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Duas histórias da pandemia

1 de Agosto de 2020, 13:29 , por Nocaute - | No one following this article yet.
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Uma, a de Trump e Mike Pompeo. Outra, a do Governo da China. Primeiro, a história americana.

CAPÍTULO 3
Parte 1

No dia 30 de abril, a universidade americana Johns Hopkins, que organizou um banco de dados para acompanhar no dia a dia a pandemia da Covid 19, anunciou que os Estados Unidos tinham, confirmados, 1.039.909 casos de infectados pelo  coronavírus e 60.066 mortes causadas pela doença. No mesmo dia, o presidente americano Donald Trump, numa cerimônia supostamente em homenagem aos idosos, num salão da Casa Branca, tratou da Covid de um modo curioso: disse que o vírus foi o pior ataque que o país já tinha sofrido em sua história e culpou a China por não ter controlado a doença. “Isto é pior do que Pearl Harbour. Isto é pior que o World Trade Center”, disse, referindo-se ao ataque dos japoneses contra a base  americana no Havaí, em 1941, na qual morreram 2.400 soldados americanos e que definiu a entrada do país na Segunda Guerra Mundial e ao ataque dos terroristas islâmicos de Osama bin Laden contra as torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque, de 11 de setembro de 2001, que causou cerca de 5 mil mortes. “E (isso, a epidemia) nunca deveria ter acontecido. Isso deveria ter sido parado na China. Deveria ter sido parado na fonte. E não foi.” Logo em seguida, no dia 3 de maio, foi a vez do secretário de Estado americano, Mike Pompeo, ampliar a versão de Trump sobre a origem da Covid 19. Ele disse ter “enormes evidências” de que o vírus era produto de um laboratório de Wuhan, a cidade chinesa na qual a epidemia começou. “A China tem uma história de infectar o mundo. E tem também um histórico de laboratórios de baixo padrão”, afirmou Pompeo.

Trump e Pompeo tentaram se justificar por não apresentarem provas de acusação tão grave. “Eu não posso lhe dizer”, disse Trump, respondendo a um dos idosos, na cerimônia. “Não é permitido que eu lhes conte isso”, disse, sugerindo não poder revelar altos segredos de Estado. Tanto ele como Pompeo de início sugeriram que o vírus era fabricado, teria sido produto de engenharia genética. Dois de seus principais comandados, no entanto, afirmaram, em seguida, o contrário: o chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Mark Miller, declarou que “o peso maior das evidências aponta para uma transmissão natural do vírus”; e o médico Anthony Faucci, assessor especial de Trump para o combate à doença e diretor do Instituto Nacional de Pesquisa de Alergias e Doenças Infecciosas do país disse também que o conjunto das evidências apontava para um vírus que se desenvolveu na natureza e pulou da transmissão entre animais para a transmissão por humanos.

O governo americano procurou, através de informações de seus órgãos de segurança, mobilizar a opinião pública contra os chineses. O The New York Times noticiou que o Homeland Security Department, o órgão especial criado nos EUA após os atentados contra o WTC, para manter vigilância na defesa do país, planejava acusar a China de “hackear informações”, de roubo de fórmulas de vacinas, de testes de detecção e de métodos de tratamento da doença. O jornal disse ainda que a ação contra os hackers incluía também como alvos “non traditional sectors”, espiões não tradicionais, o que seria uma referência a estudantes e pesquisadores chineses nos EUA agindo contra o país. Isso colocaria sob suspeita centenas de milhares de chineses disse o NYT, criticando a decisão. (Como se sabe, os estudantes chineses nos EUA são centenas de milhares; eram 360 mil no ano letivo de 2017-2018.)

Nesse contexto, uma notícia falsa foi criada e teve grande repercussão nos EUA e mesmo na China. Dois pesquisadores chineses de um Laboratório Nacional de Virologia, em Winnipeg, no Canadá, foram apontados como suspeitos de terem levado o vírus para a China. Uma imagem de duas pessoas, um homem e uma mulher, aparentemente sendo escoltados por policiais na saída de um serviço de saúde do Canadá foi apresentada como sendo de dois cientistas chineses que seriam espiões e teriam levado o vírus para o Laboratório de Wuhan. 

Como isso aconteceu? Como se verá, blogueiros e jornalistas apressados, interessados em provar a história criada pelos altos mandatários americanos, por investigação própria ou ajudados pelos serviços de investigação do governo, foram atrás de dois cientistas chineses ligados à virologia e acabaram encontrando, em Winnipeg, no Canadá, um casal: a doutora Xiangguo Qiu e seu marido Keding Cheng. A doutora Qiu foi para o Canadá para graduação em virologia em 1996. Formou-se e ficou por lá em cursos de especialização.  Atraiu dezenas de estudantes chineses para o Canadá. Trabalha na vanguarda da pesquisa com vírus. Teve participação importante na descoberta do tratamento para o Ebola, vírus que matou 11000 pessoas na África Ocidental, entre os anos de 2014-2016. Seu marido trabalha no hospital de Winnipeg como biólogo e tem artigos publicados nas revistas especializadas sobre vírus como o HIV e os das Severe Acute Respiratory Síndromes (SARS). síndromes respiratórias agudas graves, como a da Covid 19 

Por que a doutora era um alvo ideal? Porque ela, em 2018 e 2019  em duas semanas em cada um desses anos, deu aulas no Laboratório Nacional de Virologia, de Wuhan, a entidade de virologia de nível mais alto da China. E mais ainda, para alegria dos adeptos das teorias conspiratórias: do Laboratório de Virologia do Canadá em Winnipeg, onde a doutora Qiu trabalhava tinham sido enviadas amostras de vírus para a China em março deste ano. 

As acusações foram desmentidas pelo serviço de imprensa da Universidade de Winnipeg e por investigação da polícia federal do Canadá. Foi demonstrado que os vírus enviados para a China eram do ebola e do Henipavirus – estes, isolados de micro morcegos de frutas, que causam doenças em animais domésticos e portanto são ameaças potenciais aos humanos. Foi demonstrado também que, no envio desses vírus para a China tinham sido cumpridas todas as normas de segurança do governo canadense.

Mas a notícia falsa, como se diz, viralizou: uma versão em chinês foi divulgada pelo Tik Tok, aplicativo de largo uso na China, e teve 350 mil visualizações.

Um site especializado em desmontar fake news, da Fact Check Org, analisou o caso que tinha circulado nas mídias sociais com a conclusão de que “um time de espiões chineses” tinha enviou o mortífero coronavírus para Wuhan de um laboratório de pesquisa no Canadá. O site entrevistou por e-mail Eric Morrissette, porta voz da Agência de  Saúde Pública do Canadá que disse que a história era “desinformação” e que não tinha “base factual”. O site cita várias histórias da CBC News, a emissora pública de notícias do Canadá que trataram de aspectos do caso envolvendo a doutora Qiu, de suas viagens à China, mas diz que em nenhum momento essas notícias citam o envio de patógenos para Wuhan. 

Diz o site ainda: em julho do ano passado, a CBC noticiou que “um pesquisador com ligações com a China tinha sido acompanhado para sair do National Microbiology Lab, em Winnipeg, a partir de uma investigação pela polícia federal do país (Royal Canadian Mounted Police, RCMP). O site ouviu a oficial Caroline Duval, dessa polícia. Ela resumiu o caso dizendo: “Não há qualquer investigação da RCMP  ligada ao surto de coronavírus ocorrido na China”. 

A China tem dito que apoia os esforços da Organização Mundial de Saúde de investigar a origem da pandemia. Há muitos sinais também de que o vírus não teve origem na China, disse a porta voz do ministério das Relações Exteriores da China, Hua Chunying. “Muitos cientistas ainda não chegaram a uma conclusão. Porque o secretário Pompeo está tirando a conclusão de que o vírus surgiu no laboratório de Wuhan? Onde está sua prova? Mostre-nos a prova?” Ele diz uma coisa agora e diz outra depois. “E a razão do porque ele se contradiz é porque ele está sempre inventando uma mentira para acobertar outra”.

Outra opinião que merece destaque na análise das posições de Trump e seu escudeiro Pompeo é de um especialista em política internacional inglês, Tom Fowdy. Ele escreveu  em março quando a Covid já explodia em Nova Iorque e começava a atingir atingir os EUA pelo outro lado, a partir da Califórnia. O país estava despreparado, ele diz. O vice-presidente Mike Pence admitiu publicamente que o governo não tinha testes suficientes para acompanhar o surgimento de novos casos.Trump, por sua vez, tinha uma postura negligente e repetidamente tentava minimizar o impacto da pandemia, para ver se minimizava o dano econômico. Na medida em que os problemas foram aparecendo ele passou a culpar os suspeitos de sempre colocando a culpa em Pequim. A China não têm  responsabilidade sobre a situação nos Estados Unidos, diz ele. A acusação é oportunismo de Trump; visa  desviar a culpa do fracassos de sua própria administração. A China é um bode expiatório. Seus ingentes esforços para conter o espalhamento do vírus foram muito bem sucedidos e é ilógico culpar os chineses. Trump, na sua obsessão de preservar a economia pensando na sua reeleição, tentou ver a epidemia como uma oportunidade e não uma ameaça.

O post Duas histórias da pandemia apareceu primeiro em Nocaute.


Fonte: https://nocaute.blog.br/2020/08/01/duas-historias-da-pandemia/

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