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The New Yorker: “Temor no Brasil cresce com possível vitória de Bolsonaro”

10 de Outubro de 2018, 13:11 , por Nocaute - | No one following this article yet.
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Nas horas seguintes ao candidato de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, ter vencido o primeiro turno das eleições presidenciais, no domingo, seus opositores começaram a circular um meme que viralizou nas redes sociais. É uma versão do mais recente truque do artista Banksy, no qual um triturador escondido no quadro de uma de suas pinturas destruiu o trabalho imediatamente depois que um anônimo o comprou, por mais de um milhão de dólares, em um leilão do Sotheby’s, em Londres. No meme, é a bandeira brasileira, verde, amarela e azul, com o emblema “Ordem e Progresso”, que é triturada.

Bolsonaro, um congressista e ex-capitão do Exército que disse que vai instalar um severo governo de lei e ordem e que fala nostalgicamente sobre a restauração da ditadura militar do Brasil, conseguiu 46% dos votos, um pouco abaixo dos 51% necessários para vencer logo no primeiro turno. Ele foi seguido por Fernando Haddad, que conquistou 29% dos votos pelo esquerdista Partido dos Trabalhadores (PT) como substituto do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, o carismático ex-presidente do Brasil, preso desde abril por acusações de corrupção e considerado inelegível. O terceiro colocado, o veterano de centro-esquerda Ciro Gomes, conseguiu meros 12,5%. Gomes disse que daria seu apoio a Haddad no segundo turno, marcado para 28 de outubro, o qual ele chamou de “uma luta pela democracia e contra o fascismo”.

Mas, mesmo que Haddad fosse capaz de segurar todos os seus apoiadores e adicionar os de Gomes, ele ainda teria apenas quarenta e cinco milhões de votos versus os 49 milhões de Bolsonaro. Haddad insinuou uma grande aliança, dizendo que já havia abordado outros candidatos, incluindo Geraldo Alckmin, que terminou em quarto lugar, com 4,8% dos votos, representando pouco mais de cinco milhões de pessoas. Haddad prometeu construir “pontes de diálogo”, mas disse que não desistiria de sua luta “para defender o Brasil e seu povo, especialmente as pessoas mais pobres. Eu sempre estive do lado da liberdade e da democracia. Eu não vou desistir dos meus valores.”

Bolsonaro, por sua vez, realizou uma coletiva de imprensa pelo Live do Facebook, na qual culpou os “problemas nas urnas” por não ganhar, agradeceu aos brasileiros por seu apoio e disse que, com a ajuda de Deus, ele venceria em 28 de outubro. Como presidente, ele disse que cumpriria sua promessa de “refazer o Brasil”, acrescentando que a nação enfrentava uma escolha difícil entre seu caminho, “prosperidade, liberdade, família e Deus”, ou “o caminho da Venezuela”. Os brasileiros têm que “parar de flertar”, disse ele, “com o socialismo e o comunismo”. Mais tarde, em um Tweet, ele reiterou sua mensagem sectária, escrevendo: “Nosso país é grande e próspero, não uma facção criminosa para ser comandado de dentro de uma prisão”.

Por “facção criminosa”, é claro, Bolsonaro referia-se ao PT de Lula, que já foi muito popular, e governou o país de 2003 a 2016, quando, no meio de uma grave crise econômica, o Senado, de maioria conservadora, impugnou a sucessora de Lula, Dilma Rousseff. (Em 2010, no auge do boom econômico do Brasil, sob o governo Lula, a taxa anual de crescimento econômico chegou a 7,5%. Em 2015, despencou para 3,6% negativos.) Bolsonaro votou em nome de um notório torturador do regime militar que liderou a operação para capturar e torturar centenas de ativistas, incluindo Dilma quando ela era uma jovem guerrilheira.

Com o PT amplamente culpado pela desordem do país, muitos brasileiros se voltaram a Bolsonaro no espírito de votar em qualquer um menos no PT. De fato, nas eleições de domingo, nas quais parlamentares e governadores também estavam nas urnas, Dilma disputou uma vaga no Senado, em seu estado natal de Minas Gerais, e chegou apenas em quarto lugar. O antes marginal Partido Social Liberal (PPL), de Bolsonaro, venceu em dezesseis dos vinte e seis estados do Brasil e passou de oito cadeiras no Congresso para cinquenta e dois, tornando-se a segunda maior bancada do país. O PT mal manteve sua maioria, com cinquenta e seis lugares. Nas disputas ao Senado, os partidos de centro-esquerda perderam terreno, enquanto os políticos pró-mercado e conservadores ganharam. O PSL, que nunca tinha tido uma vaga no Senado, ganhou quatro, uma das quais para o filho mais velho de Bolsonaro, Flavio, representando o Rio de Janeiro.

Para os Bolsonaros, a política é um assunto de família – três dos quatro filhos de Jair são políticos. Carlos é vereador no Rio e, no domingo, além da vitória de Flávio, Eduardo, ex-policial e deputado estadual de São Paulo, ganhou a reeleição com, segundo a BBC, o maior número de votos já registrado para qualquer candidato estadual na história do Brasil: 1,8 milhão. (Eduardo conquistou seu lugar em 2014 com pouco mais de oitenta e dois mil votos, marcando um extraordinário aumento de popularidade de mais de dois mil por cento). Como seu pai, Eduardo é carismático e falastrão; ele foi registrado dizendo que o feminismo é “uma doença” e que mulheres de direita são “mais higiênicas” do que as de esquerda.

Enquanto isso, o valor da moeda brasileira, o real, subiu quase três por cento após a votação de domingo e, segundo analistas financeiros, será ainda mais fortalecido se Bolsonaro ganhar a Presidência. Como uma autoridade ocidental na região me disse na segunda-feira, “Ontem provocou maiores consequências do que muitas pessoas esperavam, devido à virada no Senado. A mensagem geral foi mais uma de rejeição ao PT e a políticos do establishment do que de apoio a Bolsonaro, mas certamente há uma correlação entre a rejeição do PT e as guerras culturais do Brasil. O cerne de seu apoio vem dos socialmente conservadores.”.

O apoio de Bolsonaro é mais forte entre os homens, mas seu crescente apelo se estende pelo espectro socioeconômico, devido a preocupações de que Haddad não irá “mudar” o Brasil, mas aderir às políticas econômicas do PT. Durante os dois mandatos de Lula, essas mesmas políticas tiraram cerca de trinta milhões de brasileiros da pobreza. Esses dias acabaram, com a qualidade de vida diminuindo dramaticamente para muitos brasileiros nos últimos anos. Ao mesmo tempo, o anúncio de Bolsonaro de que ele entregará o funcionamento da economia, sobre a qual ele reconhece “não saber nada”, a um proeminente economista educado na Universidade de Chicago, Paulo Guedes, estimulou significativamente seu apelo aos centro-direitistas e ao setor privado. À medida que os números de Bolsonaro nas pesquisas aumentavam, no período que antecedeu as eleições de domingo, o mesmo ocorreu com o mercado de ações do Brasil, que subiu seis por cento depois que o capitão terminou em primeiro lugar.

A agricultura é uma questão importante no Brasil, que é o maior exportador mundial de café, açúcar, soja e suco de laranja, e o segundo maior exportador de milho. A conservadora Bancada Ruralista, o poderoso lobby do agronegócio do país, apóia Bolsonaro. Entre outras medidas, Bolsonaro defende o relaxamento das leis brasileiras sobre armas, para que os proprietários de terras possam “se proteger” de ladrões armados e invasores, uma alusão aos integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, ou MST, grupo que reivindica a reforma agrária historicamente vinculado ao PT. Após a votação de domingo, Bolsonaro também repetiu sua intenção de diminuir o poder das duas principais agências ambientais do governo, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Ele também planeja destruir o próprio Ministério do Meio Ambiente, transformando-o em um departamento do Ministério da Agricultura, e expulsar as ONGs estrangeiras “intrometidas”, como o Greenpeace e o World Wildlife Fund.

Felipe Milanez, professor de humanidades da Universidade Federal da Bahia e ativista dos direitos indígenas, disse que teme um aumento da violência política no interior do Brasil. Ele me falou: “Bolsonaro disse que vai parar a demarcação de terras para povos indígenas ou outras comunidades tradicionais e, como quer armar os fazendeiros, isso só aumentará os conflitos”. Seguindo a mesma linha que Milanez, Sônia Guajajara, ativista indígena Guajajara, acrescentou que a vitória de Bolsonaro poderia “inaugurar uma era de retrocesso em toda a América Latina”. Quando perguntei ao funcionário ocidental o que ele esperava de um governo Bolsonaro, ele disse: “Estou esperando um desastre. Embora não seja para todos. Serão bons tempos para os fazendeiros e para os homens ricos e brancos.”.

A recente onda de Bolsonaro também ganhou apoio por meio de ações sociais e culturais, inclusive de algumas celebridades aparentemente improváveis. No sábado, o astro do futebol Ronaldinho tweetou seu apoio a Bolsonaro. Ele ofereceu o que soou mais como fé mística do que convicção política: “Para um Brasil melhor, desejo paz, segurança e alguém que nos dê alegria novamente.” 12 mil seguidores de Ronaldinho rapidamente tweetaram suas respostas, tanto a favor quanto contra Bolsonaro. Edir Macedo, o televangelista e magnata da mídia, também deu seu apoio a Bolsonaro; Na noite de quinta-feira, quando os outros candidatos presidenciais se reuniram para um debate final nos estúdios do Globo, o principal conglomerado de televisão e mídia do Brasil, Bolsonaro escolheu se sentar para uma entrevista com Macedo, transmitida pela própria rede de Macedo.

No domingo à noite, a cerca de mil quilômetros ao nordeste do Rio, em um bar em Salvador, na Bahia, uma cidade portuária, a batalha em torno da ascensão de Bolsonaro parece ter tido uma verdadeira vítima. Um defensor de Bolsonaro chamado Paulo Sérgio Ferreira de Santana foi acusado de matar Romualdo Rosário da Costa, um renomado mestre de capoeira de 63 anos e praticante da religião do candomblé, conhecido como Moa do Katendê. De acordo com uma testemunha ocular, da Costa, um apoiador do PT, havia advertido Sérgio, que era, como ele, um brasileiro de descendência africana, de ser “ignorante da história”, e não entender “quanta luta tinha sido necessária para os negros chegarem onde estavam”. A testemunha adicionou: “Ele disse que Bolsonaro poderia tirar essas conquistas se chegasse ao poder”. Em algum momento, Sérgio saiu do bar. Quando voltou, pouco tempo depois, ele teria trazido uma grande faca, chamada de peixeira, e supostamente esfaqueou Da Costa doze vezes nas costas. (Sérgio depois afirmou que os homens discutiam sobre futebol.)

O incidente chocou o Brasil. O compositor Caetano Veloso e o grande jazzista brasileiro Gilberto Gil, entre outros, tweetaram suas condolências. Felipe Milanez mora a poucos quarteirões do bar e me mandou um e-mail dizendo que a Bahia está de luto, lembrando que “Costa era um personagem cultural de destaque aqui em Salvador, e também liderou projetos sociais aqui, em São Paulo e Rio. Ele era muito comprometido na luta pela justiça social e contra o racismo.” Ele acrescentou: “Todo mundo está com medo, todo mundo está falando sobre isso, e parece um aviso do que virá se o Bolsonaro chegar ao poder ”.

*A reportagem foi escrita pelo renomado jornalista Jon Lee Anderson, coladorador da revista The New Yorker há 20 anos, conhecido por cobrir conflitos internacionais e escrever a biografia de Che Guevara.

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Fonte: https://nocaute.blog.br/2018/10/10/new-yorker-temor-brasil-vitoria-bolsonaro/

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