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Meu caro Patrício

15 de Outubro de 2019, 14:25 , por Nocaute - | No one following this article yet.
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A morte de Patrício Bisso, aliás Olga del Volga, a divertida sexóloga russa que dava conselhos surreais a seus clientes na TV, nos faz lembrar dos anos 1980, quando o Brasil era outro.

O argentino Patrício César Bisso tinha 17 anos quando chegou ao Brasil, mais precisamente a São Paulo, apenas com uma passagem de vinda. Era uma época em que Rita Lee nos divertia com mania de você, o rei Roberto homenageava a amante a moda antiga, Zé Ramalho soltava o admirável gado novo, Baby, ainda Consuelo, cantava o menino do Rio e Gal Costa dançava o balancê de João de Barro, depois Braguinha. Foi ao som de ô balance/balancê/quero dançar com você, que Patrício Bisso entrou em cena, primeiramente como ilustrador. E de mão cheia, com dizíamos. Seu traço dava um charme especial e deixava a Folha de S.Paulo mais alegre.

Jornalista, ator, figurinista, ilustrador, cantor, performático, cenógrafo, Patricio Bisso não era um multimídia porque essa palavra ainda não tinha caído na boca do povo. Bisso era um multitalento, porque onde colocava a mão, o corpo, o senso de humor fino e a criatividade, tudo dava certo.

O rock and roll made in Brazil colocava suas manguinhas de fora e Patrício Bisso não queria perder a festa. Formou o grupo Patricio Bisso e os Boko Mocos e gravou um dos discos mais divertidos e curiosos da década de 1980.

Foi um ícone da bicharada, quando o politicamente correto ainda não tinha transformado o movimento em LGBT. Patrício reinou nas capas e nas páginas das revistas Around, mais tarde AZ, uma revista que tinha no expediente Antônio Bivar, Caio Fernando Abreu, irônico e fino como Patricio, além de Nelson Pujol Yamamoto, e José Nogueira. Dessa turma, só poderia sair coisa boa e divertida.

Patricio Bisso era uma espécie de Telmo Martino, o antológico colunista do Jornal da Tarde, onde sua língua ferina divertia os leitores e toda a redação do JT.

Nunca existiu um outro Patricio Bisso, porta-voz da irreverência, capaz de chutar o balde e dizer que Bibi Ferreira e Marilia Pera, dois monumentos do teatro brasileiro, foram “aeromoças da arca de Noé”, o que lhe provocou muita dor de cabeça.

Bisso fazia shows performáticos, de humor, de música e sempre recheado de muita ironia. Ele animava o Brasil, até que um dia foi preso fazendo sexo em plena Praça Roosevelt. A partir dai foi, aos poucos, desaparecendo da cena, sumindo do mapa. Voltou para sua Buenos Aires para morar com a mãe e, de tempos em tempos, mandava noticias para os amigos mais chegados que aqui sobreviveram. Patricio Bisso agora sai de cena definitivamente e vai deixar muita saudade em toda essa turma, uma geração e tanto.

O post Meu caro Patrício apareceu primeiro em Nocaute.


Fonte: https://nocaute.blog.br/2019/10/15/meu-caro-patricio/

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