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Cultura

30 de Agosto de 2016, 13:39 , por Blogoosfero - | No one following this article yet.

Um samba-enredo sobre um país de sonho

6 de Janeiro de 2018, 13:09, por segundo clichê
 
Carlos Motta



Carnaval chegando, as escolas de samba capricham nos ensaios. 

Os sambas-enredo deste ano das escolas do Rio, como sempre, abordam uma miscelânea de temas, que vão desde Chacrinha à Rota da Seda, passando pelo Museu Nacional e Frankenstein.

Dos milhares de sambas-enredo compostos, porém, foram poucos os que sobreviveram na memória popular e são cantados em qualquer época de ano.

Um deles, se não o mais lembrado, é "Aquarela Brasileira", de Silas de Oliveira, levado originalmente ao desfile de 1964 pela Império Serrano - em 2004 ele foi novamente apresentado, pois a escola fez uma reedição do enredo.

O samba faz uma homenagem ao clássico "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, uma das canções brasileiras mais tocadas em todo o mundo.

Silas faz uma viagem pelo Brasil, exaltando a cultura, arte e arquitetura das regiões geográficas e de seus Estados.

 
Matinho da Vila, que, como inúmeros outros artistas, o gravou, diz que "Aquarela Brasileira" só não é perfeito porque deixa de citar alguns Estados.
 
Apesar de até hoje empolgar as plateias, o samba só ficou em quarto lugar no desfile de 1964 e em nono em 2004. Diz a lenda que a  notícia da morte de Ary Barroso chegou à Avenida Presidente Vargas quando a Império Serrano se preparava para começar seu desfile, o que teria tirado o ânimo dos componentes.
 
Seja como for, "Aquarela Brasileira" é uma joia, uma das obras-primas da música popular, atemporal como são as grandes criações - embora cante um país de sonho, "uma maravilha de cenário", uma terra muito distante desta de hoje.
 
Dá para ouvi-lo, na voz única de Elza Soares, neste link:
 
 

Vejam essa maravilha de cenário:
É um episódio relicário,
Que o artista, num sonho genial
Escolheu para este carnaval.
E o asfalto como passarela
Será a tela do Brasil em forma de aquarela.
Passeando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais.
No Pará, a ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó.
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais.
Estava no Ceará, terra de irapuã,
De Iracema e Tupã
Fiquei radiante de alegria
Quando cheguei na Bahia...
Bahia de Castro Alves, do acarajé,
Das noites de magia do Candomblé.
Depois de atravessar as matas do Ipu
Assisti em Pernambuco
A festa do frevo e do maracatu.
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza, arquitetura.
Feitiço de garoa pela serra!
São Paulo engrandece a nossa terra!
Do leste, por todo o Centro-Oeste,
Tudo é belo e tem lindo matiz.
No Rio dos sambas e batucadas,
Dos malandros e mulatas
De requebros febris.
Brasil, essas nossas verdes matas,
Cachoeiras e cascatas de colorido sutil
E este lindo céu azul de anil
Emoldura em aquarela o meu Brasil.



A casinha na Marambaia e os dois momentos do Brasil

3 de Janeiro de 2018, 10:25, por segundo clichê
 
Carlos Motta


O paulista Henrique Felipe da Costa, que ficou conhecido pelo apelido de Henricão, compôs dezenas de canções, mas é até hoje lembrado por duas delas, "Está Chegando a Hora", versão da mexicana "Cielito Lindo", e "Só Vendo que Beleza", mais conhecida por "Marambaia", em parceria com Rubens Campos.

Essa última, lançada por Carmen Costa, ganhou inúmeras regravações dos mais importantes artistas populares brasileiros. Fala sobre um local idílico, onde um casal vive uma vida de sonhos, embora frugal:

Eu tenho uma casinha lá na Marambaia
Fica na beira da praia, só vendo que beleza.
Tem uma trepadeira que na primavera
Fica toda florescida de brincos de princesa

Quando chega o verão eu sento na varanda,
Pego o meu violão e começo a tocar.
E o meu moreno que está sempre bem disposto
Senta ao meu lado e começa a cantar

Quando chega a tarde um bando de andorinhas
Voa em revoada fazendo verão
E lá na mata um sabiá gorjeia
Linda melodia pra alegrar meu coração

Às seis horas o sino da capela
Toca as badaladas da Ave Maria
A lua nasce por de trás da serra
Anunciando que acabou o dia.

Eu tenho uma casinha lá na Marambaia...

O sucesso de "Só Vendo Que Beleza" foi tanto que a Henricão e Rubens compuseram uma continuação, que foi praticamente ignorada.

Pudera, "Casinha da Marambaia" expõe a tragédia da separação do feliz casal retratado na primeira canção. A linda morada desmoronou, a trepadeira brinco-de-princesa secou, o sabiá foi embora, só restaram destroços do amor que existia entre os dois:

Nossa casinha lá da Marambaia
A mais bonita da praia se desmoronou
A trepadeira brinco-de-princesa
Ficou triste, amarela e depois secou

E a varanda vive em abandono
É um destroço sem dono numa solidão
Até você que parecia ser sincera
Sem motivo abandonou meu pobre coração

O sabiá também mudou seu ninho
Eu já não ouço mais sua canção
As andorinhas foram em revoadas
Quebraram-se as cordas do meu violão

E há quem diga que isso é desumano
Que eu não mereço tanta ingratidão
Quero que volte como antigamente
Para dar sossego ao meu coração

As duas músicas foram lançadas há mais de 70 anos, quase um século.

De certa forma, retratam o que houve no Brasil, que durante uma década foi como a casinha na Marambaia em seu esplendor, mas que depois acabou destroçada pela ação de forças deletérias.

Henricão morreu em 1984, ano em que o movimento pelas eleições diretas entusiasmava o Brasil, que já havia se cansado da ditadura militar.



O ministro do samba

18 de Dezembro de 2017, 9:44, por segundo clichê

 

 
Carlos Motta


O pior presidente da história não poderia ter assessores piores. 

Seus ministros são de provocar engulhos. O da educação não sabe conjugar o verbo haver; o da Fazenda não entende patavina de macroeconomia; o da saúde acha que o país tem muitos hospitais - e por aí vai o despropósito.

Oscar da Penha (Salvador, 5 de agosto de 1924 — Salvador, 3 de janeiro de 1997), o Batatinha, um dos maiores compositores nacionais, embora não tenha conhecido este Brasil Novo, era um sujeito que se preocupava com a qualidade dos nossos homens públicos - se não todos, pelo menos daquele que viesse a ocupar o ministério que julgava o mais importante - o do samba.

E para titular, a escolha de Batatinha foi certeira: Paulo César Batista Faria, o Paulinho da Viola, um artista popular irrepreensível, síntese das virtudes que fazem do samba, mais que um gênero musical, o maior fator de união deste imenso país.

 "Ministro do Samba" está entre as melhores obras de Batatinha. Além de uma homenagem que um grande artista presta a outro, faz a gente pensar: como é que o Brasil, com tanta gente extraordinária, se transformou nessa terra onde só os desprezíveis têm vez?

Melhor nem pensar nisso.

Melhor ficar com Batatinha. E com seu ministro do samba:

Eu que não tenho um violão
Faço samba na mão
Juro por Deus que não minto
Quero na minha mensagem prestar homenagem
E dizer tudo que sinto
Salve o Paulinho da Viola
Salve a turma de sua escola
Salve o samba em tempo de inspiração

O samba bem merecia
Ter ministério algum dia

 

 

Então seria ministro Paulo César Batista Faria


Se eu fosse Deus a vida bem que melhorava

15 de Dezembro de 2017, 10:46, por segundo clichê



Carlos Motta


Num país sério as músicas de Eduardo Gudin tocariam no rádio dia e noite, de tão boas que são.

Mas este é o Brasil, uma colônia cultural americana, depósito do lixo da indústria de entretenimento, um dos alvos prioritários do soft power do grande irmão do norte.

A música de Gudin faz bem para os ouvidos, para o cérebro e para o coração.

Não tem contraindicações.

Ele integra a santíssima trindade do samba paulista, ao lado de Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini, de quem foi parceiro.

Tem um sem número de composições gravadas, algumas já clássicas, como "Verde", parceria com J.C. Costa Neto, um hino à esperança de se viver num país melhor, e "Paulista", também com Costa Neto, de um lirismo arrebatador.

É dele, com Paulo César Pinheiro, uma das mais expressivas canções sobre o terrível período da ditadura militar, "Mordaça": "(...) E de repente o furor volta/O interior todo se revolta/E faz nossa força se agigantar/Mas só se a vida fluir sem se opor/Mas só se o tempo seguir sem se impor/Mas só se for seja lá como for/O importante é que a nossa emoção sobreviva (...)"

Mas é uma outra canção, em parceria com Roberto Riberti, que sintetiza o drama de uma sociedade que se nega a combater a terrível desigualdade que a macula e a impede de se livrar do atraso secular.

"Velho Ateu" é a música preferida de Gudin, segundo ele mesmo, e encerra todos os seus shows.

Uma obra-prima, um chamado à reflexão sobre que tipo de sociedade em que queremos viver.

Um velho ateu, um bêbado cantor, poeta
Na madrugada cantava essa canção, seresta
Se eu fosse Deus a vida bem que melhorava
Se eu fosse Deus daria aos que não tem nada

E toda janela fechava
Pr'os versos que aquele poeta cantava
Talvez por medo das palavras
De um velho de mãos desarmadas



Onde estão os novos Dom e Ravel para exaltar o Brasil Novo?

29 de Novembro de 2017, 10:25, por segundo clichê



Carlos Motta
 

Da mesma maneira que muitos artistas lutaram com as armas que tinham contra a ditadura militar, outros fizeram de conta que tudo estava normal no Brasil, e alguns poucos se colocaram ostensivamente ao lado do regime.

O caso mais emblemático é o da dupla Dom e Ravel, que compôs e cantou a ufanista marchinha "Eu Te Amo, Meu Brasil", que tocava sem parar em todas as emissoras de rádio e televisão nos anos 70 do século passado.

Alguns de seus versos são o suprassumo da patriotada mais canalha: "Mulher que nasce aqui/Tem muito mais amor.../O céu do meu Brasil tem mais estrelas/O sol do meu país mais esplendor.../Eu vou ficar aqui/Porque existe amor.../Ninguém segura a juventude do Brasil..."

A música, que se tornou o hino da ditadura, foi também gravada pelo conjunto de iê-iê-iê Os Incríveis, que oportunisticamente embarcou na onda de exaltação do Brasil governado pelos militares e incorporou ao seu repertório outras canções do gênero, como "Pra Frente Brasil" ("De repente é aquela corrente pra frente/ parece que todo o Brasil deu a mão/todos ligados na mesma emoção/tudo é um só coração"), de Miguel Gustavo, marchinha feita para a seleção brasileira de futebol que se consagrou tricampeão mundial no México, em 1970. Miguel Gustavo, porém, merece ser perdoado, pois é autor de deliciosos sambas de breque imortalizados por Moreira da Silva. 

A febre nacionalista de Os Incríveis foi tão forte que eles chegaram a gravar o Hino da Independência e o Hino Nacional!

A dupla Dom e Ravel, porém, era imbatível quando se tratava de defender as "conquistas" do regime militar. Estão aí, para quem quiser ouvir - é só procurar na internet - pérolas como "Você Também é Responsável", o hino do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), "Obrigado ao Homem do Campo", "Êxodo Rural", "Só o Amor Constrói"...

É estranho que hoje, neste Brasil Novo que em muito se assemelha ao do "ame-o ou deixe-o", ainda não tenha surgido sequer um Dom e Ravel, alguém que cante as maravilhas da nova legislação trabalhista, ou da reforma da previdência, ou da entrega do pré-sal às petroleiras estrangeiras.

Uma pena que Eustáquio Gomes de Farias, o Dom, tenha falecido no ano 2000, e seu irmão Eduardo Gomes de Faria, o Ravel, tenha deixado esta vida em 2011 - eles teriam muito a exaltar neste país que se lava a jato.



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