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O ouro e a madeira. Ou a obra de um gênio esquecido

9 de Janeiro de 2018, 10:20 , por segundo clichê - | No one following this article yet.
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Carlos Motta


Não há na música popular brasileira nenhum autor de sambas tão melancólico e reflexivo quanto o baiano Ederaldo Gentil - suas canções expressam de maneira cristalina a pequenez do homem frente à engrenagem social e ao próprio mundo que habita.

 
Ederaldo morreu em 2012, aos 68 anos de idade, depois de viver vários anos recluso em companhia de sua irmã, num bairro da periferia de Salvador, cidade onde nasceu.
 
Gravou apenas três LPs, recheados de obras-primas: "Samba, Canto Livre de um Povo" (1975), "Pequenino" (1976) e "Identidade" (1983).
 
Em 1999 seu parceiro Edil Pacheco reuniu um time de primeira para gravar o CD "Pérolas Finas", que reúne algumas das melhores composições de Ederaldo.
 
Em 2006 saiu o CD "A Voz do Poeta", patrocinado por amigos, admiradores e familiares, coletânea com 15 músicas.
 
Ederaldo é autor de alguns dos versos mais inspirados da MPB.
 
Como os de "De Menor":
 
Sou o menor dos pequeninos
O mais pobre dos plebeus
O alheio inquilino
O mais baixo pigmeu
O comum do singular
O último dos derradeiros
Viandante e peregrino
O mais manso dos cordeiros

 


Eu sou maior
Em lampejos de brandura
De angélica candura
Dos mistérios do amor
Sou bem maior
Que os pinheirais da humildade
Pelos campos da bondade
Eu sou a felicidade
 
Ou os de "O Ouro e a Madeira", um dos mais bonitos sambas já compostos desde que o gênero se fixou como o mais popular do Brasil - há mesmo quem diga que ele é o mais belo de todos.
 
A canção foi gravada pelos Originais do Samba e por Beth Carvalho, mas nada melhor que ouvi-a na voz do próprio Ederaldo, que participou, junto com Riachão e Batatinha, outros dois baluartes do samba baiano - e brasileiro - do icônico programa Ensaio, da TV Cultura, no longínquo ano de 1974: 
 
 
Não queria ser o mar
Me bastava a fonte
Muito menos ser a rosa
Simplesmente o espinho
 
Não queria ser caminho
Porém o atalho
Muito menos ser a chuva
Apenas o orvalho

 


Não queria ser o dia
Só a alvorada
Muito menos ser o campo
Me bastava o grão
 
Não queria ser a vida
Porém o momento
Muito menos ser concerto
Apenas a canção
 
O ouro afunda no mar
Madeira fica por cima
Ostra nasce do lodo
Gerando pérolas finas
 
A vida e a obra de Ederaldo Gentil ganharam um espaço nobre na internet, o site Acervo Ederaldo Gentil, uma preciosidade.
 
Preservar e difundir o seu legado, principalmente nestes tempos obscuros, é uma obrigação para qualquer um que queira viver não numa colônia americana, repleta do lixo da indústria de entretenimento, mas numa nação independente, de cultura e arte próprias.

Fonte: http://segundocliche.blogspot.com/2018/01/o-ouro-e-madeira-ou-obra-de-um-genio.html

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