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A experiência humanística de Lula ainda é nosso maior patrimônio

6 de Maio de 2020, 15:42 , por Nocaute - | No one following this article yet.
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Essa mania de acreditar nas instituições ainda vai acabar nos matando. É uma contradição em si: tecnicamente, acreditar em instituições equivale a crença religiosa. Reduz o debate na dicotomia rudimentar ‘acredito / não acredito’, estanca a discussão sobre o apodrecimento “das instituições” e acaba por virar um enunciado sem sentido, uma espécie de espasmo retórico fadado à repetição infinita.

“Eu acredito nas instituições!”, diriam os políticos com ares de progressistas mas com o pânico conservador entalado no esfíncter. É a maldição da institucionalização do discurso. Ex-revolucionários, ex-guerrilheiros, ex-utopistas, ‘ex-pontos fora da curva’ aderem ao câncer heteronormativo que esmaga toda e qualquer liberdade intelectual.

Explica-se os 6 anos de impasse político no Brasil, essa imensa instituição falida.

O brasileiro é um forte. Em meio à covardia estrutural da nossa elite infecta, alastrada ao povo trabalhador ‘meio branco’ do sudeste, recorro a Euclides da Cunha e lhe arranco à fórceps a frase original, postulando outra semântica: o sertanejo é o brasileiro.

Quem segura as pontas deste país interrompido não são os políticos, não são os intelectuais, não são os teóricos marxistas. É o povo. É o trabalhador simples que aceitou docemente a avacalhação institucional que lhe foi imposta, significando-a (tornando-a parcialmente funcional).

A despeito da incompetência histórica de todos os nossos supostos líderes, esse “povo-sertanejo” que não habita apenas o Sertão, é o patrimônio mais valoroso da ideia difusa de Brasil.

A semântica de ‘país’ é o x da questão. País é o povo, não o território, não as instituições, não as ‘riquezas naturais’. No caso do Brasil, a definição de país é a maior aberração já produzida pelo habitual pensamento colonialista entranhado em nossas vísceras. Celebra-se petróleo, água doce, extensão territorial, praias, beleza e até ‘mistura de raças’ (essa fraude sociológica de proporções monumentais).

Nessa definição ‘impostora’ de país – promovida pelas escolas e atrelada aos nossos ainda mais impostores símbolos pátrios -, o povo entra como uma espécie de ‘elemento decorativo’, mosaico de rostos, cores e tons estampado na parede da sala de estar dos verdadeiros donos do país, casta pseudo intelectual branca formada por herdeiros profissionais e empresários escravocratas.

Não é difícil, portanto, explicar Bolsonaro. Bolsonaro é o retrato desta sociedade forjada na fraude historiográfica: o Descobrimento é uma fraude, a Independência é uma fraude, a Proclamação da República é uma fraude. Nossa vocação pacífica é um fraude, nossa sociologia é uma fraude (porque calcada em pressupostos fraudulentos de dominação estrutural).

Lembremos que o desmonte de nossa sociologia mítica começou a ser feito apenas ‘agora’, com pesquisadores mais ousados e beneficiados por alguns anos de democracia quase real – em que a liberdade de pensamento passou como um trem em alta velocidade. Jessé Souza e Durval Muniz são apenas dois nomes dessa geração menos submetida.

O mais impressionante é que, no meio de tanta fraude, um povo real se formou e constituiu sua verdade histórica. Lula é a representação máxima desse povo, pois ele acionou o que de melhor havia no coração devastado do brasileiro.

Nesse sentido, Lula é o nosso maior ‘sociólogo’, pois com sua ação política e com seu discurso, ele colocou em movimento nossa primeira narrativa de caráter fundador, furiosamente atrelada à realidade do trabalho, do salário e da coesão social necessária para se criar, de fato, a semântica não submissa de ‘país’.

É por isso que ele encarna o exato contrário desse Brasil mórbido real representado tão bem por Bolsonaro.

Nossa experiência com Lula – que nos deu pela primeira vez a dimensão de humanidade – não voltará mais. Foi um sonho, um soluço histórico em meio à realidade catastrófica, genocida e fraudulenta que significa esse Brasil que já nasceu morto.

A ‘lição Lula’ é maior do que qualquer autoidentificação gentílica. Nós, que conhecemos Lula, que testemunhamos a delicada construção de sua figura pública e humana, levaremos conosco, em nossos espíritos e para todo o sempre, a certeza de que valeu a pena viver um sonho de humanidade, mesmo neste país destroçado pelo ódio estrutural e pelo parasitismo disfuncional.

A percepção da realidade é mesmo um dispositivo muito delicado. Depende, a rigor, de contextos históricos, de ação subjetiva e, fundamentalmente, de espírito crítico. Mas, lamentavelmente, também depende das instituições. Tecnicamente, as instituições são depositários de sentidos que organizam a experiência social humana. Se elas estão apodrecidas e severamente aparelhadas, a sociedade mergulha no caos.

A crença nas instituições, mesmo apodrecidas, poderia fazer algum sentido conceitual se fosse feita de maneira menos simplória; precisamos de instituições, mas não dessas. É preciso refazê-las – e, para isso, é preciso coragem.

Há uma tendência terrível de simplificar demais as coisas. É o corolário fatal da atividade simbólica, parte da economia psíquica, como diria Freud. O antídoto para essa simplificação seria tomar posse daquilo que outra dimensão institucional nos disponibiliza docemente e de graça: o conhecimento.

Saber como se produz os sentidos de uma língua humana é mais produtivo do que ficar discutindo se tal enunciado é verdadeiro ou mentiroso.

Se há uma liberdade, esta liberdade se encontra na linguagem e na possibilidade de reciclar os sentidos para que nos tornemos também seus sujeitos – e não só peças assujeitadas de uma engrenagem social.

A semântica de instituição é uma ferida – assim como a quase totalidade dos conceitos surrados pelo simulacro da lógica ocidental-capitalista. O gesto revolucionário de hoje e de ontem é o mesmo: trata-se de desapropriar sentidos, palavras e enunciados para, imediatamente, produzir um novo discurso que sacie o desejo real por mudança social, em que o povo – o verdadeiro guardião de todos os sentidos possíveis subscritos na atividade linguageira – seja o protagonista.

Acreditar nas instituições neste Brasil de Bolsonaro é um gesto que precisa ser devidamente significado. Mas não só: é preciso significar a palavra ‘instituição’.

Em seus tempos menos sombrios, o STF costumava pontuar um sentido universal na produção do discurso jurídico. Dizia-se ali que, acima de toda e qualquer formulação teórica, estava o ‘homem’. A palavra ‘homem’ é péssima, mas o sentido do enunciado é recuperável.

Mas é preciso codificar a formulação quase hipócrita da Corte em sua inteireza significante: cada ser humano é uma instituição e não há valor mais importante do que a vida humana. O que nos leva a outra questão, por derivação e pressuposto: esse valor está sendo respeitado?

Se se quiser mais um elemento para constatar de vez a neutralidade assombrosa e cúmplice da sentença ‘eu acredito nas instituições’, basta pensar em uma outra singela constatação: a língua é a instituição por excelência, o corpo simbólico social que nos significa e que nos permite construir uma identidade – e, por consequência, todas as outras instituições, doravante, secundárias.

Instituição, portanto, cara pálida, quer dizer ‘ser humano’ e ‘língua humana’ – ou se se quiser, ‘povo’. O resto é secos e molhados.

A instituição que merece crédito neste momento é apenas a maior de todas: a instituição da vida humana. E é nesse choque grotesco de apropriações indébitas de sentido – por parte dos genocidas e cúmplices que habitam as nossas instituições secundárias – que permanecemos na quarentena mental da perplexidade.

Basta.

O momento pede ousadia. Serão todos devastados aqueles que insistirem no discurso facilitado do conservadorismo institucional impregnado à direita e à esquerda. É hora de esmagar quem nos esmaga e de construir uma nova esquerda, que atualize seus pressupostos históricos surrados pela burocracia partidária.

Se a covardia brasileira é estrutural, como quase tudo o que grassa por aqui em termos de desprezo pela vida humana, a nossa ousadia também é. Desta complexidade atávica – que exige responsabilidade para ser gerenciada – é que forjaremos mais uma vez um novo país com novos significados e novas leituras de si (para fundamentar a reconstrução da alteridade perdida).

Lula nos deixou a receita. É só usar.

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Fonte: https://nocaute.blog.br/2020/05/06/a-experiencia-humanistica-de-lula-ainda-e-nosso-maior-patrimonio/

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