinheiro são magistrais:

Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo o que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva

O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo o que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa

É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar

Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva

E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar 

Muitos anos depois, em plena democracia, Paulo César Pinheiro se encontrou com Wilson das Neves, baterista, percussionista, compositor e cantor temporão, um dos músicos populares essenciais do país, morto em agosto deste ano, e juntos fizeram "O Dia Em Que o Morro Descer e Não For Carnaval", uma visão apocalíptica de um país dividido entre miseráveis e pobres - muitos, milhões - e ricos - poucos, mas donos do poder e responsáveis pela manutenção da maior desigualdade social do planeta.

Novamente, Paulo César Pinheiro produziu versos que fazem sangrar os corações mais empedernidos.

E que provam, de maneira inequívoca, que apesar de tudo, a arte popular não só retrata o seu tempo, mas sempre foi - e sempre será -  uma voz de resistência contra as injustiças, o autoritarismo e as trevas.

Fala, poeta!

O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil)

No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval

O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual

Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o poder devolver à esse povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval



Um banquinho, uma voz, um violão, e a nossa suprema vergonha

16 de Novembro de 2017, 11:10, por segundo clichê
 
Carlos Motta


Escuto muita música. Desde os meus 12, 13 anos, ou seja, há mais de meio século.

Ouço quase tudo com quase nenhum preconceito - está bem, axé é demais, esse tal de sertanejo universitário é de lascar, aquele batidão que dizem que é funk, então é dose, e até fico sem palavras para expressar o que sinto pelo "rock" nacional da década de 80 e por essas cantoras de hoje com voz de menininhas de 7 anos ...

Minha discoteca tem lá uns 1.500 LPs - alguém sabe o que é um "Long Play"? -, a maioria comprada no fim da década de 60 e na seguinte na saudosa Casa Carlos Gomes, em Jundiaí, onde o Paulinho Copelli me dizia, todo mês, "quanto você quer pagar agora", quando eu largava uma pilha de discos em sua mesa, para depois, ao escutar a minha resposta, marcar numa santa caderneta - alguém sabe o que é isso? - o que restava de minha dívida, interminável dívida.

Eram outros tempos, nos quais a palavra inflação ainda era desconhecida por grande parte de nós - não é que ela não existisse, a palavra e o que ela significava, mas convenhamos, o aumento do custo de vida não fazia parte da propaganda do Brasil que ia para a frente moldado pelos militares.

Tenho também algumas centenas de CDs, perto de mil, calculo, espalhados pelo apartamento, numa desordem que nem eu entendo.

Me considero um entendedor nível 4, uma escala de 10, da música em geral, pelo menos daquela que é mais difundida por estas terras: além, é claro, dos nossos ritmos, vamos dizer, mais consolidados, samba e seus subgêneros, choro, baião, xote, forró, frevo, marchinhas e marchas, conheço um pouco dos ritmos alienígenas, principalmente os americanos, como o jazz e suas milhares de variações, o rock e as suas também milhares de variações, idem o blues, ibidem o country, etc etc. Música erudita, a mesma coisa: já escutei e ainda escuto desde Boccherini, Vivaldi, Mozart, os três BBBs, os românticos do século XIX, as grandes árias das grandes óperas, o teatral Wagner, até essa turma mais moderna que acha que melodia não é essencial.

Ah, e o genial Villa-Lobos - sem patriotismo.

É isso, não só sou um ouvinte meio compulsivo, como acho que a música é uma das expressões culturais mais importantes da civilização - qualquer civilização. 

Bem, lá se foram umas 400 palavras e uns 2 mil caracteres e ainda não disse o que queria dizer nesta crônica ordinária. 

Falei de música, falei da minha paixão pela música, e ainda não cheguei ao essencial, que é seguinte:

que lixo de país é este que deixa um dos maiores músicos de sua história virar notícia de jornal porque está, aos 86 anos de idade, em estado de penúria?

Que porcaria de país é este que permite que um artista reconhecido como um gênio em todo o planeta, que é, junto com alguns outros poucos brasileiros, aclamado quase como unanimidade, aqui e lá no badalado "Primeiro Mundo", lá no invejado States, virar notícia porque não tem nem onde morar?

Dá uma tristeza infinita constatar que este país - e quando digo país quero me referir a não só às autoridades, mas ao todo poderoso mercado, aos meios de comunicação, à toda a engrenagem que faz a sociedade funcionar - chegou a este ponto.

Não bastava o vexame de ter como presidente um anão moral e ético, de vermos as instituições serem usadas para perseguir os "inimigos" da classe dominante, de nos assustarmos com a onda fascista que se aproveita da ignorância - e burrice, extrema burrice - da maioria do povo para crescer e intimidar quem ainda tem cérebro...

Não, não bastava perceber que o Brasil retrocede à Idade Média e das trevas, da caça às bruxas - "lincha, lincha que ele é comunista, ele é petista" -, da Inquisição, da pré-civilização...

Agora nos agarra essa vergonha, de chutarmos para o noticiário de escândalos a biografia desse que, fosse este um país não dominado pelo complexo de vira-lata, seria, há muito tempo, louvado como um gigante, um herói, o sujeito que com um violão e uma voz pouco potente, simplesmente definiu os rumos da Bossa Nova, esse gênero que é um dos mais fortes produtos brasileiros de exportação, e foi mestre indiscutível de milhares de artistas de todos os cantos da Terra.

Conheço pessoas que não gostam dele, não suportam seu jeito de cantar, porque talvez não percebam a sutileza com que ele, durante décadas, mostrou ao mundo um país de sonhos, gentil, cujos artistas, de qualquer cor, de qualquer condição social, eram respeitados justamente porque eram artistas, pessoas especiais, de sensibilidade exacerbada, capazes de tocar o coração mais empedernido.

A alma dói ainda mais quando, a poucas palavras de terminar este texto, tenho a certeza de que existem nestes 8 milhões e tantos quilômetros quadrados de solo, muitos músicos, cantores e compositores que se entregam à arte por puro amor, sem concessões a modismos, ao comércio, e ao vil metal.

Exatamente como este baiano João Gilberto. 



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