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3 de Abril de 2011, 21:00 , por Desconhecido - | 2 people following this article.
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Brasil ocupa 66o lugar em ranking da ONU de tecnologia de informação e comunicação

17 de Novembro de 2017, 20:23, por Feed RSS do(a) News
Na aldeia de Takalafiya-Lapai, no estado de Niger, na Nigéria, menino fala ao celular; ele é um dos beneficiários de um projeto do Banco Mundial. Foto: Arne Hoel/Banco Mundial

Na aldeia de Takalafiya-Lapai, no estado de Niger, na Nigéria, menino fala ao celular; ele é um dos beneficiários de um projeto do Banco Mundial. Foto: Arne Hoel/Banco Mundial

A nona edição do relatório anual ‘Medindo a Sociedade da Informação’ foi lançada nesta semana pela União Internacional das Telecomunicações (UIT), a agência das Nações Unidas especializada na área das tecnologias da informação e comunicação.

O documento deste ano conclui que avanços na internet, análise de ‘big data’, computação em nuvem e inteligência artificial vão permitir “enormes inovações” e transformar “de forma fundamental” negócios, governos e sociedades, servindo para melhorar os meios de subsistência em todo o mundo.

Segundo o relatório, essa “revolução vai se desenrolar nas próximas décadas com oportunidades, desafios e implicações ainda não plenamente conhecidos”.

Para colher esses benefícios, o documento defende que os países terão que “adotar políticas que sejam propícias à experimentação e inovação, ao mesmo tempo que mitiguem possíveis riscos à segurança, privacidade e emprego”.

Índice global

A Islândia lidera o Índice de Desenvolvimento de Tecnologia da Informação e Comunicação (IDI) da UIT em 2017. O país ocupava a segunda posição no ano passado. Coreia do Sul, Suíça, Dinamarca e Reino Unido completam as primeiras colocações da lista este ano.

O país lusófono melhor colocado no IDI 2017 é Portugal, na 44ª posição, a mesma do ano passado, seguido do Brasil em 66º e Cabo Verde em 93º. Em 122º lugar está Timor-Leste. São Tomé e Príncipe aparece em 132º, Moçambique em 150º, Angola em 160º e a Guiné-Bissau na 173ª posição. A região de Macau, na China, aparece em 26º no índice.

Há “diferenças consideráveis” entre as regiões do mundo no que diz respeito aos índices de desenvolvimento na área de tecnologia da informação e comunicação.

Segundo o documento da UIT, há também grandes diferenças entre os países de cada região e estas são associadas principalmente aos níveis de desenvolvimento econômico.

Américas

Os Estados Unidos e o Canadá lideram o Índice de Desenvolvimento de tecnologia da informação e comunicação na região das Américas.

No ranking regional das Américas, o Brasil está apenas em décimo lugar, atrás de países como Barbados, Bahamas, Argentina e Chile.

Segundo o relatório, no entanto, o Brasil é um dos maiores mercados de telecomunicações da região. A expectativa é que a qualidade e a cobertura dos serviços melhorem “significativamente” nos próximos anos.

África e Europa

Entre as regiões do mundo, a Europa tem a média mais alta no IDI 2017. As maiores melhorias no índice foram registradas em Chipre e na Turquia. Segundo o documento, o mercado de telecomunicação em Portugal tem visto um “desenvolvimento positivo”.

Na 72ª posição, as Ilhas Maurício são o país africano melhor colocado no índice. O continente também abriga dois dos países com as “melhoras mais dinâmicas” nos valores de seus IDI durante o ano: Namíbia e Gabão.

O chefe da UIT, Houlin Zhao, afirmou que as tecnologias de informação e comunicação (TIC) têm o “potencial de fazer do mundo um lugar melhor e contribuir imensamente para o desenvolvimento sustentável”. No entanto, ele afirmou que, apesar do progresso alcançado em geral, a “desigualdade digital permanece um desafio que precisa ser abordado”.

Acesse o documento clicando aqui. A parte sobre o Brasil está na página 29 deste trecho do relatório.

(Com informações da ONU News em Nova Iorque)



Um banquinho, uma voz, um violão, e a nossa suprema vergonha

17 de Novembro de 2017, 20:23, por Feed RSS do(a) News
 
Carlos Motta


Escuto muita música. Desde os meus 12, 13 anos, ou seja, há mais de meio século.

Ouço quase tudo com quase nenhum preconceito - está bem, axé é demais, esse tal de sertanejo universitário é de lascar, aquele batidão que dizem que é funk, então é dose, e até fico sem palavras para expressar o que sinto pelo "rock" nacional da década de 80 e por essas cantoras de hoje com voz de menininhas de 7 anos ...

Minha discoteca tem lá uns 1.500 LPs - alguém sabe o que é um "Long Play"? -, a maioria comprada no fim da década de 60 e na seguinte na saudosa Casa Carlos Gomes, em Jundiaí, onde o Paulinho Copelli me dizia, todo mês, "quanto você quer pagar agora", quando eu largava uma pilha de discos em sua mesa, para depois, ao escutar a minha resposta, marcar numa santa caderneta - alguém sabe o que é isso? - o que restava de minha dívida, interminável dívida.

Eram outros tempos, nos quais a palavra inflação ainda era desconhecida por grande parte de nós - não é que ela não existisse, a palavra e o que ela significava, mas convenhamos, o aumento do custo de vida não fazia parte da propaganda do Brasil que ia para a frente moldado pelos militares.

Tenho também algumas centenas de CDs, perto de mil, calculo, espalhados pelo apartamento, numa desordem que nem eu entendo.

Me considero um entendedor nível 4, uma escala de 10, da música em geral, pelo menos daquela que é mais difundida por estas terras: além, é claro, dos nossos ritmos, vamos dizer, mais consolidados, samba e seus subgêneros, choro, baião, xote, forró, frevo, marchinhas e marchas, conheço um pouco dos ritmos alienígenas, principalmente os americanos, como o jazz e suas milhares de variações, o rock e as suas também milhares de variações, idem o blues, ibidem o country, etc etc. Música erudita, a mesma coisa: já escutei e ainda escuto desde Boccherini, Vivaldi, Mozart, os três BBBs, os românticos do século XIX, as grandes árias das grandes óperas, o teatral Wagner, até essa turma mais moderna que acha que melodia não é essencial.

Ah, e o genial Villa-Lobos - sem patriotismo.

É isso, não só sou um ouvinte meio compulsivo, como acho que a música é uma das expressões culturais mais importantes da civilização - qualquer civilização. 

Bem, lá se foram umas 400 palavras e uns 2 mil caracteres e ainda não disse o que queria dizer nesta crônica ordinária. 

Falei de música, falei da minha paixão pela música, e ainda não cheguei ao essencial, que é seguinte:

que lixo de país é este que deixa um dos maiores músicos de sua história virar notícia de jornal porque está, aos 86 anos de idade, em estado de penúria?

Que porcaria de país é este que permite que um artista reconhecido como um gênio em todo o planeta, que é, junto com alguns outros poucos brasileiros, aclamado quase como unanimidade, aqui e lá no badalado "Primeiro Mundo", lá no invejado States, virar notícia porque não tem nem onde morar?

Dá uma tristeza infinita constatar que este país - e quando digo país quero me referir a não só às autoridades, mas ao todo poderoso mercado, aos meios de comunicação, à toda a engrenagem que faz a sociedade funcionar - chegou a este ponto.

Não bastava o vexame de ter como presidente um anão moral e ético, de vermos as instituições serem usadas para perseguir os "inimigos" da classe dominante, de nos assustarmos com a onda fascista que se aproveita da ignorância - e burrice, extrema burrice - da maioria do povo para crescer e intimidar quem ainda tem cérebro...

Não, não bastava perceber que o Brasil retrocede à Idade Média e das trevas, da caça às bruxas - "lincha, lincha que ele é comunista, ele é petista" -, da Inquisição, da pré-civilização...

Agora nos agarra essa vergonha, de chutarmos para o noticiário de escândalos a biografia desse que, fosse este um país não dominado pelo complexo de vira-lata, seria, há muito tempo, louvado como um gigante, um herói, o sujeito que com um violão e uma voz pouco potente, simplesmente definiu os rumos da Bossa Nova, esse gênero que é um dos mais fortes produtos brasileiros de exportação, e foi mestre indiscutível de milhares de artistas de todos os cantos da Terra.

Conheço pessoas que não gostam dele, não suportam seu jeito de cantar, porque talvez não percebam a sutileza com que ele, durante décadas, mostrou ao mundo um país de sonhos, gentil, cujos artistas, de qualquer cor, de qualquer condição social, eram respeitados justamente porque eram artistas, pessoas especiais, de sensibilidade exacerbada, capazes de tocar o coração mais empedernido.

A alma dói ainda mais quando, a poucas palavras de terminar este texto, tenho a certeza de que existem nestes 8 milhões e tantos quilômetros quadrados de solo, muitos músicos, cantores e compositores que se entregam à arte por puro amor, sem concessões a modismos, ao comércio, e ao vil metal.

Exatamente como este baiano João Gilberto. 



Versos de luta, músicas de um país que sangra

17 de Novembro de 2017, 20:23, por Feed RSS do(a) News

 

 
Carlos Motta


"Mordaça", um hino de resistência à ditadura militar que sufocava a nação, foi lançada no LP "O Importante é que Nossa Emoção Sobreviva", mesmo título do show que reuniu os dois autores da música - Eduardo Gudin, melodia, e Paulo César Pinheiro, letra, além da cantora Márcia.

Os versos do poeta Paulo César Pinheiro são magistrais:

Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo o que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva

O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo o que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa

É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar

Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva

E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar 

Muitos anos depois, em plena democracia, Paulo César Pinheiro se encontrou com Wilson das Neves, baterista, percussionista, compositor e cantor temporão, um dos músicos populares essenciais do país, morto em agosto deste ano, e juntos fizeram "O Dia Em Que o Morro Descer e Não For Carnaval", uma visão apocalíptica de um país dividido entre miseráveis e pobres - muitos, milhões - e ricos - poucos, mas donos do poder e responsáveis pela manutenção da maior desigualdade social do planeta.

Novamente, Paulo César Pinheiro produziu versos que fazem sangrar os corações mais empedernidos.

E que provam, de maneira inequívoca, que apesar de tudo, a arte popular não só retrata o seu tempo, mas sempre foi - e sempre será -  uma voz de resistência contra as injustiças, o autoritarismo e as trevas.

Fala, poeta!

O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil)

No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval

O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual

Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o poder devolver à esse povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval



Um espetáculo musical para lembrar que é preciso resistir

14 de Novembro de 2017, 21:53, por Feed RSS do(a) News
 
Carlos Motta


Houve um tempo em que as artes em geral, e a música popular, em particular, tinham um olhar social, voltado para a denúncia das mazelas do mundo. A denominação "arte engajada" abarcou muitas obras-primas, criadas sob circunstâncias adversas - censura, autoritarismo, ditadura, povos sufocados pela falta de liberdade, pela miséria, injustiça e desigualdade. Várias delas conseguiram permanecer atuais, não só pelas suas qualidades, mas pelo fato de que, trágica ironia, a realidade que buscavam retratar e superar voltou a percebida, no Brasil e em vários outros países, cada dia com mais intensidade.

O jornalista, cantor e compositor Julinho Bittencourt teve a sua educação musical no período final da ditadura, entre 1976 e 1980, e, quando garoto, se apaixonou pelas canções de protesto, ouvia muito Mercedes Sosa, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Violeta Parra, Victor Jara, "enfim, aquelas canções que levantavam multidões".

Nos anos 80 do século passado, lembra, essas músicas passaram a ser tratadas como "cafonas" e "chatas" pelo pessoal do rock nacional, "foi uma coisa que caiu de moda, podemos dizer assim". Recentemente, porém, diz, "com o avanço da direita, o golpe contra a Dilma, essas pautas moralistas, enfim, com esse cenário horrível que o país e o mundo também passaram a viver, elas voltaram a fazer sentido e eu comecei a perceber que as pessoas retomaram o interesse por essas canções e as pediam nas nossas apresentações."

Ele conta que estava em Brasília, "no olho do furacão, com aquela tensão toda, e veio a ideia de um espetáculo, uma coisa onde um ator explicasse a origem, o período histórico, a banda tocasse aquelas músicas, e as legendas fossem exibidas no telão, com fotos referentes".

E aí nasceu o espetáculo “Música de Resistência – As Canções de Protesto do Século XX”, que Julinho Bittencourt e Banda apresentam, nesta sexta-feira, 17 de novembro, às 21 horas, no Teatro do Sesc de Santos (Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida, tel: 3278 9800), com ingressos a R$ 17,00 (inteira), R$ 8,50 (meia) e R$ 5,00 (comerciário). A direção do espetáculo é de Platão Capurro Filho e a narração de Sander Nilton. 

Julinho explica que as canções do show são as que, de alguma forma, tiveram relações com as grandes transformações do século passado - são as chamadas músicas de protesto, compreendidas entre a Guerra Civil Espanhola, que teve início em 1936, até a ditadura militar brasileira, nas décadas de 70 e 80, passando por vários conflitos de países do Ocidente, como a França, Itália, África do Sul, Jamaica, Argentina, Chile e Brasil.

A concepção do espetáculo, roteiro e textos são do próprio Julinho Bittencourt, e entre as canções que serão apresentadas estão “Bella, Ciao” (anônimo), “The Partisans”, de Anna Marly e Hy Zaret; “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra; “Los Hermanos”, de Atahualpa Yupanqui; “The Luck of the Irish”, de John Lennon; “Redemption Songs”, de Bob Marley; “Apesar de Você”, de Chico Buarque; e “Caminhando”, de Geraldo Vandré, entre outras.

Julinho (violão e voz), Fernando Rebello (violão e voz), Luiz Cláudio de Santos (contrabaixo e voz), e Michel Pereira (percussão) formam a banda, de velhos amigos que tocam juntos há tempos. Todas as canções terão legendas e imagens correspondentes projetadas no fundo do palco. A programação visual é do artista multimídia Bruno Santana.

"O Sesc topou ser o palco da estreia do espetáculo", informa Julinho. "Conversei com a Alexandra Linda e ela gostou da ideia, levou para a gerência, foi aprovada e aí tudo rolou. Vamos, depois do show, sair por aí, se tudo der certo", diz.

 “Música de Resistência – As Canções de Protesto do Século XX” tem tudo para dar certo. Afinal, agora, mais que nunca, é preciso resistir.



Juiz de direito, guitarrista. E criador de um festival internacional de música

9 de Novembro de 2017, 18:10, por Feed RSS do(a) News
Foto: Antonio Trivelin
Carlos Motta


A vida de músico não é fácil no Brasil. Da mesma forma, não é para os fracos a tarefa de promover a música num ambiente dominado por uma indústria que odeia a qualidade. Mesmo assim há pessoas que se dedicam simultaneamente à vida artística e à extenuante missão de levar cultura ao público. 

Haja fôlego, haja coragem, haja vontade.

A situação se complica ainda mais quando essa pessoa exerce uma profissão que exige uma atenção constante, quase como um sacerdócio. 

Esse é o caso o doutor José Fernando Seifarth de Freitas, juiz da Vara da Família em Piracicaba, importante cidade do interior paulista, que também é Fernando Seifarth, violonista dos mais respeitados entre o pessoal que toca o jazz manouche, ou cigano, gênero que nasceu da genialidade do belga Django Reinhardt, lá nos anos 30 do século passado e rapidamente se espalhou pelo mundo todo. 

O juiz de direito e o músico, provando que muitas vezes querer é poder, se fundiram há alguns anos para criar um dos mais interessantes eventos artísticos do país, o Festival de Jazz Manouche de Piracicaba, que em sua última edição, no mês de outubro, mostrou, a um público entusiasmado, o trabalho de aclamados músicos brasileiros e estrangeiros.

Não à toa, Piracicaba é hoje considerada a "capital" do jazz manouche no Brasil.

Fernando Seifarth, na entrevista que deu a este blog, conta que não cabe somente a ele organizar o festival. Essa tarefa hercúlea, afirma, é realizada por uma equipe de abnegados. Diz ainda que esse trabalho é praticamente ininterrupto - nem bem o festival termina, começam os preparativos para o próximo.

"Concluímos este ciclo de cinco anos com o jazz cigano brasileiro definitivamente inserido no cenário mundial", opina. Mas apesar do sucesso do festival, ele não sabe se "e quando" haverá uma próxima edição.

"Começamos uma integração entre os países da América Latina, Chile, Argentina, Colômbia, México e Peru, com participação recíproca em festivais", informa. "Gostaria de apoiar essa integração e tentar a aprovação de algum projeto cultural para viabilizar a vinda de artistas desses países, bem como de músicos tradicionais e emblemáticos do jazz manouche europeu, como os Rosenbergs, e para tanto, o festival necessita de maior estrutura e suporte financeiro", completa.

O público que vibrou com as apresentações dos artistas neste ano certamente ficaria extasiado em ver e ouvir lendas do jazz manouche como o Rosenberg Trio.

Isso pode parecer um sonho, mas não impossível, a julgar pelo que já esse músico/juiz realizou em prol da difusão da música de qualidade no Brasil.

A seguir, a entrevista que Fernando Seifarth deu a este blog:


Segundo Clichê - Como surgiu a ideia de organizar um festival de jazz manouche em Piracicaba?
Fernando Seifarth - Em 2008, fundei o grupo Hot Club de Piracicaba para tocar, dentre outros estilos musicais, o jazz do violonista belga Django Reinhardt. Na época, lançamos um CD e passei a ter contatos com alguns músicos brasileiros que tocavam o jazz cigano (jazz manouche ou gypsy jazz) pela rede social “myspace”, dentre eles Benoit Decharneux e Ernani Teixeira. Em 2010, por todo o mundo celebrava-se o centenário do nascimento do Django. Resolvi fazer o mesmo em Piracicaba e convidei a banda de Benoit, o Hot Club do Brasil, o  Ernani Teixeira, que é o violinista do Hot Jazz Club de Campinas, e o grupo Traditional Jazz Band Brasil, que, apesar de não tocar o jazz manouche, é o padrinho do Hot Club de Piracicaba, para participar de um show chamado “100 anos de Django”, que ocorreu no Teatro Municipal Dr. Losso Netto. Muito animado com o sucesso daquele evento e após uma conversa com Benoit e Ernani, surgiu a ideia de fazer um encontro anual e permanente em Piracicaba, com a proposta inicial de reunir artistas brasileiros dedicados ao jazz cigano. E assim ocorreu, em 2013, com a primeira edição do Festival de Jazz Manouche de Piracicaba, realizada no Teatro Municipal Erotides de Campos, com a presença do Mauro Albert Quarteto, Hot Club do Brasil, Hot Club de Piracicaba e Hot Jazz Club. Em 2014, o festival transformou-se em um evento internacional.

Segundo Clichê - Conte um pouco de sua trajetória artística e como você a concilia com a sua atividade profissional.
Fernando - Comecei a estudar música e violão aos sete anos de idade, no conservatório musical Frutuoso Viana, em São Paulo. Estudei violão clássico por quatro anos, passando depois para o violão popular, guitarra elétrica e contrabaixo. Integrei o conjunto Bombom em 1983 e 1984, que fez grande sucesso com o hit “Vamos a La Playa”.  Ainda participei, em 1985 e 1986, do grupo Página 1, em São Paulo, que fazia um rock pop autoral. Deixei a música profissional em 1987, quando ingressei na Universidade de São Paulo. Após me graduar na Faculdade de Direito, em 1991, fui aprovado em concurso público para a magistratura paulista em 1993. Paralelamente à minha profissão, assumi a atividade musical como hobby. Fui convidado, em 2007, pelo querido amigo Newman Simões a integrar o conjunto musical piracicabano Falando da Vida, formado por profissionais de várias áreas, com propósito beneficente, e voltei a me apresentar publicamente. Em 2008, juntamente com os músicos Cidão Lima e Marcos Monaco, ambos da Traditional Jazz Band Brasil, fundei o Hot Club de Piracicaba. Com esse grupo, gravei dois CDs - o terceiro será lançado em 2018 - e fiz várias apresentações em teatros e festivais. Participei do CD de 45 anos da Traditional Jazz Band e de dois CDs do grupo campineiro Hot Jazz Club, “Caravane” e “Chama”. Em 2015, lancei o CD solo “The Nashville Sessions”, que foi gravado nos EUA com o Hot Club de Nashville - toda a renda dele é doada à Nupron, uma entidade que atende pessoas com tuberculose e seus familiares. Em 2017, passei a tocar  eventualmente com  o grande músico Bina Coquet, com quem participei de shows no Sesi e Sesc e importantes festivais, como “Django Amsterdam” e “Django Festival Colômbia”. Tive ainda  o privilégio de acompanhar o violonista inglês Robin Nolan em recente turnê no Brasil, incluindo a apresentação no Sesc Consolação, ocasião em que foi gravado um documentário. Dedico-me à música nos fins de semana, no período de férias, e por vezes à noite, após o expediente no fórum. Apesar de ser um hobby, trato a música com seriedade e respeito. Essa atividade artística não atrapalha o exercício de minha profissão. Ao contrário, ela me auxilia a manter o equilíbrio e serenidade como juiz da vara de família. Costumo brincar que a música é a minha terapia.

Segundo Clichê - Como é organizar o festival? Quanto tempo demanda a organização? Como são conseguidos os patrocínios e os apoios? Qual o custo do festival? Quantas pessoas se envolvem nesse trabalho?
Fernando - Demora praticamente um ano para organizar cada edição do Festival. Tão logo se encerra um, já começo a pensar no próximo. O processo é trabalhoso: programação, publicidade, logística... Mas há sempre um produtor e a colaboração de minha esposa Kika e de vários amigos, dentre eles Silvana Benetton, Luis Castel, Bia Antonini e Antônio Trivelin. Ernani Teixeira ajudou bastante nas três primeiras edições na definição dos "set lists” das bandas e dos releases. Também a diretora do Teatro Municipal, Heloísa Guerrini, prestou grande auxílio nestes cinco anos. Já foram produtores, com muita eficiência, Daniela Justi, Newman Simões e Márcio Sartório.
O festival tem o apoio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Piracicaba, de alguns amigos empresários e estabelecimentos da cidade, que fazem parceria para a alimentação, acomodação e transporte dos músicos. Todavia, eu e minha esposa ainda somos os principais patrocinadores. Em 2017, vendi alguns instrumentos musicais de minha coleção e um amplificador para ajudar... O Sesc de Piracicaba, pela coordenadora Vanessa Piazza, também tornou-se parceiro essencial para o festival  e, em 2017, sediou parte do evento. A imprensa piracicabana, por seu turno, dá ampla cobertura aos eventos. O concerto no Engenho Central tem sido beneficente, com destinação da bilheteria ou alimentos arrecadados a entidades de caridade. Nas duas últimas edições, organizamos os concertos no palco externo, o que visivelmente contou com maior simpatia do público. O festival apenas acontece porque há uma união de esforços de várias pessoas, notadamente dos músicos brasileiros participantes, que se dedicam sobremaneira ao evento. São verdadeiros parceiros do festival. Gilberto de Syllos e Bina Coquet, por exemplo, acompanharam artistas estrangeiros em todas as edições e Mauro Albertt sempre colaborou com a programação.

Segundo Clichê - Sobre a parte artística: como os participantes, nacionais e estrangeiros, são escolhidos  e convidados?
Fernando - Nestas cinco edições do festival procurei convidar artistas brasileiros com longa dedicação ao jazz cigano. Já passaram pelo festival os grupos Hot Jazz Club (Campinas), Jazz Cigano Quinteto (Curitiba), Seo Manouche (São Paulo), Hot Club do Brasil (São José dos Campos), Roda Romani Trio (Rio de Janeiro), Tigres Tristes (São Paulo), Hot Club de Piracicaba, Mauro Albertt Quarteto (Florianópolis), Epoti (São Paulo), e os músicos Bina Coquet, Felipe Coelho, Daniel Grajew, Marcelo Cigano, Thadeu Romano, Flavio Nunes, Eduardo Brasil, Otiniel Aleixo, Felipe Salvego, Vinicius Araújo, Benoit Decharneux, Israel Fogaça, Sandro Haick e Edu Gallian, dentre outros. Em relação a artistas estrangeiros, escolhi grandes violonistas em que me inspiro, como ocorreu com Richard Smith, Robin Nolan e Paul Mehling, e outros que conheci em festivais no exterior, e que passei a admirar como pessoas e músicos talentosos, como o grupo Tcha Badjo, a cantora Eva Scholten, a compositora e violonista Irene Ypenburg, e o violinista Rudy Bado. Mauro Albertt também ajudou nos contatos, dando sugestões, como os violinistas Jon Larsen, Dario Napoli e Walter Coronda.

Segundo Clichê - Por que você resolveu se engajar artisticamente com o jazz cigano? Como você vê a evolução, em termos de ampliação do número de artistas e de público, do gênero, no Brasil?
Fernando - Quando meu amigo Cidão Lima me introduziu na música de Django, fiquei completamente envolvido e apaixonado pelo jazz manouche. Comecei a ler livros e artigos a respeito deste assunto, comprar discos e assistir shows e festivais no exterior. Ouço muito os CDs do Django e de vários artistas contemporâneos. Não tenho muito tempo para estudar o violão cigano de forma sistematizada, mas tenho me dedicado especialmente ao aprendizado da parte rítmica. O contato com Bina Coquet mudou completamente a minha forma de tocar violão e Robin Nolan me deu valiosos conselhos neste último ano. Simplesmente adoro fazer a “la pompe” para que violonistas virtuosos façam solos maravilhosos. É de fato impressionante como o jazz cigano evoluiu no Brasil nos últimos dez anos e conquistou o seu espaço. Os grupos e artistas solo se multiplicaram por todo o país, vários CDs foram produzidos (alguns até mesmo incluídos em selos internacionais, como o norueguês Hot Club Records, de Jon Larsen) e há programação permanente em bares e clubes de jazz, como em Curitiba, Florianópolis, São Paulo e Piracicaba. Nesta última edição, o Festival de Jazz Manouche de Piracicaba recebeu público de várias cidades brasileiras e fico muito feliz em saber que ele contribuiu para o desenvolvimento e consolidação desse gênero musical em nosso país. Tive conhecimento que o jornalista Henrique Inglês de Souza está escrevendo um livro sobre toda esta história, o que é fantástico.

Segundo Clichê - Quais os planos para o  próximo festival?

Fernando - Concluímos este ciclo de cinco anos com o jazz cigano brasileiro definitivamente inserido no cenário mundial. Não sei se e quando teremos uma próxima edição. Por iniciativa do amigo colombiano Ludovic Dierks, começamos em 2017 uma integração entre os países da América Latina, Chile, Argentina, Colômbia, México e Peru, com participação recíproca em festivais. Gostaria de apoiar essa integração e tentar a aprovação de algum projeto cultural para viabilizar a vinda de artistas daqueles países, bem como de músicos tradicionais e emblemáticos do jazz manouche europeu, como os Rosenbergs. Para tanto, o festival necessita de maior estrutura e suporte financeiro. Há ainda a possibilidade de fazer o festival em 2018 ou 2019 somente no Sesc de Piracicaba. 



Um café lá em casa, um banquete para a MPB

7 de Novembro de 2017, 18:51, por Feed RSS do(a) News
 



Carlos Motta


O guitarrista e violonista Nelson Faria não é apenas um dos mais importantes músicos brasileiros, com 12 CDs gravados, oito livros publicados, dois deles com edições nos Estados Unidos, Japão e Itália, uma videoaula e um DVD, com o grupo Nosso Trio, editados - calmamente, aos poucos, ele vem promovendo uma revolução no mercado cultural do país, com o seu programa "Um Café Lá em Casa", que tem edições semanais no YouTube, e também vai ao ar nos canais de TV por assinatura Futura e Arte1.

Nelson já levou ao seu programa, onde entrevista, toca e ouve histórias, mais de 150  músicos e cantores dos mais diversos gêneros, uma façanha que transforma o "Café" um extraordinário arquivo artístico, ajudando, dessa forma, a preencher uma lacuna deixada pelo poder público na desoladora área cultural do Brasil. 

O sucesso do programa, que desde que foi lançado, em março de 2015, já teve, na web, mais de 6 milhões de acessos - no mês passado foram cerca de 500 mil visualizações -, se deve, em grande parte, ao tom intimista criado por Nelson ao receber seus convidados, muitos deles amigos de longa data. 

Nelson, sabiamente, se aproveita do fato de ter participado, como músico, arranjador e produtor em mais de 200 CDs de diversos artistas nacionais e internacionais e ter dividido palco e estúdios com craques do nível de João Bosco, Gonzalo Rubalcaba, Milton Nascimento, Toninho Horta, Tim Maia, Nico Assumpção, Gilson Peranzzetta, Paulo Moura, Wagner Tiso, Edu Lobo, Pascoal Meirelles, Antonio Adolfo, Nivaldo Ornelas, Mauro Senise e Maurício Einhorn, entre vários outros, para registrar encontros memoráveis entre ele, no pleno domínio do violão ou guitarra, e seus convidados.

A excelência desses encontros é ainda mais surpreendente quando se fica sabendo que eles são organizados por uma equipe pequena, de apenas nove pessoas, como informa Juliana Faria, produtora do programa e filha de Nelson: "A nossa estrutura é muito simples, se comparada a grandes produções. O programa é gravado literalmente 'lá em casa' e a equipe principal é a família", diz.

Juliana também conta que atualmente a produção do programa é muito procurada por novos artistas e que os elogios ao "Café" partem tanto da comunidade de artistas quanto do público em geral, o que, segundo ela, estimula a equipe a continuar divulgando música de qualidade, "para que cada vez mais gente tenha acesso a esse tipo de informação", e como diz na entrevista que deu ao "Segundo Clichê", possibilite começar a trabalhar "com novos formatos e fazer o programa crescer".

A seguir, Juliana Faria fala sobre o já essencial, para a música popular brasileira, "Um Café Lá Em Casa":


Segundo Clichê - Como surgiu a ideia de se fazer um programa sobre música brasileira na internet?

Juliana Faria - A ideia do programa surgiu em família. Eu e meu irmão Nelsinho Faria, que é o diretor do programa, já trabalhávamos com audiovisual e tivemos a ideia, junto com o nosso pai, de criar o programa "Um Café Lá Em Casa". Meu pai sempre recebeu muitos amigos em casa. Um deles é o João Bosco, com quem trabalhou durante 12 anos como arranjador e diretor musical. De vez em quando o João ligava e perguntava "Tá em casa? Posso passar aí para tomar um café?" Acontece que o "café" era apenas um pretexto para que os dois batessem um papo, tocassem um pouco e estudassem alguma nova ideia musical: uma nova composição, um novo arranjo e por aí vai. Durante um desses encontros, eles resolveram gravar um arranjo da música "Dindi", de Tom Jobim, que estavam tocando. Filmaram com a câmera do computador mesmo, de forma superdespretenciosa, e colocaram no YouTube. Foi o maior sucesso! Foi aí que pensamos em tornar essas "visitas" regulares, com os mesmos ingredientes: café, conversa e boa música. Assim nasceu "Um Café Lá Em Casa".

Segundo Clichê - Quantas pessoas estão envolvidas em sua produção?

Juliana - Hoje temos uma produtora, FUGA Films, que trabalha principalmente com música (filmagem, edição, produção). Somos 9 no total, nos dividindo entre o "Um Café Lá Em Casa", o "Fica a Dica Premium" (nosso projeto de escola de música virtual) e outros projetos da produtora.

Segundo Clichê - Quantos programas já foram gravados e levados ao ar e qual a periodicidade das gravações?

Juliana - Já são mais de 150 programas no ar. Não temos um cronograma fixo de gravação, às vezes gravamos três programas por semana, às vezes nenhum. Depende principalmente da agenda do Nelson. Mas lançamos um programa novo por semana, toda quinta-feira.

Segundo Clichê - Como é feito o contato com os convidados?

Juliana - Muitos convidados são amigos do Nelson, temos uma lista enorme de artistas para convidar! Mas muitos entram em contato por e-mail ou pelas nossas redes sociais. É muito bacana conhecer novos artistas também.

Segundo Clichê - Qual o custo dos programas?

Juliana - A nossa estrutura é muito simples, se comparada a grandes produções. O programa é gravado literalmente "lá em casa" e, como eu disse, a equipe principal é a família, ou seja, até hoje investimos muito nesse projeto. Mas temos uma campanha recorrente de crowdfunding na Benfeitoria que nos ajuda a arcar com parte dos custos de produção! O link é esse aqui: benfeitoria.com/umcafelaemcasa.

Segundo Clichê - Como se dá a captação de patrocínios e apoios?

Juliana - Ainda não contamos com patrocínio, infelizmente. Os apoios que conseguimos foram através de contato direto com as empresas, sem intermediários.

Segundo Clichê - Já era intenção levar o programa para a TV?

Juliana - Antes mesmo de lançar no YouTube, já pensávamos em levar o programa para a televisão em algum momento. Hoje, o programa está passando no canal Futura e reprisando no Arte1.

Segundo Clichê - Quais os programas que tiveram maior audiência? Qual a audiência média dos programas na internet?

Juliana - João Bosco, Yamandu Costa, Hermeto Pascoal, João Alexandre, Pipoquinha... Esses são os que tiveram uma maior audiência por enquanto. É um pouco difícil calcular uma média, porque temos muitos vídeos e cada um entra em um momento diferente. Nos último mês tivemos 500 mil visualizações em todos os vídeos do canal. Desde que criamos, já são mais de 6 milhões de views.

Segundo Clichê - Como está sendo a repercussão do programa entre a classe artística e a indústria musical?
Juliana - Temos recebido muitas críticas positivas, tanto de músicos quanto de espectadores de uma forma geral.

Segundo Clichê - Quais os planos para o programa? Quem serão os próximos participantes?
Juliana - Entre os nossos próximos convidados estão Leo Russo, Leo Gandelman, Sandra Duailibe, Marcinho Eiras... Vem coisa boa por aí! Nossa missão é continuar trazendo música de qualidade para o programa, para que cada vez mais gente tenha acesso a esse tipo de informação, além de começar a trabalhar com novos formatos e fazer o programa crescer.



A difícil arte de matar um leão por dia

7 de Novembro de 2017, 18:51, por Feed RSS do(a) News



Carlos Motta


"A não ser que você esteja nas 'paradas do sucesso', a vida do músico no Brasil é uma batalha diária. Precisamos matar um leão por dia."

A afirmação é do compositor e guitarrista Mauro Albertt, um dos expoentes do jazz manouche, ou cigano, no Brasil, que exibe essa mesma garra e profissionalismo nos trabalhos que faz, tanto em palco como em estúdio.

Mauro foi um dos destaques do recém-concluído 5º Festival de Jazz Manouche de Piracicaba, evento que reuniu importantes artistas durante vários dias na cidade, considerada a capital nacional desse gênero musical, criado pelo guitarrista Django Reinhardt nos anos 30 do século passado.

Ele já gravou oito discos instrumentais e toca profissionalmente desde 1990. Mas foi a partir de 2009 que vem se dedicando à pesquisa e estudo da música e cultura ciganas. 
  
Foi pelos caminhos da música que Mauro conheceu Louis Plessier, guitarrista francês que por 40 anos conviveu com a família de Django Reinhardt. Os dois formaram um duo de violões o Drom Manouche, e juntos compuseram diversos temas, fundindo estilos e influências. Viajaram por cidades do país, difundindo o jazz manouche franco-brasileiro, e gravaram o CD “Droms Manouche”. Plessier, porém, veio a falecer em março de 2014.

Em novembro de 2013 uma das composições de Mauro Albert foi incluída no CD "Django Festival 7" que conta com a presença de grandes nomes mundiais do Jazz Manouche, como Biréli Lagrène, Jimmy Rosemberg, Gonzalo Bergara, Florin Nicolescu e Antoine Boyer, entre outros. O disco foi lançado pelo selo Hot Club Records, a principal gravadora do gênero, com sede em Oslo, Noruega, que também foi responsável pela gravação de outros dois discos de Mauro, “Jazz Manouche Brasil” e “Droms Manouche”.

Em 2015 ele gravou, com o guitarrista italiano Dario Napoli o CD “Exchange Gypsy Jazz”, com composições dos dois e interpretações de temas de Django Reinhardt, Henri Mancini e Hermeto Pascoal. Nesse mesmo ano, a Sesc TV exibiu os programas Sesc Instrumental Brasil com o Mauro Albertt Quartet Droms Manouche, e Passagem de Som, no qual ele recorda a sua parceria com Louis Plessier.


A partir de dezembro de 2015 Mauro começou a colaborar com a edição brasileira da revista "Guitar Player", com uma coluna exclusiva sobre o Gypsy Jazz, e em março de 2016 lançou o álbum "Optchá" , expressão cigana que significa “salve”, e que conta com a participação de Rafael Calegari (contrabaixo acústico), Fernando Caramori (violão rítmico) e Gabriel Vieira(violino).

Se o álbum com Dario Napoli, gravado ao vivo, mostra o todo o seu virtuosismo no palco, o último trabalho de Mauro Albertt exibe um compositor maduro, que transita com facilidade entre temas lentos e nostálgicos e outros com todo o frescor do jazz cigano, e um intérprete completamente à vontade para executar músicas que exigem um algo a mais de sentimento e técnica.

"Optchá" é um disco de um artista que não só descobriu o seu caminho, mas se sente inteiramente à vontade nele, como se observa em suas nove faixas, todas composição de Mauro, várias delas em homenagem ao amigo e mestre Louis Plessier.

Na entrevista abaixo, o guitarrista e compositor fala sobre seu trabalho, seus projetos e sobre a dificuldade de se fazer música, principalmente a instrumental, no Brasil:



Segundo Clichê - É possível dizer que o jazz cigano está consolidado no Brasil?

 

Mauro Albertt - Com certeza, cada vez o interesse tem aumentado. Além do Festival de Jazz Manouche de Piracicaba, que realizou sua quinta edição este ano, outros festivais têm aderido ao estilo e estamos trabalhando mais em grandes eventos. Há dois anos tenho uma coluna dedicada ao estilo na revista "Guitar Player" e a cada mês recebo mais e-mails e contatos de pessoas interessadas em saber mais e também aprender a tocar.


Segundo Clichê - Que similaridades/afinidades o jazz cigano tem com ritmos brasileiros?

 

Mauro - O choro tem muita influência da musica européia antiga em termos de harmonia e virtuosidade. O jazz cigano, com uma dose de bom gosto, pode se associar a outros ritmos brasileiros, como o samba e o baião - nosso amigo Bina Coquet é o especialista nessa área. Já eu gosto de associar o jazz cigano a ritmos sul-americanos, como o chamamé e tango.


Segundo Clichê - Como é a vida de um músico instrumental no Brasil? É difícil, a música instrumental tem mercado ainda restrito ou ela vem crescendo? Onde você costuma se apresentar mais?
 
Mauro - A não ser que você esteja nas "paradas do sucesso", a vida do músico no Brasil é uma batalha diária. Precisamos matar um leão por dia. Trabalho somente com a música instrumental e o jazz manouche e tenho me apresentado em festivais, bares, pubs e eventos privados, sem estrelismo ou frescura. O importante é levar a boa música a quem se interessa e também a quem precisa e nem sabe. 

Segundo Clichê - Quais são seus próximos projetos?
 
Mauro - Recentemente fiz um tour de lançamento do álbum "Exchange Gypsy Jazz", que gravei com o guitarrista italiano Dario Napoli. Um desses concertos de lançamento foi registrado e será lançado em CD e DVD até o fim deste ano. No próximo ano estamos programando um tour de lançamento desse CD/DVD pela América Latina, e quem sabe, Europa. Além disso, estou sempre compondo novos temas e quando dá aquele estalo entramos em estúdio e começamos a registrar um novo álbum. 

Segundo Clichê - A internet veio para ajudar ou atrapalhar a carreira do músico?
 
Mauro - Creio que existam os dois lados da moeda. Pode ajudar muito na promoção, divulgação e contatos, mas ela também revela os falsos "bem sucedidos", que forjam um status que não possuem e tentam pegar carona no caminho aberto por outros músicos. Assim como em outros estilos, o gypsy jazz tem uma comunidade mundial, na qual os músicos se conhecem e sabem quem é quem, e também comentam sobre esse tipo de atitude - mais cedo ou mais tarde a máscara cai...
 
Ouça o CD "Jazz Manouche Brasil"

Visite o site de Mauro Albertt


Soros ‘compra’ parte do Parlamento Europeu, denuncia premiê da Hungria

5 de Novembro de 2017, 19:27, por Feed RSS do(a) News

Graças ao primeiro-ministro húngaro e ao seu partido, foi tornada pública uma lista de políticos que trabalham para os interesses do financista bilionário George Soros nas instituições europeias.

 
Por Redação, com Sputniknews – de Bruxelas

 

O registro enumera os membros do Parlamento Europeu que promovem projetos do magnata. Eles aprovam emendas na legislação da UE. Os tentáculos do multibilionário se espalham por todo o mundo. Aqui, no Brasil, ele é suspeito de ter financiado o golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff (PT). O empresário é sócio do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga Neto. Até 1999, Fraga Neto era diretor do Soros Fund Management.

O bilionário George Soros seria "dono" de um terço do Parlamento Europeu

O bilionário George Soros seria “dono” de um terço do Parlamento Europeu

A ideia de que o bilionário George Soros estaria interferindo ativamente na política mundial; e que poderá controlar países inteiros, geralmente, foi considerada uma das típicas teorias da conspiração.

Contra a Rússia

No entanto, a questão veio à tona de novo. O deputado Hollik Istvan anunciou, perante o parlamento húngaro, que o financista já controla ao menos um terço dos deputados do Parlamento Europeu.

Istvan se baseou em um enorme registro de documentos internos de George Soros, revelado pelo portal DCLeaks. A página enumera os deputados europeus e determina quem é patrocinado por organizações filiadas na Open Society Foundation. A instituição é chefiada por Soros. No total, nessa lista aparecem 226 dos 751 deputados do Parlamento Europeu.

Entre as ideias que se recomenda promover estão a democracia, a igualdade social e a de gênero; a abertura das fronteiras à imigração, a aproximação da Ucrânia à UE. E, claro, a luta contra quaisquer de seus laços com a Rússia.

Tomada de decisão

Esta “rede” europeia da Open Society Foundation inclui políticos de baixo calibre. Mas também outros de grande peso, como o presidente do Parlamento Europeu entre 2012 e 2017, Martin Schulz; o premiê da Bélgica entre 1999 e 2008, Guy Verhofstadt; e o atual líder do grupo socialista europeu, o italiano Gianni Pittella.

— A partir desses arquivos e documentos, podemos descobrir que a rede de George Soros tem uma influência significativa sobre os líderes da União Europeia residentes em Bruxelas — disse o político aos deputados húngaros.

De acordo com os documentos, nas vésperas das eleições europeias de 2014, o financista doou US$ 6 milhões (cerca de R$ 20 milhões) a 90 organizações não governamentais; para que influenciassem a tomada de decisões conforme a linha da fundação.

O caso mais recente foi protagonizado pela Comissão das Liberdades Civis, Justiça e Assuntos Internos (LIBE) do Parlamento Europeu. A instância adotou uma proposta favorável à imigração; apesar da oposição do Grupo de Visegrad (Hungria, Polónia, República Tcheca e Eslováquia).

Elites políticas

A maioria dos membros da LIBE está na lista de Soros, observa o político. Os documentos apontam para a contribuição especial de Sylvie Guillem, dos socialdemocratas franceses; e de Jean Lambert, dos verdes britânicos. Ambos são ardentes promotores da reforma imigratória na UE; que prevê uma maior aceitação dos refugiados.

— O assassino em massa mais procurado no Paquistão, acusado de 70 assassinatos pelas autoridades, foi capturado na fronteira do sul da Hungria. Apesar disso, ele conseguiu receber o status de refugiado na Grécia e chegar à fronteira com a Hungria — contou Istvan com indignação.

Hollik Istvan é membro do movimento político Fidesz, do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban.

Já faz muito que o dirigente húngaro vem tentando combater os projetos de interferência de Soros em seu país. Desde março de 2017, não cessam os litígios para encerrar a Universidade Central Europeia, fundada graças ao dinheiro de Soros em Budapeste e que formou várias gerações de elites políticas da UE.

Brexit enrolado

No front onde atua o bilionário, no entanto, as nuvens são de tempestade. A economia britânica crescerá mais lentamente no curto prazo se o país não conseguir assegurar um acordo para a futura relação comercial com a União Europeia depois do Brexit, disse neste domingo o presidente do Banco da Inglaterra (BoE), Mark Carney.

Ao ser questionado em entrevista à emissora ITV se a economia britânica seria prejudicada caso não houvesse acordo sobre o Brexit, ele respondeu:

— A resposta curta é sim, no curto prazo. No curto prazo, sem dúvida, se tivermos materialmente menos acesso (à UE) do que temos agora. Essa economia precisará se reorientar e este período de tempo pesará sobre o crescimento”, acrescentou Carney.

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Mauro Albertt, ou a difícil arte de matar um leão por dia

5 de Novembro de 2017, 19:27, por Feed RSS do(a) News



Carlos Motta


"A não ser que você esteja nas 'paradas do sucesso', a vida do músico no Brasil é uma batalha diária. Precisamos matar um leão por dia."

A afirmação é do compositor e guitarrista Mauro Albertt, um dos expoentes do jazz manouche, ou cigano, no Brasil, que exibe essa mesma garra e profissionalismo nos trabalhos que faz, tanto em palco como em estúdio.

Mauro foi um dos destaques do recém-concluído 5º Festival de Jazz Manouche de Piracicaba, evento que reuniu importantes artistas durante vários dias na cidade, considerada a capital nacional desse gênero musical, criado pelo guitarrista Django Reinhardt nos anos 30 do século passado.

Ele já gravou oito discos instrumentais e toca profissionalmente desde 1990. Mas foi a partir de 2009 que vem se dedicando à pesquisa e estudo da música e cultura ciganas. 
  
Foi pelos caminhos da música que Mauro conheceu Louis Plessier, guitarrista francês que por 40 anos conviveu com a família de Django Reinhardt. Os dois formaram um duo de violões o Drom Manouche, e juntos compuseram diversos temas, fundindo estilos e influências. Viajaram por cidades do país, difundindo o jazz manouche franco-brasileiro, e gravaram o CD “Droms Manouche”. Plessier, porém, veio a falecer em março de 2014.

Em novembro de 2013 uma das composições de Mauro Albert foi incluída no CD "Django Festival 7" que conta com a presença de grandes nomes mundiais do Jazz Manouche, como Biréli Lagrène, Jimmy Rosemberg, Gonzalo Bergara, Florin Nicolescu e Antoine Boyer, entre outros. O disco foi lançado pelo selo Hot Club Records, a principal gravadora do gênero, com sede em Oslo, Noruega, que também foi responsável pela gravação de outros dois discos de Mauro, “Jazz Manouche Brasil” e “Droms Manouche”.

Em 2015 ele gravou, com o guitarrista italiano Dario Napoli o CD “Exchange Gypsy Jazz”, com composições dos dois e interpretações de temas de Django Reinhardt, Henri Mancini e Hermeto Pascoal. Nesse mesmo ano, a Sesc TV exibiu os programas Sesc Instrumental Brasil com o Mauro Albertt Quartet Droms Manouche, e Passagem de Som, no qual ele recorda a sua parceria com Louis Plessier.


A partir de dezembro de 2015 Mauro começou a colaborar com a edição brasileira da revista "Guitar Player", com uma coluna exclusiva sobre o Gypsy Jazz, e em março de 2016 lançou o álbum "Optchá" , expressão cigana que significa “salve”, e que conta com a participação de Rafael Calegari (contrabaixo acústico), Fernando Caramori (violão rítmico) e Gabriel Vieira(violino).

Se o álbum com Dario Napoli, gravado ao vivo, mostra o todo o seu virtuosismo no palco, o último trabalho de Mauro Albertt exibe um compositor maduro, que transita com facilidade entre temas lentos e nostálgicos e outros com todo o frescor do jazz cigano, e um intérprete completamente à vontade para executar músicas que exigem um algo a mais de sentimento e técnica.

"Optchá" é um disco de um artista que não só descobriu o seu caminho, mas se sente inteiramente à vontade nele, como se observa em suas nove faixas, todas composição de Mauro, várias delas em homenagem ao amigo e mestre Louis Plessier.

Na entrevista abaixo, o guitarrista e compositor fala sobre seu trabalho, seus projetos e sobre a dificuldade de se fazer música, principalmente a instrumental, no Brasil:



Segundo Clichê - É possível dizer que o jazz cigano está consolidado no Brasil?

 

Mauro Albertt - Com certeza, cada vez o interesse tem aumentado. Além do Festival de Jazz Manouche de Piracicaba, que realizou sua quinta edição este ano, outros festivais têm aderido ao estilo e estamos trabalhando mais em grandes eventos. Há dois anos tenho uma coluna dedicada ao estilo na revista "Guitar Player" e a cada mês recebo mais e-mails e contatos de pessoas interessadas em saber mais e também aprender a tocar.


Segundo Clichê - Que similaridades/afinidades o jazz cigano tem com ritmos brasileiros?

 

Mauro - O choro tem muita influência da musica européia antiga em termos de harmonia e virtuosidade. O jazz cigano, com uma dose de bom gosto, pode se associar a outros ritmos brasileiros, como o samba e o baião - nosso amigo Bina Coquet é o especialista nessa área. Já eu gosto de associar o jazz cigano a ritmos sul-americanos, como o chamamé e tango.


Segundo Clichê - Como é a vida de um músico instrumental no Brasil? É difícil, a música instrumental tem mercado ainda restrito ou ela vem crescendo? Onde você costuma se apresentar mais?
 
Mauro - A não ser que você esteja nas "paradas do sucesso", a vida do músico no Brasil é uma batalha diária. Precisamos matar um leão por dia. Trabalho somente com a música instrumental e o jazz manouche e tenho me apresentado em festivais, bares, pubs e eventos privados, sem estrelismo ou frescura. O importante é levar a boa música a quem se interessa e também a quem precisa e nem sabe. 

Segundo Clichê - Quais são seus próximos projetos?
 
Mauro - Recentemente fiz um tour de lançamento do álbum "Exchange Gypsy Jazz", que gravei com o guitarrista italiano Dario Napoli. Um desses concertos de lançamento foi registrado e será lançado em CD e DVD até o fim deste ano. No próximo ano estamos programando um tour de lançamento desse CD/DVD pela América Latina, e quem sabe, Europa. Além disso, estou sempre compondo novos temas e quando dá aquele estalo entramos em estúdio e começamos a registrar um novo álbum. 

Segundo Clichê - A internet veio para ajudar ou atrapalhar a carreira do músico?
 
Mauro - Creio que existam os dois lados da moeda. Pode ajudar muito na promoção, divulgação e contatos, mas ela também revela os falsos "bem sucedidos", que forjam um status que não possuem e tentam pegar carona no caminho aberto por outros músicos. Assim como em outros estilos, o gypsy jazz tem uma comunidade mundial, na qual os músicos se conhecem e sabem quem é quem, e também comentam sobre esse tipo de atitude - mais cedo ou mais tarde a máscara cai...
 
Ouça o CD "Jazz Manouche Brasil"

Visite o site de Mauro Albertt


'Os Jordis estão injustamente presos, mas isso não os torna prisioneiros políticos'

29 de Outubro de 2017, 19:25, por Feed RSS do(a) News

Entrevista de Carles Vallejo (prisioneiro político do regime franquista) a Juan Miguel Baquero, de Barcelona

Vallejo 00 O presidente da Associação Catalã de Ex-presos Políticos do Franquismo qualifica a comparação entre o conflito da Catalunha e a luta anti-franquista

"Parece-me perigoso entrar na equação de diferentes situações. Você não pode brincar com a banalização do franquismo, do fascismo e do nazismo"

"Hoje temos instrumentos para lutar contra as injustiças que nos diferenciam do estado que é vivido numa ditadura"

"É um assunto delicado na Catalunha. Tentei ser o mais honesto possível - refere-se à sua participação no programa de televisão Intermediário da Sexta -, mas aqui se exaltam com qualquer coisa". O presidente da Associação Catalã de Ex-presos Políticos do Franquismo, Carles Vallejo, inicia a entrevista para eldiario.es com uma declaração preventiva. Mas reafirma: a prisão provisória ditada pela Audiência Nacional para os líderes sociais independentistas e presidentes do ANC e do "Milênio Cultural", Jordi Sánchez e Jordi Cuixart, não os torna "prisioneiros políticos".

Suas declarações ao mexer com a irrupção dessa idéia no conflito na Catalunha levantaram posições conflitantes. "Estes são os tempos que correm", diz ele.

O próprio Vallejo foi preso e torturado por combater a ditadura de Franco. Ele diz que a diferença entre as duas eras é "abismal". Enquanto isso, o "chouqe de trens" continua em direção de um território desconhecido com uma passagem com destino ao artigo 155 e outro à DUI - Declaração Unilateral de Independência.

Pelo modo como começa, sente-se a respiração das vozes encontradas.

Depois do que eu disse, tive muitas demonstraações de apoio enquanto outras pessoas me atacaram sem muito motivo. Estes são os tempos que correm.

Então, não há prisioneiros políticos na Catalunha?

Há pessoas injustamente detidas, presas injustamente. Como é o caso do Jordis. O magistrado não deveria colocá-los na prisão. Se você os acusou de um crime, você deve processá-los e apresentar uma ação judicial. Eu entendo que o juiz se excedeu.

E se eles não estão presos de maneira justa ...

Eles estão injustamente presos, por causa de tudo o que está acontecendo. Não devemos entrar no tema semântico da definição. O que me parece perigoso é entrar na equação de diferentes situações. Você não pode brincar com a banalização de Franco, fascismo e nazismo. Muito levianamente se entra nessas comparações. Eles são injustamente detidos, mas não quero entrar nessa definição. Os Jordis não pode ser equiparados aos prisioneiros políticos de uma ditadura.

Vallejo 01
Carles Vallejo, lutador anti-franco.

Você não vê nenhuma semelhança entre a situação atual, com exemplos como a repressão policial nas ruas ou a prisão dos líderes do ANC e do "Òmnium Cultural" e o contexto da luta social que vivia nos anos 70 contra o regime de Franco?

Hoje temos instrumentos para combater as injustiças que nos diferenciam do estado vivido em uma ditadura. Não gosto de falar de franquismo, mas sim de fascismo espanhol, e talvez este país não tenha explicado bem o que significa não ter direitos e quais são detenções arbitrárias. A democracia espanhola pode ser imperfeita, e muitos lutam para mudar isso, mas temos instrumentos para lutar. Isso não é comparável com um regime em que não há liberdades. A diferença é abismal.

E por que está indignado que compare as duas situações?

Porque o fascismo e o nazismo são o mal absoluto, que é o que foi praticado aqui durante 40 anos. E não podemos subestimar as vítimas do franquismo. Comparando a situação atual com a anterior, diminuímos de alguma forma a dignidade dessas vítimas.

Você vê traços de franquismo no governo atual da Espanha?

Eu percebo traços autoritários. Para defini-los como um franquismo, penso que seria uma análise superficial a respeito da situação política atual. Nós experimentamos involuções políticas como a Lei da Mordaça. Os primeiros que sofreram com isso foram os Trabalhadores e o movimento operário e esses políticos que agora tentam comparar as situações, antes não criticaram essas medidas. O mesmo passou quando cercaram o Parlamento da Catalunha e ninguém levantou a voz. As posições devem ser aplicadas a todos igualmente. A hipocrisia não deve ser praticada com essas coisas delicadas. É muito mais perigoso, por exemplo, o que acontece em outros estados da União Européia, onde há um crescimento muito preocupante de partidos xenófobos.

Como vê a polarização entre o artigo 155 e a DUI?

Como a maioria das pessoas na Catalunha, não acreditamos que a questão política seja resolvida sem diálogo. Não acreditamos no unilateralismo, nem no 155 e nem queremos a DUI. Exigimos e pedimos mais oportunidades de diálogo. Chegamos ao temido "choque entre os trens" e nós da associação de ex-presos políticas advertimos que esta não era a maneira de resolver os problemas. Tudo isso é um beco sem saída.

"No final, que vai pagar a conta somos nós, trabalhadores, como sempre"

A fratura social e política é irreparável?

É o que mais nos preocupa, além do artigo 155 e da DUI: a divisão gerada na sociedade catalã. Levará anos para superar esta situação que foi criada nos últimos anos. E isso não existia. Quebrou todo o trabalho feito especialmente em minha geração e nos últimos anos da ditadura, que conseguiu incorporar a classe trabalhadora na luta pelos direitos sociais e dos Estatutos, incorporando setores que vinham de imigração e que se colocaram na vanguarda da luta pelos direitos do povo catalão... A situação criada agora é um passo para trás que nos custará muito trabalho para voltar ao conquistado anteriormente.

Você suspeita do que está no território desconhecido o que parece ser o conflito catalão?

É difícil. Viveremos uma situação de judicialização e conflito social. Tudo está se precipitando. Desde o início, houve falta de inteligência política de todos os lados. E isso deveria fazer com que muitas pessoas pensassem. É muito preocupante. Estamos dando um salto no vazio. No final, quem pagará a conta somos nós, os trabalhadores, como sempre.

A luta pelos direitos nacionais catalães está sendo vivida hoje de uma forma que coloca uma realidade de costas em relação a outra. Nos últimos anos, não fez trabalho de inteligência suficiente para incorporar certos sectores, com mais financiamento ou auto-governo e, por isso, passamos do chamado 'cinturão vermelho' para algo que poderia ser definido como 'cinturão laranja'. E a UE é um clube de estados, contra o qual lutamos por uma Europa dos povos, mas o status quo e não quer nenhuma interferência popular. Embora eu não queira dar lições a ninguém, meu trabalho, se útil, é pedagógico sobre o que o franquismo representou e não banalizar e acabar fazendo comparações simplistas.

Os atores envolvidos cometem erros primários que terminarão em uma sucessão temerária de patadas lá na frente?

A primeira coisa é ver qual a força que você tem. Propor uma luta frontal, como foi feito, pressupõe que a levará a situações muito difíceis. Você deve alcançar objetivos alcançáveis ​​de acordo com a correlação de forças que você possui. Analisar quais aliados você tem, você não pode ficar com cada vez menos... E encontrar metas e soluções viáveis ​​para problemas que não deixam as pessoas a descoberto.

Assim vocês propunham a luta política durante o fim da ditadura de Franco?

A luta política era continua. Não havia nada legal. Havia um único partido, um único sindicato, uma organização estudantil, uma organização feminina... Sem liberdade. Enfrentávamos a censura e não havia liberdade de imprensa. A luta contra um estado fascista não pode ser comparada a atual. Aqueles que se rebelaram, deixaram o caminho da submissão e lutaram contra o fascismo, foram para a prisão. Não sei o que as pessoas pensam sobre o regime franquista, mas é preciso recordá-las constantemente sobre o que o fascismo. É por isso que eu recuso comparações fáceis.

E como o regime de Franco reprimiu e proibiu? O que os presos políticos sofreram então?

Desde o início, a tortura. Eles te prendem e vem o de costume, a tortura como método para te rebaixar como pessoa e obter informações para ver se acabas traindo os camaradas da luta política e sindical. A tortura não tinha limites. E os crimes foram tipificados pelo TOP (Tribunal de Ordem Pública).

Você foi preso em 1970. Como e por que foi sua detenção? Você sofreu tortura?

Fui submetido a 20 dias de tortura. Ele foi acusado de propaganda ilegal e reunião ilícita. Cheguei a acumular 20 anos de detenção.

Dizem que entrar na prisão era uma espécie de descanso, uma saída para a violência policial.

Para mim, ir para a prisão e o tribunal foi um alívio, pois saí da tortura. Uma maneira de pararem com os maus tratos nas delegacias de polícia e nas masmorras. Os tribunais eram de exceção, sem qualquer equivalência ou razão democrática como orgão jurisdicional. Eles se dedicavam à repremir e as prisões eram terríveis.

O que passavam com os prisioneiros políticos do regime franco quando estavam atrás das grades?

Falta de higiene, aglomeração de prisioneiros, praga, sem espaços de intimidade ou para fazer nossas necessidades, percevejos ... Tudo era cinza e preto. Foram prisões destinadas a humilhar mais. Nas solitárias, por exemplo, eles nos traziam à noite um colchão daqueles que se enrola e pela manhã o levavam. O resto do dia você ficava ali sozinho, sem nada e isolado. Era outra tortura dentro da prisão e se passava toda vez que reindicávaos algo. Por isso tivemos que organizar greves de fome para exigir condições mínimas para os prisioneiros, exigindo dignidade dentro da prisão. Nem podemos comparar a situação das prisões agora e antes.

Qual era o papel desempenhado pelos membros da Brigada de Políticas Sociais?

Elas eram o instrumento de detenção do regime fascista. A ferramenta de repressão política, social, trabalhista e sindical. Elas tinham delatores em todos os lugares, desde os porteiros de edifícios até os "serenos", que eram vigilantes noturnos. Em qualquer lugar, eles poderiam coletar informações sobre pessoas que entendiam minimamente conflitantes. Vivíamos em uma sociedade de repressão e castigo projetada para que ninguém se movesse. Hoje podemos conversar como nessa entrevista, antes não podíamo fazer isso. Não podemos comparar. Antes esta entrevista teria sido clandestina e, se possível, para correspondentes estrangeiros. A imprensa local poderia fazer muito pouco, porque o regime seqüestrava os jornais em circulação e lhes impunha enormes multas. Agora é diferente.

Fonte e Fotos: El diario

Tradução: Sérgio Luís Bertoni