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As fake news são os mísseis do Século 21

2 de Dezembro de 2019, 10:53 , por Nocaute - | No one following this article yet.
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Este texto foi escrito para compor a obra coletiva “A comunicação como questão estratégica”, livro que está sendo organizado pelo Centro de Mídia Alternativa Barão de Itararé e será publicado no próximo mês de janeiro de 2020.

O caráter estratégico da comunicação social é uma velha discussão entre jornalistas. Minha geração alimentava a esperança de que a democratização dos meios eletrônicos de comunicações se daria nos palanques, nas tribunas ou nas barricadas. Prevíamos que a luta passaria obrigatoriamente por mobilizações populares e pressões sobre os três poderes da República. Por se tratar de um regime capitalista, sabíamos que a imprensa de papel – jornais e revistas – estava a serviço dos interesses e da ideologia de seus donos. 

Mas o espectro de propriedade social, a televisão e o rádio, esse não. Exatamente por ser uma concessão pública precária (ou seja, renovável ou não), seus concessionários não poderiam fazer dela um instrumento de manipulação da opinião pública e, menos ainda, formar monopólios ou oligopólios que controlassem o espectro da informação eletrônica no país. Sabíamos que isso não ia cair do céu e que custaria muita luta. 

Como se tivéssemos sido submetidos a uma sessão de eletroconvulsoterapia, um dia fomos despertados por um choque de duzentos volts chamado Internet. Da noite para o dia, você poderia passar num Magazine Luíza, comprar um celular e um computador em 36 prestações e pronto: se tivesse o que dizer ao público, você dormiria youtuber e acordaria convertido no seu próprio Roberto Marinho. A tecnologia tinha andado mais depressa que a ideologia.

O surgimento de blogs, sites e portais,  que se multiplicaram como cogumelos pelo planeta, com pouco ou nenhum controle governamental ou econômico, transformou jornais e revistas em veículos anacrônicos. Por que ler no Estadão, na Folha ou no Globo uma notícia que você já tinha visto online, ao vivo e a cores, no dia anterior? O que ler nas revistas semanais sobre a entronização do novo papa, ou sobre as idiotices do capitão Bolsonaro, se você já tinha visto tudo isso no seu celular, dentro do ônibus? Jornalões que chegaram a vender até um milhão de exemplares por dia viram suas tiragens desbarrancarem para modestos 80, 90 mil exemplares diários. A versão impressa da Folha, para tomar apenas um exemplo, chega a menos de cem mil leitores por dia, enquanto o site UOL, do mesmo grupo, atinge mais de trinta milhões de pessoas por mês. Isso significa que a Internet está matando o jornalismo, certo? Errado: ela está obrigando o jornalismo a mudar de cara.

O voraz apetite da Internet, porém, não se saciou  com jornais e revistas e partiu para cima da televisão. Quem ousasse afirmar que um celular e um notebook pudessem ameaçar impérios como o da TV Globo, por exemplo, era chamado de profeta da catástrofe e teórico da conspiração. A verdade, porém, é que hoje algumas das maiores redes de televisão do Brasil já começam a se preparar para sobreviver ao novo mundo e se adaptam às pressas ao universo cibernético.

Como os exemplos costumam ser mais compreensíveis que as complicadas teorias algorítmicas, lembro que a série de reportagens mais importante do ano, no Brasil, não veio dos jornalões nem das grandes redes de TV, mas de um site de notícias, o The Intercept, que eviscerou a Operação Java Jato e desnudou a conspiração do juiz Moro e de seus Procuradores para destruir a reputação de Lula, o único nome capaz de ameaçar a direita nas urnas. Foi também utilizando os recursos da Internet que Edward Snowden, Julian Assange, Ola Bini e a soldado Chelsea Manning revelaram ao mundo que o mundo era vigiado, bisbilhotado e espionado nos mínimos detalhes pelo governo dos Estados Unidos.

Mas como dizem os capiaus da minha terra, quando chove na frente, chove atrás também. Acuada pelo estrago provocado pelo WikiLeaks, por Snowden, The Intercept e companhia, a direita se armou e decidiu entrar para valer no ringue digital. Comandadas por Steve Bannon, estrategista-chefe da campanha de Donald Trump (e ex-editor do site de extrema-direita Breitbart News, acusado pela Time de ser “racista, sexista, xenofóbico e antissemita”), lideranças protofascistas de vários continentes aderiram à nova forma de mentir: a artilharia pesada das tempestades de fake news.  

A despeito do novo nome, as fake news nada mais são que a materialização do rebatido bordão do marqueteiro de Hitler, Joseph Goebbels, segundo o qual “uma mentira contada mil vezes converte-se em verdade”. Mil vezes? Nas eleições presidenciais do Brasil, no ano passado, quem tivesse R$ 8 milhões na mão podia comprar a postagem, para 120 milhões de eleitores, de mensagens com notícias falsas contra seu adversário. O produto que se vendia não era um tiro de cartucheira, que espalha chumbo para todos os cantos, mas um trabalho de snipers. O cliente podia escolher as regiões-alvo, faixas etárias, poder aquisitivo, gênero, raça e até convicções religiosas de cada um dos 120 milhões de destinatários da mentira. Se ressuscitasse e lesse esta notícia, Goebbels morreria de novo. Não ingerindo uma pastilha de cianeto, como em 1945, mas pela alegria de ver seu trabalho imortalizado sete décadas após seu desaparecimento. 

O método Goebbels/Bannon provou ser eficaz: além de eleger Trump nos Estados Unidos, interferiu decisivamente no plebiscito do Brexit, no Reino Unido, no auxílio à Forza Norte, partido de extrema-direita da Itália, o que permitiu que o líder neofascista Matteo Salvini chegasse a ser vice-primeiro-ministro e, simultaneamente, ministro do Interior da Itália. Quem também deve sua vitória a Bannon é o ultradireitista Viktor Orbán, atual primeiro-ministro da Hungria. No Brasil, Jair Bolsonaro jamais teria vencido Fernando Haddad se não tivesse recorrido aos serviços e métodos de Steve Bannon. 

Mas o que, diabos, contêm essas mensagens? Mais exemplos: na campanha Trump x Hillary, nos Estados Unidos, causou repulsa a fake news distribuída a centenas de milhares de eleitores replicando “uma notícia” de que Hillary Clinton realizava orgias sexuais com crianças na Casa Branca. Nem o crime nem a “notícia” jamais existiram. No Brasil pulverizaram computadores e celulares com fotos da candidata a vice-presidente, Manuela D’Ávila, vestida com uma camiseta sobre a qual a cyberquadrilha aplicou a frase “Cristo era gay”. Explicar isso à dona Firmeza, exímia cozinheira, custou muita saliva, mas afinal consegui convencê-la de que se tratava de uma fraude e trazer seu voto de volta para a dupla Haddad/Manuela. 

Uma mentira pode consumir minutos, horas, dias, semanas para ser desmentida. Com a rapidez da internet, vira verdade em tempo real. É aí, no caráter instantâneo, que reside a diferença entre a velhíssima mentira, pura e simples, e as fake news. Desde sempre mentiu-se com a mesma sem-cerimônia de hoje, mas sem televisão as notícias mal ultrapassavam as fronteiras estaduais. A mentira só chegava onde o jornal chegasse. 

Não será demais lembrar que foi uma fake news – uma mentira, insisto – que gerou a célebre escaramuça política entre o jornalista Assis Chateaubriand e o respeitado, austero arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, dom Antônio dos Santos Cabral, no final dos anos trinta. Em guerra com o religioso, Chatô inventou que ele havia estuprado a irmã – e exigiu que seu jornal Estado de Minas, o mais importante do estado, apurasse o assunto. Uma semana depois cobrou do diretor do jornal, Geraldo Teixeira da Costa, o Gegê, a ausência da matéria. Foi quando deu-se o inacreditável diálogo:

– Seu Gegê, o prazo que lhe dei acabou hoje. Cadê a merda da reportagem sobre dom Cabral que eu mandei fazer?

– Doutor Assis, me desculpe, mas temos um problema: dom Cabral é filho único, não tem e nunca teve irmãs…

– Temos um problema? Como TEMOS um problema? Nós não temos problema nenhum, seu Gegê. Quem tem um problema é dom Cabral, que vai ter que explicar que nunca teve irmãs. Faça o que eu lhe mandei e passe muito bem. 

Quase oitenta anos depois, o que mudou da estratégia de Chatô para a de Steve Bannon foram o alcance e a rapidez da difusão de uma mentira. Na essência não há diferença alguma entre o crime que Assis Chateaubriand mandou cometer contra dom Cabral e os ataques cibernéticos que ajudaram a derrubar Dilma, levaram Lula à prisão e elegeram Bolsonaro.

O desafio do campo progressista brasileiro é saber como enfrentar a guerra contra esse inimigo que não tem cara nem endereço fixo. Certamente não será usando a mesma munição que ele – a mentira – mas é ingenuidade imaginar que apenas nossos blogs serão suficientes para dar combate a essa caríssima e monstruosa usina de infâmias. 

Nossas universidades formam cientistas na área de Tecnologia da Informação capazes de operar o universo cibernético com talento igual ou superior ao de nossos inimigos. Dispomos de repórteres, redatores, cineastas, ensaístas, cientistas e artistas do primeiro time – hoje rebatizados com o neologismo “produtores de conteúdo” – comprometidos com a causa democrática. 

Ligar essas duas pontas pode ser uma estratégia. Por que não pensar na montagem de um pool – para o qual contribuiriam todos os blogs e sites independentes – juntando especialistas em TI e “produtores de conteúdo”? Vamos, sim, usar as mesmas armas que eles, mas com munição diferente. Contra a barbárie dispararemos civilização. Contra a treva, atiraremos luz. A tarefa é urgente.

(*)Fernando Morais é jornalista, escritor e editor do blog Nocaute.

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Fonte: https://nocaute.blog.br/2019/12/02/as-fake-news-sao-os-misseis-do-seculo-21/

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